Mostrando postagens com marcador Literatura Canadense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Canadense. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS MULHERES QUE MANTÊM O SISTEMA — E AS QUE O FAZEM RUIR

 


OS TESTAMENTOS

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2021

448 páginas 

Em Os Testamentos, Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.

A grande virada do romance está na multiplicidade de vozes femininas. Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres que o reproduzam para continuar existindo.

A figura da Tia Lydia é central nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui, não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.

O romance também desloca o eixo da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a resistência se organiza por arquivos, testemunhos, segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a ruir, mas pela produção de provas, pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.

Há ainda um aspecto fundamental: Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o sistema termina, suas marcas permanecem.

Se O Conto da Aia perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é confortável. Mas é necessária.

Atwood escreve, mais uma vez, não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões históricos. Os Testamentos não oferece redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que narrá-los é um gesto político.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá em 1939. É uma romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 

NÃO É O FUTURO: É O PATRIARCADO EM PLENO FUNCIONAMENTO

 


O CONTO DA AIA

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2017

368 páginas 

O Conto da Aia não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já não tenha existido. Apenas reorganiza.

A República de Gilead surge após um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred — “do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.

A violência em Gilead não se dá apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.

Atwood é particularmente incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.

A narração em primeira pessoa é fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos, enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição. Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável, reversível. Não era.

O corpo feminino, em O Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função. Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da subjetividade.

Mais do que uma distopia, o romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade? O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga primeiro esse preço?

O Conto da Aia permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é exercício de imaginação — é exercício de vigilância.

No fim, a narrativa de Offred não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer corpos dóceis, a palavra ainda é risco.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 


domingo, 26 de janeiro de 2014

LIVRO: DOLCE AGONIA - NANCY HUSTON


Huston, Nancy. L&PM Editores, 2008
Tradução: Cássia Zanon
240 páginas

Quem relembra o jantar de Ação de Graças que Sean Farrell oferece aos seus onze amigos é Deus. Se na "Menina que roubava livros" era a Morte, aqui temos Deus, porém, qual a diferença? pois se é Deus que determina o fim de cada um deles e os chama para si?

Logo no início no Prólogo no céu Deus fica espantado com sua própria criação, mesmo conhecendo tudo a respeito de cada um deles, são capazes de surpreendê-Lo. "Cegos, cegos... eternamente esperando e tateando, esforçando-se por acreditar na minha bondade, descobrir o sentido de seus destinos, entender os meus planos. Simplesmente não conseguem evitar a busca por um significado."

E lá estão eles reunidos para o jantar de Ação de Graças e enquanto se desenrola o jantar entre conversas, risos, piadas, lembranças, também cada um deles irá pensar em episódios de suas vidas, a dor, a velhice, a doença, a morte, a perda. A cada final de um capítulo, Deus nos contará como um deles irá voltar  para ele, independentemente do que eles desejam, do que sonham, a vida termina um dia, e nem sempre na hora que eles considerariam a melhor, a esperada. Neste ponto, Deus nos mostra uma faceta nada bondosa, uma vez que devido sua lógica do que traçou para cada um, dentro do universo que criou, ele os arrebata em momentos que impedem a alegria de uma criança, um reencontro, um momento de amor, mas em outros momentos Ele chega a tempo para fazer parar um sofrimento, uma dor que está se tornando intolerável.

Todos ali tiveram bons momentos, mas humanamente conseguem se apegar mais aos maus momentos, mesmo que ele tenha sido só um instante, mas outros, carregam traumas que são difíceis de esquecer. Como é fácil e perigoso julgar ao outro sem saber nada dele. Como um episódio, uma história é cômico para uns e desperta algo horrível para o outro. Como uma simples palavra - avião - pode trazer boas e más lembranças.

Um grande painel do que é o ser humano e do mundo ali, entre quatros paredes, como uma pintura, como uma Santa Ceia, muito bem construído por Huston.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

LIVRO: PEÇAS EM FUGA - ANNE MICHAELS



Michaels, Anne. Companhia das Letras, 1997
Tradução: José Rubens Siqueira
222 páginas

O Romance nos fala de duas biografias, a de Jakob Beer e a de Ben. Ambos tiveram suas vidas modificadas devido à guerra.

"A experiência que um homem tem da guerra jamais termina com a guerra. O trabalho do homem, assim como a sua vida, jamais se completa..."

Até que ponto o tempo pode apagar dores indizíveis? ou ao contrário, ele as perpetua? A guerra terminou em 1945, mas por quanto tempo e espaços tudo que ela significou e provocou irá se perpetuar e continuar como se fossem ondas no espaço e tempo?

Jakob escapa dos nazistas com a ajuda de Athos, que o leva para a Grécia, após ter ficado enterrado para se esconder. Mas mesmo com todo o amor, o cuidado que Athos lhe oferece ele nunca mais se esquecerá de seus pais e principalmente de Bella, sua irmã. Por mais que Athos o distraia com histórias, conhecimentos, e lhe diga para escrever, ele não esquece. Não saber o que realmente aconteceu com  sua irmã, como ela morreu a transforma num fantasma que o persegue.

Ben acaba conhecendo Jakob, e irá se envolver na vida deste ao ir procurar seus cadernos na Grécia após sua morte. Ben é filho de pais que sobreviveram ao holocausto, mas um segredo que se revelará somente após a morte destes o fará compreender melhor a dor e o porque de tanto silêncio. Porém ele irá sofrer as consequências, pois sua mãe por medo terá um excesso de zelo com ele, e seu pai nunca se mostrará totalmente para ele, sendo uma pessoa distante e fechada.

Michaels trabalha com o relato, mas inclui a poesia para falar de coisas dolorosas, e coloca a ciência e o tempo em paralelo com a vida de uma forma brilhante, nos levando a pensar que estamos sempre sujeitos a catástrofes, ao imprevisto. A diferença é que temos a sensação de que as guerras poderiam ser evitadas, ao contrário de um temporal, um ciclone, um rio que transborda devido às chuvas e leva com ele tudo que tem pela frente ou uma avalanche de neve. E o maior imprevisto de todos, mas do qual ninguém escapa, a morte.

Jakob viveu tudo, assistiu ao massacre de seus pais, quando saiu de seu esconderijo sua irmã não estava ali. Fugiu, se escondeu, viveu o terror. Ben nasceu depois da guerra, mas seus pais passaram por ela e também viveram os horrores. E qual a diferença entre os dois? ambos carregam em si os efeitos, ambos sofrem com o que jamais termina com a guerra e que somente a poesia, a linguagem pode vir para reparar, reconstruir, as palavras, faladas ou escritas.

Também achei interessante saber um pouco sobre a Segunda Guerra na Grécia.

Anne Michaels nasceu em 1958 na cidade de Toronto no Canadá.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: MARCAS DE NASCENÇA - NANCY HUSTON





Huston, Nancy. L&PM Editores, 2007
Tradução: Llana Heineberg
272 páginas
Prêmio Femina

"UM ADULTO NADA MAIS É DO QUE UMA CRIANÇA QUE SOFREU"

O livro retrata 04 gerações dividido em 04 capítulos que retrocedem narrando a infância de cada um quanto tinha 06 anos, no seu contexto histórico e social. A bisavó, a avó, o filho e o neto, iniciando com Sol, o neto, em 2004 e finalizando com a bisavó no fim da Segunda guerra. Ao terminar o livro senti vontade de lê-lo ao contrário, o que também seria possível.
Eles tem uma marca de nascença, porém as marcas são muito mais profundas e além do biológico, dos laços sanguíneos, deixando claro como estas marcas, traumas, questionamentos, dúvidas, ficam no inconsciente de uma família.
Huston nos mostra a infância como realmente ela é, sem a tão propalada inocência infantil, mas ao contrário, com a crueldade infantil que marca, o édipo, o ódio ao irmão(ã), o onipotência, típicas da infância. Os medos, as dúvidas, a descoberta da sexualidade, a falta de entendimento, as suposições que marcam, a experiência escolar, as descobertas, as discussões familiares, as alegrias, os traumas. Retrata como se forma o adulto através da criança, e deixa claro que nunca saímos da infância, como diria Manoel de Barros que chama suas memórias de infância, inclusive a velhice. A força das palavras e gestos que ficam, a força da mãe, como se grava na criança, a violência psíquica.
Vê-se claramente o inconsciente atuando, regendo uma vida, intemporal, sem idade, a eterna criança que ali está no adulto e que irá se transmitir ao outro, ao filho.
Um belo livro.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.