AQUELA QUE RESTOU
RENE KARABASH
EDITORA ERCOLANO – 1ª ED. – 2026
128 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – BULGÁRIA
A história se passa no norte da
Albânia, em uma pequena aldeia que ainda mantém a tradição de seguir o Kanun
(Kanun de Leka Dukaguini – leis antigas da Albânia). Essas leis incluíam a
morte por vingança, e é interessante pensar que, no Nordeste brasileiro, isso
também existe. Ismail Kadaré escreveu “Abril despedaçado”, e nós temos o filme
homônimo, que se passa no Nordeste.
Eu, pessoalmente, vivi uma
situação que me fez lembrar uma frase presente no livro. Estando no Nordeste com um grupo, ocorreu um
assassinato motivado por vingança entre famílias, e uma das pessoas ficou
apavorada. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois não seria um alvo,
já que não pertencia à família envolvida.
Karabash nos relata a história de
Bekia, uma jovem que nasceu contrariando o desejo de seu pai de ter um filho
homem. Mas não fosse apenas isso: sua mãe estava grávida de gêmeos e, durante a
gestação, ocorreu um problema, levando à perda de um dos fetos, o menino.
Portanto, aquela que restou foi Bekia, o “filhinho de papai”, como ela mesma se
denominava.
Seguindo o Kanun, chega o
dia em que Bekia será casada com um noivo que não conhece, mas de quem dizem
ser feio. Ela não deseja esse destino e faz uma escolha: a única que lhe
permite escapar da condição reservada às mulheres em um sistema extremamente
patriarcal.
Bekia recusa o casamento e se
torna uma virgem jurada, ou ostáinitsa, fazendo um juramento de
castidade e passando a viver como um homem e mudando o nome para Matia,
adquirindo os mesmos direitos. Trata-se de uma transição de gênero aceita que
vigora em algumas regiões do norte da Albânia, do Kosovo, da Macedônia do Norte,
da Sérvia, de Montenegro, da Croácia e da Bósnia.
É preciso fazer uma ressalva para
que não haja confusões: isso não é a mesma coisa que ser um homem trans. Não se
trata de uma decisão baseada na sexualidade nem na identidade de gênero, mas de
uma mudança de status social, de papel e de posição dentro da família.
Bekia relata sua história a uma
repórter que a entrevista por ser uma das poucas virgens juradas que ainda
existem.
Ao recusar o casamento, ela
também desencadeia a possibilidade de uma morte por vingança, pois a honra do
noivo rejeitado deveria ser restaurada. Para isso, alguém de sua família precisaria
ser assassinado. Cabia a ela escolher quem carregaria esse destino, e Bekia
coloca a fita preta no braço do irmão mais moço, considerado frouxo como homem
naquela sociedade. Ele foge para não morrer e, então, a honra de morrer segundo
o Kanun recai sobre o pai de Bekia, o que ele aceita com muito orgulho.
Morrer de velhice ou de doença é considerado vergonhoso para um homem.
Mas o livro reserva uma surpresa
ao leitor quando descobrimos que o que levou BeKia a fazer o juramento foi
muito mais do que o casamento forçado e a suposta perda da virgindade na noite
anterior, e o quanto essa decisão trouxe consequências para todos os membros de
sua família e também para outra jovem: Dana.
Preciso acrescentar um comentário.
Tenho visto sinopses do livro que se referem à instituição da virgem jurada
como sendo uma estratégia de sobrevivência dentro de sistemas que as oprimem. Nesse
sentido, falar em “estratégia de sobrevivência” pode ser uma formulação
enganosa se não for tensionada. O Kanun não abre uma fissura ao
patriarcado; ele administra suas exceções sem nunca romper seu princípio
estruturante. A virgem jurada não representa uma conquista de igualdade, mas
uma reorganização excepcional da hierarquia sexual: ela só é reconhecida
enquanto suspende sua condição feminina. O acesso aos direitos não decorre de
uma transformação do estatuto da mulher, mas de sua reinscrição simbólica fora
dele.
Bekia diz: “Uma mulher na Albânia
vale vinte bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das
crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteria, matar Bekia foi a
coisa mais sensata que eu podia fazer.”.
Sua liberdade não emerge como
afirmação de um sujeito feminino, mas como apagamento dessa própria categoria.
Rene Karabash nasceu em Lovech, Bulgária, em 1989. É uma
escritora búlgara.


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