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quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: LE PROMENEUR D'OISEAUX - 2014


Direção: Philippe Muyl - 2014
Duração: 96 min
Título Original: Ye Ying, le promeneur d'oiseau
País de origem: China 


Outro belo filme que encanta. Este especialmente é recomendado para pais que tenham filhos que são super ligados na tecnologia e são solitários. 

Zhigen é um homem idoso que vive sozinho com seu passarinho. Na casa ele fica solto, mas ele o leva passear também, no parque, onde pendura a gaiola. Percebe-se que trata-se de um costume, pois há outros no local com seus passarinhos. Ele ganhou este pássaro de sua esposa quando teve que partir para Pequim à trabalho. Ela morreu enquanto ele estava lá, mas ele fez uma promessa quando o ganhou, de voltar a sua vila e levar o passarinho de volta para cantar e soltá-lo. 

O filho de Zhigen é um famoso arquiteto que vive em Pequim com sua esposa e filha Renxing. A menina é mimada, e no começo do filme ela chega a ser insuportável, mas seu avô é uma paciência infinita. Na verdade é a reação típica da criança solitária que deseja chamar a atenção e ser amada. No passado Zhigen perdeu de vista a menina no mercado de pássaros e isto causou uma ruptura de relações com seu filho. Mas agora ele vai viajar e sua esposa também, e tinham esquecido que a babá também. Então a saída é deixar Zhigen levar a neta junto em sua viagem de retorno a sua vila, Yangshuo no Guangxi, sul da china. 

Ela não gosta muito no começo, mas depois aos poucos ela vai se divertindo, vendo coisas que nunca viu, ouvindo histórias. Seu avô é dedicado à ela, e isto faz uma diferença enorme pois seus pais estão sempre ocupados com seus trabalhos e não tem tempo para nada. Ela vivia no computador. 

Os imprevistos surgem no caminho, pegam o ônibus errado que depois quebra na estrada, passam uma noite numa fazenda, depois se aventuram por uma floresta e acabam dormindo numa gruta. Um pescador os resgata a beira do rio e os leva para uma cidade. Aos poucos Renxing se aproxima do avô, da vida simples. Ela faz amigas, aprende a brincar na natureza, subir em árvores, nadar na cachoeira. E com isto vai aprender que há outras coisas boas na vida além de uma bela casa e uma conta bancária excelente. 

As paisagens são belíssimas. O filme foi rodado na província de Guangxi, em Yangshuo, Guilin, nas aldeias dos Dong. 






Philippe Muyl nasceu em 1953 em Lille, França

FILME: MUCIZE - 2014


Direção: Mahsun Kirmizigül - 2014
Duração: 136 min
País de origem: Turquia 

Baseado em fatos reais. 

Belíssimo filme, poético, paisagem deslumbrante. Em tempos onde o que mais vemos é violência, conflitos, insegurança, doenças, um filme como este é uma dádiva. 

Um professor (Talat Bulut) na Turquia é transferido para uma aldeia. Sua esposa se recusa a acompanha-lo. Ele então parte, primeiro de trem, depois de ônibus até o ponto final. Mas ali não tem nada, então o motorista lhe explica que atrás daquela montanha que ele aponta, há outra, e depois fica a aldeia. O professor então parte e chegando à aldeia é inicialmente recebido por vários homens que lhe apontam um rifle, até descobrirem que é o professor. 

Após ser recebido com alegria, o professor descobre que ali não tem nenhuma escola. Eles então vão à cidade para pedir a construção da mesma, o que não é possível. Na ida eles encontram os bandidos das montanhas, um grupo armado, mas que não é violento, eles são os leões da montanha. O professor então decide que tem que voltar para tristeza do chefe da aldeia que o acompanhou. A noite é difícil, o professor pensa nas crianças que ficaram tão felizes com sua chegada. Ele então toma uma decisão e liga para sua esposa dizendo que foi sequestrado pelos bandidos da montanha e que ela precisa lhe enviar uma soma urgente, o que ela acaba fazendo. De posse do dinheiro para a construção da escola eles compram o material e retornam. Os bandidos da montanha chegam para ajudar na construção. 

Na aldeia vive Aziz (Mert Turak) , que é filho do chefe da aldeia. Ele tem problemas, não consegue falar, não anda direito, seu corpo é torto, ele baba. Seu único amigo é seu cavalo que está sempre com ele. O professor se interessa por ele, e quando percebe que Aziz tem interesse na escola o convida para participar. É o primeiro passo na direção de uma recuperação dele. 

Os casamentos são acertados entre as famílias, é a mãe, mulher do chefe da aldeia que faz a escolha, mas tem todo um ritual para isto. E quando ela parte o filho corre em sua direção para expor seu desejo. O primeiro deseja uma mulher com dentes bonitos e uma silhueta fina. Os outros riem, e dizem que no fim será a escolha da mãe que prevalecerá. E a esposa não tem dentes bonitos. O segundo pede olhos azuis, e a esposa é estrábica. 

Um dos filhos do chefe da aldeia vive nas montanhas pois cometeu um assassinato para defender a honra de seu pai. Faz 10 anos e sua esposa e filho já não aguentam isto e lhe pedem para se entregar, o que ele acaba fazendo. No dia do julgamento os homens da aldeia estão presentes e na saída na calçada um homem tira uma arma mirando outro, o chefe da aldeia impede que o tiro acerte e o homem lhe fica eternamente grato. Tenta lhe retribuir e a única forma que encontra é dar sua filha (Seda Tosun) em casamento para o único filho solteiro dele, ou seja, Aziz. 

Não vou continuar pois é um filme que precisa ser experienciado, eu me deixei levar por ele. 

O filme é maravilhoso, daqueles filmes que te faz rir, chorar, torcer. Não há tragédias, mas tem tristezas, não tem violência, mas tem atos criminosos, ele retrata a vida, sem extremos. Apesar de haver a presença da religião, o milagre (mucize é milagre) que se opera no filme não vem de Deus, é terreno mesmo. Um filme que fala do amor e do que ele pode fazer pelo ser humano, de sua força, desde que seja uma doação, não uma cobrança ou troca. 

Rituais, roupas lindas, montanhas, a velhice, os jovens e as crianças. As mulheres, sua união, mas também sua maledicência. 

Recomendo! 

Veja o trailer:





O ritual do pedido do filho à mãe sobre sua esposa



Mahsum Kirmizigül nasceu em 1969 em Diarbaquir, Turquia

domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ILHA - OSTROV - 2006


Direção: Pavel Lungin - 2006
Duração: 112 min
Título Original: Ostrov 
País de origem: Rússia 

1942, Segunda Guerra Mundial uma embarcação soviética que carrega carvão é capturada pelos nazistas. Um jovem marinheiro em pânico acaba atirando em seu amigo por ordem do inimigo, a seguir a embarcação explode, mas não sem antes o jovem marinheiro comemorar por estar vivo. 
Em seguida vemos monges que socorrem um jovem numa pequena praia, é o marinheiro. 

1976 - uma ilha no Mar Branco da antiga União Soviética, um monastério de monges ortodoxos. Várias pessoas aguardam, desejam falar com um velho monge, Anatoly (Pyotr Nikolayevich Mamonov), conhecido por seu poder de cura e visões. É um velho estranho, ele vive afastado dos outros numa cabana onde se aquece com fogo abastecido de carvão que ele vai buscar diariamente, enquanto os outros vivem em outras cabanas com aquecimento. São pequenas ilhas ligadas por pontes de madeira. Se chamam de irmãos e são chamados por pai. O pai Filaret (Viktor Sukhorukov) é o abade. Ele se dedica a pintar a iconografia ortodoxa. 

Anatoly nunca cumpre as regras do monastério o que deixa o pai Iov (Dmitri Dyushev) indignado, mas não há o que ele possa fazer, pois até mesmo o abade aceita Anatoly como é. Agora porque este velho monge é assim tão estranho? Pela culpa que carrega, pelo remorso, por não conseguir esquecer sequer um dia o que fez por medo em sua juventude, atirar em Tikhon (Yuri Kuznetsov). Ele buscou refúgio no monastério e com Deus para tentar aplacar sua culpa, mas não conseguiu. Talvez apenas um milagre posso fazer isto e ele possa então morrer em paz. 

É um filme sobre a culpa e o peso de carregar isto por toda uma vida, por não conseguir se libertar de seu passado. 




Pavel Lungin nasceu em 1949 em Moscou, Rússia.

sábado, 30 de maio de 2015

FILME: CARTEIROS NAS MONTANHAS - 1999


Direção: Jianqi Huo - 1999
Duração: 88 min 
Título Original: Nashan naren nagou 
País de origem: China 

Baseado no conto homônimo de Peng Jianming. 

Filme belíssimo.

Um homem (Ten Rujun) foi carteiro durante anos nas comunidades rurais nas montanhas da China e chegou o momento de se aposentar. Ele então entrega seu trabalho para o filho (Ye Liu), mas acaba acompanhando-o em sua primeira viagem que seria a última do pai. 

Durante a caminhada ambos vão pensando, o filho no que ele sentia quando criança e seu pai estava sempre ausente, o  pai sobre a saudade que ele sentia. A mais bela cena que toca a alma é quando o filho carrega o pai nas costas para atravessar um rio. É o momento da inversão, onde o filho passa a carregar o pai e se torna homem, enquanto o pai percebe isto e ao mesmo tempo sua velhice. 

As paisagens são lindas. Filmado em Suining County e Dao County, no sudoeste e sul do Hunan e uma parte do filme se passa em uma aldeia do povo Dong, incluindo um festival à noite com uma dança lusheng. 

Além do pai e do filho segue junto o cão fiel da família, um pastor que conhece o caminho e participa da entrega avisando com seus latidos que o correio chegou, pegando no ar uma carta que voou com o vento, chamando com os latidos o rapaz que joga uma corda. 

Aos poucos o filho descobre que o trabalho não se limita a entregar cartas, mas há toda uma relação de afetos entre os aldeões e o carteiro. Ele questiona algumas coisas que o pai mantém e são tradicionais, como por exemplo, porque não pegar o ônibus nos trechos que não tem ninguém, por outro lado o pai também aprende com seu filho. 

Vale a pena assistir.





Jianqi Hou nasceu em 1958 em Pequi, República Popular da China 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

FILME: UM DOCE OLHAR - 2010


Direção: Semih Kaplanoglu - 2010
Duração: 103 min
Título Original: Bal 
País de origem: Turquia 

Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2010.

Yusuf (Bora Altas) vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu) e sua mãe Zehra (Tülin Özen) numa região montanhosa da Turquia. Seu pai é apicultor e ensina o filho a ler para que ele possa melhorar na escola. o menino tem dificuldade de pronunciar as palavras, exceto quando fala baixinho com o pai. Com a mãe ele fala muito pouco. É reservado, está sempre sozinho ou com o pai, não brinca com as outras crianças. Mas seu olhar fala, diz tudo. O maior desejo de Yasuf é ganhar a condecoração de boa leitura que o professor oferece aos alunos quando eles lêem. 

Yusuf sempre acompanha o pai e o ajuda, porém quando as abelhas diminuem ele tem que partir para mais longe e ele não pode ir junto. O que era previsto para demorar uns dois dias começa a demorar e mãe e filho ficam sem notícias de Yakup o que os preocupa. Começam a procurar sem sucesso até que a mãe vai a uma delegacia pedir ajuda. 

É um filme de poucas palavras, contemplativo, lento, com as paisagens da floresta, das montanhas, o tempo, o clima, a vida simples destes montanheses. Praticamente não há trilha sonora, apenas os sons da natureza, da chuva, dos passos, do vento.

O ator infantil Bora Altas é excepcional. Sua expressão de sofrimento ao ler, de ciúme ao pensar que o pai deu o veleiro que fez ao primo, de orgulho ao ajudar o pai, e acima de tudo seu olhar. Quando a mãe chora pelo desaparecimento do marido, ele que nunca gostou de leite, bebe o copo todo e olha para a mãe. Singelamente ele deseja que ela fique contente, que pare de chorar. O olhar dele neste momento é maravilhoso. 


Semih Kaplanoglu nasceu em 1963 em Esmirna, Turquia

quarta-feira, 20 de maio de 2015

FILME: O ARTISTA E A MODELO - 2012


Direção: Fernando Trueba - 2012
Duração: 105 min
Título Original: El artista y la modelo
País: Espanha e França 

Um filme sublime! Logo no início vemos Marc (Jean Rochefort) caminhando pela natureza, e ficamos encantados com sua capacidade de ver coisas onde a maioria não vê nada. A capacidade de ter a mente e o olhar livre, como uma criança, que vê formas em tudo, cores diferentes, capaz de uma percepção absolutamente sensível ao mundo. A alma de um artista, mas que todos nós poderíamos e deveríamos ter. Marc senta-se no Café do vilarejo, observa as pessoas passando, vê principalmente as mulheres e observa sempre suas pernas e tornozelos. Ele senta em sua cadeira e olha a natureza ao seu redor. Quase não há som, é o olhar que conta. 

Marc tem 80 anos, está aposentado, é um cultuado escultor que vive com sua mulher Léa (Claudia Cardinale) em um vilarejo no interior da França perto da fronteira com a Espanha. Estamos em 1943, plena Segunda Guerra Mundial. Léa vai ao mercado e vê nas ruas uma jovem (Aida Folch) dormindo, é uma fugitiva do regime de Franco na Espanha. Ela então a acolhe. Marc logo se encanta com a beleza de seu corpo e sente despertar em si mesmo o desejo de retomar a escultura. Mercé passa a viver no ateliê de Marc no alto da montanha e posa para ele. 

O filme é preto e branco, mas é justamente o que valoriza a arte, podemos ver nitidamente o corpo e as sombras, as dobras, o contorno que vai se esculpindo, e aos poucos os formatos, a posição, os músculos. São poucas falas, mas as que ocorrem valem o filme inteiro. Em dado momento Marc fala sobre o equilíbrio e a plenitude. Sobre o equilíbrio nos diz que quando o encontramos é para destruí-lo, como uma pedra que joga na água. Sobre a plenitude diz que vê uma árvore que cresceu no meio de uma pedra, é violento mas belo, a natureza triunfa sempre. A beleza se revela em lugares que pareciam impossíveis, vilarejos bombardeados e árvores crescendo ele diz. 



Uma das mais belas cenas é quando Marc que durante todo o tempo vê a nudez de Mercê com olhos de artista de repente tem uma ereção. Ele parte, caminha. No dia seguinte Mercê o deixa tocar seu corpo, aquelas mãos que seguem as curvas para senti-las também em sua escultura, mas o quadro se inverte, e Mercê passa a tocar o velho com suas mãos. Fiquei pensando no quanto seria belo também uma escultura de um velho ou uma velha, e não apenas a beleza perfeita que tanto se busca e que no final não existe, é inatingível. 



Para Marc um modelo não é para fazer uma cópia, mas sim para consultar a natureza. Ele busca a essência da mulher brotando da natureza. Em dado momento ele relata sua visão do gênesis, diz que Deus não seria tão idiota a ponto de criar o homem à sua imagem, mas sim, que ele criou a mulher e então tiveram um filho que chamaram de Adão. Só havia uma proibição, de Adão se deitar com sua mãe e ele o fêz e por isto foram expulsos do paraíso. Eis o pecado original. A mulher para Marc é a primeira forma, a forma essencial. 

Um filme espetacular!

Fernando Trueba nasceu em 1995 em Madri, Espanha. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

FILME: A ILHA DO MILHARAL - 2014



Direção: George Ovashvili - 2014
Duração: 100 min
Título Original: Simindis Kundzuli
País: Cazaquistão 

A cada primavera o rio Enguri que fica entre a  Geórgia e a Abecásia leva sedimentos do Cáucaso e forma pequenas ilhas com um solo fértil que é utilizada pelos agricultores da região para o plantio de milho que estocam e vendem durante o inverno. 

Um agricultor já idoso ( Ilyas Salman) chega a uma destas pequenas ilhas, ele cava a terra, a sente nas mãos, cheira, encontra algo que limpa e guarda no bolso, e coloca um pau com um lenço amarado em sinal de escolhida. Aos poucos, lentamente, ao ritmo possível. Não vemos o filme dar um salto, pelo contrário, ele segue passo a passo a construção de uma cabana, os momentos de descanso, a continuação do trabalho, dia a dia, a medida que ele traz as coisas em seu barco. Sua neta (Mariam Buturishvili) também vai e o ajuda. A casa vai surgindo, eles pescam, cozinham, e observam a natureza e o rio. A paisagem é belíssima. Há pouquíssimas falas, o filme é o som da natureza, do rio, dos pássaros, do vento.


Diferente de As quatro voltas (já postado no blog) aqui não se trata do ciclo vida-morte, mas das questões de tempo e espaço, dos ciclos, mas da vida. A menina moça que cresce ao mesmo tempo que o milho, que descobre seu corpo, mas ainda tem sua boneca. O filme vai lento, no tempo do milho que cresce. Aqui eles estão à mercê de uma força maior, a natureza, que criou a ilha, mas também a pode destruir, a natureza que se em dados momentos é calma e de uma beleza infinita pode de um momento para outro se enfurecer e trazer um espetáculo que mesmo não deixando bons traços é fascinante.


A pequena ilha formada no meio do rio é uma terra de ninguém, sugestivo diante do quadro local onde há patrulhas constantes no rio e disputas territoriais. Um soldado de um dos lados é ferido e o velho o socorre e cuida dele até que ele possa ir embora.




Ultimamente tenho visto alguns filmes que trabalham com poucas falas e os acho fantásticos. Vivemos num mundo onde somos absorvidos e sufocados pelo excesso de comunicação. Este silêncio da natureza, que não é silêncio, são muitos sons diferentes, mas que perdemos a capacidade de ouvir por estarmos ligados em outras questões nos traz de volta um pouco à consciência do quanto somos efêmeros, assim como esta pequena ilha, podemos ser férteis, criar, crescer, mas estamos à mercê de forças maiores, de contingências, da natureza e da vida. Por mais que nos dediquemos, que nos esforcemos, sejamos bons, a natureza age dentro do real, nunca é madrasta, mas tampouco recompensa ou protege como o ser humano gostaria de esperar dela, como ilusoriamente espera de uma força maior.

George Ovashvilli nasceu em 1963 em Mtscheta, Geórgia

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: AS QUATRO VOLTAS - 2010


Direção: Michelangelo Frammartino - 2010
Duração: 88 min
Título Original: Le Quattro volte
País: Itália - Alemanha - Suíça 

Uma vila medieval na Calábria, Itália onde as tradições são mantidas e há o pastoreio das cabras. Também produzem carvão de forma artesanal. 

Um filme para se sentir, pois não há falas, mas os sons da vila, das pessoas, dos animais e da natureza. É uma experiência única e para cada um é diferente.


Começa com um velho (Giuseppe Fuda) que pastoreia suas cabras junto com um cachorro. O dia a dia monótono dele, repetitivo, mas é um momento em que nos damos conta que também fazemos isto, em outro lugar, em outro tempo e contexto, mas repetimos diariamente as mesmas coisas da mesma forma. E o tempo passa, as estações mudam, os anos avançam, a vida se vai. O velho morre sozinho e somente o cachorro pode avisar a todos e o faz de forma brilhante e inteligente no dia da encenação da Paixão de Cristo. O enterro e a pedra que fecha o túmulo, ficamos do lado de dentro do túmulo, escuridão, alguns míseros sons.


As cabras, e no ritmo da vida se um  morre outro nasce, e nasce um cabritinho. Acompanhamos as cabras, o crescimento dos pequenos, até o dia em que este que nasceu se perde, e acaba se abrigando embaixo de uma imensa árvore. Novamente a escuridão e os sons.


Árvore imensa, majestosa. As estações passam, e quis que ela fosse a escolhida para a festa daquele ano,  assistimos sua derrubada, é levada para a vila, sobem nela, quem consegue ganha o prêmio. É derrubada, em seu topo vários presentes. Fim de festa, ela é serrada e levada para a carvoaria.





Vemos como se produz carvão artesanalmente. E a árvore imensa, agora tocos de madeira, é colocada por primeiro, e finalmente a escuridão novamente. Fim de mais um ciclo.



E tudo se repete na vila, o pequeno caminhão que já passava no tempo do velho sobe novamente a rua, carregado de carvão para vender ao povo. Vemos a fumaça saindo da chaminé. 

Tudo sempre se reorganiza, nada para, morrem uns mas a vida continua, nascem outros, e a vida continua. Voltas e mais voltas e tudo recomeça e tudo termina, e recomeça. O que vemos é a natureza, incluindo o ser humano, o que vemos é a vida como ela é, sem enfeites ou eufemismos, ela segue. Mesmo que a religião se faça presente, ela se faz como ritual, como parte da vida, esta vida que segue, e não como ordenadora da vida. E o homem também é formado de sais, é um mineral, que retorna à terra. O filme homenageia o ciclo da vida em suas quatro manifestações: humana, animal, vegetal e animal, e estão todos interligados. 

Belíssimo!

Veja o trailer: 




Michelangelo Frammartino nasceu em 1968 em Milão, Itália

quarta-feira, 22 de abril de 2015

FILME: O VENTO NOS LEVARÁ - 1999


Direção: Abbas Kiarostami - 1999
Duração: 118 min
Título Original: Bad ma ra khahad bord

Um homem conhecido como o engenheiro (Behzad Dorani) chega a uma vila no interior do Irã - Curdistão. Na verdade ele não está lá como engenheiro e sim para filmar os rituais locais de velório e tem que aguardar que uma senhora centenária, Sra. Malek, morra. O problema é que isto não ocorre tão rapidamente como eles pensavam. 

Enquanto esperam vemos o engenheiro andar pela cidade acompanhado de um garoto, e vamos percebendo o dia a dia de todos, seus problemas, suas brigas, e ao mesmo tempo acompanhamos todas as idas do engenheiro até o cemitério da cidade que é o local mais alto e único onde o celular funciona para atender a secretária de seu chefe. 

O filme é este cotidiano, o dia a dia, as paisagens, a espera, uma fatia do tempo onde o tempo não parece passar, mas por outro lado senti uma sensação de cansaço a cada vez que ele tinha que atender ao celular, e para isto ele corria, descia escadas, pegava o carro e subia o morro e voltava. Sempre este mesmo percurso inúmeras vezes. Muitos personagens não são vistos, apenas ouvimos suas vozes, outros aparecem mas não não falam.



A questão do filme é moral é ética. O engenheiro e sua equipe estão ali apenas para filmar os rituais de morte e para isto torcem para que ela morra logo para que possam fazer seu trabalho e ir embora. Por outro lado vemos todos os moradores que os tratam muito bem, sentindo-se honrados em poder servi-los. A mãe do engenheiro também está muito doente, mas por esta ele torce para que viva, enquanto que pela outra torce para que morra, tudo de acordo com sua conveniência e necessidade.



O filme fica entre a vida e a morte e isto é notório em vários símbolos, como o osso de fêmur que é retirado da cova e que ele guarda no painel do carro, até que ele conhece um médico com o qual anda de moto e este lhe fala da vida. Ao final ele joga o osso num rio reencontrando-se com a vida e volta para Teerã. 




Abbas Kiarostami nasceu em 1940 em Teerã, Irã