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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NEUROSSEXISMO, CIÊNCIA E PODER

 


HOMENS NÃO SÃO DE MARTE MULHERES NÃO SÃO DE VÊNUS

Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos

CORDELIA FINE

CULTRIX – 1ª ED. 2015

424 páginas 

Você provavelmente já viu o livro — ou o filme — Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, que supostamente “provaria” a existência de diferenças sexuais no cérebro humano. A partir dessa ideia, constrói-se a narrativa de que os homens seriam mais racionais e lógicos, saberiam ler gráficos e dirigiriam melhor, enquanto as mulheres seriam mais emocionais, teriam maior empatia e facilidade para os relacionamentos, mas seriam péssimas motoristas, incapazes de interpretar dados ou lidar com números — e assim por diante.

Pois bem: a neurocientista e psicóloga Cordelia Fine, apoiada em inúmeras pesquisas científicas, desmonta esse mito pseudocientífico das diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

É verdade que podem ser encontradas algumas diferenças, mas nenhuma que justifique desigualdades na capacidade intelectual entre os sexos. Matemática, física e ciência são igualmente possíveis para homens e mulheres; assim como empatia, cuidado com a casa, com os filhos e com os outros também o são. Não há predisposição biológica que determine essas divisões.

Mais uma vez, nos deparamos com uma pseudociência que tenta justificar a superioridade masculina a partir da biologia e da “natureza”. O mais preocupante é que muitas mulheres acabam acreditando nesses discursos e, por efeito social, passam a apresentar desempenho inferior em áreas consideradas masculinas. Ao mesmo tempo, muitos homens sequer se aventuram em campos vistos como femininos — e, quando o fazem, correm o risco de serem estigmatizados e feminizados pela sociedade.

Apesar de trazer uma grande quantidade de pesquisas e relatos — e embora a tradução por vezes me pareça um pouco truncada —, a leitura vale muito a pena.


Cordélia Fine nasceu em Toronto, Ontario, Canadá, em 1975. É uma psicóloga e Filósofa.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

192 páginas 

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista. 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO: A ONDA - SUSAN CASEY



Casey, Susan. Zahar, 2010
Tradução: Ivo Korytowski
314 páginas

Você sabia que a cada semana se perdem dois navios no mar? Impressionante! As notícias sobre navios que afundam em tempestades, desaparecem em questão de minutos com toda sua tripulação são raras, ao contrário de um avião que se sofre um acidente enche as manchetes de jornais.

Justo num momento em que percebemos as mudanças climáticas que vem ocorrendo, no Brasil a onda de calor, na América do Norte o inverno extremamente rigoroso e na Europa as inundações e ouvimos os meteorologistas dizerem que não sabem prever quando irá terminar, chover, melhorar este livro se torna de leitura imprescindível.

Fui atraída para ele por causa da Onda. Sempre fui fascinada por ondas gigantes, um misto de terror e fascínio, mas ler este livro é descobrir muito mais do que sobre ondas, é ler sobre nosso planeta, sobre a natureza e sobre os oceanos e suas ondas inimagináveis e que pensávamos serem lendas, ou algo que só poderia ocorrer muito muito raramente. Mas a verdade é que estas ondas de 20 metros no mínimo ocorrem diariamente e a cada dia mais e mais vezes, destruindo navios imensos em questão de minutos, e elas em geral não são previsíveis, fogem ao padrão linear dos modelos dos quais se utiliza a ciência, é algo para os físicos e o padrão de ondas, ou seja, a física quântica. As ondas são ondas mas são também partículas.

Susan Casey, uma jornalista premiada, parte em busca de compreender estas ondas. Ela irá buscar informações com aqueles que lidam com elas, que trabalham com elas e com aqueles que as enfrentam. Inicia seu percurso com aqueles que obviamente todos nós sabemos serem literalmente apaixonados por elas e estão sempre atrás delas, os surfistas de ondas gigantes, mas também falará com cientistas e capitães de navios.

O livro é gostoso de ler, não é um livro científico, apesar de estar repleto de informações científicas, mas ele nos ensina a respeitar a natureza, e a compreender que nunca a dominaremos e que o melhor a se fazer é respeitá-la e acima de tudo ter muita humildade diante dela, e principalmente diante de uma onda gigante.

Um dos relatos mais impressionantes é sobre a Baía de Lituya no Alaska onde ocorreu uma onda de 530 metros em 09 de julho de 1958 e houve sobreviventes, caso contrário, talvez até hoje os cientistas estariam tentando compreender o que ocorreu ali que foi capaz de arrancar o solo e deixar a rocha nua e destruir toda a orla de árvores.

Nunca foi tão importante ler um livro como este e compreender que a natureza tem vida própria e não há nada que o homem possa fazer para controlá-la, é impossível deter um tsunami, uma onda gigante, um terremoto, mesmo que tenhamos sorte de prevê-lo.




Susan Casey nasceu em Toronto, Canadá, em 1962. É uma escritora canadense. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

LIVRO: O PONTO DE MUTAÇÃO - A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente - FRITJOF CAPRA


Capra, Fritjof. Cultrix, 1982
Tradução: Álvaro Cabral
432 páginas

Li este livro a primeira vez em 1983 para um trabalho na Universidade. Depois voltei inúmeras vezes à ele e a última foi em 2012 para novamente fazer um trabalho, desta vez para a Faculdade de Filosofia. Também assisti ao filme.

Um livro que continua atual e que merece ser lido. Capra é Ph.D. em Física Teórica e sua tese é de que precisamos mudar nossos paradigmas. Faz uma análise destes  visitando o pensamento de Descartes, Newton e de como estas idéias atuam no mundo, dividindo, separando, ao invés de ver o todo. Para Capra o todo é maior que a soma das partes, e ele defende uma visão holística do mundo.
Segundo Capra todas as crises pelas quais passamos sejam políticas, econômicas, psicológicas e sociais se dão porque temos uma visão errônea das coisas, queremos separar cada coisa e na realidade tudo isto funciona junto. Não há como resolver uma questão econômica sem levar em conta o contexto político, o psicológico das pessoas, o sociológico e o ecológico.

Capra parte em direção de uma nova física, com Einstein e a teoria da Relatividade na qual espaço e tempo são inseparáveis. Defende uma visão sistêmica do mundo vendo a tudo como relações, uma teia, e não por partes. A visão holística pensa no futuro, em que possamos deixar algo para nossos descendentes e frear o consumo desenfreado, e desgaste e a destruição da natureza sem pensar ecologicamente. É uma mudança de valores, ética e em nossas crenças, ou seja, trocar de paradigma. Um ponto de mutação, de mudança.

Este livro é para ser lido e relido, estudado e para meditar sobre o que estamos fazendo com nosso planeta, como estamos vivendo, o que realmente tem valor e o que não tem, quais nossas reais necessidades. Vivemos num mundo onde o vazio, a solidão, a violência, a depressão impera, será que estamos agindo da melhor forma? Será que não vale a pena mudar?

Fritjof Capra nasceu em 1939 em Viena, Áustria. É um físico teórico doutorado pela Universidade de Viena.


Entrevista com Fritjof Capra : http://www.youtube.com/watch?v=P6-yuMpk6B8