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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

FILME: OS REFORMADOS - 2013


Direção: Bogdan Dreyer Dumitresco - 2013
Duração: 90 min
Título Original: A Farewell to fools
Roteiro: Anusavan Salamanian 
País: Romênia - Estados Unidos

Em uma aldeia da Romênia vive Ipu (Gérard Depardieu), considerado como louco, ele vive imaginando cenas heroicas de guerra e junto de Alex (Bogdan Iancu)  eles brincam de guerra. Alex é conhecido de um soldado alemão que gosta dele, e o deixa andar em sua motocicleta, mas desta vez quando o menino retorna o que ele encontra é o alemão morto, assassinado. 

Os alemães querem o culpado, como o delegado não consegue desvendar o que ocorreu, são colocados na praça da aldeia dez cadeiras, onde serão fuzilados as 10 principais autoridades da vila com seus familiares, caso não apresentem o culpado até as 5 horas da manhã do dia seguinte. 

As autoridades se reúnem para pensar, estão desesperados e com muito medo. É então que surge a ideia de convencer Ipu a se entregar como culpado. Liderados pelo pastor da aldeia Pai Johanis (Harvey Keitel) e sua esposa Margherita (Laura Morante) eles armam uma farsa para convencer Ipu. 

O filme é a farsa vista pelos olhos de Alex, onde se testemunha toda a comédia e o horror da condição humana, a manipulação, a encenação, as rixas entre eles mesmos e a presença de espírito do que é considerado louco, o único ali fora o garoto que é digno e ético. 


Bogdan Dreyer Dumitresco nasceu em Bucareste, Romênia

domingo, 5 de julho de 2015

DOCUMENTÁRIO: A FOTOGRAFIA OCULTA DE VIVIAN MAIER - 2013



Direção: John Maloof e Charlie Siskel - 2013
Duração: 84 min
Título Original: Finding Vivian Maier
País: Estados Unidos

Ganhou o Oscar de melhor documentário de 2015 

Vivian Maier passou a maior parte de sua vida adulta trabalhando como babá em um bairro rico de Chicago, mas sua grande paixão foi a fotografia, tirou milhares de fotos principalmente do cotidiano, de peculiaridades, de coisas bizarras, do humano, demasiadamente humano e também filmava, porém tudo isto ficou em segredo, ninguém sabia nada disto até que em 2007  John Maloof arrematou por 400 dólares 30 mil negativos e 1600 rolos de filmes não revelados. Ele não sabia o que iria encontrar, buscava fotos de Chicago para sua pesquisa e acabou encontrando Vivian Maier. 



Ele logo percebeu que tinha em mãos algo inusitado e de excelente qualidade. Procurou no google sobre ela e nada encontrou, o que o deixou ainda mais curioso. Numa nova pesquisa encontrou sobre o falecimento dela. Mallof iniciou uma busca obsessiva e acabou descobrindo muitas coisas sobre esta estranha mulher que tirava fotos fantásticas, mas nunca as mostrou a ninguém. 





Ao contrário do que a maioria busca que é ser reconhecido, Vivian não se interessava por isto, ela queria tirar fotos, apenas isto. Com o pouco que se sabe sobre sua vida através das descobertas de Maloof e do que relatam as pessoas que com ela conviveram, percebemos que possivelmente houve coisas difíceis em sua vida, talvez até mesmo um trauma, que acabou exacerbando uma sensibilidade aguçada para captar o ser humano pelo seu lado cômico, cruel, feio, banal, cotidiano, mas sem que isto retire a beleza de suas fotos. É impressionante. 

Vale conferir!








Charlie Siskel e John Maloof 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

DOCUMENTÁRIO: LA VIE MODERNE - 2013


Direção: Raymond Depardon - 2013
Duração: 83 min
País: França

Durante 06 anos Raymond Depardon observou os agricultores nas montanhas da França - L'Ariège, La Lozère, La Haute-Loire e La Haute-Saône - criando um laço com eles que permitiu que os filmasse em seu dia a dia. Este é o terceiro filme sobre os agricultores. Então embarcamos com ele no filme.



Tem dois irmãos, Marcel (88 anos) e Raymond (83anos), cujo sobrinho acaba de finalmente se casar. Ela se chama Cécile, veio de Pas-de-Calais, e tem conceitos sobre como cuidar de uma casa que não são exatamente os mesmos que os dois tios idosos, que nunca se casaram. Há um conflito de gerações. O mais idoso não aceita que alguém não lhe obedeça. Os tios se ressentem por não conseguirem mais administrar a fazenda como antes, mas eles mantém seus hábitos, sua forma de fazer as coisas. 



Seguindo em frente durante o café da manhã conhecemos Germaine (70 anos) e Marcel (80 anos) que lamentam o futuro, os filhos, tiveram quatro, não querem continuar nesta vida, foram embora e eles terão que vender a fazenda.


Conhecemos também Amandine que é jovem e quer continuar com esta vida, mas as dificuldades surgem, financeiras, com seu marido. Ela também se coloca a questão sobre ter uma profissão. Acabará desistindo.


Chegamos a outra fazenda onde o filho, Daniel,  teve que assumir a fazenda, mas ele não gosta, não é feliz assim, prefere fazer pequenos serviços nas redondezas.


A vida tradicional nestas fazendas tem seus dias contados, podem até continuar, mas haverá mudanças. Eu lamento que a modernização, a industrialização, a produção em escala venha destruindo tudo isto. Ainda resta uma esperança de uma conscientização para uma vida mais orgânica, ecológica. Troquei uma capital por uma cidade menor onde ainda existem as pequenas fazendas produtoras de produtos locais, onde se faz o queijo, onde há leite puro da vaca, onde se faz o vinho, a manteiga, a nata. E tudo isto é maravilhoso, além de saboroso e muito mais saudável.



Os filhos envoltos no que a sociedade impõe querem sair dali, querem ter uma profissão, trabalhar em cidades grandes, o capitalismo vence este round. Mas eu torço para que ainda haja mudanças, e se por um lado haja algumas modernizações, por outro não se perca as características antigas e mantenha a produção em pequena escala, caseira. 

Que este filme não seja um registro do que foi, mas um incentivo a que as pessoas reflitam sobre a vida moderna que levam atualmente. 


Raymond Depardon nasceu em 1942 em Villefranche-sur-Saône, França. Quando tinha 16 anos ele deixou a fazenda de seus pais para correr o mundo como fotográfo. Nos anos 70 passa a filmar fazendo filmes excpecionais de um asilo italiano, um hospital, um tribunal francês e de uma vila africana. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

FILME: THE BUTTERFLY'S DREAM - 2013

Direção: Yilmaz Erdogan - 2013
Duração: 138 min
Título traduzido para o português: O sonho da borboleta
País de Origem: Turquia 

1940 - Turquia. - Cidade do Mar Negro de Zonguldak . Todos os homens a partir de 15 anos eram obrigados a trabalhar nas minas de carvão. Os dois amigos Rustu Onur (Mert Firat) e Muzaffer Tayyip Uslu (Kivanç Tatlituq) também estiveram nas minas e acabaram tuberculosos. A história dos dois nos é contado pelo professor de literatura (Yilmaz Erdogan). Ambos eram poetas e desejavam ver seus poemas editados. Irão inicialmente se apaixonar pela mesma mulher, mas depois Rustu irá para o sanatório onde conhecerá um novo amor. 



É um filme triste, sobre a realidade da Segunda Guerra na Turquia, as minas de carvão e a tuberculose. Também enfoca as diferenças de classe e o medo que as pessoas tinham dos tuberculosos, pois naquela época não havia cura, além de a entrada num sanatório não ser algo fácil. 

Yilmaz Erdogan nasceu em 1967 em Hakkâri, Turquia 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: PHOTO - 2013


Direção: Carlos Saboga - 2013
Duração: 75 min
País de origem: Portugal e França 

Um filme que nos fala da busca de suas origens. Elisa (Anna Mouglagis) acaba de perder a mãe. Pilar (Marisa Paredes) não cumpriu o desejo dela e guardou todas as fotos e escritos, e é assim que Elisa descobre que seu pai não é quem ela pensava. Ela então parte para Portugal em busca de sua história, mas também para dar um tempo a si mesma, uma vez que foi surpreendida por um pedido de casamento de seu companheiro italiano, com quem vive há 07 anos, e não sabe se deseja se casar. 

Chegando lá ela conhece Davi (Simão Cayatte) que é filho de um dos amigos de sua mãe. Ele acaba de voltar do Marrocos onde se envolveu com o islamismo. A história da mãe de Elisa se passa nos anos 60-70, durante o fascismo, e o filme é um resgate desta história, mas com um olhar atual. Davi procura ajudá-la em sua busca, levando-a até as pessoas e servindo de tradutor. Mas ele esconde dela que sua mãe voltou a se casar e com um dos companheiros da turma da mãe dela. 

O filme na realidade é uma espécie de biografia de Saboga, uma catarse de sua própria história pelo viés da ficção. O que se conclui é o fim da ilusão de que através de um combate se podia modificar o mundo, e hoje todos aqueles que se envolveram na luta vivem uma vida de burguês. O inspetor do PIDE (polícia internacional e de defesa do Estado) nega a realidade, diz que não matavam. É a dificuldade de fazer o ajuste de contas que os países tem, e as pessoas também. A vida continua e uma pessoa que surge para remexer o passado nem sempre é bem vinda, mas Elisa acaba sabendo de tudo e pode finalmente voltar e tomar uma decisão quanto ao casamento. 


Carlos Saboga nasceu em 1936 em Figueira da Foz, Portugal.

FILME - LOREAK - 2013


Direção: Jon Garaño e José Mari Goenaga - 2013
Duração: 96 min
País de origem: Espanha - País Basco 

Loreak significa flores em basco. É um filme basco, inclusive falado nesta língua que difere do espanhol. O país basco fica no território da Espanha, mas tem uma cultura muito diferente e fala outra língua. 

Ane (Nagore Aranburu) trabalha numa construção, vive com seu marido, um casamento morno,  ele normalmente passa seu tempo vendo TV. Ela começa a receber flores de um desconhecido. Belos buques, o que acaba deixando seu marido enciumado. Ela está na menopausa, e as flores que recebem acabam fazendo com que sua auto-estima melhore, ela começa a se arrumar mais. 

Para não aborrecê-lo e ter que responder suas perguntas para as quais ela não tem respostas, passa a levar as flores para seu escritório na obra. Um dia ela perde sua corrente, presente de noivado do marido, e não consegue mais encontrá-la. Na obra trabalha Benãt (Josean Bengoetxea) como operador do guindaste. Ele é casado com Lourdes (Itziar Ituño). A relação desta com sua sogra Tere (Itziar Aizpuru) não é boa, a mãe de Beñat é autoritária, gosta de dar palpites em tudo, e desaprova a nora. 

Uma noite de chuva Beñat está indo para a casa de sua mãe, mas irá se atrasar, liga para ela, que como sempre não é nada gentil, chantagista emocional, desliga na cara dele. Logo em seguida ele sofre um acidente do qual virá a falecer no hospital. É então que Ane para de receber flores, e quando o novo operador encontra sua corrente na cabine do guindaste ela associa as coisas e percebe que era ele quem enviava as flores. Ela então passa a levar um buque de flores no local do acidente, ritual que também a mãe dele faz. Lourdes nunca foi lá e se afastou da família. 

Mas estas flores continuam causando indagações, como o marido de Ane, a mãe de Beñat também fica intrigada e quer descobrir quem leva as flores. Ela deixa um bilhete e Ane responde vindo a conhecer Tere, que acaba criando mais intrigas com Lourdes insinuando que ela era amante de Benãt. 

As flores são o centro do filme, e é por causa delas que estas três mulheres acabam se ligando entre si, pelo menos por um tempo, e tem que enfrentar suas questões. Ane o seu casamento, Lourdes sua relação com os outros, Tere sua forma possessiva de amar. 

Jon Garaño (em primeiro plano) nasceu em 1974 em San Sebastián, Espanha e José Marí Goenaga nasceu em 1976 em Ordizia, Espanha.

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: SOBRE AMIGOS , AMOR E VINHOS - 2013


Direção: Éric Lavaine - 2013
Duração: 97 min
Título Original: Barbecue
País: França 

Festival Varilux cinema francês 2015

Antoine (Lambert Wilson) sempre procurou levar uma vida boa. Fazia exercícios, não fumava, comia alimentos saudáveis, mas eis que de repente durante uma corrida com os amigos ele sofre um ataque cardíaco. Quando recebe alta o médico lhe recomenda fazer exatamente o que já vinha fazendo, o que o leva a pensar que a questão não era esta, mas talvez outra, e conclui que fazer tudo isto mas não levar uma vida boa de prazer não o protegeria de um ataque cardíaco. O médico lhe recomendou de tomar cuidado, ora é exatamente isto que sempre fez, tomar cuidado com tudo, alimentação, corpo, sua família, seu trabalho, e em agradar aos amigos e a todos. Mas isto o deixava feliz? 

Ele tem um grupo de amigos que sempre se encontram, e nas férias saem juntos. Mas neste ano um deles, Laurent (Lionel Abelanski) está com problemas financeiros, então os amigos resolvem lhe dizer que irão para outro lugar, uma bela casa que lhes foi cedida por uma conhecida. E como sempre lá estão eles todos reunidos, mesmo tendo que lidar com a questão da separação de Baptiste (Franck Dubosc) e Olivia (Florence Foresti) que apesar do combinado dela ir passar as últimas duas semanas enquanto ele iria nas duas primeiras, ela aparece já na primeira. 

A convivência que antes sempre fora levada de uma forma a agradar a todos começa a deixar Antoine irritado, e ele acaba dizendo aos outros o que pensa deles, como para seu amigo Yves (Guillaume de Tonquédec) que não suporta mais suas piadas e sua mania de mapas e localizações. Pergunta a Jean-Michel (Jérôme Commandeur) o que ele faz ali se é solteiro e ali são todos casais, e assim ele vai de um por um falando o que pensa. E assim rompe o trato amigável que existia. É quando está prestes a falar para Laurent que a casa é alugada que ele sofre um novo ataque. 

Não foi grave, mas é o momento de uma reflexão, de reavaliar sua vida e seu  modo de agir. 

O filme não é extraordinário, bem simplista até, mas assim mesmo vale a pena ser visto para que possamos sempre nos atentar no quanto é difícil as relações humanas, e que tentar agradar ao outro não é fácil, e às vezes é falso nos levando um dia a estourar o que só piora as coisas. Como diz Antoine no filme, fechar a cara é fácil, agora reverter isto nem sempre é fácil. 

Éric Lavaine 

FILME: PARFUMS D'ALGER - 2013



Direção: Rachid Benhadj
Duração: 108 min
País: Algéria 

É a história de Karima (Monica Guerritore) uma fotógrafa algeriana que vive em Paris e acaba de ter seu trabalho premiado. Desde que ela saiu da Argélia para escapar a tirania e violência do pai ela nunca mais retornou, mas recebe um telefonema da mãe falando sobre seu irmão, que aderiu a um grupo terrorista e está preso, condenado a morte. Ela então retorna ao seu país depois de 20 anos.

Neste retorno ela será então confrontada ao seu passado, aliás como se diz no filme, do qual nunca podemos escapar. Irá se recordando de sua infância, do seu irmão, de como se davam bem, mas também de toda violência sofrida vindo de seu pai. Aos poucos ela vai se reconciliar com sua família e acima de tudo consigo mesma. 

É um retorno as suas origens, suas raízes, e mesmo tendo vivido durante 20 anos em Paris, lutado por sua liberdade e independência ela irá se sensibilizar com a situação das mulheres na Argélia e sua falta de liberdade. Enfrentará seu passado em relação ao pai, mas terá que também aceitar que seu irmão não é mais aquele menino doce e fraterno que ela conhecia, sua realidade é outra agora e o que ele fez é terrível. Ela vai se apropriar de sua memória, mas acima de tudo dela mesma, do que ela é. 

Não temos como nos libertar das origens, podemos viver em outros lugares e desfrutar de uma liberdade do entorno, mas em nós vive algo que faz parte da infância, a família e um país onde nascemos com sua história,cultura e o social. O que Karima consegue fazer é um retorno a tudo isto e se reconstituir, conciliando seu lado de origem e também incluindo sua liberdade e independência. Ela vai ter que curar suas feridas que não estavam cicatrizadas como ela pensava ter feito ao não pensar no passado, e depois atar os fios de sua vida. 

Ao deixar a Argélia ela pensa esquecer tudo. Ninguém sabe nada sobre esta parte de sua vida, ela não fala nada sobre isto, nem mesmo ao homem com quem vive há 05 anos. Nunca mais falou a língua e não se interessou pelo o que ocorreu em seu país enquanto esteve fora. Ela terá que resgatar tudo isto para deixar de ser uma estrangeira em seu próprio país e se apropriar de sua identidade. 

O filme tem cenas locais muito bonitas, principalmente o jardim no começo do filme com suas árvores centenárias. 
Mohamed Rachid Benhadj nasceu em 1949 em Argel, Argélia. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: ELA VAI - 2013


Direção: Emmanuelle Bercot - 2013
Duração:  116 min 
Título original: Elle s'en va 
País: França 

Bettie (Catherine Deneuve) tem um pequeno restaurante e vive com sua mãe (Claude Gensac). Ela tem um caso com um homem casado que após muitas promessas que largaria da esposa ele realmente o faz, mas para ficar com uma mulher bem mais jovem. Bettie fica perturbada com isto e larga tudo saindo de carro pela estrada. 

Um dos primeiros encontros dela é com um senhor bem velho, e ali ela se confronta com a velhice e a solidão, o homem nunca se casara e tiveram uma namorada quando jovem que morreu, ele então ficou celibatário cuidando de uma fazenda. De alguma maneira isto afeta Bettie, que teve um grande amor quando jovem e foi eleita miss Bretanha, um depto. da França, e ao ir para o concurso miss França sofre um acidente onde este homem morre. Ela se casou, teve uma filha, Muriel (Camille Dalmais) da qual é distanciada, no fundo não amou o pai dela que acabou morrendo numa cena senão irônica, literalmente trágica, uma vez que ele se engasgou no restaurante onde jantava com sua amante e o médico que o foi socorrer era o marido da mulher, mas também amante de Bettie.



Aos poucos rodando pela estrada ela vai vivendo experiências, situações, até que a filha lhe pede que leve o neto Charly para seu avô, pois ela precisa viajar para um novo emprego. Bettie o faz, e começa uma nova relação com este garoto, do qual também nunca se aproximou, carente de amor e de uma família que se ame.

No início do filme vemos Bettie andando de costas, até o momento em que ela se vira, o rosto ainda muito bonito, mas neste momento focam uma foto de Deneuve jovem, sendo que hoje ela tem mais de 70 anos, e o filme justamente também gira em torno disto, da jovem candidata a miss, de uma beleza estonteante à mulher madura, mas já envelhecida, que se confronta com este estágio da vida. É preciso continuar a viver e querer continuar a ser jovem é perda de tempo, é preciso assumir o que se é e viver este momento. 

Emmanuelle Bercot nasceu em 1967 em Paris, França

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: TRACKS - 2013


Direção: John Curran - 2013
Duração:  112 min

Baseado na biografia homônima de Robyn Davidson

Em 1995 Robyn Davidson (Mia Wasikowska) decide atravessar o deserto da Austrália por 2700 quilômetros partindo de Alice Springs. Para conseguir o dinheiro para a travessia ela aceita ser patrocinada pela National Geographic, mas para isto terá que ir acompanhada do fotógrafo Rick Smolan (Adam Driver) que irá documentar a viagem para a revista. Ela parte em 1997 com sua cachorra e mais quatro camelos em direção ao Oceano Índico.



Robyn é uma pessoa solitária que prefere mesmo se manter afastada e ao longo do filme vemos algumas lembranças de sua infância traumática com o suicídio da mãe, sua cachorra que teve que ser sacrificada por não terem onde deixá-la, a Tia que vai buscá-la para ficar com ela após a morte de sua mãe. Compreendemos que esta vida se arriscando, indo as vezes à exaustão nas caminhadas, passando por obstáculos, mas ao mesmo tempo podendo estar consigo mesma, em contato com a natureza é uma maneira de lidar com esta infância difícil.



As paisagens são belas, o deserto é sempre algo que me cativa. 

Roby Davidson nasceu em 1950 em Miles, Austrália 

Roby Davidson e sua cachorra e Mia Wasikowska com a cachorra do filme.

 Capa da National Geographic

Roby Davidson e Rick Smolan 


John Curran nasceu em 1960 em Utica, Nova Yorque, EUA.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

FILME: VIAGEM SOLITÁRIA - 2013


Direção: Maria Sole Tognazzi - 2013
Duração: 85 min
Título Original: Viaggio sola


Irene (Margheritta Buy) trabalha como inspetora de hotéis de luxo viajando sempre sozinha e em segredo. O filme me remeteu aos meus anos de hotelaria e todas as questões que ela vai se colocando ao chegar a um hotel eu mesma o fiz muitas vezes em minha vida profissional. Sim é um trabalho fascinante que nos proporciona viagens e a ilusão de uma vida requintada e luxuosa, porém esta já é uma primeira questão que se coloca, esta não é nossa vida, não podemos nos hospedar nestes hotéis com a freqüência que Irene faz, ou eu mesma o fiz a trabalho, e temos que voltar para nossa realidade que no caso do filme é um apartamento grande, bem localizado, mas vazio, com poucos móveis e onde ela acumula coisas que traz dos hotéis, como sabonetes, cremes etc. É o momento que o filme confronta a vida pessoal dela com a vida profissional, porque o apartamento não corresponde as questões que ela coloca sobre os hotéis. 

Ela tem um irmão casado com Silvia (Fabrizia Sacchi) e que tem duas filhas que de alguma maneira completam um pouco a vida de Irene que não é casada nem tem filhos, mas ela está sempre viajando e tem pouco tempo para eles. Um antigo namorado Andrea (Stefano Accorsi) é seu melhor amigo e único, só que ele está envolvido com outra mulher que espera um filho dele. Apesar de ambos ainda se sentirem atraídos um pelo outro e se procurarem a cada problema que surge, não conseguem ficar juntos porque ela nunca está ali, está sempre em algum lugar do mundo. 

Em um momento Irene irá dizer a verdade, que este trabalho que oferece a ilusão da liberdade para quem o faz e para quem não o faz, na realidade é uma escolha para a solidão. Pessoas solitárias podem optar por um trabalho assim para camuflar esta solidão que sentem. É uma fuga, mas também pode ser a alternativa para uma vida onde não se consegue ficar num único lugar, ser gregário e manter uma família com tudo que isto envolve. E há pessoas assim, porque nem sempre devemos atender ao padrão social onde devemos formar uma família. 

Em uma de suas viagens Irene conhece uma antropóloga que fala de intimidade. Isto mexe com ela. Sim, o que mais falta no mundo é isto, intimidade. Quantas relações superficiais temos? ninguém quer se envolver a este ponto. Parece que há medo disto. A nova namorada de Andrea declara que deseja um filho, mas que ele não precisa se preocupar com isto, que ela vai criá-lo. Só que ele se envolve, e deseja também este bebê que está a caminho, e ela também deseja que ele se envolva, mas como é difícil assumir isto. 

Esta antropóloga também diz algo muito interessante, que todos os cirurgiões plásticos são em sua enorme maioria homens, que parece que inconscientemente desejam que as mulheres se pareçam, moldá-las, e poder talvez com isto responder ao grande mistério do que quer uma mulher? o que é uma mulher? o que é impossível, pois cada uma é uma. E é isto que Irene percebe, ao finalmente assumir que gosta de sua vida e de viajar, inclusive por si mesma, não apenas profissionalmente, mas que ao mesmo tempo ela pode ter mais intimidade com os que ama. 

Maria Sole Tognazzi nasceu em 1971 em Roma, ItáliaI

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME: MIL VEZES BOA NOITE - 2013


Direção: Erik Poppe - 2013
Duração: 112 min
Título Original: Tusen ganger got natt

Filme belíssimo. Rebecca (Juliette Binoche) é uma fotógrafa de guerra. Ela está no Afeganistão tirando fotos de mulheres bombas quando é atingida por uma explosão. Seu marido (Nikolaj Coster-Waldau) lhe dá um ultimato pois nem ele, nem suas filhas aguentam viver sob a tensão de nunca saber se ela está viva ou morta, que é impossível viver assim. Rebecca acaba aceitando e desiste de sua profissão. No entanto sua filha mais velha parece lhe seguir os passos participando de um projeto sobre a África e quando surge a oportunidade de ir ao Quênia tirar fotos de um campo de refugiados que é considerado um local seguro ela pede a mãe que aceite e que a leve junto.





Elas partirão, mas enquanto estão no acampamento há um ataque e elas precisam sair imediatamente, porém Rebecca não parte, pede que levem sua filha para um local seguro e fica para fotografar tudo. Com suas fotos consegue que a ONU mande reforços. Sua filha lhe pede que não conte nada para o pai, mas ela fica traumatizada pelo que ocorreu. Numa conversa com a mãe ela mostra que filmou tudo, o momento em que ela fica e pede para a levarem. O medo, estar sozinha num país estranho, não saber o que iria acontecer, tudo isto foi forte para a jovem adolescente. É então que o pai descobre a filmagem e é a gota d'água. Eles se separam, e Rebecca pensa em retomar sua vida, porém desiste no aeroporto e volta. Vai à apresentação da filha sobre a África e a ouve falar do seu orgulho da mãe e que o mundo e as crianças que sofrem precisam dela e dos fotógrafos para denunciar o que está acontecendo.







Rebecca retoma sua vida de fotógrafa e volta ao Afeganistão. Só que desta vez quem está sendo preparado para explodir é uma criança. O final do filme é um soco no estômago, quando ficam a mãe da criança que se foi ajoelhada no chão e Rebecca que também cai ali ajoelhada. 

Durante o filme acabamos julgando Rebecca como mãe, por ter uma profissão de alto risco e com isto deixar suas filhas sempre num estado de tensão e sofrendo com sua ausência, e mais ainda a julgamos quando ela fica no acampamento e manda levar sua filha para um lugar seguro. Mas e agora? diante desta outra mãe que acaba de entregar seu filho para explodir, uma criança bomba? Ambas agiram de acordo com o que acreditam, de acordo com uma fé, de acordo com aquilo que as move. Só que uma pela paixão de seu trabalho e do que pode conseguir com isto, salvando pessoas, ajudando, e a outra pelo o que acredita ser correto para salvar seu povo, mesmo que seja através de atos terroristas. Ambas são fanáticas de alguma maneira. E ambas são mães. 

Não me arrisco a julgar pelos padrões ocidentais. Obvio que não concordo de forma alguma com a violência, com o ato de matar, mas o que não julgo é a crença delas e que as levam a certas ações. Fiquei aturdida no final do filme, sem saber o que pensar, sentindo uma angustia forte. Que força é esta que move estas duas mães? estas duas mulheres? Sim, eu considero um crime fazer de uma criança um objeto que vai explodir com as bombas, a criança não tem opção de escolha, ela está sob o jugo dos adultos. Notamos o quanto o ser humano tem em si mesmo a vida e a morte. Eros que nos leva ao desejo e à vida e Tânatos que nos leva à morte, a destruição. Rebecca é movida por Eros, pelo desejo, mesmo que seja fotografando a morte, a destruição, a miséria, a guerra. O que ela quer é chocar o mundo, sacudir, tentar fazer com que as pessoas acordem. A outra mãe está movida por Tânatos, pela morte. Mas segundo suas ideias é uma morte necessária para se atingir algo. Como encarar isto? Para mim é um crime, um absurdo, inconcebível, mas não para ela. A criança bomba vai morrer e com ela outros. 

Rebecca fica com um sentimento de culpa após a primeira explosão por ter descido do carro e atraído a atenção da polícia levando a mulher a detonar a bomba ali mesmo, onde havia crianças, mulheres, velhos. E esta mãe do menino? tem culpa? qual o tamanho da dor dela ali ajoelhada e rezando?

Erik Poppe nasceu em 1960 em Oslo, Noruega. Ele foi fotógrafo de guerra antes de ser cineasta.