sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: DEUS NÃO ESTÁ MORTO - 2014



Direção: Harold Cronk - 2014 
Duração: 113 min
Título Original: God's not dead


 Josh (Shane Harper) vai para a faculdade e se defronta com o professor Radisson (Kevin Sorbo) que não acredita em Deus. No primeiro dia de aula Radisson pede aos alunos que escrevam numa folha Deus está morto e assinem, mas Josh não consegue fazer isto e aceita o desafio de provar que Deus existe perante a classe que será o júri. Paralelamente há outras histórias acontecendo que também se remetem ao cristianismo.

O filme é uma glorificação do cristianismo, deixando de considerar as outras religiões como se a cristã fosse a única detentora da verdade. Aliás o filme todo reproduz isto, todos são donos de uma verdade e não consideram o outro. Mas não vou falar do filme pelo viés da crença em Deus, mas sim do ser humano e dos argumentos humanos.

Josh acredita que Deus quer que alguém o defenda, só isto já é um tanto de arrogância, supor que Deus deseja isto, porque quem quer fazer isto é Josh, e de qualquer maneira  não vejo porque Deus precisaria de defesa. Quem tem que se defender é Josh, ele quer defender sua verdade, o que ele acredita, mas precisa transferir a um outro este desejo, não pode simplesmente assumir que é ele quem quer provar algo para si mesmo e para os outros.

O professor de filosofia tem um ego exacerbado, é narcisista e faz uso do poder do lugar que ocupa para intimidar. Contradiz totalmente a filosofia que é justamente a liberdade de pensar de cada um. A filosofia argumenta, discute e coloca vários pontos de vista, apesar do desejo de uma verdade absoluta a própria filosofia demonstra através de seus filósofos que se contradizem que isto não existe.

A namorada de Josh quer atender ao seu desejo e não respeita em momento algum o desejo de Josh, que é provar que sua crença é verdadeira e que Deus está vivo. Ela chega a terminar com ele usando isto como uma arma para demovê-lo. Os outros personagens também demonstram isto, como o namorado da jornalista que está com câncer, que só visa a sua vida perfeita, ou melhor, supostamente perfeita. A namorada de Radisson que se alimenta da aprovação dele para ser sentir alguém com valor, ao invés de gerá-la em si mesma. Ela apenas transfere para Jesus a mesma aprovação.

O professor é intransigente, também quer que os outros acreditem no mesmo que ele, além da arrogância intelectual que o filme mostra. Apesar da academia ser um tanto arrogante intelectualmente, o fato é que nem todos são assim.

O debate ocorrem em 03 sessões de 20min. Josh ao invés de se utilizar dos filósofos, o que seria melhor num curso de filosofia, se utiliza da ciência.Quando Nietzsche disse que Deus estava morto ele referia-se à cultura. Durante a apresentação ele fala sobre o moralismo, que sem Deus não haveria moral, e não concordo com isto, os budistas são morais. Por que temos que temer algo para sermos morais? A moral vem da cultura, da palavra.

A questão é a visão de Deus como um grande Outro, assim como os pais, o Estado, a sociedade. Deus não tira nada de ninguém, não concordo com esta posição. A religião não é uma doença, mas uma sustentação que torna possível viver para alguns.

Não sou contra a religião, ela faz parte do nosso viver para muitos, mas o filme é uma glorificação do cristianismo, onde uma muçulmana troca sua religião, onde um japonês passa a ser cristão, mas se Deus existe ele está em todas as religiões. O professor Radisson odeia Deus, por que pensa que ele levou sua mãe quando ele era criança, e eis aí um efeito nefasto da crença. Radisson não é ateu, muito pelo contrário, como se diz no filme, não se pode odiar alguém que não existe.

Quando ele sofre o acidente e está à morte Radisson aceita Jesus pelo medo da morte. A jovem com câncer também o faz pela solidão e pelo medo. O mais saudável é quando se faz isto por amor, por desejo, mas não se transfere para Deus seus desejos. Na vida nada é por acaso, inclusive as dores, tristezas, obstáculos e a morte é algo da qual ninguém escapa.

Eu pessoalmente não gosto de nada que se impõe pelo medo, pelo desejo do outro ou Outro e o que mais vi no filme foi isto, a imposição do desejo do outro. Josh sai como vencedor, ele leva a palavra de Jesus, toca o coração dos outro, e a impressão que dá é que ele estava com a verdade, mas a verdade existe? a absoluta? ou a cada um a sua verdade? Quando aceitamos isto podemos amar ao outro com todas as suas diferenças e alteridades. E não é isto que se vê no filme, onde os que pensavam diferente são os perdedores, como uma alegoria ao castigo divino.

E finalizando, quando os alunos aceitam a imposição do professor também não estão respeitando a si mesmos, e apenas agindo em seu próprio interesse, ou seja, passar no curso, e o fazem pela imposição da autoridade. A posição do professor é errada, ele não respeita em momento algum a liberdade de crença e do pensar que a filosofia defende.

Harold Cronk nasceu em 1974 em Reed City, Michigan, EUA