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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: KLIMT - 2006


Direção: Raoul Ruiz - 2006
Duração: 130 min 


1918 - Gustav Klimt (John Malkovich) está internado quase à morte e recebe a visita de seu amigo Egon Schiele (Nikolai Kinsky). A partir deste momento temos uma retrospectiva da vida de Klimt desde a Exposição Universal de 1900 em Paris onde é elogiado e recebe um prêmio, enquanto que em sua terra natal, Viena, não ocorre o mesmo.

O filme trabalha com a realidade e a imaginação, retrata o que Klimt vê e pinta, através da vida fragmentada do artista, com hiatos, nos mostra as nuances, o dourado, o nu, e as mudanças que Klimt viveu e pintou. É a Europa do século XIX, a liberdade sexual e moral que aparecem em suas telas eróticas, mas que contradizem a arte oficial que além do mais é anti-semita.



Uma vida voltada para a arte, as mulheres, o amor. Teve inúmeros filhos com várias mulheres. Sua musa e modelo preferida Emilie Floger (Veronica Verres) por quem tem um amor estranho, ele não se relaciona sexualmente com ela. Serena Lederer (Sandra Ceccarelli) que também está no filme foi retratada por ele.

Aqui no blog já falei de Gustav Klimt no livro A Dama Dourada retrato de Adele Bloch-Bauer que também foi retratada por Klimt.

Raoul Ruiz nasceu em 1941 em Puerto Montt, Chile e faleceu em 2011 em Paris, França

Gustav Klimt nasceu em 1862 em Baumgarten, Áustria e faleceu em 1918 em Viena. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

FILME: DESONRA - 2008


Direção: Steve Jacobs  - 2008
Duração: 120 min. 

Título Original: Disgrace
País: Austrália  

Baseado no livro homônimo de J. M. Coetzee 

O título original é Desgraça. África do Sul, na Cidade do Cabo o professor David Lurie (John Malkovich) leva uma vida solitária, dando aulas sobre poesia numa universidade e tendo encontros sexuais com garotas de programa, até o dia em que ela lhe diz que não irá mais encontrá-lo.

David então se aproxima de uma aluna Melanie (Antoinette Engel) e usando de seu lugar de professor, com sua influência acaba a levando para a cama. Não se trata de um estrupo, mas também não é algo que agrada à garota, até que seu pai ao saber de tudo o denuncia à Universidade. David não se defende, continua usando de seu cinismo e se declara culpado.

Ele então parte ao encontro de sua filha Lucy (Jessica Haines) que vive numa fazenda isolada e acaba de ser abandonada por sua companheira. Eles serão violentamente atacados por três negros da região, um deles ateará fogo em David, enquanto sua filha é violentada.



Enquanto esta na Cidade do Cabo a atitude de David ainda era a de um colonizador, se considerando melhor, porém quando ele chega à fazenda desolada da filha, encontrará outro mundo, onde são os negros que dominam a sua terra.

Lucy nada fará para punir seus agressores o que deixa o pai consternado, ele não consegue aceitar isto, e também não consegue compreender o comportamento da filha. Ela deseja ficar ali, mas para isto precisa viver em paz com a comunidade, e aceita se casar com Petrus que vive ali e lhe dá quase tudo, ficando apenas com sua casa. Ela está grávida do estupro e ele vai assumir a criança que é filho de um parente seu e que também está vivendo ali.



David não compreende tudo isto. Ele quer justiça, quer que ela vá embora, e em momento algum associa o que ocorreu com sua filha com o que ele fez com a aluna na Universidade, até que após uma conversa com a filha que lhe diz que os homens são assim, sentem ódio das mulheres e precisam humilha-la, ter o poder sobre ela, ele procura a família de Melanie e pede perdão.

A questão está nos impulsos, naquilo que alguns não conseguem controlar, ou seja, a pulsão sexual, o desejo. David se declara um servo de Eros para a universidade. Só que ele não é o único que sofre disto, que também deseja e que não mede os limites para atingir o que deseja. Seja usando de persuasão e intimidação como David ou pela violência como os três jovens que os atacaram. Não é pela aparência de civilidade que a natureza do abuso se modifica, no fundo é a mesma coisa. A única diferença é que David sabe que deseja e age para isto, enquanto os jovens agem por impulso, pelo ódio, mas também pelo desejo. Quando o garoto olha pela janela para ver Lucy nua, esta é uma atitude típica de adolescentes. Mas David é mais sutil, ele diz que a mulher bonita tem que ser generosa e partilhar com todos esta sua beleza.

A pergunta que mais nos fazemos é por que Lucy age assim? ela é uma européia, sua mãe está na Holanda, mas ela se submete a lei e cultura local, a ponto de aceitar o estupro e dar todos seus bens ao estuprador para ter paz. Por que ela não o denunciou? por que ela o protege quando seu pai lhe dá uma surra e ainda corre até ele perguntando se está machucado? enquanto ele grita que vai matar a todos eles? Por que não vai embora?

O filme não mostra muito do que aconteceu com Lucy antes, nem o que ela realmente pensa. Mas eu fico pensando até que ponto o fato de ser filha de um homem que age como um estuprador polido e educado e acha isto normal, como seu lado Eros que ele não tem intenção nenhuma de deter, a leva a agir desta forma e não conseguir reagir? É como se em seu inconsciente estivesse atacando o pai? Ela prefere gerar o filho deste estupro, como um desejo inconsciente?

A questão dos cachorros sacrificados, talvez o único lugar que David consegue dar um pouco de amor, e por que sabe que não ficará dependente disto, uma vez que o cachorro vai morrer. Nem mesmo aquele que ele adota por um tempo, ele consegue se dedicar à ele, e acaba desistindo dele e o entregando ao sacrifício. O oposto de Eros é Tânatos, é a morte. Ou será uma metáfora que explicita o que ocorre com os que se aproximam de David? serão sacrificados ao seu amor, eros? aos seus impulsos que não consegue controlar? Ele acaricia, mas sabe que vão ser sacrificados, pelo amor, não é um castigo.

David cita Byron, e diz que a loucura não está na cabeça, mas no coração. Até onde se vai para curar um coração doente assim?

Talvez Lucy saiba que ele só se preocupa com ela e quer vingança por que no fundo ele se sente ultrajado em sua honra, e ao mesmo tempo confrontado consigo mesmo, o que o leva a pedir o perdão à família de Melanie, mas sinceramente, não consegui me convencer de que ele fez isto por realmente estar arrependido, mas pelo contrário, como se isto fosse uma maneira de tentar evitar mais desgraças.




Steve Jacobs nasceu em 1967 na Austrália

domingo, 9 de março de 2014

FILME: IMPÉRIO DO SOL - 1987



Direção: Steven Spielberg - 1987 
Duração: 152 min 
Título original: Empire of the sun

Baseado no romance semi-autobiográfico de J.G. Ballard

Como estou lendo um livro de Ballard acabei me interessando por este filme que é baseado na vida do autor, em sua experiência durante a segunda guerra mundial.

James Graham (Christian Bale) vive em Xangai com seus pais na colônia Britânica quando os japoneses invadem a cidade. É o ano de 1941 durante a Segunda Guerra Mundial. Ele irá se perder de seus pais durante a fuga de terá que enfrentar a guerra e o campo de prisioneiros japonês sozinho, tendo que usar de meios a artimanhas para sobreviver até a libertação e reencontro com seus pais.



No início do filme Jim é um menino mimado, filho de pais ricos, colonizadores num país onde se colocavam à parte dos nativos. Os chineses lhes sorriam, mas percebia-se ali o ódio latente ao colonizador. Quando os japoneses invadem o garoto acostumado a ter todas suas vontades realizadas começa a ver outra realidade. Ele vive numa ilusão que lhe foi dada pela vida que tinha, ao ponto de não considerar o perigo e o drama do momento em que fugiam e por isto, ao se abaixar para pegar seu aviãozinho de brinquedo ele se perde de sua mãe.

Nos primeiros momentos ele ainda acredita  ser superior, filho de pai importante, dono de uma fábrica de tecidos, diz a todos que serão bem recompensados por seu pai se o ajudarem, até que ele terá que ver que a realidade é outra. Já não há ninguém para protegê-lo, nem tem importância quem você é ou conhece.



Ele será obrigado a crescer e bem rápido diante da dureza e dos perigos da guerra e sofrerá as consequências deste amadurecimento forçado e o fim de suas ilusões infantis que é bem representado no filme através da metáfora de lançar sua mala no rio, a mala onde estavam seus recortes, suas lembranças de uma infância feliz e num mundo onde nada lhe faltava e onde ele podia tudo.

Jim vai para um campo de prisioneiros e ali conhecerá Basie (John Malkovich) que o ajuda, mas também o explora. O Dr. Rawlins (Nigel Havers) que é o médico do Campo que tenta fazer com que Jim mantenha algum contato com livros e a Senhora Victor (Miranda Richardson) que será a única mulher com quem ele convive dos 11 aos 14 anos. 

Ao final do filme Jim é outro, seu olhar, a dor que carrega, as marcas no rosto, por tudo que viveu e passou. Mas foi valente e soube sobreviver em tudo isto, e provavelmente por ter uma sustentação interna de amor e segurança que lhe foi oferecida na infância. O reencontro com sua mãe é a cena mais bela do filme, o reconhecimento dela tocando-a até lhe dar o abraço pelo qual ele tanto ansiou.



Steven Spielberg nasceu em 1946 em Cincinnati, EUA. 




James Grahan Ballard 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

FILME - O CÉU QUE NOS PROTEGE - 1990


Direção: Bernardo Bertolucci - 1990
Duração: 138 min 
Título Original: The sheltering sky 
Roteiro: Bernardo Bertolucci e Mark Peploe
País: Itália 

Baseado no livro de Paul Bowles 

O Filme já vale pelas suas imagens do deserto, e da vida na África, das cidades.  As cidades, a gente olha e é estranho, aquela construção enorme no deserto, murros, poucas janelas. Claro, tempestades de areia. O filme mostra uma caravana chegando, e entrando nestas cidades, é incrível o labirinto que são, e os camelos vão juntos, por aqueles corredores estreitos, fazendo curvas, e retornando na mesma direção. 
O filme é sobre um casal de escritores Kit (Debra Winger) e Port (John Malkovich)  que viajam para a África com um amigo George (Campbell Scott).  Partem de New York. Logo no início do filme eles falam do tempo, e de que eles, o casal são viajantes e portanto não tem tempo, já o outro é um turista, que vai retornar após duas semanas. O casal está em crise. O marido nunca consegue ficar sozinho com a mulher, o amigo está sempre por ali. E começam a discutir o que ele está fazendo ali, quem o levou, por que foi junto. Ele se convidou, mas quem aceitou? Este amigo está apaixonado pela mulher e ela gosta disto, de se sentir desejada, seduzida. 
Um casamento em crise, 10 anos, rotina, acomodação, silêncios, claro que se sentir desejado é bom. Encanta, seduz, o novo, o diferente. Ao invés de tentar resolver o que há é mais fácil ser seduzido por algo novo. Num dado momento o amigo lhe pergunta sobre o marido: Será que ele sabe de nós? E ela responde: Ele sabe, mas ele não sabe que sabe.
Há coisas que não passam desapercebidas, sempre sentimos, percebemos, intuímos, não sei o que é exatamente, mas captamos isto. Um casal em crise que parte para tentar se reencontrar não leva um amigo junto. O amigo já era uma parede, uma divisória entre eles. Não apenas o fato de dormirem em quartos separados, mas a própria vida deles, como agem, os separam. Inconscientemente eles se separam através de seus atos.

O marido tem um sonho, sobre o deserto, um lençol e morte. Ela não quer ouvir. Ela não quer por que o sonho fala demais. E ela não quer enfrentar.



Num dado momento ele consegue se livrar do amigo, mudando sua rota. A partir de agora estão só os dois, e o silêncio se instala. O deserto e seu silêncio, é um vazio árido. Mas o deserto é uma imensidão. Atordoa e ali o céu é que nos protege, põe um limite, cerca o deserto. Os dois viviam sem tempo, sem projetos e sem futuro. Viviam sem o tempo.



É quando ele contrai febre tifoide. Ela entra em desespero. Procura a legião estrangeira, e ali fica com ele, sem muitos recursos. Antes de morrer ele dirá: percebi que tenho vivido para te amar.
Agora ela está só, sem ninguém. Parte junto com uma caravana. Não fala uma palavra, não pode se comunicar, um dos líderes se interessa por ela. Faz dela uma amante, ou para ele outra mulher. Há uma cena simbólica, onde ela enterra suas roupas, peças íntimas, se enterra como a mulher que era. Chegando na cidade ele a fecha  num quarto onde vai vê-la. Ela tem que se acostumar as novas roupas, comidas diferentes, ao sol do deserto. Passa um bom tempo sem poder falar com ninguém e sem compreender ninguém. 



Agora o silêncio é outro, agora ela quer falar e não pode. O líder viaja de novo e suas mulheres a libertam. Ela foge.Está perdida no meio da rua, com fome, quer comer, transgride alguma regra e acaba sendo agredida, quase linchada.

Com sua ida para o hospital a Embaixada Americana a localiza, pois o amigo havia avisado de seu desaparecimento. Vão buscá-la e no caminho a mulher que a acompanha informa que o amigo a espera no hotel. Percebe-se o tempo que se passou pelo rosto dele, que está mais velho. Não se sabe ao certo quanto tempo se passou, o tempo que ela ficou com os locais. Seu olhar é distante, quase uma insanidade. Mas ela foge, não encontra o amigo, vai para o bar onde esteve com seu marido e onde ele falou sobre o sonho. Um senhor, que na verdade é o narrador do filme, está ali, ela lhe diz: estou perdida!

Eles não conseguiram se falar, ela não deixou, fugia, mas estava insatisfeita. Ele também estava insatisfeito. Não conseguiram e a aproximação só ocorreu na doença e morte. Ficaram os momentos, os poucos dos quais conseguimos nos lembrar em uma vida e que iremos recordar para sempre, mas que são estruturantes, dão suporte a quem está perdido, quando este consegue se lembrar.
Um filme sobre desencontro, silêncio, e a questão do tempo. Um casal que se deixa levar, que não sabe para onde vai, nem onde deseja chegar. Quando o sabemos já somos atropelados pelas contingências da vida, agora quando as contingências surgem na vida de alguém que não vê o futuro, ele desestrutura tudo, todo aquele presente. A mudança é radical, como ocorre com ela.

Assista ao visual do filme que é fantástico e belíssimo


Bernardo Bertolucci nasceu em 1941 em Parma, Itália.

Trilha Sonora de Richard Horowitz e Ryûichi Sakamoto





Richard Horowitz é um compositor especializado em música do Oriente Médio.

Ryuichi Sakamoto nasceu em 1952 em Nakano, Tóquio, Japão. É um músico, produtor, compositor e ator japonês.