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quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: A INFÂNCIA DE JESUS - J.M. COETZEE



COETZEE, J.M. Companhia das letras, 1ª Ed. 2013
Tradução: José Rubens Siqueira
304 páginas. 

A SOCIEDADE IDEAL, ETERNA UTOPIA.

Uma sociedade ideal, Novilla, onde as pessoas não tem mais desejos, pulsões, tudo é controlado, não há emoções, não há sexualidade, nem erotismo. Só há uma língua, o espanhol que todos devem aprender. Quando se chega ao local é preciso esquecer tudo, você não tem mais história ou passado. É um local para recomeçar tudo, e sem ter que sofrer. As pessoas são renomeadas, recebem uma moradia e um emprego. Chegam ali os recém nomeados: Simon um homem de meia idade e David um menino.

Uma sociedade perfeita, mas onde nada acontece. Tudo é previsto, não há sentimentos, paixões, sem conflitos. Lendo é que se percebe o quanto seria monótono uma vida assim, sem sabor, sem sal. As pessoas sonham com uma vida assim, onde não se sofre, onde não haja conflitos, mas isto seria deixar de viver.
Uma única língua, me lembra a tentativa com o Esperanto, mas que não funciona, pois uma língua traz em si toda uma cultura e um jeito de falar e de se expressar. Ao se colocar uma única língua se limita as trocas, e a sociedade não muda.

A alimentação é suficiente, mas de poucas opções, sem o prazer da comida, os sabores. As moradias são bem parecidas, poucos móveis, pouca roupa, tudo é regulado. Estamos diante da apatia.

É contra tudo isto que Simon e David irão se rebelar e lutar contra. Simon pensa em comidas, fica atônito diante da frieza das mulheres, não compreende que as pessoas não queiram fazer nada para melhorar ou mudar algo. Ele já não sabe o que fazer, como se comportar e aos poucos vai até se acomodando, mas não David.

E é aí que talvez vamos ter uma boa nova! Além de paralelos que surgem rapidamente com a vida de Jesus durante toda a obra. É Davi que vai questionar e não aceitar a ordem das coisas, ele quer mudanças.

Então talvez compreendamos que recomeçar tudo de novo é justamente fugir do conhecido e fazer algo diferente dos outros. É enfrentar a vida com todos seus sabores e dissabores.

Esta sociedade também me lembra muito os modelos totalitários e o livro 1984. Da maneira que o mundo se conduz hoje, sem ao menos perceber, estamos ficando cada vez mais iguais, pois consumimos exatamente as mesmas coisas, só compramos o que está em evidência ou é ofertado pelo marketing e pela mídia, nos comportamos como esperam que o façamos do contrário somos excluídos, não é de bom tom, não é politicamente correto. A cegueira vai tomando conta, e fico muito assustada a cada vez que vejo uma fila se formando na noite anterior diante de shoppings para comprar o mais novo lançamento tecnológico que será vendido no dia seguinte. A cada vez que me criticam por que meu celular é do modelo antigo, apesar de funcionar muito bem ainda, e que vou ter que trocar quando não puder mais usar pois não será mais compatível com a tecnologia atual, ou seja, sou obrigada a fazê-lo. A cada vez que entro numa livraria e nunca encontro um livro que não esteja na lista dos mais vendidos e tenho que recorrer ao sebo e as pessoas me olham de forma estranha por estar procurando este tipo de livro e não aqueles de auto ajuda ou os últimos lançamentos.

A história se passa no mundo atual, mas é como termos um novo messias que venha nos ensinar a ver as coisas de outra forma, por que por incrível que pareça, ainda precisamos de um messias, um líder, ou da mídia, só que o primeiro tenta nos fazer enxergar, enquanto que os outros tentam nos fazer viver em Novilla.



J.M. Coetzee é um escritor sul-africano. Nasceu em 1940 na Cidade do Cabo e recebeu o Nobel de Literatura em 2003.