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sexta-feira, 27 de maio de 2016

LIVRO: A MÃE ETERNA morrer é um direito - BETTY MILAN


Milan, Betty. 1ªed.- Record, 2016
141 paginas


Após o livro "Carta ao filho" desta vez Milan nos fala da mãe. É um relato fictício, mas que é sincero sobre os sentimentos de uma filha diante do envelhecimento e da morte da mãe. 

Fui tocada pelo livro pois passei por isto, em dado momento tive que ser a cuidadora da que cuidou de mim, daquela que me deu a vida e me escutou, instruiu, consolou. Como é difícil aceitar que esta mãe, com a qual contamos sempre, deixa este lugar, já não escuta direito, não consegue mais conversar com você, envelhece e pode morrer. Por outro lado temos consciência do que é envelhecer, perder sua liberdade e autonomia, pelo menos a física. Um corpo que já não permite que se faça o que deseja, até mesmo as menores coisas, como ir a um cinema, visitar um filho, chegando ao ponto de não poder tomar um banho sozinha. 

A filha que cuida da mãe sente raiva, medo, se sente sendo subjugada nisto tudo, obrigações que não deseja, pesos em sua vida, mas não consegue deixar de fazer, de cuidar, pelo imenso amor que sente. E não há como falar sobre isto. Dizer que se sente raiva? não pode!! Milan é corajosa ao falar com honestidade, franqueza sobre estes sentimentos.

O filho no livro que não aceita, não ajuda e não participa. No fundo sente o mesmo mas reage de outra forma, não consegue aceitar o envelhecimento da mãe, a perda da mãe. Filhos desejam que a mãe seja eterna, a mesma, e se não pode ser assim no real, o imaginário se ocupa disto. 

Quantas vezes me senti assim. Não aceitar, não querer que minha mãe envelhecesse, ficar com raiva quando ela ficava mal, doente. Não era por ter que socorrer, era por não querer que ela envelhecesse e morresse. 

A imagem da mãe que cuidou de nós é a que fica. É esta que desejamos e mantemos. Nada mais cruel para um filho ou filha do que ter que se tornar mãe da mãe. Milan tem razão, é o momento em que perdemos a mãe, em que ela deixa de ser mãe, se torna filha. E como é difícil enfrentar isto. E penso que para a mãe também, tanto que ela vai reagir, com atos que chamamos de teimosia, rabugice, estar fora da casinha. Ela também deseja preservar sua independência e autonomia. Vai fazer coisas que não pode, vai comer coisas que não pode. Com diz Milan, "a velhice castra antes de a morte ceifar e por isso é tão aterradora". 

Segundo Freud há uma fusão entre mãe e bebê, que carregamos pela vida, nunca nos separamos totalmente. A morte da mãe nos leva um pedaço, morremos junto. Uma parte de nós se foi. E ver a mãe morta é ver a si mesmo morta, e saber que um dia também vamos morrer. 

Betty Milan nasceu em 1944 em São Paulo. É psicanalista e escritora.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

LIVRO: A BALADA DE ADAM HENRY - IAN McEWAN


McEwan, Ian. 1ª. Companhia das Letras, 2014
196 páginas
Tradução: Jorio Dauster
Título Original: The Children Act

Ian McEwan trabalha com profundo conhecimento da alma humana naquilo que mais escondemos de nós mesmos ou não queremos ver. Este é o terceiro livro que leio dele e também assisti a dois filmes baseados em seus romances: Desejo e Reparação e Amor sem fim

Desta vez é o universo feminino e o amor. A que ponto uma mulher madura, com sessenta anos, profissional bem sucedida de repente se perde no torvelinho das emoções quando seu marido Jack lhe diz que deseja viver, e que talvez seja sua última chance, pretendendo ter um caso com uma mulher mais jovem, mas ainda assim afirmando que a amava. 

Fiona é juíza na vara de família e com isto se defronta diariamente com questões como divórcios, guarda de filhos, ou seja, tudo aquilo que um dia foi só promessas de pura felicidade e que se destrói, desmancha, transformando-se em disputas judiciais pelo dinheiro e pela guarda dos filhos, isto quando estes não são o joguete dos interesses e vinganças dos pais. 

Agora de repente ela se vê frente a uma situação de crise em seu casamento. O choque foi tal que ela não consegue pensar, acaba tendo atitudes que vê as mulheres terem e que normalmente condenaria como imaturas, mas quando a emoção está a tona somos capazes de muitos atos que jamais faríamos. 

Entrega-se totalmente ao trabalho, mas não consegue afastar de si o que se passa em sua vida pessoal. Pensa muito no fato de não ter tidos filhos. Relembra sua vida de casada, sua juventude e seus planos. No meio desta crise ela tem que julgar um caso de um rapaz prestes a completar 18 anos, testemunha de Jeová, cujos pais se recusam a dar autorização para uma transfusão de sangue o que salvaria sua vida. O rapaz, Adam, também concorda com os pais. Fiona então resolve visitar o rapaz no hospital antes de se pronunciar e tomar uma decisão. 

McEwan elabora bem o que é um jovem e como ele pensa e se sente, o que realmente busca e deseja com suas atitudes e toda a fragilidade e carência da juventude. Por outro lado Fiona se deixa levar sem um controle sobre sua posição na situação. Talvez por pensar que poderia ser seu filho, talvez por se sentir não desejada e buscar isto, por suas faltas e carências, por sua crise pessoal. 

Jack, o marido de Fiona também é surpreendente quando deseja a aprovação e conivência de Fiona para seu caso com outra mulher. Ao invés de fazer isto as escondidas ele precisa que ela saiba e o aprove, o que demonstra também uma imaturidade, um lado infantil, o homem que ainda busca sua mãe. Ao invés de enfrentar a questão de frente com sua mulher sobre sua insatisfação sexual ele opta por uma saída que às vezes parece uma ameaça, o que Fiona pressente. Ela se sente pressionada. 

A modernidade pode trazer opções variadas do viver a dois, mas por mais que se deseje uma vida livre, isto não funciona no amor, vejam os casos de Simone de Beauvoir e Sartre, Frida e Diego, resultou em dores, ciúmes, sofrimento não só para eles como para outros. 

Um livro para refletir sobre o amor, a família, filhos e também sobre os efeitos de uma religião que se fecha numa comunidade sem abrir horizontes diferentes para os jovens que vivendo no mundo atual podem acabar se perdendo dentro de tudo isto. Adam esperou o apoio de Fiona para sua decisão, ele não tinha maturidade suficiente para sustentar o que escolheu. Ela não conseguiu ocupar um lugar de mãe substituta, e nem mesmo de uma amiga mais velha que pudesse ajudar. 

No fundo o que vemos são jovens e adultos sem saber direito o que fazem, quase que perdidos e sem orientação. Adam ainda procura ajuda em Fiona,  mas ela se recusa a falar com alguém sobre a crise no seu casamento, e Jack, bom não se fala dele sobre isto, mas parece que também não o fez. Talvez por isto o título original seja mais apropriado ao livro, não apenas para pensar na lei e na justiça em relação às crianças, mas sobre nossos atos infantis onde não conseguimos nos distanciar e tomar decisões ou fazer escolhas mais elaboradas, nos deixando levar pela emoção, pelas faltas, e pela culpa. 


Ian McEwan 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LIVRO: A MULHER PERDIDA - TIM WINTON


Winton, Tim. Paz e Terra, 2009
439 páginas
Tradução: Juliana Lemos
Título original: The Riders

País: Austrália

Um livro que nos leva para as profundezas da alma, daquilo que desconhecemos de nós mesmos. Sempre achamos que conhecemos o outro que vive conosco, e mais ainda, temos certeza de nos conhecer, e de repente tudo isto muda.

Scully é um australiano que tem um bom coração, se contenta com pouco, e se esforça ao máximo para ver sua esposa Jennifer feliz. Ele não é bonito, tem uma cicatriz no rosto, é grandão, já sua esposa é muito bonita. A filha de ambos Billie compara seu pai a Quasímodo, o corcunda de Notre Dame. Ele faz todas as vontades de sua esposa, e por isto deixaram sua casa na Austrália para viver em vários lugares como Grécia, Paris, onde ele sempre trabalhava em trabalho braçais por ser ilegal e desta forma sustentar a família. Enquanto isto Jennifer tentava atingir seu ideal de eu, sonhando em ser uma artista aplaudida.

Quando finalmente decidem retornar à Austrália resolvem antes de ir embora fazer uma viagem à Irlanda, e lá Jennifer tem um pressentimento diante de um casebre de camponês e diz que é ali que serão felizes. Mais uma vez Scully atende ao seu desejo, e enquanto ela vai à Austrália com Billie para vender a casa , ele fica para reformar a casa, esperando a chegada delas para o Natal. No dia marcado ele está lá no aeroporto, feliz, mas quem surge é Billie com uma etiqueta escrita: criança desacompanhada, Jennifer não veio.

A partir daí Scully começará uma busca por vários locais para encontrá-la. Billie não dirá nada, e ele desesperado tenta encontrar sua esposa.

Scully não consegue enfrentar a realidade, e começa dando mil razões para sua mulher ter feito o que fez, nem mesmo os pequenos indícios que aparecem ao longo do livro o fazem pensar que foi abandonado. Ele fica tão obcecado que pensa que todos estão lhe escondendo algo, me lembrando aqui do médico no livro A origem do mundo, que postei recentemente.

Ele vai mergulhar no inferno. E eis que surge um Scully que também ninguém conhece, nem ele mesmo, ele vai fazer coisas que jamais se imaginaria fazendo. Será sua filha Billie de sete anos que terá que amadurecer precocemente e trazer seu pai de volta à realidade. Mas ela só o conseguirá depois que ele tiver passado por uma descida ao fundo do poço.

Jennifer não aparece ela mesma em nenhum momento no livro e vamos montando uma ideia dela através do que dizem os outros, mas é bom ficar atento, pois alguém pode realmente conhecer alguém? E o autor nos deixa sem saber qual foi realmente o motivo dela ter abandonado seu marido e sua filha.

É difícil aceitar a perda e as escolhas que o outro faz, aqui temos pai e filha tendo que aceitar o abandono por parte da esposa e da mãe, mas Billie dirá ao seu pai: você me basta! Ela aceita o real, lida com ele, apesar de também ter ficado traumatizada com isto o que se evidencia principalmente pelo seu silêncio e algumas passagens no livro onde ela pensa.

Scully em momento algum vai tratar o desaparecimento de sua mulher como um fato, o real, até mesmo procurando ajuda da polícia para encontrá-la, uma vez que ele fica sem saber nada sobre o que aconteceu.

O livro leva ambos por vários lugares como a Grécia, Itália, Paris, Holanda, mas esta descida ao inferno que Scully enfrentou poderia muito bem se passar dentro dele sem sair de onde estava.

Recomendo!

Tim Winton nasceu em 1960 em Karrinyup, Austrália. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LIVRO: IDIOPATIA - SAM BYERS



Byers, Sam. 1ªed.Objetiva, 2014
287 páginas
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Título Original: Idiopathy

Idiopatia - origem fim do século XVII - do latim moderno idiopathia, do grego idiopatheia, de idios "próprio, privado" + patheia "sofrimento". Sofrimento próprio

Grande surpresa, por ser um livro de estréia, um dos melhores livros que li recentemente. É brilhante. 

Um romance sobre amor, narcisismo e animais agonizantes. 

Três pessoas, Katherine, Daniel e Nathan são os protagonistas, porém a mãe de Nathan, seu pai,  Angélica e Sebastian também tem muito a nos mostrar. 

A narrativa trata do absurdo da vida moderna, suas neuroses, solidão, narcisismo extremado, máscaras. 

Os três se utilizam de máscaras para fugir ao que realmente sentem, para defender um narcisismo exagerado, onde não se quer ficar por baixo, onde a demanda de aprovação supera tudo, onde cada um foge do que é para colocar no outro o que ele imagina que o outro vê nele. 

Katherine é a ex-namorada de Daniel que atualmente vive com Angélica. Ela é manipuladora ao extremo, sempre jogando para o outro, não escuta ninguém, quer sempre ser a vencedora em qualquer tentativa de diálogo, uma vez que com ela nunca ocorre um diálogo, é impossível, ela não permite. Adora provocar os outros, deixá-los irritados, isto lhe dá prazer e a sensação de vitória. Mas é extremamente solitária, sofre com isto, porém não consegue dar um passo para mudar isto, a resistência é total. Quando tenta é pior ainda, soa falso. Tudo que o outro lhe diz ela manipula a seu favor, e chega a ser irritante os diálogos com ela, lendo eu ficava com raiva, dava vontade de mandá-la calar a boca. Ela sempre respondia com perguntas antes mesmo que o outro terminasse de falar, ou observações irônicas e sarcásticas. 

Daniel quer ser o perfeito, amado, vender uma aparência boa. Não consegue ser autêntico, ele mesmo. Está sempre pensando antes de falar no que o outro vai pensar do que ele vai dizer. Procura achar as palavras e respostas certas, pensa em todas as alternativas de respostas possíveis que o outro vai dar para se preparar antes de falar. 

Nathan, que é o considerado doente na história, ele foi internado num hospital psiquiátrico por ter tirado a própria pele, me parece entre todos o melhor, o que está menos doente nesta sociedade neurótica e moderna. Ele foi para o ato ao invés de falar, e claro, depois de uma conversa com Katherine, quando é impossível falar. É um ex-drogado, que se apaixonou por ela quando esta ainda vivia com Daniel, que era seu amigo. Os três sempre se encontravam, mas Nathan percebeu que ele era usado pelos dois. A mãe de Nathan é castradora, e quando vê que o filho arrancou sua pele, resolve escrever um livro sobre o sofrimento de uma mãe para se livrar da culpa. Fica famosa, recebe e.mails, participa de programas na TV, causa um tremendo desconforto em Nathan. A intenção materna é criar a culpa nele para retirar dela a questão. O pai não interfere, vive sua vida cotidiana. 

Angélica é a bondosa, aquela que quer ser vista como generosa e bondosa com todos, que media todos os conflitos, que acalma. E Sebastian, apaixonado por Angélica, é um ativista que está obcecado pela questão das vacas que sofrem de uma doença chamada idiopatia e que estão sendo sacrificadas. Ele adora provocar Daniel, para desta maneira chamar a atenção de Angélica. Ele sente inveja e ciúme de Daniel por ter ficado com Angélica, e a ironia do livro é ver que ele acha que uma vaca é algo que vai diferenciá-lo de Daniel aos olhos de sua amada. 

As emoções humanas são as mesmas de sempre. O que o livro deixa claro é a forma como as pessoas lidam com isto no mundo moderno. Eles não sabem se agem com total desinteresse, descrença, afastamento, ou se vão atrás de ideias, palavras, pensamentos. 

É uma sátira do mundo moderno, mas na realidade muito do que está um pouco exagerado no livro para reforçar a história acontece todos os dias. As pessoas usam máscaras para fugir de sua solidão, desesperança, fracassos e tristezas. Não sabem mais lidar com isto. Então elas atacam os outros para com isto achar que estão prevalecendo e atingir um certo gozo, ao invés de viver com prazer e satisfatoriamente com aquilo que a vida oferece de possível. 

O fato da leitura atingir a nós mesmos, nos levando a desejar mandar calar a boca, ficando exasperados em determinados momentos, com raiva até, é algo brilhante num livro, e que também nos faz refletir sobre nossas relações e como agimos com os outros. O que todos desejamos é sermos amados, mas como lutamos contra isto. 

Recomendo!

Sam Byers nasceu em 1979. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: AMOR PARA SEMPRE - IAN McEWAN


McEwan, Ian. Rocco, 1999
259 páginas
Tradução: Paulo Reis
Título Original: Enduring Love

O que era para ser um belo momento de reencontro, amor de Joe com sua mulher que acabava de retornar de uma viagem acaba transformando para sempre a vida dos dois.

No momento em que está abrindo uma garrafa de vinho nas colinas de Chiltern onde estavam fazendo um piquenique eles ouvem um grito desesperado. Joe sai correndo e não ouve sua mulher alertando-o para ser cauteloso. Um balão a deriva, um homem e uma criança estão nele. Outros homens que estão por perto também correm. O homem se solta, mas a criança permanece no balão que começa a subir, todos ficam pendurados tentando segurá-lo até o instante que um deles o solta e os outros também, exceto um que permanece e terá um final trágico.

Um dos homens que segurou era Jed Parry, e no instante que eles cruzam o olhar a vida de Joe irá mudar. Jed se apaixona por Joe, é algo imediato, instantâneo, e se transforma numa obsessão que leva a loucura e perseguição.

O que fazer quando alguém se apaixona de uma forma patológica e encontra desculpas para toda e qualquer recusa do outro alegando que não é porque o outro não o ama, mas porque está sendo impedido, não pode? E como agir com sua esposa que não acredita em toda esta loucura?

A vida de Joe se transforma num inferno, uma loucura, ao ponto dele já não saber se está louco ou não. Se o que ele vê e percebe é real ou não. Nem nós leitores sabemos.

A história se desenvolve segundo os estágios da erotomania: a esperança, o despeito e o rancor.

Joe inicialmente se sente atraído pelo que está acontecendo, mas também sente repulsa. Como lidar com estes sentimentos? Quando Jed se torna violento é a vida de Joe e sua esposa que estão em risco, mas a polícia não acredita nele, nem sua esposa.

Como a vida pode mudar em questões de minutos, as contingências, algo não previsto, e o que fazer então?

O amor patológico, a obsessão, a incapacidade de agir na realidade, a erotomania, onde se cria um mundo e razões para tudo e não se escuta o outro. McEwan consegue nos levar junto, vamos vivendo o que se passa ao ponto de também não sabermos mais quem está dentro da realidade.


Ian McEwan nasceu em 1948 em Aldershot, Inglaterra

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: AMOR, DE NOVO - DORIS LESSING



Lessing, Doris. Companhia das Letras, 1996
Tradução: José Rubens Siqueira
362 páginas

Li este livro em 2011, mas nunca me esqueço dele por me tocar fundo. O Amor, tema de tantos livros, filmes e da vida. Talvez me seja mais inquietante ainda por eu também estar na meia-idade e sozinha.

Logo no início: Estou amando outra vez,
                       Coisa que nunca quis...

Sarah Durham tem 65 anos, fundou uma companhia de teatro com outros três amigos e dedica sua vida à companhia. Sua família, ou seja, seus filhos, não lhe dão atenção, exceto quando precisam dela, mas Sarah acredita que sabe lidar com isto, apesar de muitas vezes não conseguir se desvencilhar destas demandas, o que a leva a acolher sua sobrinha problemática, Joyce.

Há muito tempo, vinte anos, ela abdicou da vida amorosa e segue trabalhando com afinco e dedicação. Sua companhia resolve montar uma peça sobre uma mulher - Julie Vairon, que era da Martinica, uma pintora e musicista que viveu seus amores proibidos no Sul da França. É escrevendo sobre esta mulher que Sarah se verá novamente diante do amor.

A Companhia parte para a França onde serão encenadas as primeiras apresentações de Julie Varon. Sarah irá se apaixonar, primeiro por Bill, um jovem ator, mas também por Henry, o diretor do espetáculo e apesar deste ser mais maduro que Bill, ambos são mais jovens do que ela.

Lessing se detém sobre a mulher madura que de repente se vê apaixonada, com desejos sexuais, mas que não sabe o que fazer, sua angústia, sua indecisão, os medos, e a moral. Todo amor busca reviver a infância, tem suas raízes ali, nos amores objetais, os primeiros de nossas vidas, e ela irá analisar justamente as privações da infância que se refletem na vida adulta da mulher.

Ao se apaixonar nesta idade Sarah revive sua adolescência, percebe que nada muda, é a mesma loucura, a mesma intensidade, o mesmo desejo. Mas há a experiência passada que a faz temer este sentimento. De qualquer maneira o amor a faz reviver com intensidade, a sentir, a desejar. Seu amor por Bill a fará reviver uma fase mais infantil e por Henry uma fase mais madura.

Doris Lessing nasceu em 1919 em kermanshah no Curdistão Iraniano, então parte do Reino da Pérsia e faleceu em 2013 em Londres.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO : OS ENAMORAMENTOS - JAVIER MARÍAS




Marías, Javier. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Eduardo Brandão
344 páginas.

Interessante que os personagens são Javier e Marías, como se fossem o lado masculino e feminino do autor.

O autor nos conduz através de uma única voz, a de María, nos labirintos de uma pessoa enamorada por outro. O que podemos imaginar, deduzir, conjecturar sobre o outro, sem nunca saber a verdade sobre o outro ou como este outro nos vê. São os desejos, as ilusões, a racionalidade, o que se espera apesar de não poder esperar. Pouco espaço a outra voz, e quando isto se faz é María quem conta, e existe também a possibilidade dele estar mentindo para ela.
O livro dialoga com outros livros, principalmente com "O Coronel Chabert" de Balzac que acompanha o livro. "revela passo a passo as armadilhas de toda ficção. O desejo íntimo de acreditar naquilo que é narrado, bem como o impulso de preencher com a própria fantasia o que se ignora.".
Estamos sempre fazendo isto, mesmo quando o outro nos fala, o captamos com a nossa subjetividade. Sempre faltará algo, há sempre um resto em qualquer diálogo. O livro lembrou-me um pouco Machado de Assis - Dom Casmurro, onde a dúvida permanece e não sabemos pelo autor se Capitu traiu ou não.
Javier Marías, através de sua personagem María, nos leva ao encontro do que é mais real em um enamoramento, aquilo que realmente pensamos ou desejamos, chegando ao cruel, que se faz através de palavras ou de atos. Quando amamos outro que ama outro, no fundo desejamos eliminar este outro, alguns o fazem, outros só o falam, e isto remete ao inconsciente infantil, onde desejamos a morte do irmão(ã), ou do genitor que concorre conosco por aquele a quem desejamos, e isto se mantém, repetindo em nossas vidas, seja em pensamento ou em ato. os Enamoramentos é uma descrição do real de se estar apaixonado.

Javier Marías Franco nasceu em 1951 em Madrid, Espanha. É formado em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid. Considerado um dos mais importantes escritores vivos da lingua castelhana.