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sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan. 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

A TRAJETÓRIA DE IANA MATEI

 


À VENDA: Minha luta contra o tráfico sexual na Europa

IANA MATEI

BESTSELLER – 1ª ED. – 2012

240 páginas

À Venda, de Iana Matei, é um relato comovente e corajoso sobre a luta contra o tráfico sexual na Europa. Psicóloga e fundadora de um abrigo na Romênia para vítimas de exploração sexual, Matei narra sua trajetória pessoal, desde a fuga da Romênia e exílio na Austrália, onde começou a trabalhar voluntariamente com pessoas em situação de rua, transformando essa experiência em uma organização de apoio, até o retorno à Romênia, quando se depara com a realidade brutal da prostituição forçada. Ela percebe que não se trata apenas de prostituição voluntária, mas da venda de meninas menores de idade, traficadas por toda a Europa. Com isso, decide abrir um abrigo para acolher essas meninas e iniciar um trabalho doloroso, complexo e essencial, diante da negligência das autoridades.

O livro apresenta histórias das meninas acolhidas, narrando os abusos sofridos sem recorrer a exageros ou voyeurismo — prática que Matei condena, inclusive por parte de jornalistas ávidos por detalhes sórdidos. O foco é reconstruir a vida física e psíquica dessas jovens para que possam alcançar alguma normalidade, embora, infelizmente, em alguns casos, a reintegração não seja permanente.

Matei descreve a falta de compreensão de diversos setores — judiciário, polícia, autoridades, jornalistas, pais e sociedade em geral — que muitas vezes não distinguem as vítimas, enganadas e forçadas a prostituir-se, de mulheres que exercem a prostituição voluntariamente. As meninas acolhidas geralmente vêm de lares violentos ou disfuncionais, são frágeis, carentes e pobres, e muitas foram seduzidas ou aliciadas por conhecidos, mulheres ou amigos que prometiam empregos ou amor.

A autora também expõe a corrupção e a impunidade que favorecem os traficantes, que podem subornar autoridades ou contratar bons advogados, recebendo, na maioria das vezes, penas leves. O maior medo das meninas é reencontrar os traficantes, o que muitas vezes as impede de sair do abrigo para estudar ou trabalhar.

A luta de Matei e das educadoras é intensa, exigindo paciência, firmeza e, por vezes, medidas duras no trato verbal e comportamental, para que as meninas reaprendam a confiar. Matei defende, acima de tudo, a educação como ferramenta para combater o problema, diante da ineficácia das autoridades em conter a rede de tráfico, que opera por toda a Europa, transferindo vítimas para dificultar sua localização.

O tema é árido e doloroso, mas Matei apresenta-o com força, clareza e humanidade. Ela não omite a realidade, mas insiste na dignidade das meninas e na urgência de ações concretas. Sua coragem, enfrentando traficantes de frente e trabalhando para reconstruir vidas destruídas, torna este livro leitura essencial.

Iana Matei é uma ativista romena e fundadora da Reaching Out Romania, uma organização que visa encontrar e reabilitar vítimas de prostituição forçada e tráfico sexual. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

DOCUMENTÁRIO: CONGO RIVER - 2006


Direção: Thierry Michel - 2006
Duração: 116 min

Produção Franco-belga

Seguindo os passos do explorador Stanley o documentário segue da foz do rio à fonte. Percorrendo seus 4.371 km passando pelos lugares que são os testemunhos da história tumultuosa do país, desde a colonização belga até os dias atuais e a guerra civil com o terror dos estupros perpetuados contra as mulheres. Seguindo a margem do rio vamos encontrando este povo e sua história, suas alegrias e sofrimentos, as festas, os rituais, os dramas que fazem parte da vida dos pescadores, comerciantes, viajantes, militares, rebeldes, crianças-soldados, os mai-mai, as mulheres violentadas. Um povo que busca recomeçar e recuperar sua dignidade. 

Este rio é o principal meio de comunicação e locomoção da República Democrática do Congo uma vez que devido as guerras civis a floresta se apossou novamente das estradas e cobriu os trilhos dos trens, herança do tempo da colonização belga. A medida que avançamos pelo rio, inicialmente a bordo de uma barcaça que leva o povo, animais, carga, todos alojados em cima de um pontilhão, cada um armando uma cobertura de plástico, lona, cozinhando ali, dormindo ali, vamos também tendo uma retrospectiva do período da colonização, seja em imagens em preto e branco ou através das ruínas do que ficou ali abandonado, como uma universidade botânica, palácios, barcos. Seguimos pelo rio de Kinshasa até Mbandaka por 1700 km, depois é preciso fazer um trecho por terra pois o rio se torna rápido demais e com pedras e cachoeiras, para então chegar a Kisangani e lugares devastados pelos longos anos de guerras. 

Pessoalmente não tinha muito conhecimento sobre o país exceto pelas notícias de violência contra as mulheres e sobre a colonização belga. É interessante ver a influência da catequização cristã dos colonizadores misturado aos rituais locais, até mesmo uma missa em uma igreja rezada por um bispo onde ele invoca a todos para abandonarem seus antigos rituais, no final o que vemos é uma canção ao som de tambores e o ritmo de dança tipicamente africano. 

Sobre a guerra o herói Mai Mais encontra na bíblia as justificações para tudo que fez, e eles acreditam que estão protegidos pela água para lutar, e citam a bíblia sobre isto, mas são capazes de imensa crueldade, como violentar crianças, mulheres, não por necessidade ou prazer, mas para destruir. 

É sempre interessante e instrutivo conhecer outros povos e sua cultura. Vemos apesar de tudo pelo que este povo passou uma alegria, principalmente eles adoram dançar e cantar. Lembrei-me do livro O Sagrado e o feminino de Cathérine Clément, já postado aqui no blog, sobre a questão das cerimônias religiosas, mesmo cristãs, e que as mulheres entram em transe. No filme vemos isto. Há tristeza também, crianças pequenas trabalhando, a falta de ajuda externa que faz com que este povo ele mesmo tente recuperar seu país da forma mais arcaica, braçal, mas acreditando nisto. 

É a história de um povo e de seu país, para os quais o Rio Congo é de suma importância. 

Thierry Michel nasceu em 1952 em Charleroi, Bélgica. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

FILME: IRREVERSÍVEL - 2002


Direção: Gaspar Noé - 2002
Duração: 94 min
Título original: Irréversible

Um filme forte e que causa um grande desconforto. A violência inicial do filme com a câmera se deslocando a todo instante, a cena do estupro que é crua como nunca vi filmada.

Os deslocamento da câmera no início do filme  nos colocam no contexto, a angústia, a raiva, o ódio, a vingança, a busca pelo criminoso, Pierre (Albert Dupontel) e Marcus (Vincent Cassel)  estão perdidos, agindo no impulso, ou melhor, pela pulsão. O mundo deles mudou. Estão desesperados atrás do homem que estuprou a namorada de Marcus, ex-namora de Pierre, Alex (Monica Bellucci).

Mas o mais interessante do filme é como ele nos conta a história retornando cena após cena ao antes, mas não como normalmente se faz com um crime no início e depois a história volta lá no começo para então seguir em frente até chegar ao crime, aqui não, ela retrocede passo a passo como foi vivido, por trechos, sempre indo mais longe no antes. Não há como mudar, se repete, volta, e que angústia pensar que poderiam ter feito diferente, mas não é mais possível.

A cena do estupro é violenta, insuportável, dura em torno de 5 minutos, no real, é muito difícil de assistir.

Os personagens estão no aprés-coup, perde-se a linearidade do tempo, e isto o deslocamento da câmera nos mostra, tudo gira, em 360º, o filme retrocede sobre seus passos, nos mostra duas cenas de violência no real, e o antes que se perdeu, como diz um personagem no começo do filme e a frase se repete no final: "o tempo arruína tudo".

Não há volta, é irreversível. O trauma se instalou, não se nega, não é recalque, é ato. Há traumas que não podem ser falados, eles se repetem, eles são atos. Na análise é o que podemos chamar de uma transferência inversa onde o paciente faz o analista sentir em si mesmo o que não consegue falar, faz ele repetir o crime.
Não é possível narrar, contar a história neste filme, é através do recuo, do retrocesso no filme, das imagens, do movimento que se vê o trauma, não no linear da palavra.

O trauma não se esquece com o tempo, não é deixada para trás, o que ficou para trás é o antes que já não existe, que o tempo destruiu. A cena do estupro é terrível e ali está no tempo linear pela sua duração, mas é depois que ela se torna terrível, quando se descobre que Alex estava grávida. O choque é forte. Sentimos o mesmo ódio deles, temos vontade de matar, de destruir, e é isto que a pulsão de morte faz, destruir, se volta em torno de si mesma e destrói tudo. É um tempo próprio que a tudo destrói.

Interessante quando antes de tudo ocorrer Alex sonhar com um tunel vermelho após ela ter tido relações sexuais com seu namorado. No sonho o tunel se parte em dois. É nesta cisão, nesta ruptura entre os dois pedaços do tunel que o filme gira sem parar destruindo tudo, é naquele tempo, e não no pedaço de antes ou no pedaço do depois do tunel. Já não é possível retroceder, o "Isso" que está na cisão do tunel não há como fugir dele, não dá mais para mudar, é irreversível.

Gaspar Noé nasceu em 1963 em Buenos Aires, Argentina 

terça-feira, 27 de maio de 2014

FILME: DESONRA - 2008


Direção: Steve Jacobs  - 2008
Duração: 120 min. 

Título Original: Disgrace
País: Austrália  

Baseado no livro homônimo de J. M. Coetzee 

O título original é Desgraça. África do Sul, na Cidade do Cabo o professor David Lurie (John Malkovich) leva uma vida solitária, dando aulas sobre poesia numa universidade e tendo encontros sexuais com garotas de programa, até o dia em que ela lhe diz que não irá mais encontrá-lo.

David então se aproxima de uma aluna Melanie (Antoinette Engel) e usando de seu lugar de professor, com sua influência acaba a levando para a cama. Não se trata de um estrupo, mas também não é algo que agrada à garota, até que seu pai ao saber de tudo o denuncia à Universidade. David não se defende, continua usando de seu cinismo e se declara culpado.

Ele então parte ao encontro de sua filha Lucy (Jessica Haines) que vive numa fazenda isolada e acaba de ser abandonada por sua companheira. Eles serão violentamente atacados por três negros da região, um deles ateará fogo em David, enquanto sua filha é violentada.



Enquanto esta na Cidade do Cabo a atitude de David ainda era a de um colonizador, se considerando melhor, porém quando ele chega à fazenda desolada da filha, encontrará outro mundo, onde são os negros que dominam a sua terra.

Lucy nada fará para punir seus agressores o que deixa o pai consternado, ele não consegue aceitar isto, e também não consegue compreender o comportamento da filha. Ela deseja ficar ali, mas para isto precisa viver em paz com a comunidade, e aceita se casar com Petrus que vive ali e lhe dá quase tudo, ficando apenas com sua casa. Ela está grávida do estupro e ele vai assumir a criança que é filho de um parente seu e que também está vivendo ali.



David não compreende tudo isto. Ele quer justiça, quer que ela vá embora, e em momento algum associa o que ocorreu com sua filha com o que ele fez com a aluna na Universidade, até que após uma conversa com a filha que lhe diz que os homens são assim, sentem ódio das mulheres e precisam humilha-la, ter o poder sobre ela, ele procura a família de Melanie e pede perdão.

A questão está nos impulsos, naquilo que alguns não conseguem controlar, ou seja, a pulsão sexual, o desejo. David se declara um servo de Eros para a universidade. Só que ele não é o único que sofre disto, que também deseja e que não mede os limites para atingir o que deseja. Seja usando de persuasão e intimidação como David ou pela violência como os três jovens que os atacaram. Não é pela aparência de civilidade que a natureza do abuso se modifica, no fundo é a mesma coisa. A única diferença é que David sabe que deseja e age para isto, enquanto os jovens agem por impulso, pelo ódio, mas também pelo desejo. Quando o garoto olha pela janela para ver Lucy nua, esta é uma atitude típica de adolescentes. Mas David é mais sutil, ele diz que a mulher bonita tem que ser generosa e partilhar com todos esta sua beleza.

A pergunta que mais nos fazemos é por que Lucy age assim? ela é uma européia, sua mãe está na Holanda, mas ela se submete a lei e cultura local, a ponto de aceitar o estupro e dar todos seus bens ao estuprador para ter paz. Por que ela não o denunciou? por que ela o protege quando seu pai lhe dá uma surra e ainda corre até ele perguntando se está machucado? enquanto ele grita que vai matar a todos eles? Por que não vai embora?

O filme não mostra muito do que aconteceu com Lucy antes, nem o que ela realmente pensa. Mas eu fico pensando até que ponto o fato de ser filha de um homem que age como um estuprador polido e educado e acha isto normal, como seu lado Eros que ele não tem intenção nenhuma de deter, a leva a agir desta forma e não conseguir reagir? É como se em seu inconsciente estivesse atacando o pai? Ela prefere gerar o filho deste estupro, como um desejo inconsciente?

A questão dos cachorros sacrificados, talvez o único lugar que David consegue dar um pouco de amor, e por que sabe que não ficará dependente disto, uma vez que o cachorro vai morrer. Nem mesmo aquele que ele adota por um tempo, ele consegue se dedicar à ele, e acaba desistindo dele e o entregando ao sacrifício. O oposto de Eros é Tânatos, é a morte. Ou será uma metáfora que explicita o que ocorre com os que se aproximam de David? serão sacrificados ao seu amor, eros? aos seus impulsos que não consegue controlar? Ele acaricia, mas sabe que vão ser sacrificados, pelo amor, não é um castigo.

David cita Byron, e diz que a loucura não está na cabeça, mas no coração. Até onde se vai para curar um coração doente assim?

Talvez Lucy saiba que ele só se preocupa com ela e quer vingança por que no fundo ele se sente ultrajado em sua honra, e ao mesmo tempo confrontado consigo mesmo, o que o leva a pedir o perdão à família de Melanie, mas sinceramente, não consegui me convencer de que ele fez isto por realmente estar arrependido, mas pelo contrário, como se isto fosse uma maneira de tentar evitar mais desgraças.




Steve Jacobs nasceu em 1967 na Austrália

sábado, 24 de maio de 2014

FILME: ANONYMA - UMA MULHER EM BERLIN - 2008



Direção: Max Färberböck - 2008 
Duração: 131 min. 
Título original: Anonyma eine frau in Berlin
País: Alemanha 

Baseado no livro homônimo de autoria desconhecida. Baseado em fatos reais. 

Já postei sobre o livro no Blog que li alguns anos atrás. Em 1945 Berlim cai sob os russos, Hitler se suicida, o fim da guerra se aproxima. A cidade está destruída.

Uma jornalista (Nina Hoss) e várias outras mulheres e alguns homens alemães estão encurralados ali. A maioria  é fascista. A jornalista irá escrever em seu diário todos os eventos ocorridos.

Os soldados russos iniciam uma série de estupros, não há ninguém para proteger as mulheres. É o butim da guerra. A Jornalista decide então que nada nem ninguém irá conseguir magoá-la, e opta então por ter um protetor, o que muitas mulheres irão fazer, pois assim se tornam proibidas para os outros soldados, são protegidas e recebem comida. É a sobrevivência.



Mas serão mulheres marcadas por toda sua vida. Deverão se calar, pois quem irá querê-las depois? Entre elas até riem, se divertem sobre os homens, e a pergunta que sempre se fazem: Quantos? Quantas vezes?

Ela será a protegida do major russo Andreij Rybkin (Evgeniy Sidikhin) que perdeu sua esposa na guerra, foi enforcada pelos alemães. Os russos falam das atrocidades cometidas pelos alemães, eles não provocaram esta guerra, tiveram que defender seu país e suas famílias. Alguns perderam tudo.



A Alemanha se rende, é o fim da guerra, restam os destroços. O marido da jornalista retorna, mas não aceita o que ocorreu, diz ter nojo dela. Outro marido se mata.

Os homens tem traumas de guerra, mas são compreendidos pelos seus pares, mas as mulheres que sofreram os estupros são estigmatizadas, condenadas, são prostitutas e ficarão com esta marca para sempre.

Quando o livro foi publicado em 1959 foi um escândalo, muitos disseram que era um insulto às mulheres alemãs. Novamente a negação. Ela proibiu que o livro fosse reeditado, o que só ocorreu após sua morte em 2003, hoje sabe-se que a autoria é de Marta Hiller.

Estima-se que dois milhões de mulheres tenham sido estupradas na Alemanha após a guerra. O silêncio se impôs pois do contrário seriam renegadas pela sociedade, não se casariam, não seriam respeitadas, seus maridos não iriam querer ficar com elas, como ocorreu no filme. O estupro é uma forma de humilhação e poder sobre o derrotado, mas o que não se leva em conta é o trauma que a vítima carrega para sempre. Enquanto outras atrocidades são estudadas e acompanhadas, o estupro é um assunto tabu, seja na guerra ou não.
Muitas mulheres se suicidaram ou cogitaram fazê-lo, algumas engravidaram e tiveram filhos que foram apelidados de "moleque russo" pela sociedade, criando mais um trauma, desta vez para o filho. Marcas, marcados como gado.

O grande mérito deste filme é trazer a tona este assunto e possibilitar que se dê a devida atenção ao trauma que estas mulheres sofreram e sofrem.

Não se trata aqui de falar sobre o fato de que eram alemãs e fascistas. Muitas mulheres alemãs nazistas cometeram atrocidades, e os judeus também ficaram marcados para sempre. Os soldados alemães mataram crianças e mulheres, e isto é dito no filme. Mas, trata-se de falar de algo que ocorreu e que também tem suas consequências, e nem todas as alemãs eram nazistas, ou cometeram atrocidades, apenas acreditaram num homem que lhes prometeu um futuro glorioso e que no fim se suicidou deixando seu povo com o que sobrou desta guerra e suas consequências.


Max Färberböck nasceu em 1950 em Degerndorf, Münsing, Baviera na Alemanha.

Trilha sonora de Zbigniew Preisner 

Zbigniew Preisner nasceu em 1955 em Bielsko-Biala, Polônia. É um compositor. Estudou história e filosofia em Cracóvia. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

FILME: ACUSADOS - 1988


Direção: Jonathan Kaplan - 1988
Duração: 111 min 
Título original: The Accused 
Roteiro: Tom Topor
País: Estados Unidos 

Baseado em fatos reais: o estupro ocorreu em 06 de março de 1983 no bar Big Dan em New Bedford no estado de Massachusetts. 

O filme relata a forma como o sistema penal e jurídico, assim como a sociedade trata um caso de estupro. Sarah Tobias (Jodie Foster) é estuprada por vários homens em um bar e irá buscar justiça, mas isto não é tão fácil quanto parece.



Logo após o estupro ela passa pela situação constrangedora do exame médico, a assistente social e a promotora Kathryn (Kelly McGillis) que irão lhe fazer perguntas e dar orientação. Quando a câmara foca em seus olhos neste momento a leitura é como se ela estivesse tatuada para sempre, como se as imagens do que sofreu jamais se apagassem. A maneira como as pessoas olham para a vítima, seja com piedade ou com acusação velada, ou pura indiferença, num momento que ela mais precisa de apoio, compreensão. É muito diferente daquele que foi agredido num assalto, numa briga, em qualquer outro ato de violência. O Estupro carrega em si mesmo a condenação da vítima pelo olhar da sociedade. O que ela fez para isto lhe acontecer? onde estava? que roupas usava? ela provocou? É um total absurdo, mas é a realidade.



O filme retrata  como são tratadas as vítimas de estupro, seja nos Estados Unidos ou na maioria dos países, quando não é pior ainda, expulsas de casa, mortas, consideradas apátridas.



Kathryn decide ajudá-la, e vai ter que lutar muito, inclusive contra outros advogados, com o sistema penal e judicial, uma vez que o que importa é não perder uma causa em função do prestígio da justiça e dos seus defensores ou acusadores. É um caso muito difícil, até mesmo a amiga de Sarah acaba depondo de uma forma desfavorável à vítima, uma vez que se leva em conta não o que ocorreu, mas quem ela é, e portanto, pressupondo de início que ela provocou isto.

Sarah é jovem, usa roupas provocantes, fuma, usa drogas, bebe, não tem uma boa relação com seu companheiro, mas apesar de tentar se levar isto em conta para defender os agressores, isto não justifica jamais um estupro.

A cena na loja de fitas cassetes, é extremamente cruel, e representa o que sente uma pessoa que foi estuprada perante a sociedade. O homem ri, zomba, faz gestos obscenos e a trata como um objeto. O ódio dela, a raiva, a vergonha.

Ela não consegue relatar o estupro, falar, é necessário que uma testemunha resolva falar e contar cruamente o que presenciou. Os homens incentivavam os outros, mesmo aqueles que não iriam estuprá-la, se sentem intimados para garantir seu lado viril. Eles fizeram fila de espera. Ela gritava Não! Não! e depois foi questionada no julgamento se falou para pararem, é um absurdo.Os agressores se defendem dizendo que ela provocou, flertou, dançou de forma provocando e que era óbvio o que ela queria. Se não fosse o testemunho de um irmão de um dos agressores a causa não teria sido ganha.

Um filme cru, real que lança um olhar forte mas verdadeiro sobre o crime de estupro e de como a sociedade e a justiça reage à ele. Um filme que convida a uma reflexão sobre a consciência moral das pessoas.

E deixa uma questão: Por que as pessoas reagem desta forma ao estupro?

Assista ao trailer em inglês


Jonathan Kaplan nasceu em 1947 em Paris, França. Estudou cinema na Universidade de New York. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FILME: A TETA ASSUSTADA - 2009


Direção: Claudia Llosa - 2009
Duração: 95 min
Título original: La teta asustada 
Roteiro: Claudia Llosa
País: Peru 

Venceu o Urso de Ouro em Berlin em 2009 e o Festival de Cinema de Havana

No Peru existe uma lenda que diz que as mulheres que foram estupradas transferem para suas filhas através do leite materno a doença do medo "a teta assustada" que rouba a alma. Estes estupros ocorreram durante a guerra do terrorismo no país.
Fausta ( Magaly Solier) é filha de uma destas mulheres  e quando sua mãe falece ela terá que enfrentar esta situação e também um segredo que guarda, uma batata em sua vagina para protegê-la dos estupros e assim evitar a repetição do destino trágico de sua mãe. A batata, uma planta que não dá flores.

Um lenda que lida com a herança psíquica de filhas de mães violentadas. O medo de sair à rua, o medo do outro. Fausta após a morte de sua mãe vai viver com os tios no subúrbio de Lima. Ela deseja dar um enterro à sua mãe, mas para isto precisa de dinheiro e seu tio não pode ajudá-la, ele está casando sua filha e todas suas economias são para isto. Fausta terá que trabalhar para conseguir o dinheiro, mas para isto ela terá que sair de casa.

O filme se inicia com a mãe em seu leito de morte cantando, e ela canta a dor e o horror do que sofreu, ver o marido ser assassinado e ser estuprada estando grávida de Fausta. O olhar de sua mãe reflete isto, e é neste olhar que Fausta se constitui, um olhar de medo, pavor e dor.



Mas quando sai para a rua para ir trabalhar ela terá que enfrentar isto de alguma maneira. Seus primos sempre iam buscá-la ao final do dia para que não retornasse sozinha, porém um dia eles não podem ir e o jardineiro da casa onde trabalha se oferece para acompanhá-la. Ela desconfia de todos que não são parentes, mas acaba aceitando e aos poucos vai criando confiança neste outro.

Ela usará as canções como uma proteção a cada vez que se vê em uma situação que cria ansiedade e medo, ou seja, a cada vez que se vê frente a uma pessoa que não conhece, seu nariz sangra, ela tem sangramentos vaginais. Sua patroa, Aída (Susi Sánchez)  uma musicista se interessa por suas canções, ela está numa fase de pouca criatividade, e para fazer com que Fausta cante ela lhe oferece pérolas em troca.


Um dia no carro sua patroa a expulsa deste, e ela se vê sozinha na rua e sem ter recebido suas pérolas, é a primeira vez que caminha sozinha na rua. Ela retorna à casa de sua patroa para buscar as pérolas, que precisa para o enterro de sua mãe, e na volta para a casa de seu tio ela desmaia na rua e é socorrida pelo jardineiro.

Finalmente ela pede que lhe retirem a batata. Irá levar sua mãe para ser enterrada, mas no caminho para para lhe mostrar o mar, a imensidão de possibilidade que uma vida pode oferecer.

Ela está curada, livre do medo e pode finalmente receber do jardineiro um pequeno vaso com uma batata plantada e que tem uma pequena flor.


Ouça a canção de sua mãe no leito de morte



Claudia Llosa nasceu em 1976 em Lima, Peru. É sobrinha do escritor Mário Vargas Llosa.

Musica de Selma Mutal - La Sirena 

Selma Mutal nasceu em 1968 em Lima, Peru. É uma pianista