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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


DESCOLONIZAR O FEMINISMO E A PRÓPRIA IDEIA DE MULHER

 


A INVENÇÃO DAS MULHERES

Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero

OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2021

324 páginas

Neste livro fundamental, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí parte de uma constatação decisiva: ao iniciar uma pesquisa na Nigéria com o povo iorubá, percebeu rapidamente que não poderia utilizar a categoria “gênero” como ferramenta analítica. Aquilo que no pensamento ocidental aparece como evidente — a organização social a partir da diferença sexual — simplesmente não operava da mesma forma naquela sociedade antes da colonização europeia.

Oyěwùmí demonstra, de maneira consistente, que o gênero não organizava a sociedade iorubá pré-colonial. As hierarquias sociais não se estruturavam a partir do sexo biológico, mas de critérios como senioridade, linhagem, ancestralidade e posição relacional. A categoria “mulher”, tal como formulada no Ocidente moderno, não existia como eixo estruturante da vida social. Trata-se, segundo a autora, de uma imposição colonial que traduz violentamente uma ordem social que não era generificada.

Ao projetar o gênero como categoria universal, o olhar europeu não apenas interpreta mal a sociedade iorubá, mas ele a recria segundo seus próprios esquemas epistemológicos e esse gesto não é neutro. Ele reorganiza a experiência social, redefine papéis, institui hierarquias e, sobretudo, produz subordinação onde antes ela não existia da mesma forma.

O papel social das mulheres na sociedade iorubá era central, mas fundamentado em outros princípios. A maternidade, por exemplo, tinha grande relevância simbólica e social, mas não era compreendida nos termos ocidentais modernos: idealizados, essencializados e biologizados. Não se tratava de reduzir a mulher ao corpo ou à função reprodutiva, mas de situá-la em uma rede de relações ancoradas na ancestralidade e na continuidade da comunidade.

A crítica de Oyěwùmí ao pensamento ocidental é direta e profunda. Ao desmontar a lógica biológica e binária que sustenta a noção moderna de gênero, ela demonstra que existem outras formas de sociabilidade, outras racionalidades e outras maneiras de organizar o mundo que não se baseiam no corpo como destino social.

A leitura deste livro foi decisiva para responder a uma pergunta que atravessa meus estudos sobre as mulheres: a categoria gênero é universal? A resposta é clara — não, não é. O gênero pode ser uma ferramenta analítica potente em sociedades ocidentais patriarcais, onde ele é construído socialmente como mecanismo de subordinação feminina. Mas não pode ser aplicado indiscriminadamente a todas as culturas sem produzir distorções profundas.

Esse também não é o caso quando se estudam, por exemplo, as mulheres do Império Cuxe. A invenção das mulheres nos obriga, assim, a repensar não apenas a história das mulheres, mas os próprios fundamentos teóricos a partir dos quais essa história tem sido escrita. Trata-se de um livro que descoloniza o pensamento e, ao fazê-lo, nos desestabiliza de maneira necessária.


Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí nasceu na Nigéria em 1957. É uma pesquisadora oxunista nigeriana e professora. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

A MASCULINIDADE SOB O PATRIARCADO

 

O HOMEM SUBJUGADO

O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo

MALVINA E. MUSZKAT

SUMMUS EDITORIAL – 1ª ED. – 2018

176 páginas

O Homem Subjugado, de Malvina E. Muszkat, oferece uma análise perspicaz sobre a masculinidade vivida pelos homens que, apesar de aparentes privilégios, estão subjugados pelo sistema patriarcal e sofrem com suas imposições. O livro revela como muitos homens não refletem sobre si mesmos nem sobre sua própria alienação em um sistema que os ilude com uma ideia de poder e superioridade.

A autora, psicanalista, fundamenta suas observações tanto em experiências clínicas quanto em análises de homens de diferentes classes sociais, brancos e negros, na cidade de São Paulo. Muszkat discute como a subjetividade masculina é capturada pela moral patriarcal e pelo imperativo de ser “macho”, forte e invulnerável, evidenciando o sofrimento gerado por essas expectativas.

O livro também examina o papel das mulheres na reprodução e reforço do sistema patriarcal, seja na educação de filhos homens, seja nas expectativas que projetam sobre os homens ao seu redor.

O Homem Subjugado é leitura recomendada não apenas para estudiosos e interessados em gênero, mas especialmente para pais de meninos, oferecendo uma reflexão essencial sobre os dilemas contemporâneos da masculinidade e seus impactos na vida emocional e social dos homens.


Malvina E. Muszkat é psicanalista e especialista em gênero e sexualidade. 

SOCIEDADES DE PARCERIA E SOCIEDADES DE DOMINAÇÃO

 

O CÁLICE E A ESPADA

RIANE EISLER

PALAS ATHENA – 1ª ED. 2007

362 páginas

O Cálice e a Espada, de Riane Eisler, apresenta uma reflexão profunda sobre a história da humanidade a partir de duas lentes simbólicas: o modelo do “cálice”, representando sociedades baseadas na parceria, cooperação e respeito, e o modelo da “espada”, associado à dominação, guerra e hierarquia opressiva. Eisler analisa como a humanidade transitou entre essas formas de organização social, propondo que muitas culturas antigas, especialmente pré-patriarcais, valorizavam a complementaridade, a igualdade de gênero e a vida comunitária.

O livro explora as raízes históricas do patriarcado, demonstrando como a dominação e a violência foram naturalizadas ao longo do tempo, transformando relações sociais, econômicas e de gênero. Eisler argumenta que os valores da “cultura do cálice” – empatia, cooperação e cuidado – foram suprimidos, mas permanecem como um modelo alternativo para a construção de sociedades mais justas e igualitárias.

Combinando pesquisa histórica, antropologia e teoria social, O Cálice e a Espada nos convida a refletir sobre como a violência estrutural, a desigualdade de gênero e a dominação moldaram a civilização moderna, ao mesmo tempo em que oferece um caminho de inspiração para reimaginar a convivência humana baseada na parceria e no respeito mútuo.


Riane Eisler nasceu em Viena, Áustria, em 1937. É uma acadêmica, escritora e ativista social. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

192 páginas 

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista.