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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEXO COMO SAGRADO OU COMO PECADO


 

SEXO E RELIGIÃO: Do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual

DAG OISTEIN ENDSJO

GERAÇÃO EDITORIAL - 2014

376 páginas 


Este livro trata de como as diversas religiões do mundo compreendem o sexo. Para algumas, ele é sagrado; para outras, o pior dos pecados. A leitura é instigante justamente por revelar essas diferenças, que nos levam a refletir sobre múltiplos aspectos das religiões e também sobre o mundo contemporâneo.

O autor não se limita ao passado: traz muitos exemplos atuais, principalmente da Noruega, país de onde é originário. A pergunta central que ele procura responder é por que o sexo é tão importante para as religiões — ao menos para a maioria delas.


Dag Oistein Endsjo é um cientista da religião norueguês. 


O ACORDO NÃO DITO QUE SUSTENTA A EXCLUSÃO


 

O PACTO DA BRANQUITUDE

CIDA BENTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2022

152 páginas 

Cida Bento apresenta um estudo fundamental sobre a discriminação racial no mundo do trabalho, evidenciando os mecanismos sutis, e profundamente eficazes, que impedem a contratação de pessoas negras, sobretudo para cargos de maior prestígio e melhor remuneração. Trata-se de um sistema que perpetua desigualdades sociais, mantendo a população negra com menores possibilidades de ascensão social e econômica.

A autora explica como esse funcionamento se sustenta por meio do que denomina um pacto narcísico entre brancos: um acordo silencioso de autoproteção, no qual privilégios são preservados e reproduzidos. Esse pacto se revela, por exemplo, quando pessoas brancas se sentem “excluídas” ao perceberem a presença de três pessoas negras em um grupo de dez — uma reação que beira o absurdo, mas que escancara a lógica da desigualdade racial no Brasil.

Basta observarmos espaços como empresas, universidades, clubes e instituições de poder para constatar que, apesar de a maioria da população brasileira ser negra, os lugares de destaque continuam majoritariamente ocupados por pessoas brancas. O que se apresenta como neutralidade ou mérito é, na verdade, a reprodução histórica de privilégios.

Ao nomear os “brancos” como grupo racial, Cida Bento rompe com a falsa ideia de universalidade. Dar nome à branquitude é também revelar que aqueles que se pensam neutros e superiores têm cor, história e interesses — e que a desigualdade racial não é um desvio do sistema, mas parte estruturante dele.


Maria Aparecida da Silva Bento, conhecida como Cida Bento, nasceu em São Paulo, em 1952. É psicóloga. 


A PRÉ-HISTÓRIA CONTADA A PARTIR DAS MULHERES


 

O HOMEM PRÉ-HISTÓRICO TAMBÉM É MULHER

MARYLÈNE PATOU-MATHIS

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. - 2022

322 páginas 


Neste livro, encontramos a história da invisibilidade das mulheres, com ênfase na Pré-História. A autora desmonta muitos dos conceitos cristalizados sobre esse período — concepções profundamente masculinas, eurocêntricas e, em grande parte, não sustentadas por evidências científicas.

Patou-Mathis argumenta que essas interpretações derivam do olhar de quem produziu o conhecimento no século XIX: majoritariamente homens, arqueólogos e antropólogos incapazes de conceber outras formas de organização social que não aquelas que conheciam. Assim, qualquer esqueleto encontrado com armas era automaticamente classificado como masculino, ignorando que a maioria dessas armas não tinha finalidade bélica, mas estava ligada à caça e à subsistência.

Da mesma forma, consolidou-se a ideia de uma família pré-histórica nuclear e patriarcal, projetando sobre o passado modelos sociais muito posteriores. Pesquisas recentes, novas escavações em sítios arqueológicos e, sobretudo, os estudos conduzidos por mulheres arqueólogas e antropólogas vêm transformando radicalmente esse cenário, reescrevendo a história da humanidade a partir de evidências mais amplas e menos enviesadas.

 

 

Marylène Patou-Mathis nasceu em Paris, França, em 1955. É uma acadêmica francesa especializada em pré-história. 


QUANDO O RIO INVENTAVA A MODERNIDADE BRASILEIRA

 


METRÓPOLE À BEIRA-MAR: O RIO MODERNO DOS ANOS 20

RUY CASTRO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019 

504 páginas 

Imagine encontrar um amigo, sentar-se em algum lugar e ouvi-lo começar a contar uma boa história. É exatamente assim que se lê este livro. A escrita de Ruy Castro flui com leveza, marcada por humor e sarcasmo na medida certa, sem jamais perder a seriedade e a profundidade da análise.

O autor nos apresenta a história cultural do Brasil da modernidade — e é possível dizer Brasil, porque nos anos 1920 o Rio de Janeiro concentrava a vida intelectual e artística do país. Era para lá que convergiam escritores, artistas, compositores e jornalistas, afinal, tratava-se então da capital federal e do grande centro de circulação de ideias, estilos de vida e projetos de país.

Ruy Castro reconstrói esse Rio moderno com precisão e vivacidade, mostrando como a cidade pulsava cultura, invenção e contradições. O resultado é um retrato envolvente de uma época que ajudou a moldar a imaginação cultural brasileira e cujos ecos ainda reverberam no presente.

Foi um dos melhores livros que li em 2020. Recomendo.


                  Ruy Castro nasceu em Caratinga. É um jornalista, escritor e biógrafo brasileiro.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O COLAPSO NÃO É UM ACIDENTE, É UM PROCESSO

 


O NAUFRÁGIO DAS CIVILIZAÇÕES

AMIN MAALOUF

VESTÍGIO – 1ª ED. 2020.

256 páginas 

Este é um livro que merece ser lido. Amin Maalouf parte do presente para desmontar uma ideia muito difundida sobre o “Oriente Médio”, mostrando que a região já foi palco de uma civilização radicalmente diferente da imagem de violência, fragmentação e intolerância que hoje costuma dominá-la e, sobretudo, explicando como se chegou a esse ponto.

Maalouf reconstrói um “Oriente Médio” plural, atravessado por convivências possíveis, projetos políticos e culturais que não estavam condenados ao colapso. Ao mesmo tempo, identifica as rupturas históricas, as interferências externas e as escolhas internas que levaram ao naufrágio dessa civilização, recusando leituras simplistas ou essencialistas.

Mas o livro não se limita ao “Oriente Médio”. Maalouf amplia o olhar para o Ocidente e analisa os processos que também o afetaram profundamente. O avanço do neoliberalismo, o culto ao individualismo e a consolidação da meritocracia aparecem como forças desagregadoras. Segundo o autor, esse giro político tem um marco decisivo nas eras de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando se estabelece um modelo que transforma não apenas a economia, mas as relações sociais, os valores e a própria ideia de futuro.

O naufrágio das civilizações é, assim, uma reflexão sobre perdas — de horizontes comuns, de projetos coletivos, de mundos possíveis. Uma leitura importante para quem deseja compreender como o mundo chegou ao ponto em que se encontra hoje, e por que tantas narrativas de progresso escondem processos profundos de destruição.



Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Reside na França, escritor.


DESCOLONIZAÇÃO, GÊNERO E PODER EM UM PAÍS MARCADO PELA VIOLÊNCIA

 


PRETA E MULHER

TSITSI DANGAREMBGA

KAPULANA – 1ª ED. 2023

112 páginas 

É um livro pequeno — apenas 112 páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo e sobre os processos de independência e descolonização do país.

O relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las, Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se instala como experiência fundadora.

No texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:

“Ser feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou partes significativas das instituições estatais”.

E ainda: “As mulheres passam por traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”

Há também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.

Preta e mulher é um livro de escrita direta, dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no presente.



Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.


UMA LEITURA DECOLONIAL SOBRE A ORIGEM DO MUNDO MODERNO

 


A NOVA ERA DO IMPÉRIO: como o racismo e o colonialismo ainda dominam o mundo

KEHINDE ANDREWS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2023

358 páginas 

No campo do feminismo, temos estudado cada vez mais as questões da decolonialidade. Falamos sobre mulheres indígenas, sobre mulheres latino-americanas, sobre epistemologias outras. Mas trata-se de um debate muito mais amplo, que atravessa o próprio modo como o mundo moderno foi constituído — algo que autoras como Vandana Shiva demonstram com clareza em seus livros. Neste ano, inclusive, pretendo ler sua autobiografia, Terra Viva.

Kehinde Andrews é professor de Estudos Negros na Birmingham City University, no Reino Unido. Em A nova era do império, ele desmonta a ideia de que o colonialismo e o racismo pertencem ao passado. Ao contrário, mostra como ambos seguem estruturando o mundo contemporâneo, em nível global.

Quando lemos sobre o tráfico de pessoas negras, costumamos focar sobretudo na América Latina e na América do Norte. Andrews amplia radicalmente esse horizonte. O tráfico foi muito mais extenso, alcançando também regiões como a Índia — tema que será tratado em Diáspora africana na Índia, de Andreas Hofbauer, leitura que ainda não realizei. Neste livro, Andrews dá especial atenção ao papel da Inglaterra na escravização de pessoas e a como o sistema escravista foi fundamental para a expansão do capitalismo e para o acúmulo de capital que sustentou o poder europeu.

O autor nos ajuda a compreender o racismo estrutural em escala global — algo que, no Brasil, conhecemos de forma particularmente concreta. Sua tese central confronta uma narrativa muito difundida: a de que o Ocidente teria sido fundado pelas chamadas grandes revoluções — científica, industrial e política. Andrews argumenta que o verdadeiro alicerce do Ocidente foi a colonização, a escravização de pessoas e o genocídio de povos inteiros, como os ameríndios.

Ao longo do livro, ele demonstra como o racismo e a xenofobia permanecem ativos no substrato das sociedades atuais. Analisa também o papel dos filósofos iluministas, revelando o quanto muitos deles foram profundamente racistas e forneceram respaldo intelectual à colonização, à escravidão e à exploração dos recursos de outros territórios. Foi assim, e não por uma suposta superioridade intelectual, que a Europa se enriqueceu e se tornou o que é hoje.

Há, no entanto, passagens que suscitam questionamentos, como a ideia de um possível imperialismo brasileiro contemporâneo na África. Esse é um ponto que exige maior aprofundamento e estudo, para avaliar até que medida tal leitura se sustenta. Ainda assim, trata-se de um livro fundamental para quem deseja compreender o mundo atual para além das narrativas confortáveis do progresso ocidental.


Kehinde Andrews nasceu em 1983. É acadêmico e autor britânico especializado em estudos afro-americanos.


O PROJETO DE MORTE POR TRÁS DO PROGRESSO


 

BANZEIRO ÒKÒTÓ: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

ELIANE BRUM

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021.

448 páginas 

Que livro magistral — e dolorido. Dói ler Banzeiro Òkòtó, dói reconhecer o que se passa na Amazônia brasileira. Eliane Brum não se furta à denúncia e, ao fazê-lo, expõe também a si mesma. Em muitos momentos, é impossível não pensar que sua escrita a coloca em risco.

Foi a partir deste livro que consegui compreender de forma mais profunda o que significou a construção da Usina de Belo Monte e seus efeitos devastadores sobre a população ribeirinha. Trata-se de uma tragédia. Pessoas que viviam de plantar, pescar, habitar a terra — que tinham casa, rotina, pertencimento — perderam tudo. Foram arrancadas de seus territórios e lançadas à miséria, confinadas em espaços sem uma única árvore. Perderam o chão, a paisagem e, com isso, suas próprias identidades.

Os depoimentos reunidos por Brum são dilacerantes. Crianças e adolescentes que se suicidam após perderem qualquer horizonte de futuro. Entre viver sob a ameaça constante de morte física ou simbólica e tirar a própria vida, escolhem se matar. O livro fala de depressão, sofrimento psíquico, doenças mentais, suicídios. Nada disso aparece como exceção, mas como consequência direta de um projeto de destruição.

Mas Banzeiro Òkòtó é também um livro sobre luta e resistência. Sobre as “mortes matadas”, sobre Altamira — por anos considerada a cidade mais violenta do país — e sobre a distância brutal entre os donos do poder, suas esposas, seus privilégios, e os moradores abandonados à própria sorte. A desigualdade aparece sem filtros, escancarada.

Eliane Brum entrelaça essa investigação com fragmentos de sua própria trajetória. Fala da infância no Rio Grande do Sul, do percurso que a levou à Amazônia e do processo que ela mesma nomeia como “se aflorestar”. Há algo de profundamente bonito — e transformador — nesse movimento. O capítulo sobre as tartarugas é especialmente belo, embora atravesse o leitor com apreensão: acompanhamos seu trajeto com medo de que não consigam chegar, torcendo junto, como se aquele destino também nos dissesse respeito.

O livro revela um Brasil distante das grandes capitais e dos centros econômicos, um Brasil profundo invadido pelo agronegócio, por madeireiros, mineradores e grandes hidrelétricas. Um Brasil esmagado por uma lógica capitalista que destrói tudo o que há de belo, tudo o que é simples, tudo o que é natureza — e, junto com ela, vidas inteiras.



Eliane Brum nasceu em Ijuí – RS, em 1966. É jornalista, escritora e documentarista brasileira.


EXÍLIO, FEMINISMO E RESISTÊNCIA FEMININA

 


ENVELHECER É PARA AS FORTES

HELENA CELESTINO

RECORD – 1ª ED. 2022

168 páginas 

Helena Celestino, jornalista e pesquisadora, nos apresenta neste livro a história de mulheres exiladas em Paris durante os anos 70, obrigadas a deixar o Brasil pela ditadura. No exílio, elas formaram círculos de apoio mútuo e descobriram novas possibilidades de ação, incluindo o feminismo, ainda incipiente e desconhecido para muitas delas.

Celestino narra a trajetória de cada uma, acompanhando os encontros em Paris e a posterior volta ao Brasil. Com o tempo, essas mulheres envelheceram, e novos desafios se impuseram: o corpo, a velhice, as transformações da sociedade e o confronto com uma nova geração de mulheres que tinha perspectivas diferentes. Assuntos como envelhecimento, sexualidade e autonomia na velhice ainda permanecem tabus, mesmo entre feministas.

A narrativa evidencia que essas mulheres, que já haviam sido pioneiras ao lutar contra a ditadura, participar da revolução sexual, viver múltiplas experiências, casar ou recusar a maternidade, construir carreiras e reinventar-se, agora enfrentam a necessidade de novas reinvenções. Elas lidam com a perda de garra ou motivação de uma juventude que já passou, e com a percepção de que podem estar vistas como ultrapassadas diante da nova geração.

O livro é uma faceta da história das mulheres durante o período da ditadura e do exílio, mas seu mérito é mostrar como essas experiências moldaram vidas cheias de coragem, movimento e transformação. Ao mesmo tempo, revela a complexidade do envelhecimento feminino, a necessidade constante de adaptação e a persistência da força, mesmo quando o corpo e a sociedade impõem limites diferentes.



                                            Helena Celestino é pesquisadora e jornalista. 

O ESPÍRITO DA VELHICE SEM ILUSÕES


 

SEM TEMPO A PERDER: REFLEXÕES SOBRE O QUE REALMENTE IMPORTA

URSULA K. LE GUIN

GOYA – 1ª ED. 2023

272 páginas 

Nunca havia lido nada de Ursula K. Le Guin, mas este pequeno livro de ensaios — baseado no blog que ela criou, inspirado por Saramago — me deixou determinada a mergulhar em sua ficção. A obra é simplesmente genial: concisa, irônica, perspicaz e profundamente honesta.

Le Guin imprime aos textos sua veia sarcástica, um humor fino que percorre, com elegância, situações que só a velhice nos coloca diante. Ela questiona, observa e ironiza o envelhecimento com sensibilidade e lucidez. Não há pieguice nem autoindulgência; não há o clichê do “sou jovem por dentro”. Para Le Guin, a idade impõe limites — no corpo, na energia, e até no espírito — e reconhecê-los não diminui a intensidade da vida, pelo contrário, acrescenta consciência e valor ao que realmente importa.

Entre reflexões sobre a rotina, os gatos, a escrita e a passagem do tempo, a autora evidencia algo fundamental: a velhice não é perda total, mas uma etapa peculiar de aprendizado, liberdade e percepção. Saber que estamos “sem tempo a perder” nos obriga a valorizar o essencial, a enxergar prioridades e a viver com mais presença.

Sem tempo a perder é, portanto, um convite à reflexão, à honestidade com a própria vida e à celebração daquilo que permanece inestimável, mesmo quando os anos avançam. Um livro pequeno, mas intenso, que combina leveza e profundidade, humor e filosofia, e que revela o espírito de uma escritora que encara a velhice sem disfarces, mas também sem amargura.



Ursula K. Le Guin nasceu em 1929 em Berkely, Califórnia e faleceu em 2018 em Portland, Oregon, EUA. Autora de dezenas de livros de fantasia e ficção científica, é uma das principais autoras do gênero. 

RACISMO, COLONIZAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

 


PELE NEGRA, MÁSCARAS BRANCAS

FRANTZ FANON

UBU EDITORA - 2020

320 páginas 

Em Peles Negras, Máscaras Brancas, Frantz Fanon apresenta uma análise profunda da opressão racial, da colonização e da construção da subjetividade negra no mundo moderno. Escrito em 1952, o livro permanece assustadoramente atual, ao mostrar como a violência simbólica e psicológica do racismo atravessa não apenas o espaço social, mas também o interior da mente daqueles que são subjugados.

Fanon argumenta que o negro colonizado se vê constantemente pressionado a assumir uma identidade imposta pelo colonizador. A máscara branca não é apenas a tentativa de se conformar à norma europeia; é também o esforço de se tornar visível e aceito em um mundo que desvaloriza sua própria cultura. Essa imposição gera frustração, alienação e conflitos internos: sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, desejar ser reconhecido pelo sistema que oprime.

O livro é também um estudo sobre linguagem, cultura e desejo de assimilação. Fanon mostra como o negro aprende a falar, agir e pensar conforme padrões europeus, acreditando que isso é a condição para ser considerado humano e digno. A psicologia do racismo não se limita à brutalidade física, mas atua na intimidade da subjetividade, moldando medos, ansiedades e relações afetivas.

Ao mesmo tempo, Fanon evidencia as estratégias de resistência e afirmação identitária. Reconhecer a máscara, compreendê-la e questioná-la é o primeiro passo para reconstruir uma identidade própria, livre da submissão internalizada. O autor antecipa debates contemporâneos sobre identidade, autoestima e negritude, mostrando que a luta contra o racismo não é apenas coletiva, mas também profundamente pessoal.

A obra transcende o campo da psicologia: é uma crítica social, política e cultural. Fanon denuncia que o racismo não é apenas preconceito individual, mas estrutura de dominação que atravessa instituições, modos de vida, educação e cultura. Ao mesmo tempo, aponta caminhos de conscientização, resistência e emancipação, oferecendo um olhar teórico para compreender a opressão e a possibilidade de superá-la.

Peles Negras, Máscaras Brancas é, portanto, um clássico indispensável para quem deseja entender a complexidade do racismo, o impacto psicológico da opressão e a urgência da construção de uma subjetividade negra afirmativa e livre. Um livro que desafia o leitor branco a reconhecer sua posição no sistema de dominação e o leitor negro a questionar a internalização da opressão, sem perder de vista a luta coletiva.



Frantz Fanon nasceu em Fort-De-France, Martinica, em 1925 e faleceu em Bethesda, Maryland, EUA, em 1961. Foi um psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas que exerceu expressiva influência nos estudos pós-coloniais, na teoria crítica e no marxismo. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Como funcionam as engrenagens do poder no Brasil

 


PODER E DESIGUALDADE

CESAR CALEJON; ANDRÉ RONCAGLIA

Civilização Brasileira – 1ª ed. – 2024

364 páginas

O livro Poder e Desigualdade foi escrito pelo jornalista Cesar Calejon e pelo economista André Roncaglia, que analisam conjuntamente a situação econômica e política do Brasil neste início do século XXI.

Considero de suma importância compreender o que está por trás de tantas notícias que circulam diariamente, muitas vezes sem qualquer análise técnica ou compromisso com os fatos. Há uma enorme distorção, em que a ideologia política de quem noticia se sobrepõe à informação baseada em dados. Além disso, os brasileiros tendem a cobrar tudo do presidente — seja quem for — e se esquecem das outras forças que atuam no sistema político e econômico e que, muitas vezes, chegam a impedir qualquer ação do governo.

Os autores mostram que o poder é complexo e envolve diferentes esferas: a midiática, a política, a econômica e a financeira, todas frequentemente articuladas para manter o poder concentrado nas mãos de poucos. O livro traz um capítulo sobre o agronegócio e a mineração; outro sobre como as oligarquias dominam a mídia; e outro ainda sobre a financeirização da economia, explicando como funcionam a dívida, as divisas, o sistema fiscal, a taxa Selic, o dólar — e como tudo isso exerce enorme influência sobre as decisões governamentais e suas margens de ação.

Nós, meros cidadãos, em geral não conhecemos esses mecanismos e acabamos culpando quem tem menos responsabilidade direta, sem eximir, evidentemente, sua parte. Soma-se a isso o papel das redes sociais, que hoje espalham desinformação em larga escala — como no caso recente do PIX. Vemos, por exemplo, o escândalo das Lojas Americanas nos jornais e nas redes, mas raramente compreendemos o que de fato ocorreu. O livro dedica um capítulo específico a esse episódio.

A leitura não é simples à primeira vista para quem não tem familiaridade com economia ou finanças. Ainda assim, os autores se esforçam em apresentar exemplos claros, simples e práticos, que ajudam a elucidar os mecanismos de funcionamento do sistema. Independentemente das inclinações políticas dos autores, o que o livro oferece é, sobretudo, uma explicação de como as engrenagens operam.



Cesar Calejon é um jornalista e escritor brasileiro


André Roncaglia é um economista brasileiro 



Violência, prisão e apagamento do povo palestino

 


NA SOMBRA DO HOLOCAUSTO: GENOCÍDIO EM GAZA

LAYAN KHAYED; NOURA ERAKAT ET ALL

Contrabando Editorial – 2025

224 páginas

Este livro reúne textos de diversos autores e autoras. Um de seus capítulos centrais trata da violação sistemática dos direitos humanos na Palestina após 7 de outubro de 2023, descrevendo o tratamento dado aos palestinos nas prisões israelenses, incluindo violência contra crianças, violência de gênero, abusos sexuais e assédio.

Outro capítulo apresenta uma entrevista com Layan Khayed, ativista e dirigente estudantil da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia. Há também um texto dedicado ao caso do brasileiro-palestino Islam Hamad, preso por Israel.

A segunda parte do livro é composta por ensaios sobre a questão palestino-israelense. Um deles me chamou particularmente a atenção por formular uma pergunta incômoda e pouco debatida: por que a classe trabalhadora israelense não é uma aliada?

Nos últimos tempos — e especialmente agora, com Trump novamente no governo dos Estados Unidos e suas posições explícitas, mas também em função da guerra na Ucrânia — passei a buscar com mais atenção o chamado “outro lado”. Ou seja, sair do meu mundo fechado, ocidental. Tenho percebido muitas coisas que antes não via ou não compreendia, e esse deslocamento tem sido, ao mesmo tempo, difícil e profundamente formador.

Infelizmente, quando não se lê em inglês, nós aqui ficamos muito defasados em termos de informação. Soma-se a isso o alto custo dos livros importados, o que nos limita ainda mais. Aos poucos, no entanto, surgem traduções, edições em eBook mais acessíveis e também o recurso aos jornais internacionais, ainda que muitas vezes mediado por traduções automáticas.

Considero fundamental escutar sempre mais de uma narrativa. Do contrário, ficamos à mercê de um discurso único. Isso não significa ausência de espírito crítico — pelo contrário. É preciso exercê-lo em relação a todos os lados. Ainda assim, confesso que muito do que eu pensava ou acreditava tem mudado. Posso não concordar ou não gostar — afinal, minha formação é ocidental —, mas posso tentar compreender melhor. Ultrapassar preconceitos, ideias pré-concebidas e ideologias que estruturam o nosso Ocidente.

Muito do que palestinos vêm escrevendo há décadas começa agora a se tornar visível para nós. Um exemplo é o capítulo que trata da chamada “Solução Sinai”. Ora, é exatamente isso que ouvimos recentemente de Trump, com sua ideia de uma “riviera palestina” e a expulsão dos palestinos para o Egito e a Jordânia.


Diário de um cerco e a destruição da vida civil em Gaza


 

QUERO ESTAR ACORDADO QUANDO MORRER

ATEF ABU SAIF

Editora Elefante – 1ª – 2024

340 páginas 


Atef Abu Saif é escritor e também ministro da Cultura da Autoridade Nacional Palestina. Ele estava em Gaza quando começaram os ataques de Israel após o dia 7 de outubro de 2023. Encontrava-se ali com um de seus filhos; sua esposa e os outros filhos haviam permanecido em Ramallah, na Cisjordânia, onde a família reside. Foram 85 dias sob intenso bombardeio até que conseguissem sair de Gaza e retornar para casa. Durante todo esse período, Atef Abu Saif escreveu um diário — o livro agora publicado em dez países.

O relato é visceral. O horror de estar ali: milhões de pessoas sob ataque constante, sem qualquer lógica que pudesse ser compreendida. Diferentemente do que se costuma considerar como “alvos” em guerras, os mísseis, drones e, depois, os ataques terrestres se dirigiam a qualquer lugar — escolas, residências, hospitais, ruas. O alvo não era o Hamas, apesar das justificativas apresentadas por Israel; o alvo era a população civil. Trata-se de uma limpeza étnica.

Os habitantes recebiam ordens para seguir em direção ao sul e eram mortos no caminho, ou presos e levados para prisões em Israel. Morriam em suas casas, na fila da padaria, dentro de hospitais, em escolas. Crianças, idosos, mulheres e homens. Quando conseguiam chegar ao sul, eram novamente bombardeados.

E há algo ainda mais cruel: o cerco absoluto. Diferentemente da Ucrânia, por exemplo, onde parte da população conseguiu se refugiar em outros países, em Gaza isso é impossível. Não há saída. A ajuda humanitária foi cortada: sem água, sem eletricidade, sem internet, sem comida, sem medicamentos. Muitas vidas que poderiam ter sido salvas foram perdidas.

Os palestinos separam os membros da família para que, caso uma casa seja atingida, não morram todos juntos. O autor tem várias irmãs, irmãos e o pai em Gaza. Precisou deixá-los quando conseguiu partir. Ele relata que o medo é algo que, na guerra, desaparece — o mesmo que dirá outro autor de um diário sobre a Ucrânia. O cotidiano se reduz a encontrar pão e torcer para não estar no lugar onde o míssil vai cair. 

É um livro difícil de ler pelo que revela, mas absolutamente necessário — sobretudo por desmentir muito do que se diz no Ocidente.


Atef Abu Saif nasceu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, em 1973. É um escritor palestino. 

Memória familiar e a história de um país dividido


 

MINHA UCRÂNIA: A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DA HISTÓRIA DE SUA FAMÍLIA E SEU PAÍS.

VICTORIA BELIM

Record – 1ª ed. 2023

294 páginas

Para compreender melhor a história da Ucrânia comecei por este livro de Victoria Belim, uma ucraniana que vive atualmente na Bélgica e que retorna ao seu país natal, antes da guerra, para visitar a avó. A partir de suas memórias familiares, vamos conhecendo a história da Ucrânia, suas tradições e seus costumes.

A autora reconstrói a trajetória de seus bisavós, Asya e Sergy, que atravessaram a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil, o Terror Vermelho, a coletivização forçada, o Holodomor, os Grandes Expurgos dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial, a fome de 1946, a decadência dos anos 1970 e, por fim, o colapso da União Soviética na virada dos anos 1980 para os 1990. Victoria Belim viveu sua infância e adolescência ainda sob o regime soviético.

Ela se hospeda na casa da avó materna, Valentina, filha de Asya e Sergy. A partir do diário do bisavô, descobre a existência de um irmão sobre o qual ninguém jamais falava — e decide investigar o que lhe aconteceu.

Há também a figura do tio paterno da autora e o embate político entre ele e a sobrinha: ele pró-Rússia, ela pró-Ocidente, pró-Europa. A Ucrânia aparece como um país profundamente dividido. O oeste, historicamente ligado ao Império Austro-Húngaro dos Habsburgos, é majoritariamente pró-Ocidente; o Leste, que fez parte da Rússia, é pró-Rússia; e há ainda a região de Kiev, a capital. São histórias distintas convivendo em um mesmo território.

No país, falam-se duas línguas, o russo e o ucraniano — ao menos até a recente proibição do uso do russo. Quase todas as famílias têm russos e ucranianos em sua composição. Alguns comemoram o Natal em janeiro, segundo o calendário juliano; outros seguem o Natal ocidental, de acordo com o calendário gregoriano. Trata-se de um país multiétnico.

A autora também fala dos bordados ucranianos feitos pelas mulheres — belíssimos — e das pinturas florais nas casas, que funcionam como marcas de identidade, memória e resistência cultural.

É um livro de leitura fluida que, ao narrar a história da família da autora, apresenta como pano de fundo a história da Ucrânia. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o país, a leitura é altamente recomendável.


Victoria Belim nasceu em 1978 na Ucrânia. É uma memorialista. 


• O império apagado pela história ocidental

 


GENGIS KHAN E A FORMAÇÃO DO MUNDO MODERNO

JACK WEATHERFORD

Bertrand Brasil – 2ª ed. 2010

462 páginas 


Quando li Nada será como antes, do cientista Miguel Nicolelis, ele se referia ao profundo céu azul dos mongóis — o que me levou até minha biblioteca, onde estava este livro sobre Gêngis Khan, comprado há alguns anos. Ainda bem, pois seu preço hoje está inviável.

Comecei a leitura e fui capturada pela história dos mongóis, sobre os quais, exceto pela ideia de que Gêngis Khan teria sido um guerreiro sanguinário — imagem que prevalece no Ocidente —, eu praticamente nada sabia. E fui absolutamente surpreendida, não apenas por esse povo e pelo império que formaram, mas, sobretudo, por seus feitos e por sua forma de pensar.

Sim, houve guerras de conquista. Mas, sinceramente, nada que os diferencie radicalmente de outros povos em luta: Roma em suas expansões, as guerras da Idade Média, os godos, os celtas, entre tantos outros. Há diferenças, sim — na estratégia e até mesmo na forma como lidavam com prisioneiros e povos conquistados. Apesar de matarem muitos, aos que sobreviviam ofereciam certa autonomia e, em vários casos, incentivos.

A grande diferença está no fato de que esse povo sabia administrar e levava em consideração sua própria população — e, de modo decisivo, suas mulheres. Foram eles que unificaram a China e ali implementaram um sistema de governo participativo, escolas públicas, incentivo às tecnologias da época e às artes. Foram também fundadores da Cidade Proibida e de Pequim.

A leitura foi revelando surpresa após surpresa, desmontando imagens que eu jamais havia questionado. O império acabou sendo desmantelado pela peste bubônica e, aos poucos, foi se reduzindo até ficar confinado à Mongólia atual. O último descendente direto de Gêngis Khan morreu em 1943, no Afeganistão.

Mas o livro também mostra algo ainda mais perturbador: como esse império e esse povo, com feitos tão extraordinários, foram deliberadamente apagados da história e transformados em símbolo de barbárie. E adivinhem quando isso acontece. No Iluminismo — com sua filosofia e sua ciência que deram sustentação às colonizações, à escravidão negra e às conquistas de exploração. Postei alguns trechos do livro e incluí comentários de Montesquieu, Voltaire, entre outros.

Jack Weatherford nasceu em Dovesville, Carolina do Sul, EUA. É um antropólogo e autor estadunidense. 

Maternidade, culpa e o direito de escolher

 


CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane 

Editora Todavia - 1ª ed. 2018

176 páginas 


Lina Meruane é uma escritora chilena. Este é o segundo livro dela que leio; o primeiro foi Sangue nos Olhos. Aqui, trata-se de um ensaio cáustico, crítico, que muitos vão considerar polêmico, pois aborda a maternidade — ou, mais precisamente, a não maternidade.

A autora se posiciona contra o atual “império dos filhos”. Faz alertas importantes sobre como a ideologia da maternidade, tão idealizada, acaba se transformando em imposição sobre as mulheres, e como aquelas que não aceitam esse destino quase sempre são atravessadas pela culpa.

Ela levanta questões às quais todas nós, mulheres, deveríamos prestar atenção. Fala da questão do cuidado, tão em voga hoje; da responsabilidade do pai; e também dos filhos contemporâneos que se impõem sobre os pais. Em um dos capítulos, Meruane se debruça sobre as escritoras e as diferenças entre aquelas que têm filhos e as que não têm, evocando Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

O livro também levanta a questão do capitalismo e de quanto esse sistema precisa que as mulheres permaneçam no lar e procriem, mostrando o quanto ele se sustenta nessa lógica. Além disso, a autora apresenta modelos de maternidade contemporânea — as supermães, as mães neoliberais e as mães ecológicas —, o que torna a leitura ainda mais interessante.

Se há tantos discursos em defesa da maternidade, sempre idealizada, mas sem oferecer respaldo para que uma mulher possa ter filhos sem deixar de ser mulher, profissional ou estudante, louvo a iniciativa de Meruane em sair em defesa daquelas que não querem ser mães. Isso é um direito de cada mulher: fazer sua escolha livremente, sem cobranças, imposições, culpas ou arrependimentos. Recomendo a leitura também a todos e todas que se interessam pelo tema do cuidado.



Lina Meruane nasceu em Santiago, Chile, em 1970. É professora e escritora.