Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
As Formas Elementares da Vida Religiosa, de Émile
Durkheim, é um estudo seminal que busca despir as religiões de seu aparato
ritualístico e simbólico, indo ao encontro do que há de mais essencial.
Durkheim investiga o Totemismo na Austrália, considerado uma forma inicial de
organização social e religiosa, em que clãs e fraternidades se estruturam em
torno de um animal totêmico. Esse animal, considerado sagrado, não apenas
representa o clã, mas também orienta normas, regras e comportamentos internos,
bem como regula a convivência com outros grupos.
O livro é particularmente esclarecedor ao
mostrar como a religião, mesmo em sua forma mais elementar, contribui para a
formação do psiquismo individual e para a estruturação das regras sociais.
Durkheim revela que o Totemismo não é apenas uma questão de crença, mas um
mecanismo social que organiza a vida coletiva, fornecendo padrões de
identidade, disciplina e coesão para o grupo.
Por meio de sua análise, Durkheim oferece uma
compreensão profunda da interdependência entre religião, sociedade e indivíduo,
mostrando como elementos simbólicos aparentemente simples podem sustentar
estruturas complexas de convivência e moralidade.
Émile Durkheim nasceu em Épinal, França, em 1858 e faleceu
em Pari em 1917. Foi um sociólogo, antropólogo e filósofo. Considerado o pai da
Sociologia.
Direção: Wu Tianming - 1996 Duração: 96 min Título Original: Bian Lian País: Hong Kong e China
Belíssimo filme! Na China Central no começo do século XX Wang (Xu Zhu), um velho mestre de ópera escolheu viver nas ruas morando numa barca e se dedicando a uma arte de seus ancestrais, a troca de máscaras na frente dos espectadores numa rapidez impressionante que desperta a curiosidade de todos para saber qual o segredo desta arte, como ele faz. Porém, este segredo só pode ser transmitido por herança na família, e para um menino. Ocorre que ele seu único filho morreu, e sua esposa o deixou há muitos anos atrás. Ele é sozinho e não tem para quem transmitir sua arte. Vive numa sampana com um macaco - o General.
Ele decide então adotar um menino. Na China vemos muitos pais vendendo ou dando seus filhos por não terem condições de criá-los, de lhes dar o que comer, principalmente meninas. Ele acaba encontrando um menino e adota, concedendo-lhe seu nome e pedindo que o chame de avô.
Ele se afeiçoa à criança e eles vivem na sampana. Os detalhes no barco são incríveis, móveis, vasos com flores, a louça, é encantador.
Tudo corre bem até o dia em que ele descobre que não é um menino, mas uma menina. Ele fica muito decepcionado, mas permite que ela fique, mas a partir de agora não será mais seu avô e ela terá que chamá-lo de mestre e trabalhar. Ela aprende a fazer malabarismos para ajudar nas apresentações. Mas estes dois viverão muitas aventuras durante o filme, até finalmente o velho mestre compreender que o destino lhe havia dado um herdeiro, ou melhor, uma herdeira.
Bian Lian em chinês significa trocar de rosto e é uma arte. Provém da ópera de Sichuan e consiste em trocar muito rapidamente de máscaras, que são muito finas e colam na pele.
Esta arte que vem do tempo do reino do imperador Qianlong, no século XVIII, e teria sua origem numa peça que contava a história de um bandido que um grande coração que roubava dos ricos para dar aos pobres, que foi capturado pela polícia do imperador e que para fugir deles trocava de rosto.
O filme também denuncia o destino reservado às mulheres e as meninas na sociedade tradicional chinesa. Mas no filme vemos a sorte da menina se reverter.
Um outro detalhe do filme é a bela apresentação da ópera chinesa.
Veja o trailer:
Wu Tianming nasceu em 1939 em Sanyuan County, Xianyang, na República Popular da China
Direção: Bernardo Bertolucci - 1996 Duração: 118 min Título Original: Stealing Beauty
Lucy (Liv Tyler) é uma bela jovem que viaja para a Itália após a morte de sua mãe para ter seu retrato pintado, reencontrar amigos e principalmente para rever o jovem em quem dera o primeiro beijo quatro anos antes.
O local onde vivem seus amigos, a Toscana, é belíssimo, a casa de pedras típica do local, as parreiras de uvas, as oliveiras. Diana (Sinéad Cusack) é casada com Guillaume (Jean Marais), são os donos da casa e ele é um artista. A casa toda está repleta de obras suas, principalmente na parte externa, esculturas em terracota, cerâmica de mulheres, crianças. Diana é uma alma generosa, mas carrega uma tristeza dentro de si. Ela cuida de Alex (Jeremy Irons) que está doente em estado terminal, mas que ganha um élan com a chegada de Lucy.
Em contraste com todos ali que curtem a vida e o sexo, Lucy busca o amor.Ela é virgem e sonha com sua primeira noite, mas tem que ser com amor e não apenas uma transa. Ao final ela descobrirá um grande segredo de sua mãe a respeito de seu nascimento.
O filme já vale só pelos cenários, as paisagens, mas a amizade de Lucy e Alex é bonita, de confiabilidade e generosa, os diálogos deles são os melhores do filme.
O despertar da sexualidade de uma forma ainda inocente, ainda a busca do amor, coisa que no mundo atual muitos desprezam e querem apenas o sexo.
Direção: Peter Greenaway - 1996 Duração: 126 min Título original: The Pillow Book Roteiro: Peter Greenaway e Sei Shonagon País: Reino Unido
Baseado no livro Notas de Cabeceira da escritora medieval japonesa Sei Shõnagon
Quando criança Nagiko (Vivian Wu) recebe de seu pai uma escrita em seu rosto a cada aniversário como um presente. Ele é um escritor e recita versos enquanto escreve em seu rosto. Isto lhe cria uma marca e ao mesmo tempo um prazer que ela irá procurar repetir em sua vida sexual adulta.
Porém, quando tinha 04 anos Nagiko verá algo que a marcará talvez até mais, ela vê seu pai tendo relações sexuais com o editor de seus livros, sua submissão à isto.
Um filha que se espelha em seu pai e que sofre a intromissão de um outro nesta relação e que não é uma mulher, como sua mãe. Ela crescerá e buscará em todos os homens com quem se relaciona a repetição do gozo inicial da escrita em seu corpo, mas também se tornará escritora só que escreverá na pele de homens e os enviará ao editor de seu pai para que ele leia o que está escrito e para que deseje estes homens que se apresentam nus para ele, só que desta vez é ela quem tem o controle.
Ela quer destruir este terceiro e vingar seu pai por aquilo que ele tenha sido forçado a fazer para ter seus livros editados, humilhando-o.
Peter Greenaway nasceu em 1942 em Newport, País de Gales.
Direção: Lars Von Trier - 1996 Duração: 159 min Título original: Breaking the waves Roteiro: Lars von Trier - Peter Asmussen - David Pirie País: Dinamarca Ganhou o César de Melhor filme estrangeiro
Uma comunidade pesqueira num país nórdico (norte da Escócia) , uma plataforma de petróleo com outsiders.
Bess (Emily Watson) cresceu nesta comunidade extremamente religiosa e onde seu avô é um dos anciões que governam as regras no local. Ela vivia dedicada à Igreja, uma igreja sem sinos, após ter sido internada quando seu irmão morreu. Os anciões são os guardadores da moral e dos costumes, tudo passa por eles. As mulheres não podem assistir aos enterros, somente os homens, e o ancião quando julga o morto um pecador manda para o inferno todos que não vivem segundo suas regras.
Bess se apaixona por Jan ( Stellan Skarsgard) um dinamarquês que trabalha na plataforma de petróleo e se casa com ele. A comunidade não gosta, prefere os casamentos entre si, tem medo do diferente e não o aprovam.
O filme é dividido em partes e no início de cada parte toca uma música alegre que destoa até da vila e tem uma paisagem com tons sempre ocres e verde escuro predominando. A sensação que tive é que há algo que incomoda ali, não é natural e então me pareceu que era um mundo pintado, colorido por nós, cores que nós escolhemos para colocar na vida e no mundo onde sempre sobra um pedaço sem cores e um outro muito ilusório.
No dia do casamento uma demora da chegada do helicóptero que traz o noivo da plataforma desencadeia uma crise histérica de Bess. O médico dirá que ela quer tudo, mas por outro lado ela é totalmente submissa ao Outro, seja Deus, seja o amor na figura de Jan. Ela fica entre a obediência e o sarcasmo.
Na festa do casamento ela leva Jan para o banheiro e quer ser possuída ali mesmo, nada de romantismo, de lua de mel. E temos depois uma cena linda onde ela descobre o corpo do outro.
Bess fala com Deus, mas ela mesma é Deus, que responde engrossando sua própria voz e usando uma voz infantil para ser ela mesma. Neste delírio Deus atende seus desejos e como ela não suporta a ausência de Jan quando está na plataforma trabalhando ela pede a Deus que o traga para casa, mesmo percebendo seu egoísmo ela não consegue agir de outra forma.
E justo aí é que acontece o acidente na plataforma que o traz para casa. Ela fica feliz, o que importa é que está vivo e vai ficar ali, não o estado dele que não pode mais se movimentar. Para aliviar sua culpa pois acredita que foi ela quem causou tudo isto pois desejou que ele ficasse ali, ela passa a acreditar que o salvaria. Deus o salvaria, aquele Deus que era ela mesma. Acreditou que tinha o poder sobre a vida e a morte.
Jan lhe diz que deve arrumar um amante, que ele não pode mais fazer amor, que isto ficaria entre eles, já que não podiam se divorciar pois a comunidade nunca aceitaria isto. Sua virilidade está em jogo. Ele lhe pede para ter relações sexuais com outro e lhe contar, que seria como eles dois. E o mais perverso é que quando ela inventa ele ao invés de aceitar a desmascara.
Ela atende ao desejo dele se prostituindo, acredita que o está salvando. Quando após sofrer uma violência ela ainda não o curou, resta o sacrifício, resta morrer por ele. E eu me pergunto por quem os sinos dobram no filme.
E ele se recupera. Milagre? por causa do sacrifício? Não! iria se recuperar de qualquer maneira. Ela sentia culpa pelo acidente, mas o amigo não, e se este não tivesse feito uma brincadeira estúpida de se fazer de morto naquele momento, o acidente não teria ocorrido. Mas há culpa? os acidentes acontecem, não temos o poder de detê-los, mesmo que sempre haja uma escolha antes.
Um tribunal. Qual foi o crime? quem é o criminoso? Neurótica? psicótica? o médico diz que ela era boa. Ser bonzinho é ser alienado ao desejo do outro?
Recomendo este filme, o meu preferido de Lars Von Trier.
Lars Von Trier nasceu em 1956 em Kongens Lyngby, Dinamarca.
Direção: Barbra Streisand - 1996 Duração: 126 min Título original: The mirror has two faces
É a história do encontro de dois professores Gregory ( Jeff Bridges) e Rose ( Barbra Streisend) solitários desiludidos com o amor. Mas o que realmente vale neste filme é a relação de mãe e filha e a irmã. A mãe interpretada brilhantemente por Lauren Bacall e a filha Rose nos revelam os conflitos, a rivalidade, a dificuldade desta relação.
A mãe nos diz que a saída de um filho de casa nos mostra que estamos envelhecendo, o que não percebemos, pois está unicamente no corpo. Não nos sentimos velhos. A mãe e a irmã são mulheres bonitas, e Rose se acha feia, não consegue competir com a mãe e a irmã. Ela se sente inferior ás outras mulheres, não se arruma, não tem por que nem vontade. Ela nunca ouviu de ninguém que era bonita. Um dia pergunta a sua mãe se era bonita quando bebê, e a resposta: todos os bebês são bonitos.
Nada que lhe dê uma alteridade e segurança.
O filme retrata a superação e a construção de Rose como mulher.
Assista ao trailer:
Barbra Streisand nasceu em 1942 em New York, EUA.
I Finally Found Someone
Trilha sonora de Marvin Hamlisch
Marvin Hamlisch nasceu em 1944 em Manhattan, New York, USA e faleceu em 2012 em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi um compositor.