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segunda-feira, 8 de maio de 2017

FILME: EDVARD MUNCH - A vida do pintor de O Grito - 1974



Direção: Peter Watkins - 1974
Duração: 221 min
País de Origem: Noruega - Suécia

São 4 horas de duração que apreciei a cada minuto. A arte de Munch sempre me interessou e mesmo não sendo quadros que se poderia chamar de bonitos são de uma beleza imensa e intensa, retratando o interior do pintor, o que via e sentia. Acompanhamos toda a criação artística que reflete sua vida. Aliás o filme é considerado um dos melhores filmes já realizados sobre o processo de criação artística. 

Marcado pela infância que o persegue que o filme nos traz com constantes flash backs. Uma família puritana, a mãe morre quando ele era pequeno de uma hemorragia no pulmão. Neste momento antes de morrer ela o faz prometer que continuará seguindo e amando Jesus. Depois é a morte do mesmo modo de sua irmã Sophie. 

Os desencantos amorosos e com as mulheres que define serem de três tipos: a sedutora, a inocente e a mãe, mas que estão em uma só. 

O filme mostra sua trajetória e também um painel da história e dos artistas e intelectuais, escritores e filósofos. É o retrato de uma época onde os intelectuais se rebelam contra a burguesia e seus valores. Niilistas, anarquistas, Marx escreve "O Capital". A mulher e a sexualidade. 

A pintura de Munch é escura, melancólica, incomoda. Me lembram os quadros dos pacientes de Nise da Silveira. É o psiquismo que se projeta ali. Seu quadro mais famoso é "O Grito". 

Peter Watkins nasceu em 1935 no Reino Unido

06/06/16 

terça-feira, 24 de maio de 2016

FILME: NISE O CORAÇÃO DA LOUCURA - 2015


Direção: Roberto Berliner - 2015
Duração: 108 min

Após sair da prisão, foi presa por suspeita de ser comunista, Nise da Silveira (Glória Pires) volta a trabalhar em um hospital psiquiátrico, o Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II - Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela retorna quando está em voga os novos tratamentos com eletrochoques e a lobotomia. Assiste a apresentação de um psiquiatra que demonstra com um paciente os efeitos do tratamento com choques. Aquilo a choca profundamente e é incapaz de aceitar isto. Por isto a única opção que lhe resta é o Setor de Terapia Ocupacional que é de responsabilidade dos enfermeiros. 

Ela encontra um ambiente desolador, bagunçado e sujo. A primeira coisa que faz é limpar e organizar o lugar. Apresenta aos médicos sua proposta, uma vez que eles são os responsáveis pelo tratamento dos internados, e não há receptividade, mas mesmo assim alguns pacientes lhe são encaminhados. É o início de uma nova maneira de se tratar a doença mental, tratando ao doente de forma digna e humana. 

Nise irá lutar com a resistência dos médicos que se baseiam muito mais no organismo, o cérebro, sem levar em conta a afetividade, as relações humanas. Até hoje a ciência foca no organismo e não no psiquismo, visto a utilização de remédios para "curar" a depressão, a ansiedade, ou qualquer outro transtorno. 

A incapacidade de enxergar os resultados, considerar isto como ocupação e não um tratamento, olhar para os desenhos e pinturas e não ter a sensibilidade de captar o simbólico que está ali no lugar da palavra. A necessidade da paciência e da observação do psiquiatra e deixar o cliente como Nise passa a chamar os internados livre para fazer o que deseja, é mais fácil os eletrochoques, a lobotomia, os remédios. O caminho da melhora e da cura é longo para aquele que está na escuridão de sua mente, de seu psiquismo, cindido, e tentando um contato com o mundo a sua volta. O psiquismo sempre procura se recompor, e é isto que ocorre nos sonhos, nos desenhos, nas pinturas, nas esculturas. Nise acompanha cada um na sequência do que vai produzindo, é ali, nesta trajetória que ela lê e compreende o que se passa, percebe a melhora, as tentativas de falar. 

Os que participam do projeto de Nise aos poucos melhoram, alguns chegam a voltar para suas casas, sua família, a agressividade diminui, o distanciamento diminui. É lamentável a falta da compreensão do hospital com os animais, cães encontrados na rua que são dados aos clientes para que cuidem deles, levando a uma crueldade de matá-los por envenenamento. Um dos internos surta neste momento, e será feito uma lobotomia nele. 

Um famoso crítico de arte verá as obras e ficar impressionado. A partir deste momento será levado ao público esta produção, mas Nise nunca permitirá a venda delas, pois ali não se trata de uma obra para venda, mas todas tem seus significados psiquiátricos, e devem ser vistas no conjunto. 

Entre os que se destacaram artisticamente estão Adelina Gomes (Simone Mazzer), Carlos Pertius ( Julio Adrião), Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Lucio (Roney Villela), Otávio (Flávio Bauraqui), Raphael (Bernardo Marinho)  e principalmente Emygidio de Barros (Claudio Jaborandy). 

O filme foca no tratamento pela arte que Nise desenvolve apoiada em Jung, principalmente devido as mandalas que os internos desenham. Nise é uma mulher admirável, e por sorte, teimosa, persistente, diante dos médicos todos homens, machistas, e da sociedade que até os dias atuais tem medo do que chamam de loucos, e tem preconceitos com doenças mentais. 


Roberto Berliner nasceu em 1957 no Rio de Janeiro.

sábado, 14 de maio de 2016

FILME: ROMERO - 1989



Direção: John Duigan - 1989
Duração: 102 min
País de Origem: Estados Unidos

O filme Romero nos mostra a situação de El Salvador em 1977 frente a uma crise de poder em um país onde o povo vive na miséria. A igreja se mantém distante alegando que é a vontade de Deus, o que gera o conformismo e a alienação, conforme Marx já nos alertava. Porém alguns padres não concordam com isto e se aliam ao povo acreditando que seria o que Jesus teria feito e alegando que no fundo a Bíblia é revolucionária. A situação piora, os militares ganham a eleição, como ocorreu em vários países da América Latina neste período, e passam a eliminar os que se opõem a eles, baseando-se supostamente na lei e na ordem a serem mantidas e na garantia da perpetuação do capitalismo, que beneficia os ricos e mantém o povo na pobreza. Romero (Raul Julia) que no início era visto como o padre certo para ser o arcebispo devido sua pacificidade, diante do que vê começa a repensar sua posição e começa a lutar pelo povo seguindo o preceito que a fé exige que se mergulhe no mundo e que a igreja se identifica com os pobres. Acaba assassinado em 24 de março de 1980. 
Esta é uma situação que se repetiu em outros lugares, no Brasil temos vários padres que também lutaram contra a ditadura ajudando ao povo, aos familiares dos desaparecidos, falando em nome da paz e do amor.

Romero vivia voltado para a reflexão, leituras, e acreditava na paz, porém ao entrar em contato com a realidade de eu país e dos pobres que sofriam, ao perder para a ditadura amigos como o Padre Rutílio Grande (Richard Jordan) assassinado, ver outros serem torturados, ele começa a mudar sua posição e a lutar contra o governo militar. 

A situação de El Salvador é a mesma de inúmeros outros lugares que passaram e passam por um regime ditatorial, porém adepto do capitalismo. A aristocracia almeja viver como os americanos e para isto explora os pobres. Romero acredita que a igreja se identifica com os pobres, diz que a fé exige que se mergulhe no mundo, se torna um adepto da teologia da libertação. 

Sou a favor de um Estado laico até mesmo para ser justo com todos os que vivem no país garantindo a liberdade de cada um por optar ou não por uma religião. Porém a igreja não precisa ficar isenta do que se passa no país, deve defender aquele que está desamparado, com medo e que busca um apoio, um consolo por sua situação e uma luz para sair de sua atual situação.

Diante disto se pode dizer então que a igreja não pode estar separada do Estado e deve intervir, mas podemos também pensar que a igreja em seu papel espiritual e formadora de sentidos deve acolher as pessoas diante de suas dificuldades, dores, desespero, medo, mortes, pobreza, sem com isto se imbuir na política, mas sim, agindo ao lado do povo, uma vez que a igreja se identifica com os pobres seguindo o exemplo de Jesus, neste caso específico por se tratar da igreja católica no filme.
  


John Duigan nasceu em 1949 em Hartley Wintney, Reino Unido. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

FILME: GRACE DE MÔNACO - 2014


Direção: Olivier Dahan - 2014
Duração: 103 min
Roteiro: Arash Amel 
País de Origem: Estados Unidos - França

Cinebiografia da princesa de Mônaco, Grace Kelly, em um período conturbado para o principiado de Mônaco que estava em conflito com De Gaulle, então presidente da França.

Quando a atriz Grace Kelly casou-se com o Príncipe Rainier III de Mônaco em 1956 parecia um verdadeiro conto de fadas, o que sempre sucede quando uma pessoa que não é da realeza alcança este sonho, como outro exemplo, a Princesa Diana na Inglaterra. 

Mas a realidade nem sempre coincide com o sonho, e o filme começa num período onde Grace( Nicole Kidman) já mãe de dois filhos, não está feliz com sua vida repleta de cerimonial e posturas necessárias a sua posição de princesa. Ela então recebe um convite de Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths) para voltar as telas de cinema, porém seu marido Rainier (Tim Roth) é contra, apesar de deixar a ela a escolha. 

Além disto o momento é delicado, Rainier sofre pressões do então presidente da França, Charles De Gaulle (André Penvern) que decide cobrar impostos de Mônaco ou retomar o principiado como território francês. Grace que havia decidido aceitar voltar ao cinema terá que rever sua decisão. Com a ajuda de seu melhor amigo e o único em quem confia, Francis Tucker (Frank Langella) ela irá operar uma mudança em si mesma em prol de seu marido e do principiado. 

O filme é uma ficção, apesar de vários fatos serem reais. Vale para um momento de descontração. O filme fica longe do La Môme sobre Piaf do mesmo diretor.


Olivier Dahan nasceu em 1967 em La Ciotat, França


A família com seus três filhos 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

FILME: CHRISTINA NOBLE - 2014


Direção: Stephen Bradley - 2014
Duração: 100 min
País de Origem: Irlanda

Cinebiografia de Christina Noble

O filme retrata a vida de Christina Noble desde sua infância pobre e difícil na Irlanda, quando sua mãe faleceu e o pai um alcoólatra não consegue cuidar dos filhos. A pequena Christina (Gloria Cramer Curtis) cantava muito bem, e isto a ajudava a ganhar um pouco de dinheiro para comprar comida. Porém o inspetor da escola que sempre quis pegá-la nestes momentos a denuncia e a polícia vai buscar todos. O tribunal decide que cada um irá para um orfanato diferente, demonstrando a total falta de sensibilidade da justiça irlandesa. A criança não se dará por vencida, tenta uma fuga mas não é bem sucedida, depois acaba aceitando sua situação.

Quando jovem ( Sarah Greene) ela sai do orfanato e vai ao encontro do pai que a engana para ficar com o único dinheiro que tinha dado pelas freiras para iniciar sua vida. Ela acaba dormindo em um parque que fecha a noite e consegue um trabalho numa lavanderia. Em uma das noites que retorna o parque é estuprada. Desta violência nascerá Tomas, num abrigo para jovens dirigido por freiras. Como é conhecido esta questão, inclusive é do que trata o filme Philomena, as freiras dão a criança para adoção. Christina nunca mais encontrará este filho.

Ela parte para Londres com uma amiga onde conhece seu futuro marido, porém este casamento que parecia finalmente ser um porto seguro, um lugar de paz, se transformará em violência doméstica. Finalmente ela se separa e vai embora com os dois filhos. 

O filme nos mostra simultaneamente a vida de Christina (Deirdre O'Kane)  já uma mulher madura, que vai para o Vietnã por causa de um sonho que teve. Ela não sabe o porque desta viagem, até que se dá conta de inúmeras crianças na rua, abandonadas, com fome. Principalmente o encontro com duas meninas órfãs que procuram comida no lixo a remeterá ao seu passado. Ela acolherá as meninas e cuidará delas. É então que percebe o que lhe reserva a vida, a mão que lhe faltou na infância ela decide dar aos outros, e desta forma dá início a um trabalho imenso onde se transformará na Mama Tina para milhares de crianças.



Ao conhecer um orfanato particular Christina irá se empenhar em conseguir verbas para melhorar e aumentar o mesmo. Não será uma tarefa fácil, ela terá que conseguir uma permissão de trabalho que lhe é concedida por 03 meses, e neste tempo mostrar que foi capaz de fazer algo. No último dia ao ir para o aeroporto Gerry ( Brendan Coyle), empresário de uma petroleira,  lhe avisa que ela conseguiu a verba.

É o início de um imenso trabalho que Christina fará pelas crianças abandonadas. Ela desenvolverá mais de 100 projetos no Vietnã e na Mongólia. Hoje são seus filhos que administram isto. 

Um exemplo de coragem, determinação e amor.

Christina Noble 

Stephen Bradley é um diretor, roteirista e produtor irlandês

terça-feira, 24 de novembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: IRIS - 2015


Direção: Albert Maysles - 2015
Duração: 76 min
País de origem: Estados Unidos

Documentário sobre Iris Apfel

O documentário nos fala da vida de Iris Apfel, designer e um ícone de estilo na moda, mas o que realmente é interessante é ver esta mulher de 93 anos ativa, criando e vivendo. 

Ela criou um estilo próprio, chamado de fashion atualmente, excêntrico antes, mas que no fundo nos mostra que a moda é algo que se cria para si mesmo, é ter um estilo do qual você gosta e se sente bem, ou seja, é usar roupas que são sua pele, sua cara. 



Utilizando um pouco de tudo que ela garimpa em vários lugares ela vai compondo um visual, mistura, compõe, é pura arte. Uma colecionadora, possui muitas roupas de época, trajes, e objetos que aos poucos vai doando a museus em sua velhice. 



Pouco conhecida no Brasil é um ícone fora daqui, casou-se com Carl Apfel em 1948 e que completou 100 anos durante a filmagem, vindo a falecer em agosto deste ano, eterno companheiro, sempre juntos. 

Mas o filme vai além deste enfoque de moda e estilo, ela nos fala sobre o que pensa da vida, do que é considerado belo, e mostra que é possível sim criar e ter uma vida ativa e inspiradora aos 93 anos, mesmo levando em conta as limitações que o corpo nos coloca. 


Albert Maysles nasceu em 1926 em Dorchester, Boston, Massachusetts, EUA e faleceu em 2015 em Manhattan, Nova Iorque, EUA após as filmagens do documentário. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: SARTRE POR ELE MESMO - 1976


Direção: Pierre-André Boutang e Guy Seligmann - 1976
Duração: 187 min
Título Original: Sartre par lui même
País: França

O documentário nos mostra 03 horas de entrevistas com Jean-Paul Sartre respondendo a todas perguntas feitas sobre sua vida, sua obra, e seu percurso intelectual e político. Filmado em seu apartamento ou no de Simone de Beauvoir, estão presentes além dos dois, Jacques-Laurent Bost, André Gorz, Jean Pouillon, Marie Olivier, François Périer e Serge Reggiani. 



Sartre fala de sua infância com seus avôs, sua mãe, o casamento desta em segundas nupcias, sua vinda para Paris onde conhece Paul Nizan e em seguida Simone de Beauvoir, seus primeiros contatos com a filosofia e sua rejeição da psicanálise freudiana e do surrealismo em voga na época. Inicialmente Sartre não se interessa pela política, irá para Berlim em pleno nazismo e estudará a fenomenologia de Hegel. Será quando ficar preso num campo de prisioneiros que despertará para o mundo. Até este momento Sartre havia ignorado o nazismo, a guerra civil da Espanha, dedicando-se totalmente a escrita do "O ser o nada". Também publicou "A Náusea". 

Após escapar do campo de prisioneiros ele começa sua atuação política, inicialmente através do teatro, como a peça "As moscas" falando de forma simbólica sobre o regime de Vichy. Após a guerra sua obra se torna conhecida e célebre, o momento é oportuno, todos querem viver e esquecer a guerra. A França passa a respirar o existencialismo, é algo além da filosofia, se torna social. Sartre e Beuavoir fundam a revista "Temps Modernes", e passam a tomar parte ativa nos acontecimentos políticos, Sartre se torna um intelectual engajado, ativo. Ele fala sobre sua participação no partido comunista e sua saída, sobre a viagem à Cuba, sua militância sobre a questão da Argélia. Recusa o prêmio Nobel de literatura. E nos fala de maio de 1968.

O documentário é o percurso, a trajetória de vida de Jean-Paul Sartre e de todos os acontecimento políticos e sociais vividos por ele. Vale para conhecer além deste grande filósofo e escritor também toda uma época da história.

Pierre-André Boutang nasceu em 1937 em Paris e faleceu em 2008 na Córsega, França

Guy Seligmann 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MINISSÉRIE: SARTRE A ERA DAS PAIXÕES - 2006



Direção: Claude Goretta - 2006
Duração: 190 min
Título Original: Sartre: L'agê des passions 
País: França 

Trata-se de uma minissérie em dois episódios que reconstitui a atuação de J.P. Sartre entre os anos de 1958 e 1964.



Durante estes sete anos acompanhamos Sartre (Denis Podalydès) em seus debates filosóficos, literários e políticos, sua atuação contra a Guerra da Argélia, suas viagens à Cuba e à Rússia, sempre acompanhado de Simone de Beauvoir (Anne Alvaro).

O Filme também traz a vida mais pessoal de Sartre, como seus amores, principalmente neste período por Carla ( Maya Sansa), uma italiana que vivia em Paris e namorava Frédéric (Frédéric Gorny) que se engaja na militância contra a guerra da Argélia e por Lena (Nino Kirtadzé), uma russa. Suas viagens pela Itália, para onde iam praticamente todos os anos, muitas vezes acompanhados de Sylvie (Élisabeth Vitali). Também adentramos um pouco o mundo das editoras com a famosa Gallimard que publicou os livros de Sartre e Simone através das conversas de Sartre e Robert Gallimard (Carlo Brandt). As amizades, as discussões intelectuais, os livros, as impressões e a atuação de Sartre e Beauvoir na revista Os Tempos Modernos.

A todos que se interessam por Sartre e Beuavoir recomendo que assistam. Mas o filme também é um retrato da época, de Paris, da efervescência intelectual , da agitação política que já antecipava o maio de 68. 

Claude Goretta nasceu em 1929 em Genebra, Suíça

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: FOTÓGRAFO - 2015


Direção: Irena Pavlásková - 2015
Duração: 120 min
Título Original: Fotograf
País: República Tcheca

Não conhecia nada sobre o fotógrafo Tcheco Jan Saudek, mas ele me lembrou Lucian Freud, neto do psicanalista, que desenha e pinta também as pessoas que não correspondem exatamente ao ideal de beleza e de corpos magros que a sociedade nos impõe atualmente, e penso que isto é importante, pois a beleza está muito além destes estereótipos. 

A vida de Jan Saudek (Karel Roden) é centrada nas mulheres, desde as que pousavam para ele até as que a rodeavam em sua vida, o que nem sempre dava bons resultados para sua vida pessoal, uma vez que uma mulher quando se sente rejeitada ou trocada por outra é capaz de ser extremamente vingativa e é o que faz Líba (Marie Málková) se apoderando de tudo que ele possui. Jan apesar de lutar para tentar reaver seus bens e os negativos de suas fotos não se dá por vencido, e recomeça sua vida de artista e também de eterno amante das mulheres. 



Jan Saudek é filho de judeus e esteve num campo de concentração quando criança escapando por pouco das experiências de Josef Mengele, ele sobreviveu. Sua arte talvez reflita inconscientemente esta parte trágica de sua infância, quando conheceu de perto o horror, os limites humanos e a extrema magreza e fome. Ele tem uma percepção crítica e ácida sobre a sociedade que se finge de moralista enquanto em suas mentes são devassos e desejosos. 

Saudek é pouco conhecido no Brasil, mas é o mais importante fotógrafo da República Tcheca e reconhecido na Europa como um dos maiores fotógrafos. Ele tira fotos principalmente de mulheres gordas com um fundo marrom claro e depois as pinta à mão deixando-as com tons sépia e aparência do século XIX. Ele representa uma sociedade livre e erótica. 



Em suas palavras: "Para mim a diferença entre Arte e Pornografia é simples. Você pode olhar a Arte por uma eternidade, enquanto a pornografia você olha rapidamente e coloca de lado, porque tudo é explícito; não há mistério, a fantasia não tem espaço ali." 



Uma definição perfeita entre o real e o imaginário, e o amor e o sexo necessitam do imaginário e da fantasia. Sem o véu, o mistério, ele é como diz Saudek , algo que se olha rapidamente, ou nem se olha. 

Suas fotos são realmente impressionantes e interessantes.Fotografa modelos nuas ou vestidas, ou semi cobertas, captura cenas belas e estranhas, mas podemos ver em suas fotos algo como quando olhamos um homem ou uma mulher e o despimos mentalmente, ou imaginamos algo diferente do que está ali. É o imaginário, a fantasia atuando sobre o real. É o que desejamos fazer e não temos a coragem ou audácia para fazer, é o que desejamos ver. Seria como o que o inconsciente deseja. 

Coincidentemente ontem vi um artigo na internet sobre uma fotógrafa brasileira, Mariana Godoy, que também faz ensaios com fotos com mulheres gordas. Ela fiz que gosta e usa a palavra gorda justamente para combater a gordofobia. Já Saudek ao ser questionado sobre sua preferência por mulheres gordas e se isto estaria relacionado a sua passagem pelos campos e concentração o nega dizendo que gosta de mulheres gordas e que a maioria dos homens é assim, apenas não o admitem. 



Irena Pavlásková nasceu em 1960 em Frýdek-Místek, República Tcheca


Jan Saudek nasceu em 1935 em Praga, República Tcheca





segunda-feira, 13 de julho de 2015

FILME: MR. TURNER - 2014


Direção: Mike Leigh - 2014
Duração: 150 min
País: Reino Unido

Não conhecia o pintor J.M.W. Turner e fiquei literalmente encantada com a luminosidade de seus quadros.

Turner (Timothy Spall) é um pintor inglês impressionista. É fascinado pelas luzes e pelo efeito que produz sobre o mar, as cidades, nas paisagens.
Ele vive com seu pai William Turner (Paul Jesson) em Londres, tem duas filhas, mas não é casado, e está sempre renegando-as. Sua vida é dedicada a pintura. É interessante ver o procedimento de preparo de tintas que seu pai faz ou ele mesmo. Turner está sempre a procura de lugares onde ele possa vislumbrar a iluminação para projetá-la em seus quadros.  Não há muito para falar do filme, é necessário assisti-lo para compreender a beleza de seus quadros, compreender o que ele viu e depois pintou e que muitas vezes ninguém compreendia do que se tratava.


Ele tem uma senhorinha, Hannah Danby (Dorothy Atkinson) que mora na casa dele com a qual mantém relações sexuais, um pouco abusivo de sua parte, mas de qualquer maneira ela aceita, pois é apaixonada por ele, e cuida de tudo para ele.  Quando ele conhecer a Sra. Booth (Marion Bailey) e for morar com ela, apesar de manter seu atelie antigo, ela irá sofrer ao descobrir. A Sra. Booth será uma nova luz na vida de Turner após a morte de seu pai. 


O belo do filme é a maneira como Turner capta a natureza, as paisagens, e principalmente a luz. Como por exemplo, ao se deparar com uma locomotiva a vapor.



Seu atelie era um lugar que sempre precisava de luz, grandes janelas.



Seus últimos anos foram felizes ao lado da Sra. Booth. Ele compra uma casa em Londres onde eles passam a maior parte do tempo e onde ele virá a morrer.


Em uma ocasião lhe fizeram uma oferta milionária por todos seus quadros, ele, porém recusou, pois seu desejo é que sua pintura fosse vista por todos e ficasse exposta e não oculta na coleção de algum milionário. Sorte nossa!



Mike Leigh nasceu em 1943 em Welwyn, Reino Unido

Joseph Mallord William Turner - J.M.W. Turner nasceu em 1775 em Covent Garden, Londres, Reino Unido e faleceu em 1851 na mesma cidade. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: TESTAMENT OF YOUTH - 2015


Direção: James Kent - 2015
Duração: 128 min
Título Original:
País: Reino Unido

Baseado no livro autobiográfico homônimo de Vera Brittain 

Não conhecia nada sobre ela e ao procurar pelo livro também não encontrei nada traduzido no Brasil escrito por ela. Infelizmente ainda carecemos de muitas traduções. 

Trata-se da história da vida de Vera Brittain (Alicia Vikander) quando jovem até logo depois da Primeira Guerra. Seu maior desejo era entrar em Oxford, porém naquela época isto não era exatamente o que os pais sonhavam para suas filhas, queriam que elas se casassem, mas Vera dizia que não iria se casar. Precisou contar com a ajuda de seu irmão Edward (Taron Egerton)  para conseguir convencer seu pai a deixá-la tentar.

O filme inicia-se em sua juventude onde costumava nadar num lago com seu irmão e o amigo deste Victor (Colin Morgan) que se apaixonou por Vera. Roland (Kit Harington) também chega e justo num momento em que ela está enfrentando seu pai devido os estudos, pois ele havia comprado um piano, o que ela não desejava. Vera e Roland se apaixonarão. Ela é admitida em Oxford contras as expectativas, mas seu sonho de ir para lá com os rapazes é desfeito pela guerra. Ela irá sozinha.

É triste ver o entusiasmo que se apodera dos jovens diante de uma guerra, e se não for assim é devido uma questão do social, o que dizer aos amigos se você também não for, os três rapazes acabam indo para a guerra e Vera pelo desejo de também ser útil se torna enfermeira. Roland é o primeiro a morrer, seguido de Victor. Então Vera pede para ir para o front na França onde ela consegue salvar seu irmão já considerado morto, mas a guerra irá pegá-lo novamente. Os três morreram. Vera retoma seus estudos e inicia sua vida de pacifista, vindo a se tornar uma escritora mais tarde.

A guerra é algo que modifica totalmente a vida das pessoas, a juventude que se perde, a alegria de viver, é preciso se recuperar depois quando é possível. Algumas pessoas não conseguem aceitar, como a mãe de Vera (Emily Watson) que entra em crise porque a cozinheira foi embora, pela falta de alimentos para comprar, o que diante do horror do front não é nada.

O interessante é a vida desta mulher, que soube fazer da guerra uma causa, o pacifismo, e também de seu feminismo, a busca da liberdade da mulher, que naquela época era destinada ao casamento. Quando prestou os exames em Oxford para os quais estudou sozinha foi surpreendida por uma prova de latim, não sabia nada, mas não desistiu e acabou escrevendo em alemão. A coordenadora (Miranda Richardson) inicialmente a desprezou como uma filha mimada, mas acabou aprovando-a por verificar sua capacidade e originalidade. Vera novamente enfrentará esta questão com a chefe das enfermeiras que a julgava intelectual demais para isto, e conseguirá mostrar de que era capaz.

Vera Brittain 

Edward , Roland e Victor 

Vera Brittain 

Vera Brittain e Alicia Vikander 


James Kent