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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

FILME: IRREVERSÍVEL - 2002


Direção: Gaspar Noé - 2002
Duração: 94 min
Título original: Irréversible

Um filme forte e que causa um grande desconforto. A violência inicial do filme com a câmera se deslocando a todo instante, a cena do estupro que é crua como nunca vi filmada.

Os deslocamento da câmera no início do filme  nos colocam no contexto, a angústia, a raiva, o ódio, a vingança, a busca pelo criminoso, Pierre (Albert Dupontel) e Marcus (Vincent Cassel)  estão perdidos, agindo no impulso, ou melhor, pela pulsão. O mundo deles mudou. Estão desesperados atrás do homem que estuprou a namorada de Marcus, ex-namora de Pierre, Alex (Monica Bellucci).

Mas o mais interessante do filme é como ele nos conta a história retornando cena após cena ao antes, mas não como normalmente se faz com um crime no início e depois a história volta lá no começo para então seguir em frente até chegar ao crime, aqui não, ela retrocede passo a passo como foi vivido, por trechos, sempre indo mais longe no antes. Não há como mudar, se repete, volta, e que angústia pensar que poderiam ter feito diferente, mas não é mais possível.

A cena do estupro é violenta, insuportável, dura em torno de 5 minutos, no real, é muito difícil de assistir.

Os personagens estão no aprés-coup, perde-se a linearidade do tempo, e isto o deslocamento da câmera nos mostra, tudo gira, em 360º, o filme retrocede sobre seus passos, nos mostra duas cenas de violência no real, e o antes que se perdeu, como diz um personagem no começo do filme e a frase se repete no final: "o tempo arruína tudo".

Não há volta, é irreversível. O trauma se instalou, não se nega, não é recalque, é ato. Há traumas que não podem ser falados, eles se repetem, eles são atos. Na análise é o que podemos chamar de uma transferência inversa onde o paciente faz o analista sentir em si mesmo o que não consegue falar, faz ele repetir o crime.
Não é possível narrar, contar a história neste filme, é através do recuo, do retrocesso no filme, das imagens, do movimento que se vê o trauma, não no linear da palavra.

O trauma não se esquece com o tempo, não é deixada para trás, o que ficou para trás é o antes que já não existe, que o tempo destruiu. A cena do estupro é terrível e ali está no tempo linear pela sua duração, mas é depois que ela se torna terrível, quando se descobre que Alex estava grávida. O choque é forte. Sentimos o mesmo ódio deles, temos vontade de matar, de destruir, e é isto que a pulsão de morte faz, destruir, se volta em torno de si mesma e destrói tudo. É um tempo próprio que a tudo destrói.

Interessante quando antes de tudo ocorrer Alex sonhar com um tunel vermelho após ela ter tido relações sexuais com seu namorado. No sonho o tunel se parte em dois. É nesta cisão, nesta ruptura entre os dois pedaços do tunel que o filme gira sem parar destruindo tudo, é naquele tempo, e não no pedaço de antes ou no pedaço do depois do tunel. Já não é possível retroceder, o "Isso" que está na cisão do tunel não há como fugir dele, não dá mais para mudar, é irreversível.

Gaspar Noé nasceu em 1963 em Buenos Aires, Argentina 

domingo, 29 de dezembro de 2013

FILME: UM MÉTODO PERIGOSO - 2011


Direção: David Cronenberg - 2011
Duração: 99 min 
Título original: A Dangerous Method 
Roteiro: Christopher Hampton 
País: Canadá



Baseado no livro homônimo de John Kerr e na peça de teatro The Talking cure de Christopher Hampton. 


Já falei sobre a biografia de Sabina que li, agora retomo o filme que foi feito baseado num momento de sua vida que é mais conhecido, sua relação com Jung e Freud.

Sabina (Keira Knightley) sofre crises histéricas e é internada na Suíça onde um jovem se interessa por seu caso pensando em ser a oportunidade perfeita para aplicar o que vinha aprendendo com Freud (Viggo Mortensen) . É Carl Jung (Michael Fassbender).



Sabina tem uma questão com o pai, que para bater nela como castigo e repreensão a fazia tirar sua roupa, e isto a excita tremendamente, só que ela não pode aceitar isto, e com isto só terá prazer com a humilhação e apanhando. Ela precisa se humilhar e se punir.Sabina admite que gostou e se sentiu excitada em apanhar do pai, o corpo da criança é erógeno e a lembrança recalcada do prazer irá se tornar erótico mais tarde, mas é cortado pela culpa e pela vergonha, pela moral.  Jung irá curá-la desta questão.

Sabina então irá se interessar pela psicanálise, e decidirá ser médica tendo o apoio de Jung para isto. Irá também se analisar com Freud que neste momento tem em Jung seu sucessor.
Freud e Jung irão se desentender como é conhecido e se afastarão. Freud está preocupado com o futuro da psicanálise e não aceita pensamentos diferentes neste momento e Jung dirá que ele se porta como um pai diante de seus discípulos e os trata como pacientes infantilizados. Freud por seu lado dirá que Jung quer ser como Deus, e o mundo é o que é.



O filme foca mais este momento e principalmente a relação entre Sabina e Jung que se tornou um escândalo para a psicanálise. Eles se apaixonam, mas não irão ficar juntos. Sabina irá se tornar uma freudiana, mas sempre irá apoiar Jung. Ela se casa, terá duas filhas, mas acabará vivendo mais distante do marido do que com ele, até se separarem. Enfrentará muitas dificuldades tanto por causa da guerra, da Revolução Russa como por ser mulher. Acabará esquecida como psicanalista sendo resgatada somente após serem encontrados seus textos e diário.

Sabina foi assassinada em 1942 junto com suas duas filhas na Rússia pelos nazistas.

A questão de que também os profissionais precisam de ajuda aparece no filme e fica mais evidente com Otto Gross (Vincent Cassel) que defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir seus desejos.



Assista ao trailer


David Cronemberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá

Trilha sonora de Howard Shore

Howard Shore 

FILME: CISNE NEGRO - 2010



Direção: Darren Aronofsky - 2010
Duração: 108 min
Título original: Black Swan 
Roteiro: Andres Heinz - Mark Heyman - John J. McLaughlin 
País: Estados Unidos 

Ganhou o Oscar 2010 de melhor atriz, melhor diretor e melhor filme. 
Natalie Portman venceu o globo de ouro como melhor atriz.


O Filme é baseado no balé dramático O lago dos cisnes do compositor russo Tchaikovsky composto de quatro atos.

Belíssimo!

Uma mãe (Barbara Hershey) transfere para sua filha seu desejo que não se realizou, a trata como uma menina, doce e meiga e sempre repete isto: - Menina meiga! Um quarto com bichos de pelúcia, um grande coelho rosa. Só que esta menina já é praticamente uma mulher.
Nina (Natalie Portman) odeia e ama a mãe, dependência, não consegue ser ela mesma.
O amor e o ódio, o cisne branco e o negro, a ambivalência, a boazinha e a selvagem.
Ausência de pai, que imponha a separação da mãe e a lei do desejo. Ela é esquizofrênica, tem alucinações.
Uma parte dela tem que ser perfeita, doce, não relaxa, não curte a vida, não sabe seduzir, a menina meiga. Ela se mutila, se agride, autodestruição.
Não pode ter um homem, isto acabaria com o desejo da mãe, não pode ser mulher. Se masturba e vê a mãe na poltrona dormindo. Alucinação?
O outro lado deseja, quer seduzir, quer viver, mas ela o considera mau, tem que destruí-lo e voltar a ser a menina meiga.


Ela é uma bailarina, e o professor de dança Thomas Leroy (Vincent Cassel)  irá escolher quem irá interpretar o cisne negro e o branco para substituir Beth (Winona Ryder) que está se aposentado. Ela é escolhida para ser o branco, mas ela quer ser o negro também. Irá iniciar uma competição entre ela e outra bailarina Lilly (Mila Kunis), mas por mais que o professor quisesse que fosse ela, ao dançar ela não é um cisne negro, é correta e certinha demais, doce demais.



O filme mostra claramente o conflito dentro dela entre estes dois lados, que todos nós temos, mas que ela não consegue viver por que sua mãe a quer doce e meiga, e ela atende ao desejo do outro. Até que ela se transforma no mais belo cisne negro que já se viu, e dança maravilhosamente, fazendo com que sua mãe atinja seu desejo através dela, mas ela não o suporta, e terá que matar o cisne negro, seu lado negro. E também por que o que restaria dela depois de atender ao desejo do outro? nada!





Assista o trailer




Darren Aronofsky nasceu em 1969 em Nova York, EUA em uma família judia conservadora e sua irmã é bailarina. Graduou-se em Antropologia Social e Cinema em Harvard.

Música Clint Mansell 

Pyotr Ilyich Tchaikovsky - O lago dos cisnes