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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020

304 páginas 

Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

192 páginas 

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista. 


A HISTÓRIA SILENCIADA DA HANSENÍASE NO BRASIL

 


A PRAGA: O holocausto da hanseníase

Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

MANUELA CASTRO

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2017

280 páginas 

Em A Praga, Manuela Castro traz à tona uma das páginas mais violentas e silenciadas da história brasileira: a política de isolamento compulsório das pessoas diagnosticadas — ou apenas suspeitas — de hanseníase. Mais do que uma narrativa médica, o livro revela um projeto de exclusão social legitimado pelo Estado, sustentado pelo medo, pelo estigma e pela desumanização.

No Brasil, homens e mulheres eram arrancados de suas casas, afastados das famílias e confinados em leprosários. O pânico social era tão intenso que, muitas vezes, eram os próprios familiares que denunciavam os suspeitos. No caso das mulheres grávidas, a violência se aprofundava: seus bebês eram retirados imediatamente após o nascimento, sem qualquer possibilidade de vínculo, e enviados para educandários. Muitos eram transportados em cestas, junto a outros recém-nascidos, chamados cruelmente de “ninhada de leprosos”.

As consequências dessa política sanitária foram devastadoras. Milhares de pessoas passaram décadas confinadas, enquanto seus filhos cresciam separados, igualmente marcados pelo estigma. O livro expõe, sem rodeios, os maus-tratos sofridos nesses espaços: surras, castigos, humilhações e, de forma ainda mais trágica, casos de abuso sexual contra meninas institucionalizadas. A violência não era exceção — era estrutural.

O que mais choca é constatar que, mesmo após a comprovação da cura da hanseníase, o Brasil levou anos para pôr fim ao confinamento obrigatório. Quando finalmente libertas, essas pessoas se viram sem lugar no mundo: não tinham para onde ir, não conseguiam trabalho e continuaram sendo tratadas como párias sociais. O estigma não terminou com o fim do isolamento — ele se perpetuou.

Muitos acabaram permanecendo nas antigas colônias, que só muito recentemente começaram a ter seus territórios reconhecidos legalmente, com a concessão de títulos de propriedade. Foi necessária uma longa e árdua luta para que o Estado assumisse minimamente sua responsabilidade. Durante o governo Lula, foi sancionada a lei que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos que ficaram impossibilitados de trabalhar. Hoje, a luta segue sendo travada pelos filhos, igualmente afetados por essa política de exclusão, em busca do mesmo reconhecimento e reparação.

A Praga é um livro duro, necessário e profundamente político. Ele nos obriga a encarar como o medo, quando institucionalizado, pode se transformar em uma máquina de produção de sofrimento — e como certas formas de violência continuam ecoando por gerações.