domingo, 23 de março de 2014

LIVRO: O SILÊNCIO DO ALGOZ - FRANÇOIS BIZOT



Bizot, François. Companhia das Letras, 2014 - 1ª ed.
Tradução: Hugo Mader
210 páginas
Título original: Le silence du bourreau

Face a face com um torturador do Khmer Vermelho.

François Bizot, etnógolo francês, foi sequestrado pelo Khmer Vermelho no Camboja em 1971. Foi o único ocidental a sair com vida das temidas prisões do Khmer Vermelho, apesar de ter sido condenado à morte. O feito se deu graças ao seu carcereiro conhecido como Deuch, um jovem intelectual que falava francês e que criou um laço com seu prisioneiro durante os três meses de cativeiro.

Bizot saiu, deixando seus dois companheiros e auxiliares lá, Lay e Son que seriam mortos. Somente anos depois Bizot descobrirá que Deuch era o responsável por torturar e matar mais de 40 mil prisioneiros políticos do regime de Pol Pot, e que ficou conhecido como o algoz de Tuol Sleng, a prisão e centro de execução e atualmente um museu do genocídio.

Em 2009 Bizot foi convocado a testemunhar contra Deuch nos processos do Khmer Vermelho.

O livro é o relato do questionamento de Bizot sobre sua relação com o algoz e principalmente saber como um homem comum pode se transformar em um algoz. Ele chama a atenção de todos sobre um fato que Hannah Arendt já havia trazido a tona durante o julgamento de Eichmann, o fato da humanidade do monstro, o que é muito difícil de ser aceito, uma vez que temos que aceitar que todos nós carregamos em si este lado, e que não se trata de uma aberração, algo à parte, mas de algo muito humano, e isto assusta, cria pânico, aterroriza. Como lidar com algo que não é perceptível facilmente, com o fato de que qualquer pessoa pode vir a ser este algoz? Que ele não pode ser identificado por ser diferente de todos os outros?

Esta constatação não leva ao perdão, mas à compreensão de que é fato que a grande maioria dos monstros da história, os algozes, tem outro lado, são pais de família amorosos, bons maridos, e que acreditam estar fazendo o certo, o que devem fazer, como qualquer outro em seus deveres profissionais. Eles não demonstram remorsos, não pedem desculpas.

Bizot talvez seja levado a esta lucidez mais rapidamente por ter cometido um ato de crueldade anos antes e que carrega em si, e com isto percebe que foi capaz também de ser cruel com um ser indefeso e que confiava nele, o amava. O algoz está diante de vítimas que são seres humanos, mas que não lhe dizem respeito. Em geral há sempre uma ideologia, uma crença que o livra da culpabilidade, além da desumanização da pessoa no cativeiro, transformando-o num objeto, que é mais fácil eliminar sem culpa.

Mas quando se tece uma relação entre o algoz e a vítima, não há desumanização e talvez tenha sido isto que levou Deuch a conseguir a libertação de Bizot. Ele não poderia matá-lo. Além de ter se convencido que a vítima era inocente e que dizia a verdade, não era um espião. Mas, o que leva a vítima a estabelecer o laço com o carrasco, a simpatizar com ele? o que chamamos de Síndrome de Estocolmo?

Bizot desenvolve no livro esta análise, de como o medo pode nos levar à isto, de como o fato de inconscientemente vermos no algoz algo que temos em nós nos leva a nos identificarmos com ele. A vítima se liga ao algoz e muitas vezes passa a defendê-lo e até se recusar a depor contra ele. E foi justamente isto, ao ser convocado para depor contra aquele que lhe salvou a vida, que levou Bizot a esta análise profunda.

Um livro que nos leva a encarrar que o bem e o mau não são separados, não são duas coisas distintas, mas convivem juntos em cada um de nós. O silêncio do algoz que está em nós e não se manifesta devido a máscara imposta pela sociedade que com a educação e para a psicanálise o supereu, controla nossas pulsões, mas nada garante que não possa surgir e atuar, está ali.


François Bizot nasceu em 1940 em Nancy na França. É um antropólogo especialista em Budismo do Sudeste Asiático, diretor da École Pratique des Hautes Études e catedrático da Sorbonne. Chegou ao Camboja em 1965.


Deuch durante o julgamento.