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sexta-feira, 11 de abril de 2014

LIVRO: INFIEL - a história de uma mulher que desafiou o islã - AYAAN HIRSI ALI


Ali,Ayaan Hirsi. Companhia das Letras, 2007
Tradução: Luiz A. de Araújo
496 páginas
Título original: Infidel - my life

Ayaan escreveu esta autobiografia para falar de sua infância na África num mundo muçulmano e depois sobre sua fuga para o Ocidente onde passa por uma transformação em seu modo de ver a vida, fazendo uma análise lúcida e objetiva do que a religião traz para a vida de uma pessoa quando ela impõe a maneira de viver,pensar e agir como regras a serem seguidas, pois do contrário é o inferno.

Acompanhamos Ayaan por todo seu percurso de vida até seu exílio nos Estados Unidos, após a morte de seu amigo e cineasta Theo Van Gogh, morto na Holanda por um fanático, por ter feito o filme Submissão, sobre as mulheres no Islã, junto com Ayaan, quando deixam um recado em seu peito espetado com uma faca que ela seria a próxima. A comoção gerada na Holanda por este ato e as consequências de um relativismo e tolerância com uma outra cultura em um país livre, levam a cassação da cidadania holandesa dela, porém, com o apoio de seus colegas no parlamento, será revogado, e ela consegue obter o visto americano.

Há algum tempo venho me questionando sobre o relativismo. Até que ponto devemos ou não aceitar certos atos em nome da cultura? e do respeito a outro povo? quando estes atos e comportamentos são violentos, causam a morte e a mutilação de outros? Por mais que a extirpação do clitóris seja considerado cultural e praticado por várias culturas, é correto fechar os olhos à isto em nome do respeito à cultura? Não seria o respeito ao ser humano mais importante? A dor, o trauma, a falta de higiene que causa infecções que podem matar estas crianças, e a mutilação não são coisas para serem relativizadas. E sempre procuro me fazer uma pergunta: este ato traz algo de bom para todos? ou alguém está sofrendo ali?

Ayaan é criada e educada num mundo islâmico seguindo todas as suas regras, ou seja, como mulher, passou pela extirpação do clitóris, foi obrigada a casar com um homem que não conhecia, devia total obediência ao pai e depois ao marido, sem liberdade, sem poder pensar, sem escolha. Ela mesma o diz, teve sorte, muita sorte, conseguiu fugir para a Holanda logo após seu casamento enquanto esperava o visto para o Canadá na Alemanha para ir viver com o marido, conseguiu a cidadania holandesa, estudou, se formou, foi deputada, posição que lhe permitiu lutar cada vez mais pelos direitos das mulheres e por sua liberdade.

Ela irá lutar para que as mulheres não sejam mais espancadas, o que é um direito do marido no islã, para que moças e mulheres não sejam mais mortas em caso de desonrar a família, também um direito pelo islã, para que possam escolher seus companheiros, trabalhar, estudar. Não é  fácil, as muçulmanas tem medo, e mais, elas acreditam que está correto, acreditam que se agirem diferente serão punidas e irão para o inferno.

Ao ler este livro mergulhei num mundo diferente do meu de uma forma que um livro didático ou acadêmico não o permitiria, vivi o dia a dia de Ayaan, na Somália, na Etiópia, no Quênia, suas angústias, dores, os espancamentos a que era sujeita pela mãe, e até pelo professor do Alcorão que a surrou ao ponto de lhe causar uma fratura no cérebro. A morte de sua irmã, que não aguentou todos os traumas que trazia em si, e termina doente mentalmente. Aprendi a olhar este mundo e o meu de outra forma.

Acompanhei todo o processo extremamente difícil de passar do aceitar, do fatalismo, do não pensar para uma posição de raciocínio, de acreditar que se pode escolher e mudar sua vida.

"Estava empreendendo a missão psicológica de aceitar viver sem Deus, o que significava aceitar dar sentido próprio à minha vida." (...) Comportar-me bem por temor ao inferno; não ter ética pessoal."

Um livro que vale a pena ler, tanto pela história de vida de Ayaan como para conhecer um pouco mais este mundo diferente do nosso, onde sem radicalismo também há seres humanos e sua maneira de viver e ver a vida, apesar de que concordo com a autora, há coisas que são necessárias mudar. Ela teve a coragem de enfrentar o Islã e por isto foi ameaçada de morte, mas como ela mesma diz, ela nasceu num país onde a ameaça de morte é constante, seja por espancamentos, seja porque a família mata para manter sua honra, seja por doenças, pela pobreza e falta de alimentos e higiene, seja pelas guerras.

É interessante também pelo lado da cultura, da questão dos nomes, dos clãs, hábitos, comidas,  destes países, que apesar de quase tudo estar baseado na religião, ainda assim há os resquícios tribais e as diferenças locais, que infelizmente também acabaram sendo motivos para guerras entre clãs e tribos.

Não posso deixar de observar o quanto é triste ver algumas culturas mutilarem suas mulheres em função do homem e do erótico. No Islã temos a mutilação genital e encobrimento da mulher para não excitar o homem, e garantir a virgindade da moça, já na China havia o enfaixamento dos pés, que era um processo de anos extremamente doloroso, que começava aos dois anos, pois pés enfaixados provocavam um andar que era erótico e atraia os homens, e isto era bom.



Ayaan Hirsi Ali, nascida Magan, nasceu em Mogadíscio em 1969 na Somália, refugiou-se na Holanda em 1992 onde foi eleita deputada em 2003. Ameaçada de morte abandonou a Europa e vive atualmente nos Estados Unidos. Foi nomeada pela revista Times em 2005 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. É uma das fundadoras da Organização de direitos das Mulheres - AHA Foundation.





domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A MORTE DO INIMIGO - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2013
Tradução: Luiz A. de Araújo
256 páginas

Brilhante! é o mínimo que se pode dizer a respeito deste livro de Keilson, que foi publicado pela primeira vez em 1959 e depois foi esquecido até ser resgatado e considerado obra prima, o que de fato é. 

A narrativa nos oculta nomes, lugares e anos, porém é rapidamente reconhecível seu contexto e sua alusão à Segunda Guerra, o antissemitismo, Hitler e os judeus e nos remete facilmente a outros totalitarismos, mas o brilhante na obra não é esta camuflagem, mas sim a visão que Keilson tem sobre o humano e de como reage ao mal e ao inimigo. Poderia também ser lido como uma alegoria do que se passa dentro de um único indivíduo que se depara com um inimigo interno, e eis toda a beleza do livro e sua riqueza. 

O narrador está fascinado pelo seu inimigo, sem perceber que está com medo, muito medo dele. Aos poucos vai se projetando nele e ao mesmo tempo o introjeta

"Você vê nele apenas o agressor, aquele que nos ameaça. Mas isso é enxergar apenas um lado. É superestimá-lo." 

Aos poucos vai se desvendando a alma humana diante do inimigo e vice versa, ou seja, um não existe sem o outro, pois destruir o agressor significa também uma perda, ele leva uma parte de nós junto com ele. Sua morte significaria a minha destruição, não posso viver sem ele nos diz o narrador. A partir do momento em que o inimigo faz parte, e o introjetamos, ou nos identificamos com ele, retirá-lo é o mesmo que tirar uma parte de nós, e vai ficar um vazio, é uma perda. O inimigo é a razão de viver, para ambos os lados, que procede da vontade de sofrer, do gozo da dor, do qual é difícil se libertar. 

"Mas quem há de romper a solidariedade veladamente estabelecida entre perseguidor e perseguido?" 

Transformamos em inimigo tudo aquilo que não podemos combater em nós mesmos. E é isto que temos em nós que se transforma no inimigo, nós o mantemos vivos. Por isto o narrador precisa ficar no local por onde ele passará, para se convencer de que ele existia de fato, pois ele ganhou vida graças a fantasia, algo criado dentro de nós, para onde se dirigem nosso ódio, medo e também afeição. Só há um modo de se libertar, matando-o, mas dentro de si mesmo, quando reconhecemos finalmente o medo que sentimos, ou então, seremos como alces, que não conseguem viver sem os lobos, pois são estes que os fazem viver, e que não conseguem perceber que os lobos também são mortais. 

Fazia tempo que não encontrava um livro como este. Comédia em tom menor que já postei aqui também é muito bom, mas este aqui é uma obra prima. 

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do Nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: COMÉDIA EM TOM MENOR - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Luiz A. de Araújo
117 páginas

Peguei este livro hoje e me deitei na rede, e não saí dali enquanto não terminei.

Keilson nos conta uma história para falar do que ele mesmo viveu quando precisou se esconder dos nazistas na Holanda e foi acolhido por um casal em Delft e também como uma homenagem as estas pessoas que foram muitas que correram o risco, mas não recuaram em salvar uma vida, uma pessoa.
A história de Wim e Marie que esconderam Nico em sua casa é singela pela sua simplicidade, mas tremendamente profunda pelo o que aborda. Somente quando o casal, por um desfecho tragicômico, se vê na mesma situação daquele que esconderam, é que conseguem realmente compreender aquele inquilino estranho que ficou em sua casa por um ano.
O que significa ter que deixar para trás tudo o que se tem em questão de minutos e não olhar para trás, mas levar consigo todas as lembranças e hábitos que não podem mais se repetir? A esperança que parece diminuir a cada dia que passa de um dia poder voltar, o o sentimento meio sem sentido, quase nulo, estranho, quando se fica sabendo que pode voltar? Sempre imaginamos ser de euforia, mas quando ocorre, não é assim.
Se sentir um peso, um intruso numa casa alheia, mas ao mesmo tempo ser imensamente grato, mas sem deixar de se sentir um nada. " Representava seu aniquilamento humano, ainda que - talvez lhe salvasse a pele." É como nos sentimos quando vivemos da ajuda da compaixão alheia.
E quanto àquele que acolhe, que mesmo que o faça por compaixão e justiça, não deixa de sentir que está salvando uma vida, e que isto será revelado quando a guerra acabar, e os três saírem juntos para comemorar e todos irão compreender na hora, e isto não acontece? Eis uma decepção humana como diz o autor.
O que Keilson nos mostra não é o pavor da fuga, mas se há o medo de ser encontrado, também há todo o tédio de viver ali, a solidão da solidão como ele diz, e tudo o mais que é humano.

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados.