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quarta-feira, 11 de maio de 2016

FILME: POESIA - 2010


Direção: Lee Chang-Do - 2010
Duração: 139 min
Título Original: Shi
País de Origem: Coréia do Sul

Um belíssimo filme sobre a velhice, solidão e de como a arte pode ajudar a viver. Mija (Yun Jeong-Hie) vive com seu neto adolescente cuja mãe está distante em outra cidade. Ela trabalha para um senhor de idade como faxineira, além de lhe dar banho uma vez que ele supostamente deve ter sofrido um AVC já que tem dificuldades em falar e se locomover. 

Ao procurar um médico devido uma dor na coluna acaba descobrindo que tem alzheimer o que ela não conta para ninguém, nem mesmo para a filha com quem diz manter contato direto e que contam tudo uma para a outra. Mija resolve aprender a fazer poesia num centro cultural. 

Ela é ativa, dinâmica, mas é notório sua solidão. Passa pelas pessoas em sua rua e tenta falar com elas e não obtém respostas, conversa com a filha de seu patrão e esta mal lhe dá atenção. O neto por sua vez não quer saber de nada, somente de computador e dos amigos, é mal educado, não ajuda em nada, por mais que Mija o chame as suas responsabilidades. O que se nota é que não há protagonismo para os velhos, não são escutados, a médica acha estranho ter que falar para ela do que tem, pergunta se ninguém veio com ela, que preferia falar com outro, como se ela fosse incapaz, quase uma criança. 

O filme começa com um rio, o Han, e um corpo de uma jovem é encontrado. Mija ao ir ao hospital para ver sobre sua dor nas costas verá o desespero da mãe quando chegam com o corpo da jovem. Mal sabe ela o quanto isto irá interferir em sua vida e de seu neto. 

Mija inicia seu curso de como fazer poesia. Ela quer compreender de onde surge a inspiração para conseguir escrever um poema. Seu primeiro momento virá após um encontro com os pais dos meninos envolvidos no estupro de uma jovem na escola que se suicidou no qual seu neto está envolvido. Estes pais querem pagar à mãe da menina que é uma pobre camponesa para que não denuncie os garotos, ato com o qual a escola também é conivente. Mija ouve tudo aquilo com angústia, e sai do local, do lado de fora há uma flor vermelha, uma flor vermelha como sangue, algo sangra nela, é uma metáfora. 

Mija não parece concordar com o que os pais e a escola desejam. Ela está angustiada, ela recorda a mãe da menina, consegue se colocar no lugar dela. O Alzheimer progride lentamente, ela esquece nomes de coisas simples. Mas ela não desiste, e será a poesia seu veículo para falar, dizer o que sente, o ato poético é uma nomeação à algo interno, produzindo diferenças. O suicídio é a falta de palavras, vem dizer algo que não se pode falar. 

A doença não é igual à velhice, e Mija é uma protagonista de sua vida através da poesia. Ela irá tomar duas decisões fortes ao final do filme, e as expressará através de uma poesia, a canção de Agnes, nome da menina que se matou, dando voz a ela e fundindo sua trajetória com a dela. 

O filme é longo e denso, extremamente rico, há muito neste filme para ser dito, mas deixo a cada um que o assista suas possibilidades de interpretação e compreensão. 

Lee Chang-Do nasceu em 1954 em Daegu, Coreia do Sul 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: REPÓRTERES DE GUERRA - 2010



Direção: Steven Silver - 2010
Duração: 106 min
Título Original: The bang bang club
País de Origem: Canadá e África do Sul 

Baseado no livro The Bang Bang Club escrito por Marinovich e João Silva. 

Um filme que nos mostra a realidade dos repórteres de guerra. Baseado em fatos reais, é a história de um grupo conhecido como Bang Bang Club, formado por Greg Marinovich (Ryan Phillipe), João Silva ( Neels Van Jaarsveld), Kevin Carter (Taylor Kitsch) e Ken Oosterbroek (Frank Rautenbach). 

O grupo se formou na África do Sul, juntos para maior segurança, mas também unidos pela amizade, eles arriscam suas vidas para contar ao mundo toda a violência, brutalidade, fome, horrores que acontecem ao nosso redor. São as primeiras eleições livres da África do Sul após o fim do regime de Apartheid e a violência étnica impera. Greg ganhou um Pulitzer por suas fotos do confronto, mas o preço que pagaram foi muito alto. 

Foto de Greg Marinovich que ganhou o Pulitzer em 1991, um assassinato brutal cometido por apoiadores do Congresso Nacional Africano a um homem que acreditavam ser um espião do Partido da Liberdade Inkatha. 

Estes repórteres são obcecados por tirar suas fotos, mas o preço emocional, psíquico, psicológico que pagam é extremamente alto. Eles tiram fotos, mas não interveem, não fazem nada. 

Greg Marinovich 

A noite eles tentam se divertir, bebem, mulheres, tentam apagar as imagens, mas não é possível. A questão ética se impõe, a consciência cobra seu preço. Eles reagem dizendo que tiram as fotos para que elas sejam divulgadas e desta forma algo aconteça para mudar. Mas não é o que acontece. 

Kevin Carter se drogava para suportar. Ao ser afastado do conflito na África partindo para o Sudão, ele tira uma das fotos mais famosas no mundo, mas que foi o seu fim. Ele suicidou-se um tempo depois por não suportar as perguntas, ele foi cobrado por não ter feito nada pela menina, exceto espantar o abutre. E somado a isto ainda houve a morte de Ken Oosterbroek. 

Foto de Kevin Carter que ganhou o Pulitzer

Ken Oosterbroek foi atingido por um tiro durante as últimas manifestações antes da eleição. Ele morreu no local. Gren também foi atingido, mas sobreviveu. 

Ken Oosterbroek 

João da Silva continuou fotografando, em outubro de 2010 ficou gravemente ferido num acidente com uma mina no sul do Afeganistão e teve suas duas pernas amputadas, mas ele voltou a fotografar.

João da Silva 

Steven Silver 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

FILME: UM DOCE OLHAR - 2010


Direção: Semih Kaplanoglu - 2010
Duração: 103 min
Título Original: Bal 
País de origem: Turquia 

Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2010.

Yusuf (Bora Altas) vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu) e sua mãe Zehra (Tülin Özen) numa região montanhosa da Turquia. Seu pai é apicultor e ensina o filho a ler para que ele possa melhorar na escola. o menino tem dificuldade de pronunciar as palavras, exceto quando fala baixinho com o pai. Com a mãe ele fala muito pouco. É reservado, está sempre sozinho ou com o pai, não brinca com as outras crianças. Mas seu olhar fala, diz tudo. O maior desejo de Yasuf é ganhar a condecoração de boa leitura que o professor oferece aos alunos quando eles lêem. 

Yusuf sempre acompanha o pai e o ajuda, porém quando as abelhas diminuem ele tem que partir para mais longe e ele não pode ir junto. O que era previsto para demorar uns dois dias começa a demorar e mãe e filho ficam sem notícias de Yakup o que os preocupa. Começam a procurar sem sucesso até que a mãe vai a uma delegacia pedir ajuda. 

É um filme de poucas palavras, contemplativo, lento, com as paisagens da floresta, das montanhas, o tempo, o clima, a vida simples destes montanheses. Praticamente não há trilha sonora, apenas os sons da natureza, da chuva, dos passos, do vento.

O ator infantil Bora Altas é excepcional. Sua expressão de sofrimento ao ler, de ciúme ao pensar que o pai deu o veleiro que fez ao primo, de orgulho ao ajudar o pai, e acima de tudo seu olhar. Quando a mãe chora pelo desaparecimento do marido, ele que nunca gostou de leite, bebe o copo todo e olha para a mãe. Singelamente ele deseja que ela fique contente, que pare de chorar. O olhar dele neste momento é maravilhoso. 


Semih Kaplanoglu nasceu em 1963 em Esmirna, Turquia

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: UM HOMEM QUE GRITA - 2010


Direção: Mahamat-Saleh Haroun - 2010
Duração: 90 min
Título Original: Un Homme qui crie

País de origem: Chade

Ganhou o Prêmio do Jurí em Cannes. 

Adam (Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação e há 30 anos trabalha na piscina de um hotel de luxo na capital do Chade - Djamena, na África. O hotel acaba de ser comprado por chineses e a administração começa a agir de uma maneira diferente, onde antes contava os laços, o tempo, a dedicação, agora é uma questão prática. Primeiro é o cozinheiro que é demitido, ele que sempre cozinhou com amor, e não seguindo cardápios ou receitas sofisticadas. E Adam tem que ceder o lugar ao seu filho Abdel (Diouc Koma) e assumir o lugar de porteiro, uma situação que o fere e incomoda, pois ele considera um declínio social, ele que acreditava que seu lugar de guardião da piscina era um direito divino, principalmente por merecimento pois ele foi campeão de natação e é chamado por todos de campeão. 

O país está passando por uma guerra civil, com rebeldes ameaçando o governo, e a população precisa ajudar o governo, com dinheiro ou enviando seus filhos para lutar pelo país. Adam não tem o dinheiro e passa a viver o dilema de enviar seu filho para a guerra, sendo que é pressionado pelo líder do bairro que acaba lhe dando três dias para decidir. 

Um paralelo entre a vida de Adam e do país, que vai aos poucos perdendo toda sua beleza, tudo aquilo em que se acredita, seus rituais, suas tradições. Adam acaba entregando o filho e passa a sofrer com sua consciência, mas não conta a ninguém o que fez. Ele reassume o lugar na piscina até o dia em que a guerra chega mais perto e todos começam a fugir. A namorada de Abdel havia procurado a família, está grávida. E somente à ela Adam acaba contando o que fez. Ele então parte para buscar o filho. 

Os conflitos de Adam começam no dia que é "expulso" da piscina, seu paraíso. Até ali ele está indiferente à guerra, aos aviões que lhe passam por cima da cabeça. Ao falar com o cozinheiro demitido eles reconhecem que "nosso problema é que colocamos nosso destino na mão de Deus". Começa o desabrochar político de Adam. 

O filme é africano, e portanto não tem um enfoque ocidental. Apesar da questão do destino nas mãos de Deus ser uma referência à catequização imposta, eles não jogam a culpa sobre os colonizadores franceses. Para eles é o homem quem é o responsável por sua vida. 

O Chade vive em guerras civis e pobreza perene, mas segundo o diretor Haroum seu povo sabe que a guerra não é um ato de cima, mas uma criação dos homens.


Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Abéché, Chade. Vive na França desde 1982.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: LES PETITS RUISSEAUX - 2010



Direção: Pascal Rabaté - 2010
Duração: 91 min
Título em português: Os pequenos riachos (tradução minha) 
País: França 

Baseado na história em quadrinhos do próprio diretor. 

Émile (Daniel Prévost) vive sozinho e leva uma vida tranquila. Vai pescar com seu amigo Edmond (Philippe Nahon), encontra seus amigos num bar onde cada um conta suas histórias, e cuida de suas plantas. Tudo segue tranquilo, e ele continua cultuando sua esposa morta, vivendo de lembranças. Até o dia em que descobre que seu amigo Edmond ao contrário dele tem encontros com mulheres, e mais ele se dedica à pintura de mulheres nuas, dança, ri, leva a vida de uma forma bem mais animada.


Alguns dias depois ele é surpreendido com a morte de Edmond, e no enterro ele encontra Lucie (Bulle Ogier), a última namorada do amigo morto. A partir daí Émile começa a rever sua vida, seu desejo reacende, e ela começa a ver todas as mulheres nuas, na rua, no mercado, onde ele esteja. Tem alguns encontros com Lucie, mas não consegue ir adiante devido a lembrança de seu amigo. Então ele se decide a recuperar um pouco da vida e parte em seu mini caro - Mini Comtesse - primeiramente ele volta a casa de sua infância para encontrar ali um grupo de jovens adeptos de uma vida simples que estão morando na casa. Fica com eles dois dias, e acaba tendo um encontro amoroso com uma das jovens. Ao voltar para casa, um desses "acasos" da vida, ele sofre um acidente e conhece então Lyse (Hélène Vincent) que foi a causadora do acidente e o visita no hospital. 

A partir deste momento sua vida é retomada.


O filme retrata a vida na velhice onde já não pensa que algo pode acontecer e se acaba levando a vida com conformismo, saudosismo e metodicamente, até que algo venha mudar isto e mostre que mesmo com setenta anos é possível viver, encontrar pessoas, amar, desejar, rir, viajar, dançar entre outras coisas. O filho de Edmond achava seu pai um devasso, queima suas pinturas e Émile consegue salvar dois quadros que ele fazia reproduzindo mulheres da Playboy e usando além da tinta lã, fios para imitar os pelos púbicos. Já o filho de Émile fica muito contente com o fato do pai ter encontrado alguém e ao ver os quadros se diverte. O filme também serve de alerta na forma como os mais jovens enxergar e julgam a velhice, o que acaba levando muitos a seguir estas ditas normas sociais onde o velho tem que ser velho em tudo, e não apenas no corpo que envelhece. 

Pascal Rabaté nasceu em 1961 na França


A mini-comtesse. 

FILME: AS QUATRO VOLTAS - 2010


Direção: Michelangelo Frammartino - 2010
Duração: 88 min
Título Original: Le Quattro volte
País: Itália - Alemanha - Suíça 

Uma vila medieval na Calábria, Itália onde as tradições são mantidas e há o pastoreio das cabras. Também produzem carvão de forma artesanal. 

Um filme para se sentir, pois não há falas, mas os sons da vila, das pessoas, dos animais e da natureza. É uma experiência única e para cada um é diferente.


Começa com um velho (Giuseppe Fuda) que pastoreia suas cabras junto com um cachorro. O dia a dia monótono dele, repetitivo, mas é um momento em que nos damos conta que também fazemos isto, em outro lugar, em outro tempo e contexto, mas repetimos diariamente as mesmas coisas da mesma forma. E o tempo passa, as estações mudam, os anos avançam, a vida se vai. O velho morre sozinho e somente o cachorro pode avisar a todos e o faz de forma brilhante e inteligente no dia da encenação da Paixão de Cristo. O enterro e a pedra que fecha o túmulo, ficamos do lado de dentro do túmulo, escuridão, alguns míseros sons.


As cabras, e no ritmo da vida se um  morre outro nasce, e nasce um cabritinho. Acompanhamos as cabras, o crescimento dos pequenos, até o dia em que este que nasceu se perde, e acaba se abrigando embaixo de uma imensa árvore. Novamente a escuridão e os sons.


Árvore imensa, majestosa. As estações passam, e quis que ela fosse a escolhida para a festa daquele ano,  assistimos sua derrubada, é levada para a vila, sobem nela, quem consegue ganha o prêmio. É derrubada, em seu topo vários presentes. Fim de festa, ela é serrada e levada para a carvoaria.





Vemos como se produz carvão artesanalmente. E a árvore imensa, agora tocos de madeira, é colocada por primeiro, e finalmente a escuridão novamente. Fim de mais um ciclo.



E tudo se repete na vila, o pequeno caminhão que já passava no tempo do velho sobe novamente a rua, carregado de carvão para vender ao povo. Vemos a fumaça saindo da chaminé. 

Tudo sempre se reorganiza, nada para, morrem uns mas a vida continua, nascem outros, e a vida continua. Voltas e mais voltas e tudo recomeça e tudo termina, e recomeça. O que vemos é a natureza, incluindo o ser humano, o que vemos é a vida como ela é, sem enfeites ou eufemismos, ela segue. Mesmo que a religião se faça presente, ela se faz como ritual, como parte da vida, esta vida que segue, e não como ordenadora da vida. E o homem também é formado de sais, é um mineral, que retorna à terra. O filme homenageia o ciclo da vida em suas quatro manifestações: humana, animal, vegetal e animal, e estão todos interligados. 

Belíssimo!

Veja o trailer: 




Michelangelo Frammartino nasceu em 1968 em Milão, Itália

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

domingo, 30 de novembro de 2014

FILME: O SEGREDO DOS SEUS OLHOS - 2010



Direção: Juan José Campanella - 2010
Duração: 129 min
Título Original: El secreto de sus ojos

País de Origem: Argentina

Benjamín Espósito (Ricardo Darín) se aposenta após trabalhar a vida todo no Tribunal Penal em Buenos Aires. Para preencher seu tempo ele começa a escrever um romance sobre um fato verídico que se passou 25 anos antes, quando em 1974 foi encarregado de investigar um violento estupro seguido de assassinato de uma bela mulher, Liliana Calotto (Carla Quevedo) casada há um ano com Ricardo Morales (Pablo Rago). 

O filme se passa entre digressões entre o presente e o passado e aos poucos vamos conhecendo toda a trama do que ocorreu naqueles anos. Somos então apresentados à Irene (Soledad Villamil), que iniciava sua carreira jurídica e à Sandoval (Guillermo Francella), assistente de Espósito que sofre de alcoolismo, mas é brilhante em solucionar casos. Este é o enredo policial do filme. 

Espósito é apaixonado por Irene, mas nunca ousa lhe dizer nada e ao investigar o caso de Liliana se envolve cada vez mais com a vida da vítima, pelo marido apaixonado, que alega não desejar a morte do assassino, mas sim, que ele passe a vida toda preso e tenha que se haver com o nada. Logo no início do filme Espósito anota num papel "Temo", ao acordar. Ao escrever sobre a investigação ele procura Irene para lhe falar sobre isto, sobre tudo que aconteceu naqueles tempos, sobre o que nunca mais falaram. 

A escrita de Espósito é uma história real com fatos, mas nas entrelinhas deste romance há todo o aspecto psicológico dele, de tudo que se passou dentro de ele e que nunca foi expressado. Após solucionarem o caso e prenderem o assassino, a Argentina entra num momento político difícil, e um desafeto de Espósito libertará o assassino e o colocará numa posição dentro do executivo do país, e a justiça nada poderá fazer. Agora todos correm risco de vida. Espósito irá embora e deixará para trás Irene, mas levará consigo um amor represado dentro de si, pelo simples motivo que ele teme amar. E é isto que o fascina em Morales, o amor que ele sente por Liliana e como pode ter vivido 25 anos sozinho, no nada? 

Sandoval irá dizer num momento que há algo que nunca podemos nos livrar, podemos mudar de rosto, de religião, de emprego,de casa, mas a paixão, esta permanece, e é assim que eles chegam ao assassino. Como viver com uma paixão assim? como Morales sem  Liliana, como Espósito sem Irene? Como preencher uma vida e lhe construir um sentido com este imenso vazio dentro de si? 

Tudo o que não se diz o olhar expressa, e é brilhante a atuação dos olhares no filme, que falam mais que qualquer palavras. Ambos sabem do amor que nutrem um pelo outro, mas estão ali, a espera que algo aconteça, um milagre talvez? Também será pelo olhar que Espósito através de fotografias irá descobrir o assassino de Liliana. Dizem que os olhos são o espelho da alma, mas o que eles com certeza fazem é falar, os olhos falam, e deletam nossos segredos. 

Já Ricardo tem um olhar perdido, um olhar de quem não pode mais realizar o que deseja, mas que acalenta a vingança. Ele quer encontrar o assassino que lhe tirou o grande amor de sua vida. Seu olhar de amor é um olhar de puro amor, mas sem objeto palpável, ela já não existe. Ricardo não pode mais amar porque a morte se interpôs, mas Espósito pode, não é a morte que o impede, é o temor, o medo. 

Durante o filme várias vezes há a questão da máquina de escrever que falha na letra "A", justo a letra que falta, a letra que impede Espósito de escrever o seu amor, o Temo em Te A Mo. 

Morales ficará no passado, preenchendo o vazio com o nada, nem mesmo falando, já Espósito consegue encontrar a letra que falta e a falar. 
Juan José Campanella 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

FILME: VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO - 2010


Direção: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes 
Duração: 71 min 

País de origem: Brasil 

José Renato é geólogo e aceita fazer uma viagem pelo sertão do Nordeste, região semi-árida, para fazer o levantamento para a construção de um canal que sairá do único rio da região, o Rio das Almas.

Em momento algum veremos José Renato, é ele quem nos fala, conta o que está vivendo em sua vida pessoal e fala sobre a região por onde passa, até que nos damos conta que ambos se parecem, o vazio, algo seco, algo morrendo, o silêncio, tudo se repete e nada se move.

Às vezes ele precisa de gente e então se dirige para alguma cidade saindo de seu percurso. Desta forma ele vai a Juazeiro, vemos uma procissão com caminhões pau de arara, ex-votos, as casas do sertão que me encantam por sua história nas paredes, retratos da família, homenagens aos santos protetores e agradecimentos. Me chamou a atenção o colchão feito de palha e chita, uma parede onde está escrito solidão nn .

Aos poucos vamos descobrir que sua mulher amada, sua galega como ele a chama, o deixou e ele está viajando para esquecer. O que a paisagem reflete é o que ele sente dentro de si mesmo, mas ele continua, não desiste.

Sai com algumas garotas de programa e uma delas lhe diz que seu maior desejo é ter uma vida lazer. Ele pergunta o que é isto - é ficar em casa, ter filhos, ter alguém que te ame. José Renato também quer uma vida de lazer. Em um momento ele olha para os homens e se pergunta: o que estes homens fariam se fossem todos abandonados?

Ele finalmente chega à cidade de onde sairá o canal, já quase vazia, abandonada como ele. Sobe um morro e lá no topo há um monumento: Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX.

José Renato então fala que fez a viagem para se mover, para sair da paralisia, e que agora sente vontade de mergulhar na vida, como os homens que mergulham dos rochedos em Acapulco.

O interessante é que José Renato faz uma leitura de tudo que vê na paisagem e nas pessoas com o que ele mesmo está vivendo, trazendo o externo para dentro de si, mas ao mesmo tempo fazendo o movimento inverso.

O filme foi montado com as imagens filmadas ou fotografadas pelos diretores em suas viagens pelo sertão do Ceará. A voz de José Renato é de Irandhir Santos.
Karim Aïnouz nasceu em 1966 em Fortaleza, Ceará. 


Marcelo Gomes nasceu em 1963 em Recife, Pernambuco 











segunda-feira, 13 de outubro de 2014

FILME: A AVÓ GRILO: O MITO DA DONA DA ÁGUA - 2010


Direção: Denis Chapon -2010
Duração: 12 min - Curta
Título Original: Abuela Grillo 

Projeto um filme por país.  País: Bolívia

Um curta de animação baseado numa lenda que é contada milenarmente pelo povo Ayoreo da Bolívia.

No princípio havia uma avó que era um grilo chamada Direjná, ela era a dona da água e por onde passava cantando com amor a água brotava da terra, das nuvens, das torneiras. Uma vez ela cantou e houve uma inundação e seus netos ficaram muito bravos e a agrediram. Ela então foi embora muito triste. Ela vai para a cidade onde acaba enganada por empresários que depois a aprisionam e a fazem cantar sem parar e passam a engarrafar a água e a vendê-la. Como a avó grilo não canta mais na natureza há uma seca que tudo destrói. É então que seu neto vai para a cidade em busca de água e descobre que a vó está presa nas mãos dos empresários, de quem há havia tentado fugir mas foi pega de volta. É hora de lutar para libertá-la, pois todos estão sofrendo, o povo e a avó que está muito triste.

É uma animação em prol da natureza e contra o capitalismo que a tudo mercantiliza. Foi realizado por oito animadores bolivianos sob a direção de um francês Denis Chapon e foi feito na Dinamarca.

O mito vai além da animação e conta que quando a avó grilo retornou havia coisas que já não eram como antes, como o fogo que agora era usado para cozinhar os alimentos. Ela não se sentiu bem com este calor, e então resolveu ir visitar os oitos céus que os Ayoreo tem e escolheu morar no quarto céu que era o mais úmido, e de lá poderia continuar a enviar água para seu povo, através da chuva. Para o povo Ayoreo a palavra tem poder e portanto o mito só deve ser contado na época da seca e jamais no tempo das inundações e muitas chuvas.

O canto da avó grilo é belíssimo e é da cantora Luzmilla Carpio, indígena que trabalha com instrumentos sonoros andinos. Os Ayoreo tem forte ligação com a natureza e habitam regiões da Bolívia, Paraguai e Argentina.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=xLdf8YS0Tww




Denis Chapon 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FILME: COM AMOR... DA IDADE DA RAZÃO - 2010


Direção: Yann Samuell - 2010 
Duração: 97 min
Título Original: L'âge de raison 

Margaret ou seria Marguerite (Sophie Marceau) é uma executiva que leva uma vida agitada sem tempo para nada, ocupada exclusivamente com os negócios. No dia do seu aniversário de 40 anos ela recebe de um velho conhecido várias cartas que ela mesma escreveu quando tinha 07 anos para serem abertas quando chegasse a idade adulta, com o intuito de recordar suas promessas que fez na idade da razão.

Estas cartas que ela havia esquecido lhe trarão de volta seus sonhos, o que ela pensava que seria quando crescesse, mas também a fez recordar tudo que negou durante sua vida para superar uma infância que como qualquer outra teve seus momentos felizes, mas também suas tristezas e obstáculos.

A questão é: seja quem você é! Durante todo o filme Margaret a cada situação que ela deve enfrentar começa a pensar em várias mulheres como Virginia Woolf, Greta Garbo, Coco Chanel só para citar algumas, como se vestisse máscaras para cada evento de sua vida. Mas quem é Marguerite?

Um filme que nos faz repensar a vida.Todos nós sonhamos em ser algo na infância, mas a maioria não segue seu sonho e se transforma em um outro. Margaret se propõe a resgatar Marguerite e fazer as pazes com sua infância e todos que dela participaram, como seu irmão, ou seu primeiro amor.

Um filme singelo, mas que traz uma mensagem muito verdadeira.

Yann Samuell nasceu em 1965 na França