Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Yilmaz Erdogan - 2013 Duração: 138 min Título traduzido para o português: O sonho da borboleta País de Origem: Turquia
1940 - Turquia. - Cidade do Mar Negro de Zonguldak . Todos os homens a partir de 15 anos eram obrigados a trabalhar nas minas de carvão. Os dois amigos Rustu Onur (Mert Firat) e Muzaffer Tayyip Uslu (Kivanç Tatlituq) também estiveram nas minas e acabaram tuberculosos. A história dos dois nos é contado pelo professor de literatura (Yilmaz Erdogan). Ambos eram poetas e desejavam ver seus poemas editados. Irão inicialmente se apaixonar pela mesma mulher, mas depois Rustu irá para o sanatório onde conhecerá um novo amor.
É um filme triste, sobre a realidade da Segunda Guerra na Turquia, as minas de carvão e a tuberculose. Também enfoca as diferenças de classe e o medo que as pessoas tinham dos tuberculosos, pois naquela época não havia cura, além de a entrada num sanatório não ser algo fácil.
Direção: Mahsun Kirmizigül - 2014 Duração: 136 min País de origem: Turquia Baseado em fatos reais.
Belíssimo filme, poético, paisagem deslumbrante. Em tempos onde o que mais vemos é violência, conflitos, insegurança, doenças, um filme como este é uma dádiva.
Um professor (Talat Bulut) na Turquia é transferido para uma aldeia. Sua esposa se recusa a acompanha-lo. Ele então parte, primeiro de trem, depois de ônibus até o ponto final. Mas ali não tem nada, então o motorista lhe explica que atrás daquela montanha que ele aponta, há outra, e depois fica a aldeia. O professor então parte e chegando à aldeia é inicialmente recebido por vários homens que lhe apontam um rifle, até descobrirem que é o professor.
Após ser recebido com alegria, o professor descobre que ali não tem nenhuma escola. Eles então vão à cidade para pedir a construção da mesma, o que não é possível. Na ida eles encontram os bandidos das montanhas, um grupo armado, mas que não é violento, eles são os leões da montanha. O professor então decide que tem que voltar para tristeza do chefe da aldeia que o acompanhou. A noite é difícil, o professor pensa nas crianças que ficaram tão felizes com sua chegada. Ele então toma uma decisão e liga para sua esposa dizendo que foi sequestrado pelos bandidos da montanha e que ela precisa lhe enviar uma soma urgente, o que ela acaba fazendo. De posse do dinheiro para a construção da escola eles compram o material e retornam. Os bandidos da montanha chegam para ajudar na construção.
Na aldeia vive Aziz (Mert Turak) , que é filho do chefe da aldeia. Ele tem problemas, não consegue falar, não anda direito, seu corpo é torto, ele baba. Seu único amigo é seu cavalo que está sempre com ele. O professor se interessa por ele, e quando percebe que Aziz tem interesse na escola o convida para participar. É o primeiro passo na direção de uma recuperação dele.
Os casamentos são acertados entre as famílias, é a mãe, mulher do chefe da aldeia que faz a escolha, mas tem todo um ritual para isto. E quando ela parte o filho corre em sua direção para expor seu desejo. O primeiro deseja uma mulher com dentes bonitos e uma silhueta fina. Os outros riem, e dizem que no fim será a escolha da mãe que prevalecerá. E a esposa não tem dentes bonitos. O segundo pede olhos azuis, e a esposa é estrábica.
Um dos filhos do chefe da aldeia vive nas montanhas pois cometeu um assassinato para defender a honra de seu pai. Faz 10 anos e sua esposa e filho já não aguentam isto e lhe pedem para se entregar, o que ele acaba fazendo. No dia do julgamento os homens da aldeia estão presentes e na saída na calçada um homem tira uma arma mirando outro, o chefe da aldeia impede que o tiro acerte e o homem lhe fica eternamente grato. Tenta lhe retribuir e a única forma que encontra é dar sua filha (Seda Tosun) em casamento para o único filho solteiro dele, ou seja, Aziz.
Não vou continuar pois é um filme que precisa ser experienciado, eu me deixei levar por ele.
O filme é maravilhoso, daqueles filmes que te faz rir, chorar, torcer. Não há tragédias, mas tem tristezas, não tem violência, mas tem atos criminosos, ele retrata a vida, sem extremos. Apesar de haver a presença da religião, o milagre (mucize é milagre) que se opera no filme não vem de Deus, é terreno mesmo. Um filme que fala do amor e do que ele pode fazer pelo ser humano, de sua força, desde que seja uma doação, não uma cobrança ou troca.
Rituais, roupas lindas, montanhas, a velhice, os jovens e as crianças. As mulheres, sua união, mas também sua maledicência.
Recomendo!
Veja o trailer:
O ritual do pedido do filho à mãe sobre sua esposa
Mahsum Kirmizigül nasceu em 1969 em Diarbaquir, Turquia
Direção: Semih Kaplanoglu - 2010 Duração: 103 min Título Original: Bal País de origem: Turquia
Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2010.
Yusuf (Bora Altas) vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu) e sua mãe Zehra (Tülin Özen) numa região montanhosa da Turquia. Seu pai é apicultor e ensina o filho a ler para que ele possa melhorar na escola. o menino tem dificuldade de pronunciar as palavras, exceto quando fala baixinho com o pai. Com a mãe ele fala muito pouco. É reservado, está sempre sozinho ou com o pai, não brinca com as outras crianças. Mas seu olhar fala, diz tudo. O maior desejo de Yasuf é ganhar a condecoração de boa leitura que o professor oferece aos alunos quando eles lêem.
Yusuf sempre acompanha o pai e o ajuda, porém quando as abelhas diminuem ele tem que partir para mais longe e ele não pode ir junto. O que era previsto para demorar uns dois dias começa a demorar e mãe e filho ficam sem notícias de Yakup o que os preocupa. Começam a procurar sem sucesso até que a mãe vai a uma delegacia pedir ajuda.
É um filme de poucas palavras, contemplativo, lento, com as paisagens da floresta, das montanhas, o tempo, o clima, a vida simples destes montanheses. Praticamente não há trilha sonora, apenas os sons da natureza, da chuva, dos passos, do vento.
O ator infantil Bora Altas é excepcional. Sua expressão de sofrimento ao ler, de ciúme ao pensar que o pai deu o veleiro que fez ao primo, de orgulho ao ajudar o pai, e acima de tudo seu olhar. Quando a mãe chora pelo desaparecimento do marido, ele que nunca gostou de leite, bebe o copo todo e olha para a mãe. Singelamente ele deseja que ela fique contente, que pare de chorar. O olhar dele neste momento é maravilhoso.
Semih Kaplanoglu nasceu em 1963 em Esmirna, Turquia
Direção: Russel Crowe - 2014 Duração: 105 min Título Original: The Water Diviner
Filme dirigido por Russel Crowe que faz o papel do protagonista. Joshua Connor (Russel Crowe) vive na Austrália com sua esposa Ayshe (Olga Kurylenko). Ao regressar para casa à noite ela está limpando as botas de um dos filhos e lhe pede para ler para eles alegando que é o melhor momento do dia. Logo percebemos que os filhos não estão ali. Eles morreram na guerra, na Batalha de Gallipoli em 1919 na Turquia. Ayshe o acusa de nunca os ter trazido de volta. A dor de uma mãe que perde os três filhos é muito forte e ela acaba se suicidando. Diante disto Joshua promete em seu túmulo que vai buscá-los para que sejam enterrados ao lado da mãe.
A partir daqui não leia se pretende assistir ao filme.
Joshua consegue localizar os corpos de dois de seus filhos, porém o mais velho escapou vivo da batalha. Começa então a procura por ele que acabará sendo encontrado. A grande questão do filme é porque ele não voltou? Aqui vou falar em termos psicanalíticos. Quando eram crianças o pai sempre dizia ao mais velho para que não voltasse para casa sem os irmãos. E isto ficou gravado. Como ele poderia voltar? sem os irmãos? Na infância diante de uma tempestade de areia ele havia cumprido sua promessa, e permanecido com os irmãos até a chegada do pai, mas na guerra ele acredita que falhou.
O que o filme deixa muito evidente é a força de uma palavra, de uma frase dita seja pelo pai ou pela mãe na infância que fica registrada e não permite modificações, mesmo quando já somos adultos, a menos que consigamos falar disto e encontrar possibilidades de mudar. É o que acontece quando ele o diz para o pai, mas mesmo assim não quer voltar e só o fará quando o pai disser outra frase para ele.
A Batalha de Gallipoli foi terrível, um massacre, e o filme também relembra um pouco deste triste episódio.
Russel Crowe nasceu em 1964 em Wellington, Austrália.
Direção: Nuri Bilge Ceylan - 2014 Duração: 196 min Título em português: Sono de Inverno Título original: Kis Uykusu País:Turquia Ganhou o Palma de Ouro do Festival de Cannes 2014
Inspirado em novelas de Anton Tchekhov
O filme é longo, tem 3hs de duração, mas valeu todo seu tempo. Não serão todos que apreciarão, é um filme lento, com muitos diálogos, mas densos e que nos fazem pensar muito e mostram as diferenças entre as pessoas e o que elas sentem em relação ao mesmo tema. Um filme para rever muitas vezes.
Aydin (Haluk Bilginer) é um ator de comédias aposentado que tem um pequeno hotel na região da Capadócia na Turquia e escreve artigos para um pequeno jornal local e também se dedica a escrever um livro sobre o teatro turco. Ele vive com sua esposa Nihal (Melisa Sözen) que é bem mais jovem do que ele e se dedica a obras de ajuda para as escolas da região e sua irmã Necla (Demet Akbag) que se divorciou recentemente.
O filme também foca nas diferenças religiosas pois a região é habitada por muçulmanos e um deles mora numa das casas que pertencem a Aydin e são locatários desde a época do pai dele, mas estão passando por momentos difíceis e não conseguem pagar o aluguel. O belo do filme é que ele nos mostra não uma guerra religiosa, mas como os comportamentos morais são diferentes, e uma das cenas fala da culpa e do perdão, sendo que para eles é importante ver e sentir que foi perdoado e beijar a mão daquele a quem se pede perdão e que se o outro negar isto relegará o que pede perdão a se sentir culpado para sempre, o que coloca Aydin numa situação difícil a qual ele adere para não deixar o outro com esta culpa, porém é visível que ele não está perdoando ninguém, até porque para ele a situação é risível e não séria como o é considerado pelo outro.
Há um diálogo fantástico sobre o amor e a resistência à violência onde Necla defende que se não resistirmos ao agressor ele acabará percebendo que está fazendo mal ao outro e sentindo remorso pelo o que fez, ela se questiona se agiu corretamente ao resistir ao marido e fica pensando se não poderia ter sido diferente, já Aydin e Nihal colocam uma opinião contrária a esta postura. Necla chega a dizer que a beleza do gesto é por ela não ter feito nada para ele a agredir. Muito se pode refletir e pensar a respeito desta questão.
Aydin é o centro do filme. Ele mantém um domínio sobre as pessoas ao seu redor tanto financeiro como intelectual, a falta de diálogos anteriores culmina no que vemos no filme onde ressentimentos, fragilidades, desejos acabam vindo a tona nos diálogos do filme que nos mostram a complexidade do ser humano, daquilo que ele aparente ser e o que é, inclusive simbolizado no filme num momento onde Aydin aparece usando uma máscara de teatro. A vida é um palco onde as pessoas atuam, mas nem sempre somos espectadores dos que nos são mais próximos, não vemos e não conseguimos captar o que realmente os move, e muitas vezes nem eles mesmos sabem. E é através dos diálogos entre os personagens do filme que ele nos toca a cada um de nós, são diálogos com vários argumentos e por sinal muito bons, que nos faz refletir, nos levando a dialogar com o filme e eles com nós.
As relações se constroem muitas vezes sobre enganos, não apenas em relação aos outros, mas no nosso auto-engano, nos recusamos a ver muitas vezes e nos recusamos a ouvir também. Não que seja intencional, pelo contrário, muitas vezes não conseguimos ver nem ouvir. Mas há cenas no filme que coloca cada um diante de si mesmo também, e uma das mais bonitas já no final do filme é quando Nihal decide ajudar com dinheiro a família que mora no imóvel e não consegue pagar o aluguel. O que se passa ali choca, desloca, provoca, muda algo.
Altamente recomendado!
Nuri Bilge Ceylan nasceu em 1959 em Istambul, Turquia
Direção: Tassos Boulmetis - 2003 Duração: 108 min Título Original: Politiki Kouzina Roteiro: Tassos Boulmetis País: Turquia - Grécia
Logo no início do filme a seguinte fala: " Meu avô dizia que a palavra sonho está contida em arroto." e surge na tela um bebê mamando no seio. É o início de tudo, do desejo, do que se busca, este objeto perdido para sempre e que os temperos tentam suprir.
Quando vi o filme ainda não tinha lido O Sal da Vida de Françoise Héritier, que já postei, mas o livro e este filme se completam de alguma maneira.
A culinária, seus temperos, o significado da comida em nossas vidas, os rituais de comer que unem a todos, mas que também podem separar se o tempero não for o certo. Uma filosofia a base da culinária.
Todo o ritual que se opera na cozinha, as mulheres, o amor, os casamentos e as separações, o sabor da vida que vem pela boca.
Fanis (Marku Ossi) vive em Istambul, na Turquia e é grego. Sua família é deportada e retornam à Grécia. Mas já não são de lugar nenhum. Seu avô Vassilis (Tassos Bandis) não os acompanha e passa a vida prometendo visitá-los, até que Fanis (Georges Corraface) aos 35 anos resolve voltar à Turquia para reencontrar o avô e seu primeiro amor, Saime (Basak KöklüKaya) .
O melhor do filme é realmente os temperos e o que significam, como podem unir e desunir, os segredos culinários que as mulheres guardam e não ensinam quando desejam que algo não dê certo, ou ao contrário, passam para que o casamento aconteça. O avô tem uma loja que vende os temperos e suas dicas são ótimas. Para ele tanto a comida quanto a vida precisam de tempero, um pouco de sal para ganhar sabor.
Tassos Boulmetis nasceu em 1957 em Istambul, Turquia. Foi para a Grécia em 1964.