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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E FORÇA DAS MULHERES


 

RASTROS DE RESISTÊNCIA: Histórias de luta e liberdade do povo negro

ALE SANTOS

PANDA BOOKS – 1ª ED. – 2019

136 páginas

AUDIOLIVRO

Rastros de Resistência, de Ale Santos, recupera diversas histórias de luta e resistência do povo negro no Brasil e na África. O livro apresenta relatos sobre personagens e eventos pouco conhecidos, revelando trajetórias que foram apagadas da história oficial. Para quem, como eu, ainda desconhecia muitas dessas histórias, a obra é um importante instrumento de conhecimento e valorização da memória negra.

O autor aborda reinos africanos que existiam antes da colonização e que foram apagados das narrativas históricas dominantes, resgatando figuras centrais, como líderes, rainhas e guerreiras, cuja força e coragem inspiram as lutas atuais. Seguindo a linha de pensamento de Léonora Miano, que afirma ser necessário reavivar a história, especialmente a das mulheres, Santos cumpre um papel essencial ao trazer à tona memórias esquecidas, mostrando como o passado fortalece as lutas presentes.

O audiobook é complementado por um PDF com imagens e quadros que retratam tanto o racismo quanto os grandes líderes e heroínas negras, proporcionando uma experiência completa de aprendizado e reflexão.


Alexandre de Oliveira Silva Santos mais conhecido como Ale Santos nasceu em Cruzeiro – SP, em 1986. É um escritor, roteirista, ativista brasileiro. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA RAINHA AFRICANA CONTRA A EXPANSÃO IMPERIAL ROMANA

 


CANDÁCIA AMANIRENAS: A MULHER QUE ENFRENTOU ROMA

JOSÉ MIGUEL

PUBLICAÇÃO PRÓPRIA – 1ª ED. – 2022

85 páginas

Este pequeno livro apresenta, de forma romanceada, a história de Amanirenas, a Candace que ousou enfrentar o Império Romano. O autor parte de fatos históricos comprovados e preenche as lacunas com diálogos e cenas imaginadas. Ainda que esse recurso — mesmo quando verossímil — nem sempre me agrade, a leitura se mostrou interessante justamente por permitir recriar a presença histórica de uma grande mulher quase ausente das narrativas clássicas.

Amanirenas foi uma rainha Candace do Império de Cuxe, governando entre o final do século I a.E.C. e o início do século I E.C. Nesse mesmo período, Otaviano Augusto consolidava seu poder em Roma após derrotar Cleópatra e anexar o Egito ao Império. O próximo passo de sua expansão era avançar sobre a Núbia — projeto que encontrou uma resistência inesperada.

O livro reconstrói o confronto entre Roma e Cuxe como um embate desigual apenas em aparência. Amanirenas surge como uma líder estrategista, corajosa e determinada, capaz de organizar a resistência militar e política contra uma das maiores potências da Antiguidade. A guerra durou cerca de três anos, e, contra todas as expectativas romanas, ela conseguiu deter o avanço do Império para o sul da África.

Mais do que uma narrativa de guerra, o texto chama atenção para a própria figura das Candaces — título feminino de poder, ainda pouco conhecido e pouco documentado. Justamente por termos tão poucas informações sobre essas rainhas, a leitura ganha valor: ela não substitui a pesquisa histórica, mas desperta interesse, curiosidade e desejo de saber mais sobre uma história africana que raramente ocupa espaço central nos livros.

Mesmo com as limitações do formato romanceado, Candácia Amanirenas cumpre um papel importante: retira do silêncio uma mulher que enfrentou Roma e venceu ao menos aquilo que mais sustenta os impérios: a ideia de que sua expansão é inevitável. Ao recuperar essa trajetória, o livro nos lembra que a Antiguidade não foi feita apenas de imperadores, mas também de mulheres africanas que governaram, lutaram e decidiram o destino de seus povos.


José Miguel nasceu no Rio de Janeiro. Escritor brasileiro 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O IMPÉRIO AFRICANO QUE A HISTÓRIA TENTOU APAGAR

 


GRANDIOSOS ETÍOPES DO ANTIGO IMPÉRIO CUXITA

DRUSILLA DUNJEE HOUSTON

EDITORA ANANSE – 1ª - 2022

194 páginas 

Foi por este livro que iniciei meus estudos sobre o Império Cuxita. A partir dele, aprofundei-me em pesquisas mais extensas, recorrendo a teses e outras obras, o que se revelou extremamente instigante — sobretudo no que diz respeito à matrilinearidade, ao matrifocal e ao matriarcado, bem como às rainhas Candaces, um título que significava “rainha-mãe” e que não exigia, necessariamente, a maternidade biológica.

Drusilla Dunjee Houston foi autodidata e dedicou cerca de 25 anos de sua vida ao estudo dos etíopes antigos. Reuniu referências dispersas em inúmeros livros que mencionavam esse povo, ainda que apenas em uma frase, com o objetivo de demonstrar a existência de um vasto império que precedeu os gregos, persas, romanos e sumérios, integrou-se ao mundo egípcio e chegou até a Índia. Um império formado por povos africanos e negros.

Houston demonstra que muitas realizações tradicionalmente atribuídas às civilizações posteriores tiveram, na verdade, origem cuxita. Importante ressaltar que não se trata da Etiópia atual, mas de um reino cuja localização principal era a Núbia, território que hoje corresponde a partes do Egito e do Sudão.

Drusilla Dunjee Houston nasceu em Harpers Ferry, Virgínia Ocidental, EUA e faleceu em Phoenix, Arizona, EUA. Foi escritora, historiadora, jornalista, educadora estadunidense. 




MATRIARCADO, MATRILINEARIDADE E A CRÍTICA AO EVOLUCIONISMO OCIDENTAL


 

A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA

Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica

CHEIKH ANTA DIOP

EDITORA ANANSE – 2023.

238 páginas 


Cheikh Anta Diop foi um antropólogo e historiador senegalês. Cheguei a este livro a partir de meus estudos sobre as mulheres do Império Cuxe, buscando compreender as noções de matriarcado, matrilinearidade e matrifocalidade no continente africano.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer que o conceito de matriarcado, tal como trabalhado por Diop, não corresponde à ideia ocidental de um sistema simplesmente inverso ao patriarcado, no qual haveria o domínio feminino e a subjugação do masculino. Diop demonstra a existência de dois polos culturais — dois reinos, um setentrional e outro meridional, norte e sul — sendo um de estrutura patriarcal e o outro de estrutura matriarcal. Nesse esquema, a África se insere majoritariamente no polo matriarcal.

O autor realiza uma análise crítica dos conceitos de matriarcado em Bachofen, Lewis Morgan e Engels. Os dois primeiros, segundo Diop, tratam o matriarcado como uma fase primitiva da humanidade, destinada a ser superada pelo patriarcado, visto como estágio civilizatório superior. Trata-se de uma visão claramente evolucionista. Engels, por sua vez, apropria-se dessas ideias para sustentar a possibilidade de que a família burguesa também possa evoluir para uma forma diferente e mais justa.

Diop rompe com essa leitura ao defender o matriarcado africano não como um estágio arcaico, mas como uma forma de organização social superior ao patriarcado, este último associado historicamente à guerra, à violência e às conquistas territoriais.

Com esse estudo, Diop se contrapõe frontalmente às concepções ocidentais que se pretendem universais e civilizatórias, mas que historicamente classificaram a África como inferior e selvagem. Ao contrário, ele demonstra o alto grau de civilização das sociedades africanas e aponta para um modelo social mais humano, relacional e sustentável. O autor apresenta ainda sua hipótese para explicar por que o norte se organizou de forma patriarcal e o sul de forma matriarcal, aprofundando uma leitura estrutural e histórica dessas diferenças.


Cheikh Anta Diop nasceu em Tiahitou, Senegal, em 1923 e faleceu em Dacar, Senegal, em 1986. Foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês.