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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

LIVRO: NO PRINCÍPIO ERA O AMOR: PSICANÁLISE E FÉ - JULIA KRISTEVA



Kristeva, Julia. Verus, 2010
83 páginas
Título Original: Au commencement était l'amour: psychanalyse et foi
Tradução: Leda Tenorio da Motta


"Para que a fé seja possível, é preciso sem dúvida que esse salto "semiótico" para o Outro, essa identificação primária com os polos parentais arcaicos, próximos do continente materno, não seja recoberto pelo recalque nem deslocado para a construção de um saber que, conhecendo-lhe o mecanismo, o haveria de sepultar. O recalque pode ser ateu, o ateísmo é recalcador, ao passo que a experiência analítica pode levar, por sua vez, a um abandono da fé em conhecimento de causa". (pg.39). 

Freud nos lembra que o homem é um ser religioso, precisa crer em algo. A religião dá sustentação ao ser humano, ele crê em algo, acredita que irá receber algo, será protegido. Kristeva lembra que Santo Agostinho chega a comparar a fé do cristão em seu Deus às relações do bebê com o seio da mãe.

Kristeva nos lembra que é preciso crer para chegar ao saber, como um bebê precisa confiar e crer em sua mãe, sem isto não haveria como ele sobreviver. E isto não é infantil, é um fundamento do ser humano diante da vida, uma maneira de lidar com o caos, o incompreensível, o inaceitável. Sim, o saber pode sublimar a fé, mas este saber não é possível sem a princípio termos fé em algo.  

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária, nacionalizou-se francesa, é uma filosofa, escritora, psicanalista e crítica literária. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

LIVRO: MADAME FREUD - Um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa - NICOLLE ROSEN


Rosen, Nicolle. Verus Editora , 2008
210 páginas
Tradução: Marisa Rossetto
Título original: Martha F.

Nicolle Rosen, uma psicanalista, interessa-se por Martha Freud. Afinal quem seria esta mulher que viveu ao lado de Sigmund Freud e que parece não existir, exceto pelo fato de elogios sobre a vida doméstica, assegurando à Freud o sossego necessário para criar sua grande obra.

Rosen então resolve dar a palavra à Martha, e para que ela fale precisa de um interlocutor e assim surge Mary que ela conhece no dia do sepultamento de Freud e com quem irá manter uma correspondência assídua falando sobre sua vida e o que pensava.

É um romance porém está baseado em relatos, cartas, biografias, fotos, vários livros sobre a história da psicanálise, mas obviamente que os vazios serão preenchidos por palavras que poderiam ter sido de Martha.

Penso que se trate de um livro que deveria ser lido para se compreender o que é viver à sombra de alguém com tanto reconhecimento e que estava sempre rodeado de admiradores, discípulos e ocupava o lugar do pai, mestre, e também o de homem através de todas as transferências amorosas que suscitou. E Martha? o que ela fez de sua vida? de seu desejo?

Há passagens no livro que nos faz refletir sobre esta questão de amar e se sacrificar ao objeto amado, abrindo mão daquilo que somos e desejamos. Martha era judia e seguia a tradição e rituais em sua família, mas teve que abrir mão de tudo isto porque Freud não queria isto. Nunca era consultada para as grandes decisões e sofreu com a rivalidade com sua irmã Minna e com sua filha Anna Freud. Além de ter que lidar com a mãe autoritária de Freud a quem este era totalmente dedicado.

Freud cresceu sendo o preferido, adorado, com tudo correndo conforme sua vontade e assim permaneceu tendo grande dificuldade de lidar com aqueles que não aceitavam se submeter, como foi o caso de Jung. Até mesmo suas irmãs tinham que abrir mão de seus desejos por ele,como Anna que teve que desistir de seu piano pois o incomodava.

Ele era excessivamente ciumento e possessivo, afastou de Martha todos aqueles que ele considerava como rivais, seu irmão Eli, sua mãe, seus amigos. Mas por que ela aceitou isto? O amor? para agradá-lo? para ser amada por ele?

Mas a questão é Martha, na verdade nunca saberemos o que realmente ia em seu íntimo, mas será que foi feliz? Uma mulher que aos 35 anos tem que enfrentar a decisão de abstinência sexual por parte de seu marido, uma mulher que não participava de nada de sua vida profissional onde tantas outras mulheres estavam, que não acompanhava Freud em suas viagens, que não podia emitir nenhuma opinião.

Mas por que ela aceitou tudo isto? por que não se impôs, não lutou por seu desejo? É este o questionamento no livro quando ela está sozinha após a morte de Freud aos 85 anos. Pode uma mulher ser feliz apenas por ser casada com um homem notável?

A questão é até que ponto Martha sentiu o que a maioria das mulheres sentiria hoje, ou isto não foi uma questão no tempo em que ela viveu. Mas é válido tentar dar voz a esta mulher, uma vez que ela nunca pode falar enquanto esteve viva, tentar pelo menos dar a ela um reconhecimento após ter permanecido na obscuridade por toda sua vida.

Há passagens no livro onde é perceptível a interpretação dos fatos por Nicolle Rosen, uma visão sua sobre determinado assunto ou fato, mas que também são válidos para que se processe uma reflexão.


Nicolle Rosen é psicanalista e vive em Paris.