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terça-feira, 24 de maio de 2016

FILME: NISE O CORAÇÃO DA LOUCURA - 2015


Direção: Roberto Berliner - 2015
Duração: 108 min

Após sair da prisão, foi presa por suspeita de ser comunista, Nise da Silveira (Glória Pires) volta a trabalhar em um hospital psiquiátrico, o Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II - Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela retorna quando está em voga os novos tratamentos com eletrochoques e a lobotomia. Assiste a apresentação de um psiquiatra que demonstra com um paciente os efeitos do tratamento com choques. Aquilo a choca profundamente e é incapaz de aceitar isto. Por isto a única opção que lhe resta é o Setor de Terapia Ocupacional que é de responsabilidade dos enfermeiros. 

Ela encontra um ambiente desolador, bagunçado e sujo. A primeira coisa que faz é limpar e organizar o lugar. Apresenta aos médicos sua proposta, uma vez que eles são os responsáveis pelo tratamento dos internados, e não há receptividade, mas mesmo assim alguns pacientes lhe são encaminhados. É o início de uma nova maneira de se tratar a doença mental, tratando ao doente de forma digna e humana. 

Nise irá lutar com a resistência dos médicos que se baseiam muito mais no organismo, o cérebro, sem levar em conta a afetividade, as relações humanas. Até hoje a ciência foca no organismo e não no psiquismo, visto a utilização de remédios para "curar" a depressão, a ansiedade, ou qualquer outro transtorno. 

A incapacidade de enxergar os resultados, considerar isto como ocupação e não um tratamento, olhar para os desenhos e pinturas e não ter a sensibilidade de captar o simbólico que está ali no lugar da palavra. A necessidade da paciência e da observação do psiquiatra e deixar o cliente como Nise passa a chamar os internados livre para fazer o que deseja, é mais fácil os eletrochoques, a lobotomia, os remédios. O caminho da melhora e da cura é longo para aquele que está na escuridão de sua mente, de seu psiquismo, cindido, e tentando um contato com o mundo a sua volta. O psiquismo sempre procura se recompor, e é isto que ocorre nos sonhos, nos desenhos, nas pinturas, nas esculturas. Nise acompanha cada um na sequência do que vai produzindo, é ali, nesta trajetória que ela lê e compreende o que se passa, percebe a melhora, as tentativas de falar. 

Os que participam do projeto de Nise aos poucos melhoram, alguns chegam a voltar para suas casas, sua família, a agressividade diminui, o distanciamento diminui. É lamentável a falta da compreensão do hospital com os animais, cães encontrados na rua que são dados aos clientes para que cuidem deles, levando a uma crueldade de matá-los por envenenamento. Um dos internos surta neste momento, e será feito uma lobotomia nele. 

Um famoso crítico de arte verá as obras e ficar impressionado. A partir deste momento será levado ao público esta produção, mas Nise nunca permitirá a venda delas, pois ali não se trata de uma obra para venda, mas todas tem seus significados psiquiátricos, e devem ser vistas no conjunto. 

Entre os que se destacaram artisticamente estão Adelina Gomes (Simone Mazzer), Carlos Pertius ( Julio Adrião), Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Lucio (Roney Villela), Otávio (Flávio Bauraqui), Raphael (Bernardo Marinho)  e principalmente Emygidio de Barros (Claudio Jaborandy). 

O filme foca no tratamento pela arte que Nise desenvolve apoiada em Jung, principalmente devido as mandalas que os internos desenham. Nise é uma mulher admirável, e por sorte, teimosa, persistente, diante dos médicos todos homens, machistas, e da sociedade que até os dias atuais tem medo do que chamam de loucos, e tem preconceitos com doenças mentais. 


Roberto Berliner nasceu em 1957 no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

FILME: EM TRÊS ATOS - 2015



Direção: Lucia Murat - 2015
Duração: 76 min

Este filme se baseia no livro "A Velhice"  e "Uma morte muito suave" de Simone de Beauvoir. 

O filme é poético e através da dança contrapõe uma bailarina de 85 anos (Angel Vianna) e uma jovem no auge de sua carreira (Maria Alice Poppe ) tendo como pano de fundo uma intelectual de 80 anos (Nathália Timberg) que se confronta com as questões da velhice e se recorda de quando tinha 45 anos (Andréa Beltrão) e enfrentou a morte de sua mãe. Os diálogos são inspirados nos livros de Simone de Beauvoir. 

As questões levantadas é como lidar com um corpo que envelhece, que caminha para a morte. A experiência de perde alguém amado e a própria morte que se aproxima. O filme trabalha com o corpo através da dança e com a palavra através dos textos de Beuavoir. 

No livro "Uma morte muito suave" Simone fala da morte de sua mãe. No "A Velhice" é um estudo profundo sobre a situação dos velhos quando ela mesma se defrontou com a questão. 

Lucia Murat nasceu em 1949 no Rio de Janeiro. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: IVÁN - 2015


Direção: Guto Pasko - 2015
Duração: 109 min
País de origem: Brasil

Um documentário tocante sobre Iván Bojko, um ucraniano que sobreviveu a Segunda Guerra Mundial, fugiu para o Brasil e veio para Curitiba no Paraná. Nunca mais reviu sua família e seu país, passados 68 anos eis que surge a oportunidade.

O melhor do filme é que é o próprio Iván, e a filmagem ocorre em tempo real, ou seja não se trata de contar a história, mas de vivê-la junto com ele. A emoção, os reencontros, o rever sua terra, a casa dos pais, os amigos, e principalmente o reencontro com sua irmã. 

Eu pessoalmente revivi neste filme o que minha mãe viveu ao retornar para a Bélgica após 30 anos sem ir, a emoção e o tempo que demora para se conscientizar ao ganhar a passagem, o mesmo que ocorre com Iván, um dos momentos de muita emoção do documentário, o reencontro com sua irmã, o não reconhecimento acompanhado da certeza de estar lá, tudo mudou, não é mais como era, mas ao mesmo tempo é. 

O filme traz como pano de fundo o diário de Iván, nos mostra o que ele viveu na guerra, para que possamos acompanhar este percurso de vida deste homem que tem noventa e poucos anos, mas é de uma força inacreditável. Em 1942 ele foi retirado à força de seu país pelos nazistas para realizar trabalhos forçados na Alemanha. Era para ser o filho mais velho, que seria sua irmã, e ele diz que não, que ela não vai, e toma seu lugar. Em 1948 foge para o Brasil. 

É a história de muitos, dos que sobreviveram, tiveram que fugir, ficaram apátridas, foram acolhidos em outros países. O que chama a atenção levando em consideração o mundo atual, é que estes imigrantes foram acolhidos, Iván recebeu inclusive a cidadania brasileira, e também se integraram ao seu novo país. Ele em determinado momento diz que nunca voltou por medo, que é o medo que o segurou no Brasil e que nunca mais pensou que iria voltar, nem em sonhos. Interessante uma vez que meus pais também tinham este medo, e nunca mais desejaram morar na Europa. 

Mesmo com seus noventa e poucos anos, no momento que ele entra na casa dos pais, que está abandonada, ele chora como uma criança, ele se torna uma criança que chama pelo pai. O infantil que fica em nós e que nunca nos abandona. 

O filme é uma lição de vida, de coragem, de determinação, mas também de aceitação da vida como ela é. Vale a pena assistir!

Guto Pasko 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: NINA! - 2014



Direção: Rafael Botta - 2014
Duração: 10 min


Curta-metragem de Rafael Botta, diretor bauruense é uma mostra do que sente uma mulher intensa e apaixonada. Toda a dor e angústia de uma separação. Ela está desnuda, despiu-se de todo o imaginário amoroso e cai num real de dor e também de paralisação de vida. A cena onde ela caminha pela rua vestida apenas com um casaco e nua por baixo, nua como está naquele momento. 

Ao nos apaixonarmos nos perdemos, mas estamos no outro, onde vemos ilusoriamente o que desejamos, vemos a nós mesmos. E entre este se perder e se achar paralisamos. Sensação de completude que não suportamos. Nos sentimos dominados pelo outro, mas no fundo somos nós mesmos nos dominando, o outro não tem este poder. E vem o desejo de escapar disto, respirar. É quando nos sentimos tentados ao suicídio para que o outro morra, este outro que somos nós e que está em nós, e que não toleramos mais. Chorar! talvez seja a melhor forma para sair disto, pelo menos é um passo. O choro tira algo de nós, ele escorre, é salgado, mas é bom.

Nina (Renata Sarmento)  nestes curtos 10 minutos vive tudo isto, sozinha, a dor é somente dela. Mas quando ela resolve olhar pela janela.....

Li alguns comentários sobre o curta, e vejo que muitos interpretam esta olhada pela janela como sendo uma nova possibilidade que se mostra, talvez um novo amor, a volta por cima. Mas me pergunto: não seria recair no mesmo? e novamente viver tudo isto, porque como é difícil o amor, como é difícil viver um amor sossegadamente. E  então recomeçamos, a eterna repetição. Prefiro ver esta olhada pela janela como - não sou só eu, não estou tão sozinha assim, não sou eu quem tem um defeito, todos nós somos faltantes, e temos um vazio dentro de nós. Todos nós buscamos algo que pensamos ter perdido e que nunca tivemos, mas é justamente esta falta que nos move. Resta aprender que a paixão é ilusória, é uma tentativa de fazer com que 1+1 seja igual a UM. E não será!

Prefiro ver esta olhada pela janela como se defrontar com seu vazio e sua solidão, mas saber ao mesmo tempo que todos nós somos assim, e que ainda assim é possível conviver com o outro, amá-lo, desejá-lo, sem que com isto desapareçamos, sem que com isto fiquemos tão nus à mercê do nada que nos aflige. Podemos sim construir uma história com isto, contá-la, como neste curta.

Participação de Luiz Felipe Sobral.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

FILME: A HISTÓRIA DA ETERNIDADE - 2014


Direção: Camilo Cavalcante - 2014
Duração: 120 min
Roteiro: Camilo Cavalcante
País: Brasil

Nosso sertão tantas vezes filmados está novamente neste filme, porém não vem para nos contar a dura vida do povo que o habita, ou falar das secas ou das injustiças, mesmo que a seca esteja presente no filme, o que este filme traz é a história de três mulheres e seus desejos. 



Logo no começo do filme vemos passar um enterro naquela vastidão com uma única árvore onde se abriga um sanfoneiro cego e um menino. É o enterro de uma criança e a mãe Querência (Marcelia Cartaxo) o segue com dor, apoiada por Das Dores (Zezita Matos). Em seguida vemos Alfonsina (Débora Ingrid) ouvindo uma música num rádio a pilha e sonhando com o mar até que seu pai (Claudio Jaborandy) e irmãos chegam e ela precisa servir a janta. Ela nunca senta à mesa com o homens.Em seguida ela pede permissão para fazer o prato de seu tio Joãozinho (Ihandhir Santos) e o leva até sua casa, este irmão desprezado por seu pai por ser um artista, se dedicar à arte e representações, e por isto considerado um vagabundo que nada faz, além de louco, porque ele tem epilepsia. 


Estas três mulheres que desejam, tem pulsões, amam, sonham e vivem neste pequeno vilarejo no meio do sertão limitadas pela região, pela seca, pela pobreza, pelas dificuldades e pelos homens, que são rudes, mas também doces como o sanfoneiro e Joãozinho, todos em tão pequeno espaço, mas que são como todos, como o ser humano, capazes de sonhar, de criar, de desejar, mas também de matar ao outro. 

Alfonsina a mais jovem, vai completar 15 anos e seu maior desejo é ver o mar. Ela pede ao seu pai que a leve, mas ele diz que ela ficou doida, mas que vai fazer um forró e matar quatro bodes para a festança. A jovem fica triste. Seu tio então lhe diz que tem uma surpresa e que tem a ver com o mar, mas que lhe dirá o que é no seu aniversário, o que será uma das mais belas cenas do filme, quando a arte e a imaginação é capaz de vencer todos os limites e trazer o mar para o sertão. A jovem está na fase das descobertas sexuais, e quem mais do que seu tio com sua sensibilidade poderia atraí-la? Ele resiste, mas ela não desiste. 



Querência logo no começo tem um homem que vai embora. O sanfoneiro esperava por isto há muito tempo, mas ela está triste, de luto. Ele então lhe diz que vai ficar ali fora tocando até ela abrir a porta e deixar seu amor entrar. 



Das Dores é viúva e quem cuida da igreja, tem um oratório em casa e sempre reza. Sua filha liga e avisa que o neto está indo para lá. O jovem chega, mas ele não foi para lá para visitar sua avó, está fugindo, fez coisas ruins e está sendo procurado, querem matá-lo. Das Dores sente atração pelo garoto. Ela abre sua mochila, pega uma cueca, depois encontra uma revista pornográfica que fica olhando. Seu corpo clama, arde. Ela o observa dormir. 



Joãozinho prepara uma apresentação. Coloca seu toca discos do lado de fora, ele teceu uma rede como de pescaria com vários objetos pendurados, usa como se fosse um xale e dança com a música "Fala" dos Secos e Molhados. 



Neste aparentemente pequeno mundo vemos um panorama do ser humano com seus desejos e dores, e a história da eternidade que se repete, onde o trágico acompanha sempre o humano. Também fiquei pensando no nome Alfonsina que deseja ver o mar e Alfonsina del mar.

Se Guimarães Rosa dizia que o sertão é o mundo, Cavalcante faz um filme onde mostra isto. 

Belíssimo filme. 

Camilo Cavalcante nasceu em 1974 em Recife, Pernambuco

domingo, 8 de fevereiro de 2015

DOCUMENTÁRIO - ESTAMIRA - 2004



Direção: Marcos Prado - 2004
Duração: 116 min

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a inteligência e o vocabulário de Estamira. Não conhecia sua história, aos poucos fico sabendo que antes ela tinha outra vida, foi casada com um italiano, teve filhos, mas devido a traição do marido que sempre tinha outras mulheres ela o deixou. Após isto foi estuprada duas vezes, e foi após o segundo estupro que se deflagrou o quadro de esquizofrenia, quando ela passa a desacreditar em sua vida de antes e em Deus.

Mas suas frases e apontamentos são extremamente lúcidos desde que se tenha escuta para eles. O trocadilho, uma inversão, é lógico. Sua consciência ambiental supera em muito as pessoas ditas normais. Que ela tenha raiva de Deus, diante de sua realidade e também do real que se apresenta, principalmente num estupro, e não foi só isto, ela foi abusada pelo avô, e sua mãe também sofreu incesto e depois deixada num prostíbulo com 12 anos por este avô.  Ela não era perturbada, era muito religiosa, achava que as dificuldades eram uma provação, até o momento que não deu mais conta do real e ao olhar um coqueiro disse que isto era o real e o poder. Começa o processo se sentindo perseguida pelo FBI.

Seus delírios, visões, o que ela ouve é a maneira que seu psiquismo encontrou para lidar com o real. O estupro é o real, não há palavras para o dizer. Ela não teve ajuda neste momento, não pode usar de uma forma alternativa se apegando a um Deus, por exemplo. Mas Estamira se relaciona com os outros, é falante, ela chora, ama seus filhos, sofre pelas traições que sofreu e principalmente chora porque colocou sua mãe no hospício Engenho de Dentro, não se perdoa por isto. Tem saudades de seu pai e fala dele com carinho.  Ela diz que é má, ruim, mas não é perversa.

Suas frases me tocam: " isto aqui é um depósito de restos. Às vezes é só restos e vem também descuido. " se referindo ao lixo. Ela diz que tem que conservar, proteger, lavar, limpar e usar mais, o quanto pode. Economizar é maravilhoso, quem economiza tem.
Diz- miséria não, regras sim. Ela aceita a Lei, a regra. Fala que quanto menos se tem mais menosprezam e jogam fora. Que os laços negativos sujam tudo. Que sacrifício é diferente de trabalho, ela defende o trabalho. E a frase que mais me tocou: " tudo que é imaginário existe".

Seu  discurso é místico,  ela tem revelações que avisa aos inocentes, ela já sabia de tudo antes de nascer. Faz uso de uma linguagem não compreensível aos outros para se comunicar com este outro mundo, mas que para ela faz sentido. É uma mística não religiosa, mas do mundo, do real. Ela mata Deus, assim como Nietzsche o fez.

Seu discurso busca colocar ordem no caos. Ela diz que as vezes sua mente é como água com gás, borbulha. Ela está gritando algo que ninguém consegue ouvir, precisa de alguém que o consiga.

Quando algo do real não é possível e falar ele atua de alguma forma, vai gritar, o corpo vai gritar, os atos vão gritar, é necessário o que a psicanalista Radmila Zygouris chama de transferência cruzada numa análise, quando é o analista que passa a falar, colocar ordem, dar palavras ao que não é possível dizer. Processo lento e doloroso. O analista repete o crime e o nomeia.

Tudo que é diferente e estranho nos assusta e logo é rotulado, é uma louca. Não, Estamira não é louca, ela tem coerência em sua fala, ela é humana, mas tem uma ruptura que precisa ser nomeada. Ela tem noção de quando fala através de suas visões e quando não, o percebe. Isto também lembra as místicas que relatam ou tentam relatar através de metáforas o que vêem ou sentem durante seus êxtases. O doente mental não separa o delírio da realidade. Ela sabe cuidar de si mesma, não depende de ninguém, tem amigos no aterro, construiu um barraco para si, vai sozinha às consultas médicas.

Sua ida para o aterro sanitário de Gramacho localizado em Duque de Caxias na Baixada Fluminense foi uma tentativa talvez de esquecer, ou de poder ser onde não a internariam. Ela ficou lá por mais de 20 anos. O fato de não cuidar muito de si mesma, de pegar conservas no lixo para fazer comida, isto não pode ser considerado loucura, é a vida dos catadores que ali vivem, é a realidade social deles.

Estamira faleceu no dia 28 de Julho de 2011 no Hospital Miguel Couto em consequência de uma septicemia.


Marcos Prado nasceu em 1961 no Rio de Janeiro. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

FILME: IRMÃ DULCE - 2014


Direção: Vicentem Amorim - 2014
Duração: 90 min

Cinebiografia de Irmã Dulce

O filme nos mostra um pouco da vida de Irmã Dulce (Bianca Comparato/Regina Braga)  e de toda sua dedicação aos pobres e doentes tendo para isto que enfrentar obstáculos dentro da própria igreja que como instituição defendia o claustro e não aceitava  a vida que ela levava andando pelas ruas no meio do povo socorrendo os necessitados, exatamente a mensagem que o Papa Francisco transmite hoje para a igreja, dizendo que a igreja tem que ir à rua, ao povo, aos que precisam. 


Uma das cenas que mais me tocou foi quando ao pedir ajuda para seus pobres um homem lhe cospe na mão, e ela responde limpando a mão no hábito que este foi para ela, e agora ao estender a mão novamente, ela diz: agora para meus pobres.



Uma mulher corajosa, determinada e que dedicou sua vida ao outro, aos que precisavam de acolhimento. 

Vicente Amorim nasceu em 1966 em Viena, Áustria. É um cineasta austro-brasileiro. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

FILME: VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO - 2010


Direção: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes 
Duração: 71 min 

País de origem: Brasil 

José Renato é geólogo e aceita fazer uma viagem pelo sertão do Nordeste, região semi-árida, para fazer o levantamento para a construção de um canal que sairá do único rio da região, o Rio das Almas.

Em momento algum veremos José Renato, é ele quem nos fala, conta o que está vivendo em sua vida pessoal e fala sobre a região por onde passa, até que nos damos conta que ambos se parecem, o vazio, algo seco, algo morrendo, o silêncio, tudo se repete e nada se move.

Às vezes ele precisa de gente e então se dirige para alguma cidade saindo de seu percurso. Desta forma ele vai a Juazeiro, vemos uma procissão com caminhões pau de arara, ex-votos, as casas do sertão que me encantam por sua história nas paredes, retratos da família, homenagens aos santos protetores e agradecimentos. Me chamou a atenção o colchão feito de palha e chita, uma parede onde está escrito solidão nn .

Aos poucos vamos descobrir que sua mulher amada, sua galega como ele a chama, o deixou e ele está viajando para esquecer. O que a paisagem reflete é o que ele sente dentro de si mesmo, mas ele continua, não desiste.

Sai com algumas garotas de programa e uma delas lhe diz que seu maior desejo é ter uma vida lazer. Ele pergunta o que é isto - é ficar em casa, ter filhos, ter alguém que te ame. José Renato também quer uma vida de lazer. Em um momento ele olha para os homens e se pergunta: o que estes homens fariam se fossem todos abandonados?

Ele finalmente chega à cidade de onde sairá o canal, já quase vazia, abandonada como ele. Sobe um morro e lá no topo há um monumento: Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX.

José Renato então fala que fez a viagem para se mover, para sair da paralisia, e que agora sente vontade de mergulhar na vida, como os homens que mergulham dos rochedos em Acapulco.

O interessante é que José Renato faz uma leitura de tudo que vê na paisagem e nas pessoas com o que ele mesmo está vivendo, trazendo o externo para dentro de si, mas ao mesmo tempo fazendo o movimento inverso.

O filme foi montado com as imagens filmadas ou fotografadas pelos diretores em suas viagens pelo sertão do Ceará. A voz de José Renato é de Irandhir Santos.
Karim Aïnouz nasceu em 1966 em Fortaleza, Ceará. 


Marcelo Gomes nasceu em 1963 em Recife, Pernambuco 











sexta-feira, 18 de julho de 2014

FILME: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - 2008


Direção: Fernando Meirelles - 2008
Duração: 120 min
Título original: Blindness 

Baseado no romance homônimo de José Saramago

Aos poucos uma estranha cegueira chamada "cegueira branca" por deixar as pessoas vendo apenas uma superfície leitosa vai tomando conta de todos os moradores de uma cidade. Inicia com um motorista no trânsito e vai avançando e se espalhando.

O medo toma conta, a paranoia e começam a isolar as pessoas afetadas que acabam sendo deixadas à própria sorte. Porém, uma única mulher (Julianne Moore), esposa do médico oftalmologista (Mark Rufallo) não fica cega, mas para não deixar seu marido sozinho, ela finge estar cega.

Ao se darem conta que estão abandonados os internos começam a lutar por suas necessidades básicas, e os piores instintos e pulsões irão aparecer. As máscaras civilizatórias caem, e tudo aquilo que uma cultura e educação reprime surge. Um dos internos se proclama rei e é ajudado pelo único ali que é realmente cego, irão exigir dos outros que seus desejos sejam realizados.

A cegueira branca, ou seja, o que não enxergamos na vida, ou o que não queremos enxergar, o pior de cada um de nós que só vemos no outro. A mulher que enxerga ainda é uma representante da luz, da civilização, mas até ela, ao ver o que não quer sucumbe. É preciso reaprender a viver, a enxergar as coisas como elas são e não como desejamos que sejam.

É um viver sem moral o que acontece no sanatório, mas é justamente quando se defrontam com o real é que surge a possibilidade de reconstruir algo. Talvez seja otimismo demais, mas não deixa de ser uma tentativa.


A reação de Saramago ao filme 

Fernando Meirelles nasceu em 1955 em São Paulo, Capital. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILME: A ANTROPÓLOGA - 2011


Direção: Zeca Pires - 2011 
Duração: 90 min 

Na Costa da Lagoa em Florianópolis, num reduto açoriano Malu (Larissa Bracher) realiza sua pesquisa de doutorado em etnobotânica. Dona Ritinha (Sandra Ouriques), uma benzedeira local inicia Malu no aprendizado de uma cultura mística que os descendentes do açorianos mantém no local.

Ao acompanhar o tratamento de Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos) , filha do médico local, Malu entrará em contato com o sobrenatural que desafiará suas crenças científicas. Malu se verá entre a razão e a imaginação, o efeito do simbólico, das crenças, e também da magia. Malu irá se enfrentar e tomará um caminho do qual não há retorno e que a transformará.

Um filme sobre crenças e seus efeitos.


Zeca Pires (José Henrique Nunes Pires ) nasceu em 1961 em Florianópolis- SC. Realizou vários documentários e curtas sempre sobre a cultura de Santa Catarina, focando principalmente nos habitantes da Ilha de Florianópolis. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

FILME: DIVÃ - 2009


Direção: José Alvarenga Jr. - 2009
Duração: 93 min

Baseado no livro homônimo de Martha Medeiros

Mercedes (Lilia Cabral) está com 42 anos, é casa com Gustavo (José Mayer) e tem dois filhos. Tudo parece estar bem, mas ela resolve procurar um psicanalista, Dr. Lopes,  e fazer uma análise pois acha que sua vida está completa demais, perfeita demais.

Nada melhor do que uma análise para desmontar isto, e é o que ocorre. Aos poucos ela vai começar a questionar tudo e ver sua vida ir mudando. Ela vai descobrir muito sobre si mesma, seus desejos, irá fazer loucuras, e também chorar. Viverá experiências novas, questionará a rotina de sua vida, a monotonia que é seu casamento.

Mercedes vai descobrir que pode resolver suas questões sozinha, fazer suas escolhas, vai compreender os motivos destas escolhas, de suas frustrações, mas também vai saber viver o prazer e ter satisfações. Irá se libertar e aprender a conhecer seu inconsciente e a si mesma.


José Alvarenga Jr. nasceu em 1960 no Rio de Janeiro

sábado, 7 de junho de 2014

FILME: PEQUENAS HISTÓRIAS - 2008


Direção: Helvécio Ratton - 2008 
Duração: 79 min

Numa varanda de uma casa do interior uma mulher (Marieta Severo) costura uma toalha feita de retalhos coloridos com os personagens de várias histórias que ela nos conta a medida que vai aumentando um ponto no trabalho. São histórias infantis ou locais principalmente de Minas Gerais.

São elas: o marido da mãe d'água, Procissão das almas, um natal feliz e a história de Zé Burraldo.

O marido da mãe d'água é sobre Tiburcio um pescador que encontra Iara a mãe d'água. A Procissão das almas é sobre um menino que vive ligado na internet e de repente é escolhido para ser o novo coroinha da Igreja, não querendo decepcionar a mãe, lá vai ele aprender, mas o que houve o deixa aterrorizado. Já um natal feliz é sobre um papai noel que mesmo não tendo nada acaba fazendo a alegria de um garoto pobre e finalmente o Zé Burraldo, que o nome já o diga, mais burro impossível, mas um sujeito de bom coração e seu burro.

A cada história se dá um ponto, e se tece a vida. Um belo filme não só sobre nossos contos, artesanato, mas também de como a vida vai se tecendo desta forma, e a cada vez que recontamos a história também aumentamos um ponto. É considerado um filme infantil, mas que qualquer adulto vai se deliciar.

Elenco: Patrícia Pilar, Maurício Tizumba, Gero Camilo, Paulo José, Miguel de Oliveira,Constantin de Tugny.

A criação da toalha bordada é de Betânia Santos.
A História de Zé Burraldo é inspirado no conto de Ricardo Azevedo.

Tem o site do filme: http://www.pequenashistorias.com.br/



Helvécio Ratton nasceu em 1944 em Divinópolis, Minas Gerais

DOCUMENTÁRIO: RAÍZES DO BRASIL - Uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda - 2003


Direção: Nelson Pereira dos Santos - 2003 
Duração: 148 min 

Cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda

O filme se divide em duas partes. Na primeira vemos o universo afetivo do historiador. Seus sete filhos, sua esposa Maria Amélia, seus netos. Os locais onde viveu, e seu escritório, um lugar sagrado onde ninguém entrava, mas a porta estava sempre aberta. Há o relato de como ele era um apaixonado por livros, e paixão com toda sua força, capaz de fazer loucuras para ter os livros, como deixar de pagar  o aluguel, ter a ajuda da empregada para pegar os livros pela cozinha e voltar para entrar pela porta da frente, deixando a todos mais tranquilos, pois não havia comprado livros. Engraçado, pois eu durante um tempo fiz exatamente a mesma coisa contando com a ajuda da Maria que trabalhava em casa que levava os livros e os deixava em minha janela do quarto. Assim minha família não os via. Só que minha biblioteca é extremamente modesta ao lado da de Sérgio que no final tinha dez mil volumes, mas poderia ter chego a quarenta mil volumes não fosse o fato dele fazer doações e dar de presente os livros.

Na segunda parte temos o cenário histórico do Brasil onde ele viveu e as falas de seu livro Raízes do Brasil lidos por filhos e netos. Fala-se de seus amigos, da boêmia, de seus cargos em instituições, viagens, da alegria que sempre o acompanhava. Era um homem muito sério na intelectualidade, mas com muito bom humor e divertido. Esta parte é uma cronologia de sua vida intelectual e pessoal, e como pano de fundo temos os acontecimentos históricos do Brasil.

Sérgio nasceu em São Paulo em 1902. Foi jornalista, escritor, historiador, sociólogo. Um grande leitor e também escrevia  e nestes momentos algo se apossava dele, como uma febre. Casou-se com Maria Amélia (Memélia) e teve sete filhos, entre eles Chico Buarque e Miúcha. Faleceu em 1982 em São Paulo. Viveu também uma parte de sua vida no Rio de Janeiro. Era carinhosamente chamado de Papyoto pelos filhos e família.

Nelson Pereira dos Santos em 1928 em São Paulo, Capital. Considerado um dos maiores cineastas brasileiros.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FILME: CAFUNDÓ - 2005


Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti - 2005 
Duração: 102 min

Baseado na história real de João Camargo, um ex-escravo que viveu em Sorocaba -SP no fim do século XIX  e inicio do XX, era um preto velho milagreiro, mas apesar de sua simplicidade era muito complexo. 

João Camargo (Lázaro Ramos)  é um escravo liberto que tem sede de viver, mas o fim da escravidão não traz prosperidade para os negros, e ele terá que passar por trabalhos pesados, irá para a guerra, lutará para sobreviver, mas encanta-se com a cidade, suas cores, sua alegria, suas festas e mulheres. Leva sua mãe para viver junto a outros negros e volta, conhece Rosario (Leona Cavalli) e se casa com ela, mas ela não se acostuma a vida simples de João. Em uma ida à cidade eles dão de encontro com o que chamam de Peste, mas é a febre amarela. João corre ver sua mãe, mas ela está morrendo. Na volta encontra Rosario com outro homem. Ele a expulsa, passa a beber, perde o rumo de sua vida.

Um dia após beber muito ele cai, e tem uma visão com o padre da cidade, que lhe diz que ele tem uma missão, a de curar as pessoas. João já havia tido visões antes, até mesmo Rosario parece algo misterioso. Ele ouvia vozes. A partir deste momento sua vida toma outro rumo, ele se volta para a espiritualidade, constrói uma igreja para Nosso Senhor do Bonfim, mas acolhe nela todos os santos, mas também entidades da Umbanda, espíritos, e até mesmo símbolos judaicos. Ele acredita que pode curar e passa a fazê-lo. Claro ,irá enfrentar o desagrado da igreja católica e dos que são racistas e não gostam destes rituais, ou do espiritismo.

O filme retrata o sincretismo religioso do Brasil, onde o povo se apega a todos os santos e também às oferendas, rezas, poções, óleos, ervas. A parede da igreja está coberta de ex-votos, mas também de pedidos. Mostra que naquela época havia uma divisão entre a religião dos brancos e a dos negros, há santos para ambos, e há locais no Brasil onde haviam igrejas católicas para negros e outra para os brancos. Além do contraste entre o bem e o mal, a todo momento surgem cenas que se referem a isto, como a mulher que foge com seu amante e ele correndo atrás com um chicote e a aparição de uma igreja.

O Brasil se formou com os índios, afros e portugueses, e há também aparições no filme de um índio, mas o forte é mesmo a mistura que se concretiza de todas as crenças num povo de fé.

João de Camargo teve uma vida difícil, primeiro em uma senzala como escravo, depois se deparou com um mundo que não conhecia e que o encanta. Era ingênuo, simples, não conseguia usar as botas da farda de soldado, preferia andar descalço. Não sabia ler, tinha que sobreviver. Apaixona-se e é traído, perde a mãe, e entra em depressão e cai no alcoolismo. Ouvia vozes, tem visões, e acredita nelas. A força da crença e da fé.

Cafundó significa um lugar de difícil acesso, um mundo além, longe, o fim do mundo como diz o menino no filme . Um lugar imaginário.Existiu um lugar no Estado de São Paulo que se chamou Cafundó, que era uma comunidade de negros libertos. Eles receberam esta terra para morar, desde que não saíssem de lá. Foram enviados para o Cafundó, onde quase não se vai. A expressão popular nos cafundós de judas é para se referir a um lugar perdido, muito longe, difícil de se chegar. Mas o cafundó também pode estar dentro de si mesmo, um lugar perdido que pode proporcionar experiências místicas, iluminações. No filme o Cafundó é a África, pelo tipo de casas construídas, os rituais, é a mãe.

A mãe de João era uma curandeira, ela conhecia os segredos das ervas e rezas. O interessante é que ela coloca pedras na cruz do menino Alfredinho, o que seria um costume judaico.Um filme que nos mostra a imensa riqueza do Brasil em termos de cultura, rituais, crenças, e da nossa capacidade de crença e fé, e de como mesmo diante de situações difíceis sempre há uma maneira de se falar com o divino, não importa a via que se use. João adere ao sincretismo afro-indigena-católico-judaico. Tornou-se após sua morte com 84 anos uma lenda. Seu enterro foi um dos mais concorridos de Sorocaba.

O filme foi rodado em quatro cidades do Paraná em torno de Ponta Grossa.



Clóvis Bueno nasceu em 1940 em Santos, Brasil








Paulo Betti nasceu em 1952 numa zona rural de Rafard, interior do Estado de São Paulo, Brasil. Mudou-se ainda durante a infância para Sorocaba. 

domingo, 1 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: A ESTRELA OCULTA DO SERTÃO - 2005



Direção: Elaine Eiger e Luize Valente - 2005 
Duração: 85 min 

O documentário conta com a participação da historiadora da USP Anita Novinsky especialista em inquisição no Brasil, de Paulo Valadares, genealogista e de Nathan Wachtel, antropólogo do Collège de France.

A ideia de realizar o documentário surgiu quando as diretoras leram um artigo no jornal sobre um rabino americano que estivera numa vila chamada Venha Ver que tem menos de 800 habitantes e se situa no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O rabino constatou que a população local mantinha costumes que não eram cristãos, mas que eram notadamente judaicos, apesar de já terem caído em desuso no judaísmo. Esta constatação revelou que ali moravam descendentes de cristãos-novos conhecidos como marranos.

Durante a perseguição pela inquisição inicialmente na Espanha promovida pelos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão e depois com a instituição do santo ofício em Portugal, muitos judeus foram forçados a se converterem ao cristianismo. Em Portugal no tempo de Dom Manuel sequestravam seus filhos para serem criados por cristãos, o que obrigava aos judeus a se converterem. Isto foi antes da conquista do Brasil.

Quando ocorreu a conquista do Brasil pelos portugueses muitos cristãos novos vieram para cá, e mais tarde com a invasão holandesa também, uma vez que muitos judeus convertidos fugiram depois para os países baixos. Há documentação sobre isto até o fim da inquisição, depois mais nada. Eles se dispersaram pelo país, mas o maior núcleo é no Nordeste.

O documentário nos mostra Luciano Oliveira, um médico da Paraíba que busca suas origens, e também João Medeiros, um engenheiro aposentado de Natal e Odmar Braga um policial negro de Pernambuco. O que aproxima estes três é o fato de serem descendentes de cristãos novos. Os três nasceram de famílias nordestinas no sertão que são cristãs, mas tem costumes e práticas judaicas.

Venha Ver é uma pequena vila onde praticamente todos são parentes. Os casamentos ocorrem entre primos e tios e sobrinhas, caracterizando a endogamia. Uma visita ao cemitério é um encontro com todos os parentes mortos, ali é a avó, lá a tia, aqui o primo, mais adiante o avô. Quando alguém morre lava-se o corpo, cortam-se as unhas a noite, e o corpo é envolvido na mortalha costurada ali mesmo com pontos largos e soltos. Usam o caixão para transportar o morto até o túmulo, mas são enterrados diretamente na terra. É necessário jogar fora as águas da casa quando alguém falece.

A maneira de varrer uma casa, não comer carne de porco, a maneira que se sacrifica o animal para comer, como é feito o corte do pescoço da galinha e o sangue que tem que ser tirado, uma vez que o sangue representa a vida e não se come a vida. Colocar pedras nas cruzes em túmulos, todos costumes judaicos.

Mas e Dona Cabocla que tem um altar com 26 santos? uma cruz na porta, mas também mantém todos estes costumes? E o padre de Seridó extremamente católico mas que se apresenta como um judeu da diáspora?

Nenhum deles tem lembrança de uma ancestralidade judaica, só sabem o que fazem. A herança psíquica, o que se faz inconscientemente sem saber por que o faz. Minha mãe fazia, minha avó fazia, isto vai se perpetuando. O Oratório, algo cristão mas que tem um símbolo judaico. Rezar para os santos, mas também para a lua nova. Por que ninguém se questiona por que faz aquilo? por que está enraizado, está no inconsciente, e se faz e nem se percebe que se faz. E em uma comunidade onde todos são parentes e agem igual, não há como perceber também estas diferenças, de como um cristão enterra um morto da forma como eles o fazem. Eles se espelham entre si.

Aos poucos, pessoas como Luciano passam a se questionar, e ir em busca destas raízes, querem ser reconhecidos como judeus, uma questão de identidade, já para outros são questões históricas e para Dona Cabocla é algo inconsciente.

Luciano vai em busca e se confronta com o judaísmo ortodoxo e percebe que não basta ser descendente. Primeiro, a descendência se dá pelo lado materno. Depois a questão dos judeus convertidos é delicada, os judeus não aceitam o retorno, muitos dizem que tem que morrer judeu. É preciso se converter para ser judeu, não apenas retornar. Na época quando ocorreu a perseguição na Península Ibérica não se aceitava que os judeus se convertessem ao cristianismo, mesmo que isto significasse sua vida ou de sua família, era considerado uma traição pelos judeus.
A questão é sobre ter que se converter, mas a conversão é para quem não é judeu se tornar um. O que Luciano busca é o retorno, é o reconhecimento de suas raízes. A conversão para ele seria como negar todo o passado, ser considerado como um judeu convertido, que inicia neste momento sua história judaica.

Novamente vemos aí questões de fé, preconceito, tolerância, aceitação. Para Luciano é importante o reconhecimento do outro, para Dona Cabocla basta ser o que ela é.

Uma ressalva para a belíssima canção cantada por Fabiane Araujo - Hatikvah no final do documentário.

Um documentário importante que revela sobre o Brasil, sua formação e sua constituição, trazendo a tona as origens de muitas práticas que são inconscientes.


Hatikvah - Esperança - Hino Nacional de Israel.

Elaine Eiger nasceu em São Paulo
Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro 

terça-feira, 20 de maio de 2014

FILME: GETÚLIO - 2014


Direção: João Jardim - 2014
Duração: 100 min 
Roteiro: João Jardim
País: Brasil 

Baseado em fatos reais

1954. Getúlio Vargas (Tony Ramos) está no poder pela segunda vez, desta vez eleito democraticamente pelo povo. Seu principal inimigo político é o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges). O filme retrata a conspiração política-militar que termina com o suicídio de Vargas.



Lacerda sofre um atentado onde quem morre é o Major Vaz da Aeronáutica. Os políticos se aproveitam para fazer uma campanha forte para que ele renuncie. Tudo leva a crer que ele é o mandante do crime uma vez que foi cometido por pessoas de sua guarda pessoal. Vargas nega ter ordenado isto e está disposto a que tudo seja investigado. Ele não irá reagir como era de se esperar de quem já foi um ditador.

São os últimos 19 dias de Vargas entre o atentado e o suicídio em seu quarto sozinho. Ele já está velho, cansado, mas não quer terminar seu governo de uma forma que considera desonrosa, faz tudo para preservar seu nome. Deixa claro que não irá renunciar. Propõe uma licença enquanto os fatos são apurados o que não é aceito. Ele avisa que só levarão seu cadáver do Palácio do Catete se insistirem na renúncia e cercarem o Palácio, e cumpre sua palavra. Era 24 de Agosto. Sua filha Alzira (Drica Moraes) sempre esteve ao lado do pai em todo este processo.



O suicídio reverteu a opinião pública e gerou grande comoção no país e revolta o que obrigou Lacerda e seu grupo a deixarem o país.

Vargas foi um ditador apesar de ser muito lembrado como "pai dos pobres" principalmente por ter criado o salário mínimo, a carteira de trabalho, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Petrobrás, estabeleceu pela primeira vez o horário verão, disciplinou o ensino superior dando preferência às Universidades, mas foi também um ditador, "rasgando" a Constituição por duas vezes. as torturas, a deportação de Olga Benário, um namoro com o Eixo para depois passar para o lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.
O filme trata de seus últimos dias, quando se recusa a tomar medidas extremas para conter a tentativa de golpe que ocorria no país com o apoio de alguns militares e instigada por Carlos Lacerda e outros políticos.

João Jardim nasceu em 1964 no Rio de Janeiro. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

FILME: FLORES RARAS - 2013


Direção: Bruno Barreto - 2013 
Duração: 118 min 
País: Brasil 

Baseado no livro Flores raras e Banalíssimas de Carmem Lúcia de Oliveira e em fatos verídicos sobre a relação de Lota e Bishop entre o período de 1950 e 1960. 

Em 1951 Elizabeth Bishop (Miranda Otto) está diante de uma crise, sente-se cansada, solitária e não consegue escrever seus poemas, decide então viajar e passar uns dias no Rio de Janeiro onde tem uma amiga da faculdade Mary (Tracy Middendorf) que vive com a arquiteta e paisagista Lota de Macedo Soares (Glória Pires).



Elizabeth chega ao Rio e defronta-se com uma cultura muito diferente da sua, ela estranha e se comporta como se estivesse num país atrasado, chegando a temer beber a água da fonte, perguntando se era mineral. Apesar dela viver mais de 20 anos no Brasil ela nunca irá se acostumar totalmente. Lota em princípio não simpatiza muito com ela, principalmente diante destes comportamentos, mas acabará se apaixonando por ela e fazendo um acordo com Mary que permanece vivendo na casa chamada Samambaia em Petrópolis e adota uma menina, da qual Lota se considera a avó.



O filme nos relata então o relacionamento de Elizabeth e Lota principalmente entre os anos 50 e 60, que apesar de conturbado foi algo forte, e que contribuiu para a produção artística das duas. Bishop escreverá poemas e irá ganhar o prêmio Pulitzer pelo seu livro North & South e Lota será a responsável pelo projeto e construção do aterro do Flamengo.



Apesar do filme não mostrar toda sua permanência no Brasil, inclusive o tempo em que residiu em Ouro Preto em MG, consegue relatar de uma maneira bela a relação das duas, que irá terminar com o suicídio de Lota em Nova York muitos anos depois.

Glória Pires está brilhante como Lota, uma mulher determinada, que está acostumada a fazer o que quer e ter o que deseja. Bishop é seu oposto, tímida, alcoólatra, sente ciúmes e insegurança pela relação de Lota com Mary, mas será Lota quem irá sucumbir, envolvida em questões políticas e com a partida de Bishop ela entrará em depressão, e quando finalmente melhora e vai visitar Elizabeth ela se suicida no apartamento desta após tomar uma dose alta de remédios, entrando em coma e falecendo alguns dias depois.

A delicadeza com que o filme retrata o amor das duas já vale o mesmo, pois até pouco tempo atrás não se veria um filme brasileiro sobre a homossexualidade feminina tratado como um sentimento, um laço forte, como qualquer outra relação de amor.

Ambas tiveram infâncias sem muito amor, Lota tem dificuldades com o pai e Bishop com a mãe que foi internada em um hospital psiquiátrico onde passou o resto de sua vida e nunca mais viu a filha. Elizabeth tinha dificuldades em se dar à alguém.

Li o livro "Uma arte - as cartas de Elizabeth Bishop" da Companhia das Letras onde ela relata todo este período.



(Maria Carlota) Lota de Macedo Soares nasceu em 1910 em Paris e faleceu em 1967 em Nova York. Foi paisagista, urbanista e arquiteta autodidata. Durante o governo no Rio de Janeiro de seu amigo Carlos Lacerda projeta o Aterro do Flamengo, retirando-se da obra após a perda do governo por seu amigo. Apoiou o governo militar temendo que o Brasil se tornasse comunista. 


Elizabeth Bishop nasceu em 1911 em Worcester, Massachusetts e faleceu em 1979 em Boston. Considerada uma das maiores poetisas da língua inglesa do século XX. Robert Lowell foi um dos seus melhores amigos até o fim de sua vida. 


Bruno Barreto nasceu em 1955 no Rio de Janeiro. 

Trilha sonora de Marcelo Zarvos 

Kalu - para lembrar 

Marcelo Zarvos nasceu em 1969 em São Paulo, SP. É um compositor brasileiro radicado nos Estados Unidos