segunda-feira, 19 de maio de 2014

LIVRO: A DAMA DOURADA -A extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer - ANNE-MARIE O'CONNOR



O'Connor, Anne-Marie. 1ª ed. José Olympio Editora. 2013
Tradução: Mario Pontes
474 páginas.
Título original: The lady in gold: the extraordinary tale of Gustav Klimt's masterpiece, Portrait of Adele Bloch-Bauer .

Viena, final do século XIX, um momento extremamente rico quando Freud criava a psicanálise, Wittengestein e seu pensamento, as artes com seus pintores e músicos, mas que condenava as mulheres que desejassem ir para a Universidade ou votar. Adele Bloch-Bauer casada com Ferdinand Bloch-Bauer irá ignorar estas convenções e posar para Gustav Klimt que era considerado um sedutor, dizia-se que tinha casos com todas suas modelos.

Com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazismo a família de Adele, que era judia, terá que fugir, ir para o exílio, e para isto muitas vezes eram forçados a vender suas obras de arte ou doá-las para pagar a taxa para sair do país. Tudo que ficou para trás foi roubado pelos nazistas ou até mesmo por aqueles que eram antissemitas e colaboracionistas e ficaram no país. Adele já havia falecido, aos 44 anos de uma meningite, antes da guerra, e havia deixado em testamento ao seu marido seu desejo de que as telas fossem doadas ao Belvedere em Viena, um museu de arte. Com sua morte as telas passaram ao marido que com a guerra teve que fugir e perdeu tudo.

O livro nos relata a história de Adele e sua família, a guerra, e o pós-guerra. Maria Altmann filha da irmã de Adele é uma das herdeiras, e irá lutar para recuperar as telas no pós-guerra levando 50 anos para conseguir. Assim que a guerra terminou tudo que foi roubado não foi devolvido e isto foi criando processos de restituição aos seus legítimos donos, uma vez que eles foram forçados a vender ou a doar.

Normalmente numa guerra estes roubos são considerados butim de guerra, mas a questão do nazismo e do extermínio dos judeus, por terem sido forçados a fugir e entregar seus bens, pela apropriação inclusive dos imóveis por pessoas que não eram soldados, o que ocorreu em quase todos os locais onde haviam judeus que foram deportados ou fugiram, os sobreviventes iniciaram processos para recuperar pelo menos uma parte de seus bens. A Áustria se posicionava como vítima do nazismo, porém a situação real não era bem esta, eles festejaram quando foram anexados à Alemanha e receberam com aplausos os nazistas que acreditavam lhes devolveriam o esplendor de antes da Primeira Guerra. O país se negou a devolver as obras alegando que pertenciam a cultura local, e que no caso do quadro de Adele ele fora doado por ela ao museu.

A questão era, Adele o doaria se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceu? o que houve com sua família? Legalmente o quadro pertencia ao seu marido, e este não o doou. O quadro foi considerado arte degenerada, porém ele exercia um fascínio tão grande que lhe foi roubado a identidade também, passando a ser identificado como A dama dourada, e não mais como um retrato de Adele, que era judia.

Um livro interessante, que além da história da família Bloch-Bauer, de um retrato da segunda guerra na Áustria, no fala principalmente do saque das obras de arte efetuada pelos nazistas para atender ao desejo de Hitler de ter um museu do führer e à ganância de outros.

Uma pequena ressalva, há momentos no livro que se divaga um pouco, trazendo informações muito superficiais sobre Freud, por exemplo, que seriam dispensáveis, uma vez que não fazem muita conexão ao assunto e ficam como que perdidas no relato. É como uma demonstração excessiva de cultura que é desnecessária dentro do relato que por si só já é rico o suficiente e interessante.

ANNE-MARIE O'CONNOR - correspondente de guerra, repórter cultural que se interessa pela criação e destino das obras de arte. 

GUSTAV KLIMT