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segunda-feira, 16 de maio de 2016

FILME: A ONDA - 2008



Direção: Dennis Gansel - 2008
Duração: 108 min
Título Original: Die Welle
País de Origem: Alemanha


Assisti ao filme A Onda, é um excelente filme para mostrar como o passado retorna mesmo quando se acredita que não irá mais acontecer. Os alunos do Prof. Rainer (Jürgen Vogel) são adolescentes que participam de um projeto da escola cujo tema é Autocracia, governo de um só, ou seja uma ditadura. O exemplo que usam é do nazismo, porém alegam que isto nunca mais acontecerá. Então o professor utiliza de um método diferente fazendo com que eles vivenciem uma situação de autocracia onde ele é o líder. É o suficiente para que os efeitos em um grupo que busca amparo, mudanças, que está enfrentando questões difíceis, no caso deles, de família, de exclusão, de aceitação, de identidade, se unifiquem num só pensamento excluindo os que não aderiram. O líder passa a ser a autoridade e a voz maior, um deus. 

Por outro lado, no filme "Romero" que postei recentemente no blog  isto também acontece, mas o resultado não é um fascismo, um fundamentalismo, mas ao contrário, é a luta pela liberdade, pelo fim da ditadura. Romero consegue dar esperança ao povo que sofre, luta por ele, o defende, e eles passam a acreditar que podem sair da situação em que estão e ter uma vida melhor. Onde estaria a diferença? Provavelmente no líder e na sua necessidade ou não de poder? de domínio ou não? 
Esta situação se repete a cada vez que haja pessoas com medo, com questões difíceis e que buscam alguém que as salve ou lhes traga respostas e alternativas, elas irão seguir este líder, irão agir com um só em relação à ele. Por isto uma das formas que as ditaduras possuem de desmantelar um espírito de grupo, de união e identificação deixando as pessoas temerosas e sem rumo, é justamente lhes proibindo associações e até mesmo a religião, ou fazendo o contrário como o nazismo fez, trazendo a todos para junto do líder seguindo suas idéias. 


O filme se passa numa escola na Alemanha, o grupo se denomina "A Onda", usam uniforme e tem até uma saudação. Somente uma aluna percebe o perigo e se opõe, mas não é ouvida e dizem que ela age assim por que não fazem o que ela deseja. O professor acaba perdendo o controle da situação o que leva a um desfecho trágico e ele não consegue mais conter o grupo. 

Dennis Gansel nasceu em 1973 em Hanôver, Alemanha

quarta-feira, 9 de março de 2016

DOCUMENTÁRIO: LOUISE BOURGEOIS Une vie - 2008



Direção: Camille Guichard -
Duração: 52 min
País de Origem: França 

Louise Bourgeois nasceu em Paris em 1911, mas viveu em Nova Yorque a partir de 1938. É reconhecida internacionalmente por seu trabalho de escultas nos anos 70. 

Sou fã desta escultora. Sua obra traduz o feminino, a infância, a sexualidade. O documentário sob forma de entrevista com ela nos fala de seu percurso e de como cada obra se constituiu para ela, qual a essência de cada uma e é justamente nisto que vemos vir a tona o feminino. 

Sua infância foi dolorosa em função de ter um pai que era infiel a sua mãe chegando a levar suas amantes a viver com a família como preceptora das crianças. Ela nos relata também de forma bem freudiana, ela leu os livros de Freud, a castração da menina no complexo de Édipo. Seu pai descascava uma laranja com as mãos e ao retirar a casca por completo e segurá-la aberta nas mãos fica um formato de corpo de uma mulher com um pênis. Bourgeois se considerada desconstruída por seu pai e sua obra o reflete. Ela nos diz que o presente destrói o passado e é muito difícil recriá-lo. Seus traumas de infância são inseparáveis de sua obra, não há como não associá-los. É através da arte que ela passa do passivo da infância como vítima para o ativo reparador, realizando um trabalho de recriação de seu passado. As ameaças que sentimos não podemos mudar, mas sempre é possível negociar com elas. 

Trabalhando com vários materiais, Bourgeois faz esta reconstrução pela arte, suas figuras são deformadas ou mutiladas, as angústias viram totens, ela revive as emoções da mulher, do feminino. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA SOVIÉTICA - 2008


Direção: Edvins Snore - 2008
Duração:86 min
Título Original: The Soviet Story
País: Letônia

O documentário é perceptivelmente de direita o que, porém, não lhe tira  mérito. Obviamente que as posições são contra o comunismo, mas o que realmente é válido neste documentário é trazer a tona os crimes do regime de Stálin. 

O filme traz um argumento onde teria havido uma estreita conexão filosófica, política e organizacional entre o Nazismo e o Regime Soviético, sendo que Max teria falado sobre o extermínio, o que eu pessoalmente desconheço. O que eu trago em mente é que todo regime ditatorial, totalitário sempre irá eliminar os que são contra seu regime, isto ocorreu em outros lugares também. O que choca no documentário, principalmente para os que desconhecem os crimes do Stalinismo é o que ocorreu na Ucrânia e que é conhecido como Genocídio do Holodomor, entre 1931 e 1933 e o massacre de Katyn na Polônia em 1940 e que até hoje não é considerado crime de guerra ou genocídio, apesar de ter sido um crime bárbaro.

Sobre a colaboração entre a NKVD - polícia secreta soviética e a Gestapo o documentário é bem interessante e finaliza com o que é mais conhecido, quando Stálin acaba fechando com os aliados para obter a vantagem da repartição da Europa e ficar com boa parte para a União Soviética e que depois transformou a vida destes povos em horror com as deportações para os Gulags. 



Holodor significa "deixar morrer de fome", ou seja, pela inanição. O que ocorreu na Ucrânia é monstruoso, com o confisco de toda alimentação que era baseada em cereais e que era vendida para o Ocidente. A Ucrânia ofereceu resistência com sua autonomia cultural e forte identidade nacional o que era intolerável para os soviéticos e por se insurgirem contra as medidas de coletivização forçada e requisição compulsória de cereais, Stálin tomou as medidas que levaram a esta atrocidade. 



Na Polônia, durante a Segunda Guerra ocorreu o massacre da Floresta de Katyn, uma execução em massa de poloneses prisioneiros de guerra e cidadãos comuns acusados de espionagem e subversão.



É importante que isto seja conhecido, pois existe uma tendência a focar no Holocausto perpetuado pela Alemanha de Hitler, mas Stálin matou muito mais, e era seu próprio povo. 




Edvins Snore nasceu em 1974 em Saulkrasti, Letônia

terça-feira, 14 de julho de 2015

DOCUMENTÁRIO: VERSAILLES, O SONHO DE UM REI - 2008


Direção: Thierry Binisti -  2008
Duração: 90 min
Título Original: Versailles, le rêve d'un roi
País: França

Este documentário narra através de um filme a história da construção do Palácio de Versailles pelo rei Luís XIV, o Rei Sol conhecido por sua frase: O Estado sou eu!

Em sua infância Luís XIV teve que fugir para não ser morto, e isto ficou marcado. Ele jurou que nunca mais se repetiria, e para isto ele tinha que ter o domínio total sobre seus súditos. Para tanto ele constrói Versailles como símbolo de seu poder, mas também para levar a corte e os nobres para lá, para ficarem sob seus olhos. Ao contrário do que se pode imaginar, este rei tinha um lado muito democrático ao dar liberdade aos seus súditos de lhe falarem, e quando a Galeria dos Espelhos ficou pronta ele mandou que fosse aberta ao público, ela foi feita para os outros, não para ele. Ele queria que todos admirassem seu poder. Por outro lado era impiedoso com quem o ameaçasse, e não poupou nada nem ninguém para a construção do palácio. O que vemos é o que normalmente acontece em grandes construções, mesmo nas atuais como a construção de hidrelétricas, onde morrem muitas pessoas, e a exploração da mão de obra é sempre uma realidade. 





Luís XIV (Samuel Theis) fez da residência de caça de seu pai o mais sumptuoso palácio real da Europa e para isto gastou somas imensas o que deixava Colbert (Jérôme Pouly) seu ministro das finanças, angustiado. Em volta do palácio o que havia eram pântanos que foram transformados nos famosos jardins de Versailles. Faltava água para tantas fontes e cada vez se gastava mais para trazer a água. O palácio levou 30 anos para ser construído. 





O Rei Sol também tinha um enorme gosto pelas artes e tinha a seus serviços os maiores talentos da época como La Fontaine (Eric Franquelin), Racine (Laurent Vernick), Molière (Thierry  Garet), Charles Perrault (Stéphane Roux). 




O filme retrata toda a época e a corte de Luís XIV, seu casamento, suas amantes. No final ele está só no palácio que se transformou num túmulo, a corte pouco a pouco retornou para Paris, e os problemas econômicos gerados pela construção e pelas guerras culminou com a Revolução de 1789.



Foi filmado nos locais documentados. 


Thierry Binisti nasceu em 1964 em Créteil, França 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: JE VEUX VOIRE - 2008


Direção: Joana Hadjithomas e Khalil Joreige - 2008
Duração: 68 min
País de origem: França e Líbano
Filmado no Líbano

Em julho de 2006 uma guerra estoura no Líbano, os produtores do filme são pegos de surpresa fora do país e não podem retornar. Para eles e libaneses não é apenas mais uma guerra, mas a que vem quebrar as esperanças de paz e o ânimo das pessoas. Não há mais o que escrever, o que dizer, o que mostrar, então os produtores pensam num encontro, o encontro de Catherine Deneuve com um ator libanes, Rabih Mroué, que após olhar por uma janela para Beirute, se vira e diz: Eu quero ver!

Os atores representam a si mesmos. São apresentados, é Rabih quem conduzirá o carro, irão os dois neste carro, aos poucos vão se conhecendo. No sul de Beirute, a região mais atingida são impedidos de filmar, são bairros controlados pelas milícias xiitas. Vão para o sul, onde a guerra começou visitar a vila natal de Rabih, onde morava sua avó. Chegam e só encontram escombros, tudo destruído, a tal ponto que ele se sente incapaz de encontrar onde ficava a casa de sua avó. Ela olha para tudo isto sem compreender, ele se sente totalmente desamparado. 

Pegam uma estrada que não estava previsto e são impedidos pela equipe de segurança de prosseguir. Há minas espalhadas por todo o território, não podem ir por ali, mesmo que a paisagem seja mais bonita. Os cartazes com os mártires do Hezbollah nos postes a beira da estrada.  

Não se trata de um documentário, é um filme, um filme onde os atores atuam eles mesmos, como eles estão vendo tudo aquilo, o sentimento de cada um. Uma outra forma de mostrar, revelar o que são os destroços de uma guerra. 

Na vila ao sul 

O sul de Beirute 
No final do filme vemos uma outra Beirute, a que não foi atingida e que acompanha a globalização, o mundo, no fundo, as duas faces de uma mesma moeda. 



A guerra do Líbano de 2006 foi um episódio do conflito árabe-israelense, ocorrendo no norte de Israel e sul do Líbano tendo começado em 12 de julho de 2006 após o sequestro de dois espiões israelenses pelo Hezbollah, e envolveu as forças de defesa de Israel e o braço armado do Hezbollah, e em menor grau, o exército libanês. O Líbano passou por uma guerra civil de 1975 à 1990, depois a Primeira Guerra do Líbano em 1982 e esta Segunda Guerra em 2006. 

O filme foi rodado em uma semana. 

Joana Hadjithomas  e Khalil Joreige nasceram em 1969, ambos em Beirute. São casados.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

FILME: VILLA AMALIA - 2008


Direção: Benoît Jacquot - 2008
Duração: 90 min
País: França 


Adaptação do livro homônimo de Pascal Quignard (1916).

O filme nos mostra os efeitos devastadores em Ann (Isabelle Huppert) ao descobrir a infidelidade de seu companheiro de 15 anos,  Thomas (Xavier Beauvois).  

O filme começa com ela seguindo o carro dele e depois ela o vê entrando num jardim com rosas, uma mulher abre a porta e o beija. Ela sufoca um grito. Mesmo encontrando neste mesmo instante um amigo de infância, Georges (Jean-Huques Anglade) e ele tendo visto tudo ela não consegue falar sobre o que viu e sobre o que sente. Ao contrário, ela ao invés de falar, chorar, gritar, se volta contra si mesma num processo de autodestruição e também de destruir tudo que seja de sua vida até o presente, vendendo o apartamento, jogando fora roupas, objetos, os pianos, ela é uma pianista famosa. Queima as fotos, as partituras, escritos, composições. O que ela quer é desaparecer. 

Thomas tenta lhe dizer que é ela que ele ama,mas mais nada disto tem sentido para ela. A ruptura da relação de exclusividade que ela acreditava ter com ele se desfez.



Ao perder o amor Ann se perde e o filme nos mostra através de seus atos, sua expressão, sua dor toda a subjetividade desta mulher. Ela parte apenas com uma bolsa de viagem e se desloca por várias cidades europeias. No percurso ela vai ainda se livrando das coisas, primeiro se desfaz do celular, depois joga a bolsa e compra um mochila, mais adiante também se desfaz da mochila, corta o cabelo curto e usa vários nomes. Até que ela chega a uma ilha no mar Mediterrâneo, Ischia. 

Lá ela conhece uma velha senhora e deseja alugar a casa que seu pai construiu para sua Tia Amalia. As duas acabam amigas, e a partir deste momento ela se apresenta como Anna. É com este nome que ela começa a reconstruir uma  identidade para ela.




Na modernidade tudo isto pode parecer um exagero, mas estamos diante da feminilidade. A falta do amor de um homem pode levar uma mulher a perder a si mesma. No mundo de hoje diante de um rompimento assim é comum o consumismo desenfreado e ter vários parceiros, ou a depressão. Anna vive sua perda, inclusive a sua própria. Ela precisa se reconstruir agora como mulher, uma outra mulher.



Benoît Jacquot

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: COISAS INSIGNIFICANTES - 2008


Direção: Andrea Martínez - 2008
Duração: 98 min
Título Original: Cosas insignificantes

País de Origem: México

Esmeralda (Paulina Gaitan) é uma adolescente que coleciona objetos que encontra em seu dia a dia e os guarda em uma caixa. São objetos esquecidos, perdidos ou descartados, insignificantes para ela, mas que possuem um significante em cada um para aqueles que os deixaram para trás. 

O filme nos mostra as histórias de cada uma dessas pessoas que tem em comum o fato de não conseguirem demonstrar e expressar o amor. Cada um destes objetos foram esquecidos, feitos ou descartados em momentos onde faltou a palavra, onde algo não pode ser dito. Um pai que passou 20 anos sem ver a filha, uma mãe que não consegue expressar seu amor pelo filho, um casal que tem problemas e a própria Esmeralda que não consegue expressar seu amor pela irmã e pela avó. 

Os pequenos objetos da caixa representam esta falta, ausência de comunicação, mas também a sua possibilidade. 

Quantas vezes não falamos através de algo? Quando guardamos uma flor que ganhamos de alguém que amamos, este gesto é um significante, fala de amor, que muitas vezes não foi dito, falado. Objetos que representam algo que nunca foi dito, que não chegou ao outro. 

No momento que Esmeralda consegue ultrapassar esta barreira e expressar seu amor pela irmã e pela avó, participando inclusive das alucinações desta, ela não precisa mais da caixa e a repassa ao médico que não consegue falar com sua filha. 

Ao assistir o filme me lembrei que também tenho uma caixa assim, com flores secas, um guardanapo de uma lanchonete, um maço de cigarros, uma bonequinha, um papel de bala, e que todos representam amores que tive em minha vida. Será que consegui expressar os significantes que estão ali? 


Andrea Martínez 

domingo, 18 de janeiro de 2015

FILME: PLUS TARD TU COMPRENDRAS - 2008


Direção: Amos Gitaï - 2008
Duração: 89 min
Título em português: Mais tarde, você compreenderá

Cinebiografia sobre a mãe de Catherine Clément

Comecei a ler o livro de Memórias de Catherine Clément e logo nas primeiras páginas ela fala de sua infância e de sua mãe, Rivka, judia, que teve seus pais deportados e mortos na Segunda Guerra. Seu irmão Jérôme Clément escreve sobre a história de sua mãe e é este relato que se transformou neste filme. Interessada procurei o filme, mas só o encontrei na internet em francês, que é minha língua materna. Assisti ao filme. 

No filme logo no início quando Victor visita o memorial em Paris aos judeus mortos na Shoah, vemos ao fundo a própria Catherine Clément e seu irmão Jérôme que fazem esta pequena aparição no filme. 

O filme mudará os nomes dos personagens, sendo que Victor (Hippolyte Girardot) será o irmão, e Tania (Dominique Blanc) é Catherine. 

Jeanne Moreau é Rivka, maravilhosa como sempre. O filme começa com a televisão mostrando o início do processo de Klaus Barbie, Rivka não suporta ouvir. Victor chega para jantar com ela, ele está buscando a história de sua família judia, tenta lhe fazer perguntas, mas Rivka desliza, ela não responde. Ele acaba de encontrar uma carta onde seu pai se declara ariano, assim como à filha Tania, mas a mãe como judia, o que o revolta. Ele ainda não havia nascido nesta época. Tania lhe mostra que seus pais fizeram o que todos fizeram, acreditavam no governo Francês, não imaginavam o que iria acontecer, mas ainda assim ele protegeu a filha declarando-a católica e ariana, e que com certeza Rivka sabia disto e esteve de acordo. 

Rivka está muito doente e em breve vai morrer. Ela nunca falou de sua família judia, do que aconteceu com seus pais, o que ocorreu com a maioria das pessoas após a guerra, a negação, ela acreditava que não contando protegia o filho, que era seu predileto, com o qual tinha maior ligação. Com isto o filme também reflete as relações de mãe-filho. 

Victor ficará indignado ao descobrir que o apartamento onde moravam seus avós paternos era o de seus avós maternos, ele foi lá durante anos e nunca lhe foi dito nada sobre isto. Ao final Rivka fala aos seus netos, filhos de Victor, os leva à Sinagoga e entrega ao garoto a estrela amarela que guardou durante anos e lhe pede para nunca esquecer. 

Quando Rivka morre é o tempo que a França reconhece sua culpa pelo colaboracionismo sob o governo de Vichy e por não ter protegido seus judeus franceses. Victor vai até a comissão onde é feito o levantamento dos bens para uma compensação financeira aos familiares, numa tentativa de reparar, principalmente pelo lado simbólico deste ato é necessário. Não mudará a história, mas simbolicamente há o reconhecimento da culpa e do erro. 

Há muitos detalhes neste filme que também remetem à Catherine Clément, que percebemos de onde vem, como por exemplo, ela gosta de falar das vacas sagradas da Índia, foi viver na Índia, mas sua mãe já era uma Hinduísta e dizia que queria renascer como uma vaca, mas uma vaca indiana, sagrada, pois assim não teria que ter medo de ser morta. 

Também a questão de não falar, de acreditar que assim se protege o outro, mas não é possível, a herança psíquica está ali, e vai vir a tona, o recalcado sempre retorna. 
  


Amos Gitaï nasceu em 1950 em Haifa, Israel. 

Jerome Clément 
Catherine Clément 

domingo, 14 de dezembro de 2014

FILME: MORTE NO AMOR - 2008



Direção: Boaz Yakin - 2008
Duração: 97 min 

Título original: Death in love 

O Filme tem algumas cenas fortes, e no começo é confuso, porém deve ser visto não como uma sequência, pois trata-se de mostrar a herança psíquica nos filhos de pessoas que passaram pelo horror dos campos de concentração. 

Uma mulher judia (Jacqueline Bisset) que esteve presa num campo de concentração é mãe de dois filhos (Josh Lucas e Lukas Haas), ambos problemáticos e com questões sérias, como o mais mais jovem que não consegue se afastar de casa, é totalmente dependente e se agarra à mãe, tem problemas de alimentação e é autodestrutivo, inclusive fisicamente. O mais velho tem questões sexuais e de amor. 

A Mãe quando jovem foi deixada para trás por seus pais que fugiram. A oportunidade para fugir era apenas para dois, e o pai decide que é a esposa e a filha, mas a esposa se nega a ir sem ele, e então deixam a filha, que acabara presa num campo de concentração. Ela é uma das escolhidas para participar do programa de experiências médicas, e as cenas do filme são chocantes. Ela está aterrorizada enquanto caminha para a sala onde o médico a espera, e quando entra ela sorri para ele que lhe pergunta porque está sorrindo ao que responde que nunca viu um homem tão bonito. 

O médico se envolve com ela e a coloca sob sua proteção. Ela se apaixona por ele, mas aqui temos uma questão que é a do amor ao agressor, a introjeção do mesmo, o que é muito bem mostrado no filme O porteiro da Noite que já postei no blog. Não é um amor, é doença. Mas ela nunca mais o esquecerá. 

Anos depois quando seus filhos estão adultos vemos que ela continua tendo crises sérias, ela ficou marcada e traumatizada, e toda esta herança psíquica passou para seus dois filhos. O filho mais velho gosta do sexo violento, com sadomasoquismo, mas está perdido em sua vida, diz que na verdade não temos nada para dar ao outro, no que ele tem razão, mas não consegue construir nada também. Ele não consegue amar. Nenhum deles consegue amar, a começar pela mãe que se ilude ao pensar que sempre esteve apaixonada por seu agressor. Ela nunca se libertou do horror que viveu, e para sobreviver se entregou a isto sem mesmo se dar conta. O nazista também se envolve, e está atras dela, ambos não conseguem sair desta relação patológica. 

O filme O porteiro da Noite é melhor, mas neste aqui temos algo além, que é o que se passa aos filhos, que ignoram esta parte da história da mãe, mas mesmo assim sofrem as consequências. 

Para muitos o filme pode parecer confuso, chato, com excesso de cenas de sexo, e sem muito sentido. Mas se levarmos em conta o trauma de um campo de concentração e das marcas que ele deixa, e de como isto reflete na vida da pessoa e de seus descendentes, o filme nos surge de outra forma. É preciso levar em conta o inconsciente, e a sexualidade, a pele e o corpo. A mãe passa pelas experiências do médico, mesmo se tornando a "amante" dele, o que ele lhe dá em troca é comida e roupas, mas ela não passa de mais um objeto de experiências dele assim mesmo. Ela também viu o que se passava ali, os gritos, o medo. Ela foi abandonada pelos pais, e depois o médico quando foge na chegada dos russos. Experiências com o corpo e sexo, é isto que ela viveu no campo, e ficou marcada, mesmo que achando que está apaixonada, devido a introjeção do agressor. Não fosse assim, o que seriam as crises que ela tem e que aparecem durante o filme? A marca está no corpo, assim como seu número no campo, onde não tem nome, nem mesmo para o médico que a chama pelo número. 

Ele vai e volta no tempo, muda de cenários e situações, como se fossem as marcas, os traços do inconsciente. 

Boaz Yakin nasceu em 1966 em New York, EUA 

sábado, 29 de novembro de 2014

FILME: MOMENTOS ETERNOS DE MARIA LARSSONS - 2008


Direção: Jan Troell - 2008
Duração: 131 Min
Título Original: Maria Larssons Eviga Ögonblick

País de origem: Suécia 

Baseado na vida da avó da mulher do diretor, a primeira fotógrafa profissional da Suécia

Suécia - 1907

Maria Larssons (Maria Heiskanen)  ganha num bilhete de loteria uma câmera fotográfica. Seu noivo diz que ela devia dar para ele já que o dinheiro com que comprou o bilhete era dele, ela lhe responde que só a dará se ele se casar com ela, e eles se casam. Quem nos conta a história é uma de suas filhas, Maja. 

Esta história de amor logo logo se defrontará com a dura realidade da vida pobre e com um marido que começa a chegar bêbado em casa e se envolve com outras mulheres. Além disto ele é violento e várias vezes baterá em Maria que procura a ajuda de seu pai, mas tem que voltar para casa em função da moral da época que não permitia que uma mulher se separasse e ela teria que viver com Sigfrid ( Mikael Persbrandt) até que a morte os separe. 

Será uma vida difícil, mas Maria não desanima e lutará para manter seus sete filhos alimentados e tendo onde morar. Em determinado momento diante de uma situação difícil Maria tenta vender sua câmera ao fotógrafo da cidade, Sebastian (Jesper Christensen) , que ao invés de comprá-la a ensina a usá-la, e lhe dá o material que precisa dizendo que é uma penhora. Maria aceita. 

A partir deste momento ela olha o mundo pela lente da câmera e descobrirá coisas que não via antes. Este mundo lhe pertence e nada de toda tristeza, violência e pobreza pode invadir, nem mesmo seu marido. 

O filme retrata a vida das mulheres no início do século XX, sempre grávidas, trabalhando, limpando, criando filhos e sofrendo com as bebedeiras e violência dos maridos. Maria encontra em Sebastian um amigo, alguém que a ouve e que a compreende. 

Um dia Sigfrid perde a cabeça e tenta matá-la e acaba preso. Ao contrário do que todos esperavam, inclusive seus filhos, Maria não o deixa e faz de tudo para sobreviver. É quando ela começa a tirar fotos para ganhar algum dinheiro e assim acabará se tornando uma das maiores fotógrafas da Suécia, e a primeira mulher a sê-lo. 

Aos poucos a vida deles melhora, Sigfrid consegue abrir um negócio e seus filhos poderão realizar seus desejos de estudar. Eles mudarão para uma casa no campo. Maja também começará a tirar fotos. 

A vida de Maria não foi fácil, era cheia de tristezas e muita luta, mas ela conseguiu fazer o que era possível, e dentro disto achar algo que lhe permitia olhar o mundo de outra forma, e lhe dar alegrias e prazer. E isto é uma grande lição, ao invés de sonhar com o impossível, fazer aquilo que se pode, e transformar a vida em algo mais do que sofrimento. 


Jan Troell nasceu em 1931 em Limhamn, Suécia. 

Fotos de Maria Larssons 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: POR DENTRO DA MENTE MEDIEVAL - Conhecimento - 2008


Documentário da BBC 
Título original: Inside the Medieval MInd - Knowledge - 2008 

Sinopse da série: o especialista em Idade Média, Prof. Robert Bartlett, apresenta uma série que analisa a forma que o homem pensava durante a época medieval. Para os nossos ancestrais, o mundo parecia ser misterioso, até encantado, ver homens verdes, com cabeça de cães e seres estranhos era algo comum. O próprio mundo era um livro escrito por Deus. Mas à medida que a Idade Média aproximava-se do seu fim, ele se tornou um lugar para ser dominado e explorado. Série em 04 episódios.

São quatro episódios que no link abaixo estão juntos falando sobre o conhecimento na mente medieval.

No período que conhecemos como Idade Média, e não precisamos lembrar que se trata de uma divisão para facilitar os estudos, as ideias no Ocidente eram sufocadas pela religião, porém assim mesmo havia exploração, ciência, não condizendo com as trevas que alguns atribuem a este período.

O importante é compreender como era a visão de mundo das pessoas naquela época, muito diferente da atual. Eles tinham muitas visões de seres estranho, mas isto não é folclore, para eles era fato, verídico.

Na Catedral de Hereford existe um mapa mundi de 1300 feito sobre o couro de um bezerro onde o que vemos não é exatamente um mapa como o compreendemos hoje que nos indicaria os lugares e como fazer para ir de um lugar a outro, não era isto, este mapa mostra como eles imaginavam a terra. Jerusalém é simbolicamente o centro deste mapa, temos então 03 continentes, o oriente na parte de cima e a Europa e África na parte de baixo. Os locais são simbolizados por gravuras, como por exemplo a Rússia por um urso. Também temos neste mapa o tempo e o espaço, com imagens de Adão e Eva, da crucificação de Jesus, e também do futuro com o juízo final. O que se nota é que o natural e o sobrenatural coexistiam pacificamente.



Eles se utilizavam da lógica e da observação para ver a forma como as coisas encontram seu lugar num mundo inteiramente religioso. Para a mente medieval um fato podia ser ao mesmo tempo natural e sobrenatural, eles não faziam esta divisão. Um eclipse era ao mesmo tempo um fenômeno natural e um sinal divino.

Os bestiários é outra coisa maravilhosa daquela época. São livros escritos à mão com desenhos magníficos descrevendo a natureza, mas não como nós faríamos, pois a natureza não é vista de forma independente, e o que os seres representam é uma mensagem para o homem moral e espiritual.

Porém tem início o desencantamento do mundo. Surgem as primeiras Universidades que é talvez o maior legado da Idade Média para o conhecimento. Neste momento também temos as guerras cristãs e eles invadem Toledo na Espanha onde estavam os muçulmanos retomando-a. Toledo era um centro de artes e ciências com bibliotecas maravilhosas. Os europeus irão descobrir então Aristóteles que lhes era desconhecido e isto irá causar uma revolução intelectual, uma vez que os gregos buscam explicações para o universo que não incluem um Deus cristão que criou o mundo em sete dias. Para os gregos não houve a criação, e eles acreditam que o Universo sempre existiu e sempre vai existir. Obviamente que isto suscita uma reação cristã e é proibido ler Aristóteles sob pena de excomunhão. 

Será preciso São Tomás de Aquino para reunir tudo isto fazendo uso da razão dos gregos para explicar a revelação divina. Assim surge a Escolástica. 

Este encontro com o mundo muçulmano também trará outras informações e descobertas na ciência, na química, álgebra e principalmente os números arábicos, pois fazer somas com os números romanos não é algo fácil. 

Aos poucos se vai passando da contemplação maravilhada à consciência do domínio. O tempo que antes era medido por fatos irregulares diários, refeições, missas, marés altas e baixas, passará a ser medido de forma precisa através dos relógios mecânicos. 

Mas ainda há mais por vir. Quando entram em contato com os mongóis e a China e todo o conhecimento que este povo possuía. Marcos Polo um italiano escreverá sobre as maravilhas que viu, apesar de poucos acreditarem nele na época. E depois virá outro italiano, Cristóvão Colombo que descobrirá a América e pensará que chegou ao éden, ao paraíso. 

O interessante é notar que as indagações medievais como por exemplo sobre os anjos ocuparem um mesmo espaço ou não são as mesmas que a física quântica faz hoje. 

Sempre fui fascinada pela Idade Média, por seu imaginário, sua visão de mundo, suas construções, os livros manuscritos e os desenhos. Este documentário é muito bom e nos mostra um pouco de tudo isto. 




Robert Bartlett nasceu em 1954. É um historiador e medievalista inglês. Atualmente ocupa o cargo de Professor de História Medieval na Universidade de St. Andrews. É especialista em colonialismo medieval, culto dos santos e sobre a Inglaterra entre o século XI e XIV.

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR - UMA MULHER ATUAL - 2008



Direção: Dominique Gros - 2008 
Duração: 51 min 
Título original: Simone de Beauvoir une feme actuelle 


Documentário sobre Simone de Beauvoir com alguns apanhados de momentos de sua vida enfocando mais o período do pós-guerra, a guerra da Argélia, sua ida para os Estados Unidos, e principalmente seu livro O Segundo Sexo e sua autobiografia que ela escreveu em vários volumes.


Escolhi iniciar meu blog com Simone de Beauvoir devido sua forte influência em minha vida e formação intelectual quando eu tinha 20 e poucos anos. Li toda sua autobiografia a começar por Memórias de uma moça bem comportada onde fala de sua infância até seu encontro com Sartre e a morte de Zaza, sua melhor amiga.

O documentário fala sobre sua militância política e suas posições a favor da independência da Argélia indo contra a vontade da França o que a colocou numa posição delicada perante os franceses, mas ela não recuou, era contra o colonialismo. Também se opôs a guerra do Vietnã. Na segunda guerra ela era contra os nazistas e os colaboradores, porém não encontrou uma forma de agir contra isto, o que não ocorre mais depois quando se manifesta, assim como Sartre.

Simone escreveu O Segundo Sexo que foi um dos marcos iniciais, senão o principal, do movimento feminista defendendo a liberdade da mulher. Ela dizia que uma mulher oprimida e em casa também oprime seu marido que ao invés de estar engajado irá ficar em casa e ver televisão, alegando desta forma que era de interesses políticos a manutenção da opressão. Sua famosa frase "Não se nasce mulher, torna-se mulher" ela irá estendê-la aos homens também, dizendo com isto que não é um destino biológico, mas social e cultural e que é possível romper e construir sua própria vida.

O Documentário também falara de sua vida amorosa, e traz a tona o fato de que ela e Sartre deixaram de ter relações sexuais depois de 7/8 anos juntos, mas mantiveram uma vida sexual ativa com outras pessoas. Se por um lado Simone irá se relacionar com mulheres para oferece-las à Sartre, por outro viverá um grande amor com Nelson Algren, um escritor americano. Terá também relacionamentos amorosos com Bost e Claude Lanzmann.

São feitas leituras de suas obras, escritos, cartas, mas ela também surge no documentário falando. Pela primeira vez vi Simone com os cabelos soltos e pude perceber uma beleza que ainda não havia notado, uma vez que normalmente suas fotos ela está de turbante ou com um coque. Há uma beleza delicada em seu rosto com os cabelos soltos.

Ela sempre dizia que se devia dizer tudo, toda a verdade. Acreditava que podia encontrar a verdade, o que eu pessoalmente não acho possível. Não se constrangia para dizer ao outro tudo, mas esquecia que o outro nem sempre se sentiria bem com isto, da mesma forma que ela reconhece que o acordo que ela tinha com Sartre e que faria com que nunca se separassem havia esquecido o outro, e isto trouxe sofrimento, principalmente para Nelson Algren e para algumas mulheres na vida de Sartre.

Simone também escreveu sobre a Velhice. Quando ela se viu diante deste momento opta por então apreender tudo sobre isto e ficará chocada com o que vai ver e depois escreverá em seu livro.

Seu pior momento foi a morte de Sartre. Foi internada e muitos acreditaram que ela não sobreviveria, mas ela conseguiu e retomou a vida. A vida que quando jovem ela pensava que a tinha toda para viver, para descobrir na velhice que ela não é algo que temos, mas algo que passa.

Foi uma filosofa existencialista e foi uma grande pensadora. Escreveu romances onde se expunha de outra forma, escreveu sobre sua vida e escreveu livros sobre a Mulher, a Velhice que foram marcos iniciais em grandes mudanças que  teriam início e continua atual, pois ainda não podemos dizer que a mulher atingiu sua emancipação, e nem podemos dizer que os velhos são considerados como pessoas sábias que merecem todo o respeito, e que são capazes de decidir e também de desejar.


Assista: http://tvhumana.com/2014/05/28/selecao-humana-simone-de-beauvoir-pensadora/

Dominique Gros nasceu em 1951 na França. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

FILME: AMOROSA SOLEDAD - 2008



Direção: Martin Carranza e Victoria Galardi - 2008
Duração: 82 min

Soledad (Inés Efron) acaba de ser deixada pelo noivo e está sofrendo com isto. Ela toma uma decisão de passar pelo menos três anos sozinha sem se envolver novamente, tem medo de sofrer e diz que precisa deste tempo, mas logo logo ela vai descobrir que viver sozinho e estar sozinho não é a mesma coisa e não é tão simples assim, ainda mais para uma mulher instável, um tanto neurótica e principalmente hipocondríaca, pois ela está sempre sentindo dor no peito, dor no ombro, enjoos, ou seja, remete para seu corpo o que sua alma sente. 

Ela é toda atrapalhada vivendo sozinha, o vaso sanitário entope e ela ao invés de chamar um encanador após tentar desentupi-lo sem sucesso opta por transformar o vaso numa mesinha com um cactus e uma vela em cima. Fecha a porta e esquece a chave dentro, não consegue abrir o fecho do vestido e dorme com ele até poder pedir ajuda ao porteiro no dia seguinte. 

Ela chora a toa em momentos onde não deveria e tenta ser forte na questão da perda de seu noivo. Tem outras manias, como pedir para colocar o tomate do sanduíche separado num saco plástico que tira da bolsa e entrega a garçonete. 

Mas mesmo assim o filme é gostosinho, principalmente se o olharmos por este lado desta mania por doença da Soledad. Ela compra um aparelho de pressão e diz que é bonito (para usar no pulso como se falasse de uma pulseira) e acha o termômetro na vitrine mais bonito que o que ela comprou uma semana antes. Vive indo ao plantão médico por alguma coisa que sente, fica apavorada quando sua mãe vai colocar silicone nos seios em um local que ela acha impróprio e sem estrutura, afinal não tem ambulância nenhuma ali, quando cuida da filha da vizinha inventa um jogo com sintomas de doenças que a menina tem que adivinhar.  E finalmente parece que aprova seu novo namorado por ele morar bem ao lado de um belo hospital. 

Ricardo Darín faz uma aparição relâmpago como o pai de Soledad, nada que se possa incluir seu nome no elenco. 



Martin Carranza e Victoria Galardi 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILME: VICKY CRISTINA BARCELONA - 2008


Direção: Woody Allen - 2008
Duração: 96 min

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas íntimas americanas que viajam para Barcelona para passar três meses de férias em casa de amigos de Vicky. Apesar do forte elo de amizade elas tem visões opostas sobre a vida e o amor. Vicky estuda a cultura catalã para seu mestrado e Cristina busca algo na vida, ela só sabe o que não quer. Enquanto Vicky está prestes a se casar, Cristina busca o amor e acaba de rodar um curta sobre como é difícil definir o amor. 

Numa exposição de pintura elas avistam o pintor Juan Antonio (Javier Barden) e Cristina o acha interessante. Logo ficam sabendo que ele acaba se se separar de sua mulher Maria Elena (Penélope Cruz) de forma meio violenta, ela tentou matá-lo. Mais tarde reencontram o pintor num restaurante que as convida para um fim de semana em Oviedo. Cristina se empolga de imediato, mas Vicky tenta ser racional, principalmente depois que ele inclui no convite fazer amor, mas acaba indo. A partir deste momento muitas coisas acontecerão que irão mudar estas férias e farão as duas pensar muito sobre a vida e sobre o que desejam. 

Vemos várias pessoas que tem uma vida boa, com possibilidades de viagens, prazeres, luxo, belas casas, decorações bonitas, lugares belíssimos, e ainda assim a cada uma delas falta algo. Também percebemos a questão da sexualidade, o convite inicial do pintor que inclui sexo com as duas, a amiga de Vicky que tem um amante, mas tem medo de se separar, o pai de Juan Antonio que confessa que ainda tem sonhos eróticos com a ex-mulher do filho, e por aí vai. 

Fica notório a diferença entre a América e a Espanha, e nos parece bem mais saboroso, mais quente, mais viva a Espanha, pelo menos foi o que eu senti, uma vez que entre uma vida cheia de normas, enquadrada, com casas bonitas com quadras de tênis, computadores, tecnologia e uma vida com a música que toca o corpo, vinho, belezas naturais, pintura, e casas diga-se de passagem, maravilhosas, as ruas alegres e coloridas, é claro que o filme nos passa uma Espanha bem mais colorida do que a América. Mas mesmo assim as pessoas que ali vivem estão em busca de algo que Vicky descobre também sentir. 

No fundo o que eles não sabem é viver com a falta, e isto aparece quando Maria Elena diz que ama Juan Antonio e esta a ela, mas não conseguem viver juntos porque falta algo para o equilíbrio do amor e considera Cristina como este algo. Tamponando a falta tudo funciona. Será? será que Cristina conseguirá ser a falta do outro? e ela mesma? suas faltas? 

Juan Antonio não consegue lidar com a perda, de certa maneira ele está enroscado na relação neurótica com Maria Elena, ela é impulsiva, passa ao ato de imediato, não consegue parar para pensar ou analisar algo,e ele se considera o elo entre ela e o real. Mas sem ela quem se perde é ele, precisa de alguém com ele. 

Um filme muito bom, que propõe muitas interpretações, a cada um sua maneira de ver o filme e o compreender e sentir. 

Woody Allen 

BELÍSSIMA TRILHA SONORA 


Giulia y los Tellarini - Barcelona

Paco de Lucia - Entre dos aguas

Juan Serrano - Entre Olas

Juan Serrano - Gorrion

Juan Quesada - Asturias 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

FILME: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - 2008


Direção: Fernando Meirelles - 2008
Duração: 120 min
Título original: Blindness 

Baseado no romance homônimo de José Saramago

Aos poucos uma estranha cegueira chamada "cegueira branca" por deixar as pessoas vendo apenas uma superfície leitosa vai tomando conta de todos os moradores de uma cidade. Inicia com um motorista no trânsito e vai avançando e se espalhando.

O medo toma conta, a paranoia e começam a isolar as pessoas afetadas que acabam sendo deixadas à própria sorte. Porém, uma única mulher (Julianne Moore), esposa do médico oftalmologista (Mark Rufallo) não fica cega, mas para não deixar seu marido sozinho, ela finge estar cega.

Ao se darem conta que estão abandonados os internos começam a lutar por suas necessidades básicas, e os piores instintos e pulsões irão aparecer. As máscaras civilizatórias caem, e tudo aquilo que uma cultura e educação reprime surge. Um dos internos se proclama rei e é ajudado pelo único ali que é realmente cego, irão exigir dos outros que seus desejos sejam realizados.

A cegueira branca, ou seja, o que não enxergamos na vida, ou o que não queremos enxergar, o pior de cada um de nós que só vemos no outro. A mulher que enxerga ainda é uma representante da luz, da civilização, mas até ela, ao ver o que não quer sucumbe. É preciso reaprender a viver, a enxergar as coisas como elas são e não como desejamos que sejam.

É um viver sem moral o que acontece no sanatório, mas é justamente quando se defrontam com o real é que surge a possibilidade de reconstruir algo. Talvez seja otimismo demais, mas não deixa de ser uma tentativa.


A reação de Saramago ao filme 

Fernando Meirelles nasceu em 1955 em São Paulo, Capital.