Mostrando postagens com marcador Audiobook. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Audiobook. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A GUERRA VISTA A PARTIR DAS MULHERES


 

GRITOS DA GUERRA: O CONFLITO RÚSSIA – UCRÂNIA NA VOZ DAS MULHERES QUE SOFREM

GUSTAVO GUMIERO

REFERÊNCIA – 1ª ED. – 2023

176 págs.

AUDIOBOOK

Ouvi este audiobook sobre a guerra na Ucrânia a partir da experiência das mulheres. São três depoimentos de mulheres cujas vidas foram profundamente alteradas pelo conflito: algumas tiveram de deixar o país, outras não conseguem retornar, e há aquelas que permanecem enfrentando diretamente a guerra. Como em todos os conflitos armados, mulheres, crianças e idosos aparecem como os grupos mais afetados.

Além dos relatos, o autor apresenta um panorama histórico da Ucrânia, oferecendo elementos para compreender a complexidade do conflito. E essa complexidade é central. Se nos guiarmos exclusivamente pelas informações da mídia ocidental, teremos uma compreensão parcial e limitada da guerra.

O conflito é frequentemente descrito como uma guerra por procuração, isto é, um embate indireto entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos e Rússia, travado em território ucraniano. A partir dessa leitura, o autor interpreta as recentes tentativas de negociação, como os diálogos entre Donald Trump e Vladimir Putin, como um reconhecimento tardio de que o conflito poderia ter sido tratado diplomaticamente antes de sua escalada.

A própria Ucrânia é apresentada como um país internamente diverso e marcado por tensões identitárias. Há ucranianos fortemente ocidentalizados, que se veem como europeus, embora nem sempre sejam plenamente reconhecidos como tal pela Europa Ocidental, onde persistem hierarquias implícitas entre povos. Essa ambiguidade se reflete, por exemplo, nas políticas de acolhimento: enquanto mulheres ucranianas brancas encontraram maior abertura, pessoas negras foram barradas, revelando o racismo estrutural também presente nas crises humanitárias.

O livro lembra ainda que a Ucrânia abriga múltiplas identidades: ucranianos russófonos, comunidades gregas e populações judaicas, o que desmonta qualquer leitura simplista do país como um bloco homogêneo.

Gritos da guerra não pretende encerrar o debate, mas abrir escutas. Ao colocar as mulheres no centro da narrativa, o audiobook desloca o foco da geopolítica abstrata para a experiência concreta da perda, do deslocamento e da sobrevivência, lembrando que, por trás de qualquer guerra, há vidas cotidianas profundamente afetadas.

Gustavo Gumiero é um sociólogo brasileiro. 




MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E FORÇA DAS MULHERES


 

RASTROS DE RESISTÊNCIA: Histórias de luta e liberdade do povo negro

ALE SANTOS

PANDA BOOKS – 1ª ED. – 2019

136 páginas

AUDIOLIVRO

Rastros de Resistência, de Ale Santos, recupera diversas histórias de luta e resistência do povo negro no Brasil e na África. O livro apresenta relatos sobre personagens e eventos pouco conhecidos, revelando trajetórias que foram apagadas da história oficial. Para quem, como eu, ainda desconhecia muitas dessas histórias, a obra é um importante instrumento de conhecimento e valorização da memória negra.

O autor aborda reinos africanos que existiam antes da colonização e que foram apagados das narrativas históricas dominantes, resgatando figuras centrais, como líderes, rainhas e guerreiras, cuja força e coragem inspiram as lutas atuais. Seguindo a linha de pensamento de Léonora Miano, que afirma ser necessário reavivar a história, especialmente a das mulheres, Santos cumpre um papel essencial ao trazer à tona memórias esquecidas, mostrando como o passado fortalece as lutas presentes.

O audiobook é complementado por um PDF com imagens e quadros que retratam tanto o racismo quanto os grandes líderes e heroínas negras, proporcionando uma experiência completa de aprendizado e reflexão.


Alexandre de Oliveira Silva Santos mais conhecido como Ale Santos nasceu em Cruzeiro – SP, em 1986. É um escritor, roteirista, ativista brasileiro. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

PANORAMA HISTÓRICO E POLÍTICO DA AMÉRICA LATINA


 

UMA BREVE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA

LORIS ZANATTA

CULTRIX – 1ª ED. – 2017

336 páginas

AUDIOLIVRO

NARRADOR – ZEZA MOTA     EDITOR: GRUPO PENSAMENTO


Uma Breve História da América Latina, de Loris Zanatta, oferece um panorama geral sobre a política e economia da região desde a colonização, a partir de 1800, até os tempos mais próximos do presente. Embora o livro seja resumido e não aprofunde todos os temas, ele fornece uma visão introdutória valiosa para quem, como eu, conhece pouco sobre a história latino-americana, especialmente considerando que o assunto raramente é abordado nas escolas, exceto por eventos isolados como a Guerra do Paraguai.

Zanatta mostra que a América Latina é uma região plural, composta por múltiplos países, tradições, culturas e geografias distintas. Apesar de alguns elementos em comum, como a herança do catolicismo, a colonização europeia e, posteriormente, a influência do imperialismo estadunidense, essas semelhanças não são suficientes para considerá-la uma unidade. A complexidade do continente lembra a observação de Gabriel García Márquez sobre as diferenças entre a Colômbia caribenha e a Colômbia andina, multiplicadas ao se considerar toda a América Latina, incluindo o Brasil, que se distingue ainda mais por suas particularidades.

Para quem tem pouco conhecimento prévio, o livro é um bom ponto de partida, oferecendo um panorama que permite compreender o contexto histórico e político da região antes de se aprofundar em estudos mais detalhados.


Loris Zanatta nasceu em 1962. É professor de História da América Latina na Universidade de Bolonha, Itália. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

VIRALATISMO, SOBERANIA E A PERSISTÊNCIA DA HUMILHAÇÃO COLONIAL

 


COMPLEXO DE VIRA-LATA: ANÁLISE DA HUMILHAÇÃO COLONIAL

MÁRCIA TIBURI

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. – 2021

AUDIOBOOK 

NARRADOR: LARA CÓRDULA

EDITOR: AUDIBLE STUDIOS

196 páginas 

No final de 2024, rendi-me aos audiolivros, mas confesso que ainda não me acostumei completamente. Tenho uma tendência à dispersão quando preciso ouvir algo que é lido por outra pessoa — o que não acontece quando se trata de uma entrevista, um podcast ou uma palestra. É o texto lido que me atrapalha: há um tom único, por vezes monocórdio, e eu me perco. Por isso, gosto mais de contadores de histórias que incorporam personagens, mudam vozes, ritmo e intensidade.

O primeiro audiolivro que ouvi foi Complexo de Vira-Lata, de Márcia Tiburi. O termo, como sabemos, não foi criado por ela, mas cunhado por Nelson Rodrigues. Tiburi se apropria do conceito para fazer uma análise profunda do complexo de inferioridade ligado à colonização do Brasil — algo que se torna interiorizado e, muitas vezes, institucionalizado.

O livro me interessou especialmente porque estamos vivendo um momento difícil, em que esse complexo aparece de forma explícita em parte da população brasileira. Do episódio envolvendo Elon Musk até a recente posse de Donald Trump, é impressionante observar o grau de viralatismo de muitos. É como se o Brasil ainda fosse uma colônia — agora dos Estados Unidos. A soberania do país é colocada de lado, desconsiderada, como se leis e interesses de outro país pudessem vigorar aqui, à semelhança do período em que o Reino de Portugal ditava as regras.

Houve um tempo em que a elite brasileira louvava a França; depois, esse lugar foi ocupado pelos Estados Unidos. Tudo o que é nacional passa a ser desprezado. Nesse contexto, é curioso e revelador ver o filme Ainda Estou Aqui ser assistido por milhões de brasileiros, talvez porque tenha feito sucesso no exterior. Paulo Freire é admirado e seu método aplicado no mundo inteiro, menos no Brasil.

Na academia, mesmo com o reconhecimento do eurocentrismo, continua-se muitas vezes a contar a história da filosofia em vez de fazer filosofia. O gesto crítico permanece incompleto.

Recentemente, descobri Maria Martins — artista e curadora fundamental, até então desconhecida para mim, apesar de sua enorme importância. A maior Bienal realizada no Brasil deve muito a ela; o MAM do Rio de Janeiro também. Sempre fui admiradora de Louise Bourgeois, por sua arte ligada ao inconsciente e à sexualidade, até perceber que, antes dela, houve Maria Martins — ainda mais visceral, profundamente ligada aos trópicos, à Amazônia e às lendas brasileiras.


Márcia Angelita Tiburi nasceu em Vacaria – RS, em 1970. É filósofa, escritora, artista plástica e política.