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domingo, 29 de maio de 2016

LIVRO: A AMIGA GENIAL - Infância, Adolescência - ELENA FERRANTE


Ferrante, Elena. 1ªed. Biblioteca Azul, 2015 .
336 páginas
Tradução: Maurício Santana Dias
Título Original: L'amica geniale: infanzia, adolescenza
Série Napolitana - Primeiro Romance

Confesso que sou atraída muitas vezes por capas, e neste caso o efeito foi contrário, me pareceu um daqueles romances bem água com açúcar, mesmo lendo a sinopse do livro. Mas, por sorte, li uma resenha de um psicanalista sobre os livros da tetralogia de Elena Ferrante que falava sobre as questões de identificações, édipo, e todo o conflito da infância e adolescência. A partir disto procurei um pouco mais de informações sobre os livros, que são quatro, porém lançados no Brasil até o momento foram dois. Este A Amiga genial que é o primeiro, e o segundo que é História do novo sobrenome.

A primeira coisa que me intrigou foi a autora. Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que se mantém fora do circuito da mídia, não se conhece seu rosto, nem quem é. Ela diz que após o livro estar escrito ele não precisa mais dela. Por outro lado isto lhe dá uma liberdade de escrever de uma forma real, indo a fundo nos sentimentos e na descrição de um bairro em Nápoles, pobre, violento, logo após a Segunda Guerra.

A autora tem o dom de colocar em palavras todo o universo interior feminino, começando pela infância que é o caso deste primeiro livro. Suas dúvidas, desejos, a raiva/ódio do pai ou da mãe, a competição, as identificações que fazemos, o corpo e suas modificações, a sexualidade, os sonhos, os medos. 

Este primeiro livro se passa praticamente dentro de um bairro em Nápoles, onde vivem várias famílias pobres e duas que possuem uma condição financeira um pouco melhor e por isto dominam o bairro seja pelo ódio ou pelo medo, mas ao mesmo tempo é explícito a inveja, o ciúme e o desejo de ser igual a eles, mesmo com todas as recriminações que lhes fazem. 

Ali vivem Lila e Lenu e todo o romance irá girar em torno delas. Logo no início, o tempo passou e Lenu recebe um telefonema do filho de Lila dizendo que ela desapareceu. Para impedir este desaparecimento, o apagar de todos os vestígios, a ausência, Lenu começa a escrever a história das duas. 

Ao longo do romance veremos como Lenu vai se identificando à Lila para escapar de sua mãe que é manca, isto me lembra a história de Édipo, mas versão feminina. Na família edipiana os homens tinham problemas nos pés. Lila é ágil, rápida, ativa, o contrário de uma pessoa que manca. Começa uma competição que se no livro é contada por Lenu, não deixa de ocorrer com Lila também. A saída de Lenu para competir com Lila são os estudos, mas virá a frustração, quando Lila se casar com um dos melhores partidos do bairro. Para que serve o estudo? o saber? Lenu ama Nino, que é muito estudioso também, mas deixou o bairro quando criança por seu pai ter se envolvido com Melina que ficou viúva. Nino odeia o pai.

A crueldade infantil não ficará de fora, aqui na competição entre Lila e Lenu, na maneira como elas querem ser melhor uma que a outra e na forma como se provocam. Mas uma não consegue ficar distante da outra, apesar de parecer que Lila o consegue, quando Lenu ler seus escritos verá a dor que ela também sentiu.

Ferrante nos desvenda o feminino desde a infância de uma forma feroz e honesta, talvez justamente por poder se ocultar ela pode falar como ninguém e mostrar o que realmente se passa no íntimo sem subterfúgios,  máscaras sociais.

Recomendo a leitura!!!! 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA



Clément, Catherine; Kristeva, Julia. Rocco, 2001
220 páginas
Tradução: Rachel Gutiérrez

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.

O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

LIVRO: A BALADA DE ADAM HENRY - IAN McEWAN


McEwan, Ian. 1ª. Companhia das Letras, 2014
196 páginas
Tradução: Jorio Dauster
Título Original: The Children Act

Ian McEwan trabalha com profundo conhecimento da alma humana naquilo que mais escondemos de nós mesmos ou não queremos ver. Este é o terceiro livro que leio dele e também assisti a dois filmes baseados em seus romances: Desejo e Reparação e Amor sem fim

Desta vez é o universo feminino e o amor. A que ponto uma mulher madura, com sessenta anos, profissional bem sucedida de repente se perde no torvelinho das emoções quando seu marido Jack lhe diz que deseja viver, e que talvez seja sua última chance, pretendendo ter um caso com uma mulher mais jovem, mas ainda assim afirmando que a amava. 

Fiona é juíza na vara de família e com isto se defronta diariamente com questões como divórcios, guarda de filhos, ou seja, tudo aquilo que um dia foi só promessas de pura felicidade e que se destrói, desmancha, transformando-se em disputas judiciais pelo dinheiro e pela guarda dos filhos, isto quando estes não são o joguete dos interesses e vinganças dos pais. 

Agora de repente ela se vê frente a uma situação de crise em seu casamento. O choque foi tal que ela não consegue pensar, acaba tendo atitudes que vê as mulheres terem e que normalmente condenaria como imaturas, mas quando a emoção está a tona somos capazes de muitos atos que jamais faríamos. 

Entrega-se totalmente ao trabalho, mas não consegue afastar de si o que se passa em sua vida pessoal. Pensa muito no fato de não ter tidos filhos. Relembra sua vida de casada, sua juventude e seus planos. No meio desta crise ela tem que julgar um caso de um rapaz prestes a completar 18 anos, testemunha de Jeová, cujos pais se recusam a dar autorização para uma transfusão de sangue o que salvaria sua vida. O rapaz, Adam, também concorda com os pais. Fiona então resolve visitar o rapaz no hospital antes de se pronunciar e tomar uma decisão. 

McEwan elabora bem o que é um jovem e como ele pensa e se sente, o que realmente busca e deseja com suas atitudes e toda a fragilidade e carência da juventude. Por outro lado Fiona se deixa levar sem um controle sobre sua posição na situação. Talvez por pensar que poderia ser seu filho, talvez por se sentir não desejada e buscar isto, por suas faltas e carências, por sua crise pessoal. 

Jack, o marido de Fiona também é surpreendente quando deseja a aprovação e conivência de Fiona para seu caso com outra mulher. Ao invés de fazer isto as escondidas ele precisa que ela saiba e o aprove, o que demonstra também uma imaturidade, um lado infantil, o homem que ainda busca sua mãe. Ao invés de enfrentar a questão de frente com sua mulher sobre sua insatisfação sexual ele opta por uma saída que às vezes parece uma ameaça, o que Fiona pressente. Ela se sente pressionada. 

A modernidade pode trazer opções variadas do viver a dois, mas por mais que se deseje uma vida livre, isto não funciona no amor, vejam os casos de Simone de Beauvoir e Sartre, Frida e Diego, resultou em dores, ciúmes, sofrimento não só para eles como para outros. 

Um livro para refletir sobre o amor, a família, filhos e também sobre os efeitos de uma religião que se fecha numa comunidade sem abrir horizontes diferentes para os jovens que vivendo no mundo atual podem acabar se perdendo dentro de tudo isto. Adam esperou o apoio de Fiona para sua decisão, ele não tinha maturidade suficiente para sustentar o que escolheu. Ela não conseguiu ocupar um lugar de mãe substituta, e nem mesmo de uma amiga mais velha que pudesse ajudar. 

No fundo o que vemos são jovens e adultos sem saber direito o que fazem, quase que perdidos e sem orientação. Adam ainda procura ajuda em Fiona,  mas ela se recusa a falar com alguém sobre a crise no seu casamento, e Jack, bom não se fala dele sobre isto, mas parece que também não o fez. Talvez por isto o título original seja mais apropriado ao livro, não apenas para pensar na lei e na justiça em relação às crianças, mas sobre nossos atos infantis onde não conseguimos nos distanciar e tomar decisões ou fazer escolhas mais elaboradas, nos deixando levar pela emoção, pelas faltas, e pela culpa. 


Ian McEwan 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

LIVRO: HOTEL DO LAGO - ANITA BROOKNER


Brookner, Anita. Rocco, 1986
163 páginas
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Título Original: Hotel du Lac

Edith é um escritora que escreve sob um pseudônimo romances de amor. Ela vive sozinha em Londres e tem um romance com David que é casado e alguns amigos, além de seu editor com quem as vezes sai para almoçar. Mas ela comete um erro imperdoável segundo seus amigos que a isolam e enviam para o Hotel do Lago na Suíça.

O Hotel nesta época do ano já tem poucos hóspedes, a temporada está acabando, e na maioria são mulheres desacompanhadas, cada uma com sua história. É um Hotel reconhecido por sua sobriedade e por se manter na tradição não aderindo as muitas novidades que a hotelaria vem utilizando.

Edith inicialmente se mantém distante e observando, aos poucos começa a interagir com os hóspedes, mas mesmo assim, é tudo muito superficial, o que não a impede de criar uma história para cada um, e de perceber o quanto ela acredita em seus romances e no que escreve, apesar das tentativas de seu editor para que ela se modernize, ao invés de acreditar tanto no amor romântico.

A sua estada no Hotel aos poucos a fará repensar muitas coisas, observar o feminino em suas manifestações e de aos poucos compreender o quanto estas pessoas vivem da aparência e não uma vida real. Um consumismo exagerado, manter o status social, e não se sentir ridículo perante os outros, mas quem são estes outros? são importantes? A própria Edith sempre deixou que os outros comandassem sua vida e a repreendessem, a ponto de decidirem que ela devia exilar-se.

Este crescimento permitirá que finalmente Edith tome uma decisão por si mesma e lhe desmanchará as ilusões que mascaram a vida e as pessoas.

Anita Brookner nascem em 1928 em Herne Hill, no Reino Unido.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

LIVRO: HAMBRE DEL ALMA - Escritoras e o banquete de palavras - CARLA CRISTINA GARCIA



Garcia, Carla Cristina. 1ª ed. Limiar, 2007
149 páginas

Um belo livro sobre o feminino. Carla nos fala dos espaços e da criatividade. Sempre foi dito pela cultura patriarcal que a cozinha é um espaço de confinamento da mulher e o que a autora nos mostra é que pelo contrário, é um espaço de criatividade e libertação.

A escrita também é uma forma de liberdade e normalmente também se produz na casa, mas é capaz de nos levar muito longe.

A arte e a criatividade é uma forma de libertação e de possibilidade de um conhecimento que vai muito além do que podemos aprender na rua, no exterior, mas o mais importante é a união de ambos os lados. Garcia nos chama de volta ao corpo, não no sentido do culto da beleza do corpo, mas como a nossa morada, e onde sentimos, temos percepções do mundo exterior e interior, o físico e o espiritual se unem no corpo.

A Hambre del alma, a fome da alma, é algo que muitas mulheres sentem, e penso que os homens também, pois costumo ver o feminino como sendo algo que é do humano, assim como o masculino, e não separando isto, rejeitando desta forma a dicotomia cartesiana, a mente e o corpo, ou qualquer outra dupla, pois acredito no múltiplo. Somos muitos em um só.

Dentro da cultura patriarcal a mulher foi confinada ao lar e o homem ao mundo. Ele era o intelectual, o que escrevia, que criava, o ativo, e a mulher o passivo. O que Carla nos mostra neste belíssimo livro é que as coisas não foram exatamente assim, e as mulheres sempre encontraram formas de criar também, mas usaram outra linguagem.

Ela nos fala das receitas e de comida. A comida que nos alimenta, tanto o físico como a alma. A sociedade dividiu a gastronomia internacional e seus chefs de um lado e considerou a culinária caseira como sendo nutrição, dia a dia, não um arte. Mas será que é assim?

Na introdução  há uma abordagem muito interessante sobre a anorexia que viria substituir a histeria do século passado, ou seja, um protesto das mulheres contra sua situação cultural. "A anoréxica sente não ter domínio sobre o próprio corpo e almeja se tornar ditadora ou tirana desse reino só seu." O corpo da mulher é usado como uma forma de poder, de controle, o que acaba levando a compulsões como dietas, exercícios físicos até seus quadros mais graves como anorexia e bulimia. Outra faceta é a tentativa de manter seu corpo puro almejando a ascese espiritual, esquecendo que é justamente no corpo que as sensações se produzem, o amor, o prazer, aliás, este justamente é o grande vilão.

Adélia Prado é citada no livro: "Se me dessem licença de comer eu me curava, virava gente grande."

A mulher tem fome, é esfaimada. Garcia vai nos falar então de como escritoras saciaram esta fome da alma através da escrita, mas também da culinária, e da arte. Nos fala de Virginia Woolf, Laura Esquivel e Nélida Piñon. A narrativa é uma cura, e os cadernos de receitas muitas vezes trazem diários embutidos neles, observações e frases, além de toda arte, por que os grandes chefs são científicos, medem seus ingredientes, mas a mulher os coloca sentindo o sabor na boca, e ela sabe quando está pronto. A cozinha é um local de criatividade, de narração, as receitas contam histórias, a comida sociabiliza, acolhe, é amor, é nutrição para a alma. A comida une o público e o privado.

Infelizmente a modernidade afastou a mulher da cozinha,além de modismos, dietas que visam falsamente a purificar o corpo ou a alma, o que realmente importa  é comer sem culpa e com isto alimentar a alma.

Há vários filmes citados no livro como Tomates Verdes Fritos, Como água para chocolate, A festa de Babette e também livros, todos atendendo a esta fome.

O livro trata realmente de como fazer comida para a psique, de como alimentar esta alma esfomeada. Um belo livro.

Carla Cristina Garcia é mestre e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO - MURIEL BARBERY



BARBERY, Muriel. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
352 páginas
Título original: L'élégance du hérisson 

Descobri o livro numa livraria no aeroporto enquanto aguardava meu voo, obviamente não resisti e o comprei de imediato e não me arrependi, o livro é maravilhoso.
Um prédio em Paris, número 7 da Rue de Grenelle, apartamentos de luxo onde vivem além dos proprietários a zeladora Renée, uma mulher séria, que nos parece de mal com a vida, cumpre com seus deveres e sabe seu lugar em relação aos moradores do prédio. Mas atenção, as aparências podem enganar, enquanto os moradores que são considerados distintos e cultos mas vivem na mediocridade do esnobismo, de serem algo devido sua classe social, Renée, que nos parece uma pessoa simples e ignorante pode revelar que é muito mais que isto. 
Ela vive no térreo, com seu gato, Leon, e isto já poderia ser uma pista, seria Leon Tolstoi? O que ela esconde que não conseguimos perceber? Ela é uma amante dos livros, tem uma biblioteca oculta em seu apartamento. Encontra nos livros o que a vida não lhe oferece, puro deleite e amor às artes. 
Mas neste prédio temos também Paloma, uma adolescente que vive com sua família, um pai ausente, um figurão, a mãe uma dondoca formada em Letras e a irmã que se considera uma filosofa. Ela decide que a vida não vale a pena ser vivida e que irá se suicidar no dia do seu aniversário de treze anos, a menos que descubra um sentido para a vida. Pelo menos ela tenta, escreve dois diários que denomina: Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo. Encantei-me tanto com estes diários que acabei criando os meus. 
Tanto Renée como Paloma vivem camufladas, não mostram o que são e desejam, enquanto os outros vivem com suas máscaras. Mas ambas acabam se aproximando e se descobrindo, passam a trocar reflexões, pensamentos, conversam, aqui sim, duas filosofas que duvidam e se encantam. 
Eis então que surge um novo morador, o Sr Kakuro Ozu, que é o oposto de todos ali, um oriental bem humorado, que parece ter a sabedoria da vida. Ele logo percebe que Renée e Paloma se escondem por baixo de uma capa de proteção e se aproxima, principalmente de Renée. Ele lentamente saberá como trazê-las à vida e mostrar que ela realmente vale a pena ser vivida, mesmo que nisto tenha a dor, sofrimento e muitos espinhos. Ele saberá como se aproximar dos ouriços o suficiente para lhes transmitir calor, me lembrando dos porcos espinhos de Schopenhauer

Recomendo. 

Muriel Barbery nasceu em 1969 em Casablanca, Marrocos é formada em Filosofia. Ex aluna da École Normale Supérieure, atualmente vive no Japão

LIVRO: VASOS SAGRADOS - Mitos indígenas brasileiros e o encontro com o feminino - MARIA INEZ DO ESPÍRITO SANTO


ESPÍRITO SANTO, Maria Inez do. Rocco, 2010
240 páginas.

Encantei-me ao encontrar este livro em umas de minhas andanças pelas livrarias. Já conhecemos vários livros maravilhosos que nos falam dos Contos e lendas em relação ao feminino, sendo o mais conhecido o "Mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Pinkola Estés, alias um excelente livro, mas este trabalha com os nossos mitos indígenas, valorizando o que temos de mais rico na nossa cultura e que normalmente ou não conhecemos ou esquecemos. 

Maria Inez trabalha com relatos de mitos indígenas e as histórias de suas pacientes enriquecendo seu imaginário, mas ao mesmo tempo encontrando nestes mitos uma possível resposta, uma possível alternativa, uma possível compreensão. A leitura dos mitos se relacionando com o momento atual de uma paciente abre caminhos. 

Após a leitura do livro me senti diferente, algo dentro de mim se iluminou, esclareceu, abriu uma porta. Maria Inez nos mostra como aplicar este conhecimento a questões terapêuticas, mas acima de tudo ao nosso dia a dia. 

Sempre acreditei na sabedoria dos contos, mitos e lendas. Eles existem para explicar, colocar ordem no caos e nos ensinar. Quando não estão manipulados para atender à moral ou ao patriarcalismo, são riquíssimos e nos trazem sabedoria para a vida. 

Recomendo. 

Maria Inez do Espírito Santo é educadora , psicanalista e terapeuta cultural, com formação em Pedagogia, Psicanálise, Psicologia e Culturas Brasileiras. Atualmente vive no Sítio Retiro, RJ, coordena grupos de leitura e reflexão. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: HANNA E SUAS FILHAS - MARIANNE FREDRIKSSON




Objetiva, 1998
Tradução: Myriam Campello
312 páginas



O livro fala sobre três gerações fictícias de mulheres que viveram na Suécia entre o final do Séc.XIX até o final do Séc. XX. São elas: Hanna, a avó, Johanna, a mãe e Anna, a filha e que é quem nos conta a história.

A mãe de Anna está com Alzheimer, e ela encontra na casa dos pais uma foto de sua avó Hanna, vindo a se interessar pela história desta mulher, quem foi ela?

O livro nos mostra a história destas três mulheres, em suas épocas, e como se parecem com as nossas, no mundo de hoje. Os amores, filhos, o trabalho, a luta, a profissão, a família. Levanta a questão de ser mulher e de como isto muitas vezes pode ser difícil, doloroso, mas também prazeroso. Fala das relações entre as mulheres - avó, mãe, filha, neta, mas também mostra a força que é esta teia de ancestrais.

Ao mesmo tempo relata os acontecimentos de cada época, a política, a vida, os costumes, nos mostrando também o caminho percorrido pela mulher em sua busca por liberdade e poder viver de acordo com o que deseja.

Marianne Fredriksson é uma escritora sueca nascida em 1927 em Gotemburgo e que faleceu em 2007 na cidade de Estocolmo. Foi jornalista e somente em 1980 devido uma crise pessoal iniciou sua bem sucedida carreira de escritora. 

LIVRO: A RELAÇÃO MÃE E FILHA - MALVINE ZALCBERG



Zalcberg, Malvine. Editora Campus, 2003
216 páginas

A CONSTRUÇÃO DO SER FEMININO.

Um livro importante escrito pela psicanalista Malvine Zalcberg sobre as relações entre mãe e filha, que todas as mulheres deveriam ler, seja por elas mesmas, seja por suas filhas ou por suas mães.

A construção da identidade feminina, o ser mulher que cada uma tem que alcançar, construir. Simone de Beauvoir nos disse: não se nasce mulher, torna-se mulher! 

Nos espelhamos na mãe, e ela precisa ter construído seu ser mulher para poder nos oferecer isto. É ela quem será nosso modelo de como nos construirmos como mulher. 



Malvine Zalcberg é psicóloga, psicanalista e doutora em psicanálise.