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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

UMA MULHER INTENSAMENTE VIVA

 


LOU ANDREAS-SALOMÉ

DORIAN ASTOR

L&PM – 1ª ED. – 2016

320 páginas

Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação afirmativa com a vida.

Lou aparece como uma pensadora que via, inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa, jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.

Infelizmente, por decisão própria, Lou preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.

Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa, interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua filosofia.

O autor também aborda a relação ambígua de Lou com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação individual.

O retrato que emerge é o de uma mulher vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.

Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche. 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

QUANDO CONTROLAR O PASSADO SE TORNA UM PROJETO DE PODER

 

APAGANDO A HISTÓRIA: Como os Fascistas Reescrevem o Passado Para Controlar o Futuro

JASON STANLEY

 L&PM – 1ª ED. 2025

224 páginas 


Apagando a História, de Jason Stanley, e Quem tem medo do gênero?, de Judith Butler, ajudam a compreender o que está acontecendo no mundo contemporâneo, especialmente diante do retorno de Trump nos Estados Unidos, de seus ataques às universidades e do empenho da extrema direita contra a teoria crítica da raça, a teoria de gênero, a história das mulheres e os cursos que abordam a sexualidade.

Ao estabelecer paralelos com o período de 1930 a 1945 na Europa — marcado pela ascensão do fascismo e do nazismo —, Stanley demonstra como a história é apagada e substituída por uma nova narrativa. Em geral, trata-se da construção de um mito nacionalista e de “tradições culturais” que devem ser celebradas como orgulho da nação. Um dos objetivos centrais desse processo é destruir conquistas e direitos relacionados à classe, ao gênero, à sexualidade e à raça.

Nesse contexto, todo espírito crítico passa a ser desencorajado. Não se trata mais de pensar, mas de aceitar, ou engolir, aquilo que esses regimes impõem como verdade. O ataque principal recai sobre a educação e as universidades: controla-se o que é ensinado e como é ensinado, moldando subjetividades e apagando conflitos históricos.

Jason Stanley expõe com clareza o perigo real representado pelos ataques da direita autoritária à educação. Identifica suas principais táticas, seus financiadores e traça as raízes intelectuais desse projeto político, mostrando que não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia deliberada de controle do presente por meio da manipulação do passado.


Jason Stanley nasceu em Syracuse em 1969. É um filósofo estudioso do neofascismo, particularmente nos EUA. 


domingo, 28 de maio de 2017

LIVRO: BELLA TOSCANA - A Doce vida na Itália - FRANCES MAYES


Mayes, Frances. L&pm pocket , 2010.
304 páginas
Tradução: Waldéa Barcellos 

Após escrever o conhecido "Sob o sol da Toscana" que virou filme (postado no blog) Mayes deu continuidade com este belo "Bella Toscana" onde nos conta com mais minúcias e detalhes sua vida no povoado de Cortona na Itália. 

A reforma da casa, o jardim, a horta, o pomar. Ela vai nos contando, como se fosse um diário, não se trata de um romance contínuo, seu dia a dia na Itália e suas vivências, experiências, nesta terra tão diferente dos Estados Unidos. 

Bramasole é seu refúgio, onde pode recuperar suas energias, sua paz, onde passa alguns meses para recuperar-se e enfrentar os outros meses de sua vida mais estressante, digamos assim. 

Claro que é perceptível que este sonho de poder fazer isto é para quem possui boas condições financeiras, inclusive para poder fazer a reforma não apenas de uma casa, mas de duas na Itália. Mas a leitura é algo relaxante e que nos inspira a fazer algo se não igual, pelo menos parecido em nossas vidas, porque podemos sim ter um jardim, uma horta, construir algo em nossa casa, decorar. Mas o que todos podemos fazer é cozinhar, e o livro traz as receitas

Gosto de ler Mayes quando não estou bem, quando preciso encontrar minha essência, reencontrar meu lar, minha casa, meu aconchego. Ela tem uma vida que muitos de nós desejamos, mas que não podemos ter. Mas podemos sim em nosso próprio universo fazer algo parecido. Ela nos incentiva com sua escrita e isto é muito bom. 

Frances Mayes nasceu em 1940 em Fitzgerald - Geórgia, EUA.

domingo, 26 de janeiro de 2014

LIVRO: DOLCE AGONIA - NANCY HUSTON


Huston, Nancy. L&PM Editores, 2008
Tradução: Cássia Zanon
240 páginas

Quem relembra o jantar de Ação de Graças que Sean Farrell oferece aos seus onze amigos é Deus. Se na "Menina que roubava livros" era a Morte, aqui temos Deus, porém, qual a diferença? pois se é Deus que determina o fim de cada um deles e os chama para si?

Logo no início no Prólogo no céu Deus fica espantado com sua própria criação, mesmo conhecendo tudo a respeito de cada um deles, são capazes de surpreendê-Lo. "Cegos, cegos... eternamente esperando e tateando, esforçando-se por acreditar na minha bondade, descobrir o sentido de seus destinos, entender os meus planos. Simplesmente não conseguem evitar a busca por um significado."

E lá estão eles reunidos para o jantar de Ação de Graças e enquanto se desenrola o jantar entre conversas, risos, piadas, lembranças, também cada um deles irá pensar em episódios de suas vidas, a dor, a velhice, a doença, a morte, a perda. A cada final de um capítulo, Deus nos contará como um deles irá voltar  para ele, independentemente do que eles desejam, do que sonham, a vida termina um dia, e nem sempre na hora que eles considerariam a melhor, a esperada. Neste ponto, Deus nos mostra uma faceta nada bondosa, uma vez que devido sua lógica do que traçou para cada um, dentro do universo que criou, ele os arrebata em momentos que impedem a alegria de uma criança, um reencontro, um momento de amor, mas em outros momentos Ele chega a tempo para fazer parar um sofrimento, uma dor que está se tornando intolerável.

Todos ali tiveram bons momentos, mas humanamente conseguem se apegar mais aos maus momentos, mesmo que ele tenha sido só um instante, mas outros, carregam traumas que são difíceis de esquecer. Como é fácil e perigoso julgar ao outro sem saber nada dele. Como um episódio, uma história é cômico para uns e desperta algo horrível para o outro. Como uma simples palavra - avião - pode trazer boas e más lembranças.

Um grande painel do que é o ser humano e do mundo ali, entre quatros paredes, como uma pintura, como uma Santa Ceia, muito bem construído por Huston.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: MARCAS DE NASCENÇA - NANCY HUSTON





Huston, Nancy. L&PM Editores, 2007
Tradução: Llana Heineberg
272 páginas
Prêmio Femina

"UM ADULTO NADA MAIS É DO QUE UMA CRIANÇA QUE SOFREU"

O livro retrata 04 gerações dividido em 04 capítulos que retrocedem narrando a infância de cada um quanto tinha 06 anos, no seu contexto histórico e social. A bisavó, a avó, o filho e o neto, iniciando com Sol, o neto, em 2004 e finalizando com a bisavó no fim da Segunda guerra. Ao terminar o livro senti vontade de lê-lo ao contrário, o que também seria possível.
Eles tem uma marca de nascença, porém as marcas são muito mais profundas e além do biológico, dos laços sanguíneos, deixando claro como estas marcas, traumas, questionamentos, dúvidas, ficam no inconsciente de uma família.
Huston nos mostra a infância como realmente ela é, sem a tão propalada inocência infantil, mas ao contrário, com a crueldade infantil que marca, o édipo, o ódio ao irmão(ã), o onipotência, típicas da infância. Os medos, as dúvidas, a descoberta da sexualidade, a falta de entendimento, as suposições que marcam, a experiência escolar, as descobertas, as discussões familiares, as alegrias, os traumas. Retrata como se forma o adulto através da criança, e deixa claro que nunca saímos da infância, como diria Manoel de Barros que chama suas memórias de infância, inclusive a velhice. A força das palavras e gestos que ficam, a força da mãe, como se grava na criança, a violência psíquica.
Vê-se claramente o inconsciente atuando, regendo uma vida, intemporal, sem idade, a eterna criança que ali está no adulto e que irá se transmitir ao outro, ao filho.
Um belo livro.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.