segunda-feira, 5 de maio de 2014

FILME: O HOMEM DUPLICADO - ENEMY - 2014


Direção: Denis Villeneuve - 2014 
Duração: 90 min 
Título original: Enemy 
Roteiro: Javier Gullón
País: Canadá - Espanha 

Baseado no livro O Homem duplicado de José Saramago 

Não li o livro e vou fazer uma interpretação deste filme que talvez não seja condizente com outras opiniões e visões, mas prefiro falar o que eu senti e percebi no filme.

O protagonista é interpretado por Jake Gyllenhall. Adam é um professor de história que passa por uma crise e está deprimido. Suas aulas falam de ditadura e da eterna repetição de tudo. Logo no início do filme temos uma visão da cidade onde ele mora, poucas cores, algo claustrofóbico. Seu celular toca e é sua mãe (Isabella Rossellini) que diz que está preocupada com ele por morar ali sozinho, que quer reatar com ele. Ele não atende.

Ao seguir uma dica de um colega ele acaba assistindo um filme para se distrair, e é ali que verá seu sósia. Ficará obcecado com isto e irá atrás deste outro. A primeira coisa que pensei foi: como é difícil enxergar a si mesmo no outro.

Ele tem uma namorada (Mélanie Laurent), mas que sempre vai embora, não fica ali com ele, mesmo ele morando sozinho. No início do filme vemos uma mulher grávida e depois vários homens voyeurs vendo uma encenação erótica. Adam encontra seu sócia Anthony. Um ator de pouca relevância que vive com sua esposa grávida. Os dois irão se encontrar, mas antes disto a mulher de Anthony, Helen (Sarah Gadon)  o vê na faculdade. Ela está enciumada, e quer que o marido se afaste de uma amante.



Aparece novamente a cidade e agora com uma imensa aranha sobre ela, uma referência à aranha Maman de Louise Bourgeois? nada é dito no filme, mas de imediato foi o que pensei, me remetendo também à Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.



Adam irá se encontrar com sua mãe e lhe fala disto, ela lhe responde que ele é seu único filho, ela é sua única mãe e acrescenta que é para ele deixar de querer ser um ator de terceira categoria.

Adam e Anthony trocarão de lugar por imposição deste último que então se veste com as roupas de Adam, pega seu carro e vai buscar sua namorada para um passeio romântico. Adam vai para o apartamento de Anthony. A namorada de Adam verá uma marca de aliança no dedo de Anthony que diz que sempre esteve ali e ela diz que não, eles saem, discutem, um acidente de carro e morrem os dois. Adam fica no apartamento com a mulher grávida que lhe pergunta como foi na faculdade. No dia seguinte ele abre a carta que era para Anthony, confidencial, e dentro tem a nova chave para o local onde se passam as encenações eróticas. Ele pergunta à esposa se quer fazer algo à noite, porque ele precisa sair, ela não responde e ele vai até o quarto, na cama uma imensa aranha.

Adam e Anthony são a mesma pessoa, um duplo, aquele que faz tudo que o outro deseja fazer mas não consegue por estar preso na teia de aranha de sua mãe, o retorno do desejo de Bourgeois, onde a mãe é a desejada mas proibida, a mulher grávida, mãe. Ele não consegue se relacionar com uma mulher, a namorada que parte, que descobre que ele é casado, mas não com outra mulher. A mãe protetora mas também a que sufoca o desejo, que não o liberta para viver sua vida e seu desejo. O duplo que temos em nós, aquilo que sonhamos e desejamos e não podemos fazer por estarmos presos de alguma forma dentro de um contexto social, mas também preso ao desejo do outro.



O duplo é um reflexo de si mesmo, mas nem sempre pelo lado que amamos, a questão é quando este duplo nos assusta, é nosso lado perverso, é o lado que queremos negar, que não suportamos, o inimigo, um estranho familiar que nos apavora.

A questão que fica é se aquela aranha na cama irá impedi-lo de sair ou não. Ele poderá finalmente viver sua sexualidade? assumir seu desejo? ou continuará sendo o pacato, metódico e deprimido professor?

Um filme que causa um mal estar que leva à reflexão sobre o que fazemos de nós mesmos, e onde estamos presos. Como a frase inicial do filme o caos está onde ainda não se colocou ordem.


Denis Villeneuve nasceu em 1967 em Québec, Canadá.

Trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans