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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ


 

FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ

ANDREZA JORGE

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023

248 páginas


Li Andreza Jorge quando estudava para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o cuidado dentro da realidade brasileira. 

A autora escreve sobre as mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as vivências de mulheres faveladas.

Como meu interesse de leitura estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é seguro.

Ao mesmo tempo, a autora mostra a existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.  

As mulheres que vivem nas favelas ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança pública.  Em uma entrevista de emprego, por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios, frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas proximidades das escolas e das comunidades.   

O número de filhos mortos pela violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as de perspectivas mais centradas na emancipação individual.

Segundo Jorge “o ato de cuidar do outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)

Para quem não conhece essa realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam. A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência, cuidado e possibilidade de vida.  


Andreza Jorge atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A BUSCA PELO ESSENCIAL NA RELIGIÃO

 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA

O Sistema totêmico na Austrália

ÉMILE DURKHEIM

MARTINS FONTES – 1ª ED. – 1996

609 páginas

As Formas Elementares da Vida Religiosa, de Émile Durkheim, é um estudo seminal que busca despir as religiões de seu aparato ritualístico e simbólico, indo ao encontro do que há de mais essencial. Durkheim investiga o Totemismo na Austrália, considerado uma forma inicial de organização social e religiosa, em que clãs e fraternidades se estruturam em torno de um animal totêmico. Esse animal, considerado sagrado, não apenas representa o clã, mas também orienta normas, regras e comportamentos internos, bem como regula a convivência com outros grupos.

O livro é particularmente esclarecedor ao mostrar como a religião, mesmo em sua forma mais elementar, contribui para a formação do psiquismo individual e para a estruturação das regras sociais. Durkheim revela que o Totemismo não é apenas uma questão de crença, mas um mecanismo social que organiza a vida coletiva, fornecendo padrões de identidade, disciplina e coesão para o grupo.

Por meio de sua análise, Durkheim oferece uma compreensão profunda da interdependência entre religião, sociedade e indivíduo, mostrando como elementos simbólicos aparentemente simples podem sustentar estruturas complexas de convivência e moralidade.


Émile Durkheim nasceu em Épinal, França, em 1858 e faleceu em Pari em 1917. Foi um sociólogo, antropólogo e filósofo. Considerado o pai da Sociologia. 


MIGRAÇÃO E TRABALHO DOMÉSTICO

 


MULHER NORDESTINA EM SÃO PAULO

Identidade – Metamorfose – Emancipação

PAULA COATTI FERREIRA

APPRIS – 1ª ED. – 2022

160 páginas

Mulher nordestina em São Paulo, de Paula Coatti Ferreira, constrói um retrato sensível e ao mesmo tempo rigoroso da trajetória de uma mulher nordestina desde a infância e o início da vida adulta no Nordeste até sua migração para o Sudeste, onde trabalhará como empregada doméstica durante toda a vida, vindo a se aposentar no Guarujá, em São Paulo. A narrativa acompanha não apenas o deslocamento geográfico, mas sobretudo o processo subjetivo e social dessa mulher, marcado por rupturas, adaptações e resistências cotidianas.

O caminho de sua emancipação e de conquista de autonomia é longo e não se dá por grandes viradas, mas por pequenas etapas acumuladas ao longo do tempo. O estudo aparece como elemento central desse processo, funcionando como instrumento de ampliação de horizontes, fortalecimento da autoestima e possibilidade concreta de transformação. No entanto, o livro não romantiza esse percurso: a emancipação é apresentada como algo lento, frágil e constantemente tensionado pelas condições materiais da vida.

Ao mesmo tempo, a obra é um retrato contundente da experiência de mulheres nordestinas que migram para o Sudeste em busca de trabalho. Preconceito, racismo, pobreza e desigualdades estruturais atravessam essa trajetória, revelando como gênero, classe e origem regional se entrelaçam para produzir formas específicas de exclusão. Mulher nordestina em São Paulo dá visibilidade a vidas frequentemente invisibilizadas, convidando o leitor a reconhecer a complexidade dessas histórias e a força silenciosa que sustenta sua sobrevivência e transformação.


Paula Coatti Ferreira é doutora em psicologia e mestre em Teologia. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


A PERIFERIA E O DESLOCAMENTO DO OLHAR

 

AMANHÃ VAI SER MAIOR: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual

ROSANA PINHEIRO-MACHADO

PLANETA – 1ª ED. – 2019

216 páginas

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um retrato rigoroso, ao mesmo tempo sensível e crítico, do Brasil recente. A autora acompanha o percurso que vai dos movimentos de rua de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro, construindo não apenas uma narrativa dos acontecimentos, mas um diagnóstico profundo das fraturas sociais, políticas e simbólicas que atravessam o país. O livro responde a muitas dúvidas ao oferecer uma leitura que foge tanto da simplificação moral quanto da análise apressada, permitindo compreender processos que, à primeira vista, parecem contraditórios ou incompreensíveis.

Um de seus maiores méritos está em iluminar a periferia e a classe trabalhadora a partir de dentro, explicando por que parcelas significativas desses grupos votaram em Bolsonaro. Em vez de julgamentos fáceis, a autora revela frustrações acumuladas, expectativas frustradas e ressentimentos construídos ao longo do tempo, mostrando como escolhas políticas são moldadas por experiências concretas de vida, insegurança material e sensação de abandono. Nesse percurso, o livro também explicita os erros cometidos pelo PT em relação aos trabalhadores que constituíam sua base histórica, evidenciando o distanciamento progressivo entre o partido e o cotidiano dessas populações, tanto no plano material quanto no simbólico.

A leitura provoca um deslocamento necessário: somos levados a confrontar o quanto nossas opiniões costumam ser formadas a partir de vivências pessoais limitadas e das narrativas oferecidas pela mídia, frequentemente incapazes de abarcar a complexidade social do país. Ao dar visibilidade a realidades pouco escutadas, Amanhã vai ser maior amplia nossa compreensão do Brasil e do povo brasileiro, exigindo empatia, escuta e revisão de certezas. Trata-se, assim, de um livro fundamental para quem deseja compreender o presente para além da indignação ou da polarização rasa, lembrando que não há possibilidade de futuro sem um entendimento profundo das raízes da crise que vivemos.


Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga brasileira. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

VIRALATISMO, SOBERANIA E A PERSISTÊNCIA DA HUMILHAÇÃO COLONIAL

 


COMPLEXO DE VIRA-LATA: ANÁLISE DA HUMILHAÇÃO COLONIAL

MÁRCIA TIBURI

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. – 2021

AUDIOBOOK 

NARRADOR: LARA CÓRDULA

EDITOR: AUDIBLE STUDIOS

196 páginas 

No final de 2024, rendi-me aos audiolivros, mas confesso que ainda não me acostumei completamente. Tenho uma tendência à dispersão quando preciso ouvir algo que é lido por outra pessoa — o que não acontece quando se trata de uma entrevista, um podcast ou uma palestra. É o texto lido que me atrapalha: há um tom único, por vezes monocórdio, e eu me perco. Por isso, gosto mais de contadores de histórias que incorporam personagens, mudam vozes, ritmo e intensidade.

O primeiro audiolivro que ouvi foi Complexo de Vira-Lata, de Márcia Tiburi. O termo, como sabemos, não foi criado por ela, mas cunhado por Nelson Rodrigues. Tiburi se apropria do conceito para fazer uma análise profunda do complexo de inferioridade ligado à colonização do Brasil — algo que se torna interiorizado e, muitas vezes, institucionalizado.

O livro me interessou especialmente porque estamos vivendo um momento difícil, em que esse complexo aparece de forma explícita em parte da população brasileira. Do episódio envolvendo Elon Musk até a recente posse de Donald Trump, é impressionante observar o grau de viralatismo de muitos. É como se o Brasil ainda fosse uma colônia — agora dos Estados Unidos. A soberania do país é colocada de lado, desconsiderada, como se leis e interesses de outro país pudessem vigorar aqui, à semelhança do período em que o Reino de Portugal ditava as regras.

Houve um tempo em que a elite brasileira louvava a França; depois, esse lugar foi ocupado pelos Estados Unidos. Tudo o que é nacional passa a ser desprezado. Nesse contexto, é curioso e revelador ver o filme Ainda Estou Aqui ser assistido por milhões de brasileiros, talvez porque tenha feito sucesso no exterior. Paulo Freire é admirado e seu método aplicado no mundo inteiro, menos no Brasil.

Na academia, mesmo com o reconhecimento do eurocentrismo, continua-se muitas vezes a contar a história da filosofia em vez de fazer filosofia. O gesto crítico permanece incompleto.

Recentemente, descobri Maria Martins — artista e curadora fundamental, até então desconhecida para mim, apesar de sua enorme importância. A maior Bienal realizada no Brasil deve muito a ela; o MAM do Rio de Janeiro também. Sempre fui admiradora de Louise Bourgeois, por sua arte ligada ao inconsciente e à sexualidade, até perceber que, antes dela, houve Maria Martins — ainda mais visceral, profundamente ligada aos trópicos, à Amazônia e às lendas brasileiras.


Márcia Angelita Tiburi nasceu em Vacaria – RS, em 1970. É filósofa, escritora, artista plástica e política. 


AFETOS, CRENÇAS E A TRANSFORMAÇÃO DO ELEITORADO BRASILEIRO

 


BIOGRAFIA DO ABISMO

FELIPE NUNESTHOMAS TRAUMANN

HARPERCOLLINS BRASIL – 1ª ED. 2023

240 páginas 

Felipe Nunes e Thomas Traumann fazem uma análise aprofundada do que ocorreu com o eleitorado brasileiro a partir de 2013 e de como se deu a mudança nos critérios que passaram a orientar o voto. Ao examinarem diversas eleições, identificam tanto os padrões anteriores quanto as transformações ocorridas e também aquilo que, apesar de tudo, permaneceu.

O ponto central do livro é a mudança de uma escolha eleitoral que antes se orientava majoritariamente por questões públicas — como saúde, segurança, educação e, sobretudo, economia — para uma lógica mais privada, marcada por valores morais e crenças pessoais. O voto deixa de ser predominantemente racional e passa a ser afetivo, movido por paixões.

Mas o que levou a essa transformação? É isso que os autores buscam compreender ao longo do livro. Por que uma parcela significativa dos brasileiros se deslocou para a direita, muitas vezes de forma radical, a ponto de apoiar soluções autoritárias e se posicionar contra a democracia?

Os pesquisadores analisam como a intolerância se intensificou a tal ponto que o adversário político — com quem ainda seria possível dialogar — passa a ser visto como inimigo a ser eliminado. Esse clima se infiltra nas relações familiares, nas escolhas cotidianas após as eleições, nas decisões de consumo, na preferência por marcas, lojas e fabricantes. Chega também às escolas, onde o debate deixa de ser sobre formação e passa a girar em torno do controle ideológico do que os professores ensinam, classificados como progressistas ou conservadores. O resultado é o aumento da violência simbólica e concreta, do ódio e da polarização extrema.

Ao final, os autores tentam apontar caminhos possíveis para enfrentar esse cenário, mas sem qualquer otimismo ingênuo: deixam claro que não se trata de algo que será resolvido rapidamente. O percurso é longo e complexo.

Li este livro buscando compreender melhor o Brasil atual, marcado por uma divisão profunda de ideias e posições, pela exacerbação dos preconceitos e do racismo. Trata-se de uma obra inteiramente baseada em pesquisas, sem tomar partido ideológico, que se propõe a refletir com honestidade o cenário encontrado.


Felipe Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas

Thomas Traumann nasceu em Rolândia – PR em 1967. É um jornalista, consultor e pesquisador.





terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

DA LUTA SOCIAL À FRAGMENTAÇÃO IDENTITÁRIA

 


O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES

As desigualdades agora se diversificam e se individualizam, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

FRANÇOIS DUBET

VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020

128 páginas 

Tenho estudado a questão das políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social, sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.

Hoje, assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam, agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas, proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o debate público ou a construção do comum.

É nesse contexto que O tempo das paixões tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas, trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de desigualdade.

Entre todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?

O autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha exclusivamente em si mesmo.

Como chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões que sigo tentando compreender.


François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo e filósofo. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O ACORDO NÃO DITO QUE SUSTENTA A EXCLUSÃO


 

O PACTO DA BRANQUITUDE

CIDA BENTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2022

152 páginas 

Cida Bento apresenta um estudo fundamental sobre a discriminação racial no mundo do trabalho, evidenciando os mecanismos sutis, e profundamente eficazes, que impedem a contratação de pessoas negras, sobretudo para cargos de maior prestígio e melhor remuneração. Trata-se de um sistema que perpetua desigualdades sociais, mantendo a população negra com menores possibilidades de ascensão social e econômica.

A autora explica como esse funcionamento se sustenta por meio do que denomina um pacto narcísico entre brancos: um acordo silencioso de autoproteção, no qual privilégios são preservados e reproduzidos. Esse pacto se revela, por exemplo, quando pessoas brancas se sentem “excluídas” ao perceberem a presença de três pessoas negras em um grupo de dez — uma reação que beira o absurdo, mas que escancara a lógica da desigualdade racial no Brasil.

Basta observarmos espaços como empresas, universidades, clubes e instituições de poder para constatar que, apesar de a maioria da população brasileira ser negra, os lugares de destaque continuam majoritariamente ocupados por pessoas brancas. O que se apresenta como neutralidade ou mérito é, na verdade, a reprodução histórica de privilégios.

Ao nomear os “brancos” como grupo racial, Cida Bento rompe com a falsa ideia de universalidade. Dar nome à branquitude é também revelar que aqueles que se pensam neutros e superiores têm cor, história e interesses — e que a desigualdade racial não é um desvio do sistema, mas parte estruturante dele.


Maria Aparecida da Silva Bento, conhecida como Cida Bento, nasceu em São Paulo, em 1952. É psicóloga. 


COMO A HISTÓRIA MOLDOU O PENSAMENTO DE ZYGMUNT BAUMAN


 

BAUMAN: UMA BIOGRAFIA

IZABELA WAGNER

ZAHAR – 1ª ED. 2020

648 páginas 


Ler a biografia de Zygmunt Bauman representou um duplo percurso: por um lado, o conhecimento da vida desse eminente sociólogo; por outro, um mergulho na história do Leste Europeu, especialmente da Polônia, do período da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Ao longo do livro, é possível acompanhar tanto o desenvolvimento intelectual de Bauman quanto a formação de sua visão de mundo, profundamente marcada pelos acontecimentos históricos que atravessaram sua vida.

Um dos aspectos que mais me interessou foi conhecer melhor Janina Bauman. Mais do que companheira, ela foi a principal interlocutora do sociólogo e também uma escritora relevante. Um de seus livros, Inverno da manhã, está traduzido no Brasil e relata sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro por Bauman foi decisiva para a escrita de Modernidade e Holocausto, considerada uma de suas obras-primas.

Bauman nasceu na Polônia e sempre se considerou polonês, mesmo após sua expulsão do país em 1968, quando foi forçado a renunciar à cidadania e se tornou apátrida. Judeu, ele foi atingido por um antissemitismo ainda fortemente presente no país, que, segundo a autora, tinha um caráter religioso mais do que ideológico.

Com a invasão nazista da Polônia, Bauman e seus pais fogem para a União Soviética. É lá que ele ingressa no Exército Vermelho e adere ao comunismo, acreditando que esse projeto político poderia garantir liberdade e pôr fim aos preconceitos contra os judeus. Isso, no entanto, não se concretiza. A repressão à liberdade de expressão, o controle sobre a vida das pessoas e a persistência do preconceito marcam profundamente essa experiência.

Ao final da guerra, Bauman retorna a Varsóvia, ingressa na universidade, estuda sociologia e constrói sua carreira acadêmica até o doutorado, tornando-se professor. Em 1968, porém, é novamente expulso do país, acusado injustamente de incitar revoltas estudantis — mais um episódio de perseguição antissemita.

Ele segue então com a esposa e as filhas para Israel, onde vive por três anos, e depois para a Inglaterra, país em que passará o resto da vida. É interessante notar que sua produção intelectual mais conhecida, assim como o célebre conceito de “modernidade líquida”, surge apenas após sua aposentadoria da Universidade de Leeds.

Trata-se de uma vida intensamente vivida, atravessada por exílios, rupturas e reinvenções, que resultou em uma obra vasta e em reflexões que permanecem extremamente atuais. Recomendo.


                            Izabela Wagner nasceu em Wolów, Polônia, em 1964. É socióloga.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

RACISMO, COLONIZAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

 


PELE NEGRA, MÁSCARAS BRANCAS

FRANTZ FANON

UBU EDITORA - 2020

320 páginas 

Em Peles Negras, Máscaras Brancas, Frantz Fanon apresenta uma análise profunda da opressão racial, da colonização e da construção da subjetividade negra no mundo moderno. Escrito em 1952, o livro permanece assustadoramente atual, ao mostrar como a violência simbólica e psicológica do racismo atravessa não apenas o espaço social, mas também o interior da mente daqueles que são subjugados.

Fanon argumenta que o negro colonizado se vê constantemente pressionado a assumir uma identidade imposta pelo colonizador. A máscara branca não é apenas a tentativa de se conformar à norma europeia; é também o esforço de se tornar visível e aceito em um mundo que desvaloriza sua própria cultura. Essa imposição gera frustração, alienação e conflitos internos: sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, desejar ser reconhecido pelo sistema que oprime.

O livro é também um estudo sobre linguagem, cultura e desejo de assimilação. Fanon mostra como o negro aprende a falar, agir e pensar conforme padrões europeus, acreditando que isso é a condição para ser considerado humano e digno. A psicologia do racismo não se limita à brutalidade física, mas atua na intimidade da subjetividade, moldando medos, ansiedades e relações afetivas.

Ao mesmo tempo, Fanon evidencia as estratégias de resistência e afirmação identitária. Reconhecer a máscara, compreendê-la e questioná-la é o primeiro passo para reconstruir uma identidade própria, livre da submissão internalizada. O autor antecipa debates contemporâneos sobre identidade, autoestima e negritude, mostrando que a luta contra o racismo não é apenas coletiva, mas também profundamente pessoal.

A obra transcende o campo da psicologia: é uma crítica social, política e cultural. Fanon denuncia que o racismo não é apenas preconceito individual, mas estrutura de dominação que atravessa instituições, modos de vida, educação e cultura. Ao mesmo tempo, aponta caminhos de conscientização, resistência e emancipação, oferecendo um olhar teórico para compreender a opressão e a possibilidade de superá-la.

Peles Negras, Máscaras Brancas é, portanto, um clássico indispensável para quem deseja entender a complexidade do racismo, o impacto psicológico da opressão e a urgência da construção de uma subjetividade negra afirmativa e livre. Um livro que desafia o leitor branco a reconhecer sua posição no sistema de dominação e o leitor negro a questionar a internalização da opressão, sem perder de vista a luta coletiva.



Frantz Fanon nasceu em Fort-De-France, Martinica, em 1925 e faleceu em Bethesda, Maryland, EUA, em 1961. Foi um psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas que exerceu expressiva influência nos estudos pós-coloniais, na teoria crítica e no marxismo. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

LIVRO: IDENTIDADE E VIOLÊNCIA a ilusão do destino - AMARTYA SEN


Sen, Amartya. 1ª ed. Iluminuras, 2015
208 páginas
Tradução: José Antonio Arantes
Título Original: Identity and violence: the illusion of destiny

Um livro muito atual. O que Amartya defende é que não devemos considerar o outro por uma única identidade aglutinadora, uma vez que as pessoas são muito mais do que uma única identidade. Ao fazer isto, por exemplo, considerar os muçulmanos todos como terroristas, estamos alimentando um discurso de ódio que acaba levando à violência, sendo que a realidade é que alguns terroristas são muçulmanos. 

Um outro ponto extremamente importante é a questão de confusões conceituais que também leva à violência. Ele cita a globalização como um dos exemplos. Há uma ideia generalizada de que a globalização é algo ruim, e que acaba empobrecendo muitas pessoas além de explorá-las. É um fato que realmente isto ocorre, porém a globalização é muito mais do que isto, uma vez que sem ela não haveria a troca de ideias, a troca da ciência, da literatura, do saber. Então a questão não é a globalização em si, mas em como ela opera em diferentes setores. Ele também levanta a questão da ideia falsa de que a democracia seria algo ocidental. Se pensarmos a democracia como a possibilidade de todos participarem não é possível dizer que o Oriente não foi e não pode ser democrático, pelo contrário, é possível ver que a democracia neste sentido surgiu lá muito antes do que na Grécia. 

A questão nisto tudo é que acabamos cristalizando certas ideias e conceitos sem ampliar nosso pensamento o que nos leva infelizmente à pré-conceitos. 

Amartya cita o exemplo da Índia, um país considerado hindu e que tem um número maior de muçulmanos no país. Mas as pessoas são muito mais do que isto, se identificam com sua profissão, com sua situação social, com sua família, com sua língua e muito mais.

Um dos pontos forte do livro é a questão da falsa oposição entre Ocidente e Antiocidente que acaba sendo utilizado para criar ressentimentos que permitem os atos terroristas. É fato que certas atitudes e comportamentos de alguns países ocidentais acabaram criando este ressentimento, porém, é a insistência nesta divisão que alimenta o ódio, e não é apenas do lado do Oriente que isto é utilizado, pois quando os Estados Unidos alega ser difícil ou impossível "impor" a democracia no Iraque está fazendo a mesma coisa. Quando se pensa desta forma, agindo contra o outro, não se está se libertando do outro, pelo contrário, é uma mentalidade de colonizado.

Vale a pena ler o livro, aprendi muito com ele e sacudi um pouco minhas ideias e isto é sempre muito bom.

Amartya Sen nasceu em 1933 em Santiniketan, Índia. É economista e recebeu o Prêmio Nobel de 1998 pelas suas contribuições à teoria da decisão social e do "welfare state".

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: DIANTE DA DOR DOS OUTROS - SUSAN SONTAG


Sontag, Susan. Companhia das Letras, 2003
107 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo
Título Original: Regarding the pain of others

Trata-se de um ensaio sobre a questão da fotografia sobre temas que chocam, fotos de guerra,conflitos, e sobre a questão ética e efeitos de suas publicações. 

Sontag nos traz um percurso histórico desde o tempo dos desenhos como Goya em relação a invasão da Espanha pelos franceses até os dias atuais. Os primeiros fotógrafos de guerra, as fotos tiradas no local e as que são encenadas. Ela se questiona qual seria a função e a necessidade de mostrar ao público estas fotos. 

Com a recente publicação da foto do garotinho sírio morto numa praia que foi veiculada em todos os jornais e redes sociais, é uma questão importante. Sontag levanta a questão também do direito da família, mas sem deixar de frisar que estas questões normalmente surgem quando se trata de alguém branco e ocidental, por que ninguém questiona isto quando se trata de uma foto de uma menina morrendo de fome na Etiópia, por exemplo. 

Como reagimos diante da dor do outro? estaremos realmente insensibilizados devido ao excesso de veiculação de imagens? ou as imagens ainda podem chocar e levar a ação? A foto das crianças fugindo de uma aldeia no Vietnã resultou num protesto maior contra esta guerra e acelerou seu final. 

Eu pessoalmente acho que é necessário que a verdade surja, que seja veiculada, para nos tirar do comodismo, apesar de que sei que quando se está em segurança o efeito não é o mesmo do que para aquele que está vendo ou vivendo o que a foto nos traz. Mas o ocultamento dos fatos também não é bom. Por outro lado um dos pontos é que muitas vezes mudamos de canal ou deletamos a foto porque não podemos fazer nada a respeito. O que eu não concordo é que nos ocultemos sob a ilusão de que isto primeiro só acontece lá longe, e segundo que ignoremos estes fatos tristes e dolorosos. Concordo que provavelmente a foto não traga grandes mudanças, mas eticamente falando, você já não pode se desresponsabilizar sob a ignorância do fato. 

A foto do pequeno sírio resultou em vários protestos na Europa para que os países acolhessem os emigrados, refugiados. 

Um outro ponto importante levantado por Sontag é a questão do reconhecimento pelo outro da dor que se sente. Quem sofre quer ser reconhecido, e não consolado pelo fato de outro sofrer tanto ou mais que ele, precisa do crédito disto pelo outro. Que seu sofrimento não seja banalizado, exemplificado, mas visto e reconhecido. 

Quem não está numa guerra e nunca passou por ela não consegue nem mesmo pela imaginação saber o que é isto, e na maioria das vezes nada podemos fazer, mas não podemos nos ocultar sob isto. 

Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, EUA e faleceu em 2004 na mesma cidade. foi uma escritora, crítica de arte e ativista. Recebeu o prêmio National Book Award de 2000 pela ficção e em 2003 o Prêmio Princesa das Astúrias

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A FÊNIX ISLAMISTA - O Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio - LORETTA NAPOLEONI


Napoleoni, Loretta. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
154 páginas
Tradução: Milton Chaves de Almeida
Título Original: The Islamist Phoenix: the Islamic State and the redrawing of the middle east

O livro de Napoleoni é um grande alerta. De forma acessível, mesmo para os que não entendem muito de políticas e de geopolítica e menos ainda da situação no Oriente Médio, ela nos fornece um panorama sobre o que acontece por lá e de como as coisas funcionam, mas acima de tudo é um alerta para o descaso e a cegueira ocidental e sua maneira de tratar do assunto. 

O Estado Islâmico está crescendo. Ele adentra territórios desestabilizados, que estão no caos e para a população acaba sendo a única maneira de encontrar um pouco de ordem em meio a tantas guerras, obviamente desde que se converta ao islã. Por outro lado ao contrário de outros grupos terroristas o EI faz pleno uso da tecnologia virtual para se auto-divulgar e desta forma conseguir novos adeptos além de infligir o terror e o medo através de seus atos afetando psicologicamente as pessoas.

O EI quer recriar o Califado e refazer as antigas fronteiras que a colonização européia desfez. O povo da região se sente humilhado com isto e assim o Califado é um sonho de todos. A questão é que o EI não é um grupo retrógrado, pelo contrário, é moderno e tem plena compreensão da situação local. Eles sabem como manipular a opinião pública e acabam fazendo uso da tecnologia para isto, da mesma forma que o governo dos Estados Unidos utilizou para justificar a invasão do Iraque, e o mais importante é o alerta para como as pessoas acabam acreditando nisto sem parar um segundo para pensar no que está sendo dito. 

O que diferencia o EI de todos os outros grupos é que ele está conseguindo formar um Estado, não reconhecido, mas aceito pelo povo, e eles sabem que as pessoas precisam estar contentes, e para isto eles investem no social, fornecendo água, energia, alimentos, ajudando o comércio, nestas regiões onde tudo estava um caos. A imposição da xaria é algo que as pessoas no lugar aceitam, e com exceção dos xiitas que eles querem exterminar eles oferecem a chance para os que moram no local de se converterem e serem aceitos, ou cair fora. 

Fica claro pela leitura do livro que foi a colonização europeia assim como as guerras e invasões dos Estados Unidos que propiciaram o terreno fértil para que o EI surgisse e se mantivesse. Com a compreensão moderna dos dirigentes do EI, diferente de um Talibã ou Al Qaeda, e evitando toda forma de corrupção interna como ocorreu na OLP, eles deixam de ser apenas um grupo terrorista como a mídia do Ocidente costuma apresentá-los e se tornam muito mais perigosos do que imaginamos. Eles querem construir um Estado e tem uma visão moderna disto. 


Loretta Napoleoni nasceu em 1955 em Roma, Itália.É jornalista e analista política.

segunda-feira, 2 de março de 2015

LIVRO: REZE PELAS MULHERES ROUBADAS - JENNIFER CLEMENT


Clement, Jennifer. 1ªed. Rocco, 2015
237 páginas
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Título Original: Prayers for the stolen

O livro da jornalista Jennifer Clement é escrito em forma de ficção para dar conta de mostrar e denunciar  o que ocorre no Estado de Guerrero, ao sul do México, dominado pelo narcotráfico

O relato é poderoso e impactante, mas consegue também mostrar como estas mulheres conseguem viver neste mundo que as rodeia sem vermos um pingo de autocompaixão, mas sim de aceitação de como é suas vidas e do que devem fazer para sobreviver a isto. 

As mães rezam para que nasça um menino, mas quando é uma menina elas tratam de divulgar a todos que foi um menino e mantém a criança de cabelos curtos vestidas como meninos. Quando elas crescem é a hora de enfeia-las, cabelos curtos, sujam os dentes para que pareçam podres, jamais pintam as unhas. Um buraco cavado perto de suas casas é onde se escondem ao menor sinal de aproximação de uma SUV com os traficantes que vem roubar as meninas para vender. 

Uma vida miserável, sem nenhuma expectativa de futuro, mas ainda assim as quatro garotas da história onde a principal personagem é Ladidy, não em homenagem à princesa, mas como um ato de vingança de sua mãe às traições do marido, conseguem ir a escola (quando tem professor) e são unidas por uma forte amizade. O salão de Rute chama-se "Ilusão", um local não para o embelezamento da mulher, mas sim para a feiura. 

A montanha onde vivem já foi uma comunidade, mas hoje, após a construção da estrada que liga a Cidade do México à Acupulco é um local onde vivem poucas mulheres, pois seus homens foram embora para os Estados Unidos, a estrada dividiu a comunidade e muitos morreram. A única coisa que a mãe de Ladidy faz é assistir TV graças a antena parabólica que ganhou do marido que nunca mais voltou, e esta também é a única abertura para o mundo, uma cultura de televisão. O local é cheio de insetos, formigas e também escorpiões, a casa de Ladidy tem dois cômodos e o chão é de terra batida, o calor é insuportável.

Uma das garotas, a mais bonita, Paula, um dia foi roubada. Ela vai conseguir voltar mas nunca mais será a mesma. Ladidy terá a oportunidade de ir trabalhar em Acapulco, o que também não irá melhorar sua vida, pelo contrário, se verá envolvida num crime. Qual a única esperança destas pessoas? ir para os Estados Unidos.

A autora entrevistou por mais de dez anos mulheres nas regiões mais violentas do México. Baseada nisto ela criou este livro em forma de ficção para colocar palavras nisto que é inefável para as protagonistas e com isto fazer mais uma denúncia. Até quando?


Jennifer Clement nasceu em 1960 em Connecticut, EUA.