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segunda-feira, 30 de março de 2015

LIVRO: O TODOMEU - ANDREA CAMILLERI



Camilleri, Andrea. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
140 páginas
Tradução: Ana Maria Chiarini
Título Original: Il Tuttomio

Estou impressionada com este livro. Não sei dizer se o que ocorre no Todomeu, um lugar oculto no sotão da casa de Giulio e Ariadne que ela usa como um refúgio secreto onde mantém uma boneca como sua única amiga e confidente, é fantasia, realizações inconscientes do desejo de vingança ou se é real. 

A história de Ariadne nos é apresentada em vários tempos, o passado e o presente, e aos poucos vemos que ela sofreu abusos sexuais em sua infância e adolescência. Quando criança ela tinha uma caverna para se refugiar que chamava de Todomeu que recriou depois no sótão da casa onde vivia com Giulio, seu marido, bem mais velho do que ela e que havia sofrido um grave acidente transformando-o num eunuco. 

É uma brilhante descrição do psiquismo de uma mulher que sofreu abusos na infância e que permanece aquela criança apesar de haver crescido e se tornado uma bela mulher. Ela ainda faz xixi na cama, faz manhas, adora ver desenhos na TV, como Tomy e Jerry, se lambuza para comer. Giulio se encanta com este lado. Devido ao acidente ele não pode satisfazê-la sexualmente e por isto decide que todas as quinta-feiras ela irá se encontrar com um homem. Um jogo muito perigoso, ainda mais que Ariadne traz marcas da infância de abusos, o que Giulio não sabe e que lhe deixa um desejo de ser amada sem poder sê-lo, mas também o desejo de vingança, é o ódio-amor. 


segunda-feira, 24 de março de 2014

LIVRO: SEM MEDO DE FALAR - Relato de uma vítima de pedofilia - MARCELO RIBEIRO



Ribeiro, Marcelo. Paralela, 2014 - 1ª edição
197 páginas

Um relato corajoso e franco sobre o que é ser uma vítima de abuso sexual infantil e de como o pedófilo costuma assediar, aliciar, seduzir sua vítima passando despercebido de todos. Todos os pais deveriam ler este livro, todos nós devemos ler este livro.

Marcelo relata a dor, o trauma que sofreu, trauma este que não é apenas a sua integridade física que foi abusada, mas também moral e psicológico. Os efeitos que atuam e que não são percebidos, o que é passado ao outro sem que a vítima tenha percepção, desencadeando uma cadeia muito maior de afetados. Ele também demonstra como um pedófilo, termo psicológico, e que trata de uma pessoa que está doente, que tem sérios problemas e distúrbios também, de comportamento moral, sexual, e afetivo.

É de extrema importância que livros assim sejam escritos, divulgados, pois se trata de um crime que se repete, mais comum que a maioria das pessoas imagina ou supõe, e que infelizmente prescreve, o que não deveria acontecer, uma vez que uma vítima de trauma de abuso sexual na infância levará anos para conseguir falar, se falar, enquanto que seu agressor continua com seus abusos com novas vítimas.

Por que a criança não fala? ele tenta responder a questão que é extremamente difícil, pois nem o abusado sabe direito, mas o mais evidente é o medo, a vergonha, e o fato de que de alguma forma sabe que aquilo não é certo, mas ainda não tem conhecimento sobre o sexual. Marcelo vai além, ele fala sobre a questão da repulsa/atração, não como duas coisas opostas, mas que ocorrem simultaneamente, e isto é de difícil compreensão uma vez que vivemos numa sociedade que aprende a falar e pensar através dos opostos, dos contrários e que divide as coisas, como o bem e o mal, o amor e o ódio, a atração e a repulsa, o fascínio e o nojo. Acontece que estes pares são muito mais que o verso da mesma moeda, eles podem ocorrer juntos, ao mesmo tempo, e isto reflete no corpo, na mente, sem obter resposta, criando angústia.

A resposta da sociedade e dos outros, quando a vítima fala, geralmente não acreditam, ou acham que é um desabafo, ou pior, a mulher é acusada e o homem é tratado como maricas. E eis aí mais um motivo de vergonha para a vítima e uma forma de isentar o culpado que se sente poderoso e seguro.

Muitos pensam que é um trauma que após falar, desabafar passa, tem que tocar a vida, mas nada mais longe da realidade da vítima, é todo um processo, quando é possível atingir uma cura. A vítima precisa de muito amor, confiança, acolhimento, para poder transformar isto. E mais ainda para poder compreender o agressor, o que não significa que o isenta, ao contrário, é o momento que o responsabiliza. Como isto geralmente ocorre muitos anos depois do abuso, a lei não permite que seja denunciado, e mais, a lei exige o flagrante, e isto é impossível em quase todos os casos.

Os pais devem ler, estar atentos, perceber, a criança apresenta mudanças de comportamento, se afasta dos outros, está aterrorizada com o fato de alguém descobrir, assustada, e o agressor geralmente está muito perto, faz parte da família, da escola, da vizinhança. Geralmente alguém que a criança respeita, admira, sente afeto por ela.

Marcelo foi vítima do abuso por um maestro ,  o abusador geralmente é alguém respeitado na sociedade, e justamente por isto, isento de críticas, e caso a criança consiga falar será desacreditada, e será a palavra dela e a de alguém que é querido por todos.

Recomendo a leitura.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


Agualusa, José Eduardo. Editora Foz, 2012
176 páginas


Guerra Civil em Angola, independência de Portugal. Ludo, após o desaparecimento da irmã e do cunhado, ergue uma parede e se enclausura no apartamento com seu cachorro Fantasma, de onde sairá 30 anos depois. Ela tem medo, não confia na humanidade devido uma tragédia em sua infância.
Somente quando ela se perdoa pode novamente sair ao mundo e ser reconhecida e também reconhecer, e pede perdão a si mesma, à criança que ficou parada  em uma curva na infância.
Mas, apesar do seu isolamento, ao seu redor coisas acontecem, e sem que ela saiba ou queira isto, acaba fazendo parte de todas elas.

Há uma cena simbólica belíssima com o espelho, onde atrás dela há sempre o estranho e seu duplo introjetado, e a troca dos espelhos na casa irá permitir que ela abra a porta para a vida, livrando-se deste invasor. Ela diz então: Teria sido tão fácil abrir a porta! Mas ela só o faz quando já está velha, quase cega, e pessoalmente me pergunto se ela o teria feito antes, teria sido capaz? Ludo tenta se isolar do outro, tem muito medo do outro, porém quando abre a porta, as histórias, coisas que aconteceram no mundo convergem para sua porta, e então no que é possível, se esclarecem.