quinta-feira, 1 de maio de 2014

LIVRO: HANNS & RUDOLF - O judeu-alemão e a caçada ao Kommandant de Auschwitz - THOMAS HARDING


Harding, Thomas. Rocco, 2014
Tradução: Ângela Lobo
302 páginas
Título Original: Hanns and Rudolf - the german jew and the hunt for the kommandant of Auschwitz

Thomas Harding comparece ao velório de seu tio-avô Hanns e durante a leitura do elogio fúnebre, uma retrospectiva da vida do falecido, ouve pela primeira vez que Hanns foi o responsável pela busca e prisão de Rudolf Hoss, o Kommandant de Auschwitz. Surpreendido pela revelação decide empreender a busca  desta história, documentos, relatos, para poder reconstruir esta fato da história de sua família.

O livro começa nos falando da infância de Hanns que tinha um irmão gêmeo Paul em Berlim e de sua predileção por pregar peças nos outros nos termos de um Pimentinha ou Max und Moritz. Viviam uma vida feliz, uma família judia que respeitava sua religião mas também eram seculares. O pai Alfred era médico e tinha uma excelente posição na sociedade. Já a infância de Rudolf foi triste e solitária, sua mãe vivia ocupada com seus afazeres e o pai era fanático e intolerante em termos religiosos. Ele não tinha com quem brincar, uma vez foi sequestrado por ciganos, mas graças a um fazendeiro que o reconheceu foi salvo. Após ter se confessado a um padre que contou o segredo confessional ao seu pai e sendo castigado por isto perdeu a vontade de seguir a vocação de ser padre.

A juventude deles é relatada, sendo que Hanns teve que fugir para Londres com sua família, uma vez que o nacional-socialismo estava crescendo na Alemanha e quando o nome de seu pai apareceu na lista dos próximos a serem presos a decisão foi tomada. Alfred que estava em Londres neste momento não mais retornou, e todos foram uma após outro conseguindo chegar à Inglaterra. Já Rudolf se alistará e participará da Primeira Guerra Mundial. Ao retornar encontrou tudo mudado, sua mãe havia falecido, seu tio e tutor havia enviado suas irmãs para um convento e vendido a casa da família e dado fim a todos os pertences pessoais de Rudolf. Ele então se juntou ao Freikorps que eram unidade paramilitares independentes do controle do governo de homens armados que seguiam doutrinas de nacionalismo e disciplina. Foi neste grupo que ele teve um contato real com a violência e brutalidade, muito maior do que durante a guerra, e onde se jurava lealdade incondicional a uma causa e principalmente a um líder. Quando Martin Bormann assassinou um considerado traidor Rudolf assumiu a autoria para proteger seu amigo e ao contrário de sua expectativa acabou preso e ficou 04 anos na cadeia. Quando saiu ele quis voltar para o campo, seguir seu sonho, cuidar de terras e animais. Através da Liga dos Artamanen foi para a Pomerânia trabalhar numa fazenda onde conheceu Hedwig e com quem se casou. Seu supervisor sugeriu a SS que mantivessem um estábulo para cavalos na Pomerânia, e Rudolf amava os cavalos e poderia cuidar disto, só que teria que se filiar à SS e assim foi. Começa seu caminho que irá trilhar dentro do nazismo até chegar a comandante do campo de Auschwitz.

O que chama a atenção no livro, além do relato biográfico de Hanns e Rudolf que nos conta paralelamente a história de tudo que ocorreu naqueles anos, são duas coisas: a primeira é a versão de um líder nazista que foi responsável pela morte de mais de três milhões de pessoas, de como ele não tinha emoções em relação à isto, era uma ordem e tinha que ser cumprida da melhor forma, com eficácia, este era seu papel. A ideia de que o responsável é apenas aquele que dá a ordem, no caso Himmler. A necessidade de agradar ao líder, de obedecer, de não discutir uma ordem. Percebe-se que a maioria dos que se envolveram nisto tudo seguia este padrão, a obediência cega. E sequer era por medo de represálias ou ser morto, eles eram cegos, literalmente, tinham que obedecer por que era assim. E ao mesmo tempo vemos um pai carinhoso, que ama seus filhos, que se preocupa com seus filhos, que tem um coração, é humano. Um psicólogo e um psiquiatra avaliram Rudolf após sua prisão, e ambos chegaram ao quadro de apático.

De outro lado, a segunda questão relevante do livro que raramente é falada é sobre o legado dos descendentes destes criminosos, seus filhos, netos. Eles precisaram apagar tudo que houve antes de durante a guerra, desaparecer literalmente, não podiam falar de sua infância, de seus pais, de nada. Uma das filhas de Rudolf mudou até o nome, seus filhos nada sabem de seu passado. Seu neto decidiu ir atrás da história, e ficou horrorizado, chegando a dizer que se soubesse onde estava enterrado iria até o túmulo do avô para urinar em cima. Os que sobreviveram carregam um fardo pesado e precisaram aprender a se calar, esquecer o que foram, de onde vêm e isto é algo terrível também. Que culpa pode ter uma criança que vivia com seus pais numa villa ao lado de Auschwitz? Ter que negar seu nome, o nome do pai.

A questão da obediência cega, imposta muitas vezes desde a infância aos filhos, não permitir que questionem algo, ou exponham seu desejo. A hiper valorização da disciplina e lealdada ao líder. O livro nos leva muito além da guerra e do holocausto, levanta questões psicológicas e atuais. A negação, a falta de remorso, a crença absoluta de ter feito o correto, de ser necessário tudo aquilo. E admitir apenas que o erro foi admitir a morte nos campos, que isto atraiu o ódio do mundo para a Alemanha.

Não se pode esquecer tudo isto, não apenas o horror que foi, mas principalmente é necessário compreender o lado psico-social que leva à isto, somente assim será possível evitar que isto continue se repetindo, como ocorre.
E uma coisa que chama muito a atenção é o fato de que a maioria deles precisava de um pai, e Hitler ou o chefe ao qual respondiam ocupava este lugar.


Rudolf Hoss nasceu em 1900 em Baden-Baden, na Alemanha e faleceu em 1947 em Birkenau-Auschwitz, na Polônia por enforcamento após ser julgado por seus crimes de guerra.

Alexander Howard Harvey, mais conhecido como Hanns nasceu em 1917 em Berlim e faleceu em 2006 em Londres.

Thomas Harding nasceu em 1968 e estudou Antropologia e Ciência Política na Westminster School.