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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: A MULHER NO CORPO DE XAMÃ

 

A MULHER NO CORPO DE XAMÃ: O feminino na religião e na medicina

BARBARA TEDLOCK

ROCCO – 1ª ED. – 2008

350 páginas

Barbara Tedlock resgata o papel central das mulheres no xamanismo. Ela própria neta de uma parteira e herborista ojibwe e antropóloga, procurou responder algumas perguntas que fazia a si mesma, principalmente: “Existem mulheres xamãs?”.

Iniciada no xamanismo pelos maias K’iche’ do planalto da Guatemala, procura resgatar o papel das mulheres no xamanismo, frequentemente desconsiderado por muitos pesquisadores homens. Durante muito tempo, os estudos sobre o xamanismo foram conduzidos majoritariamente por homens, que associavam essa prática quase exclusivamente ao universo masculino.

Em 1924, em um sítio arqueológico localizado na atual República Tcheca, conhecido como Doní Vestonice, foi encontrado um túmulo que continha o corpo de uma mulher de aproximadamente 40 anos, deitada em posição fetal sobre o lado direito. O corpo fora pintado de vermelho (ocre) e coberto por duas escápulas de mamute. Havia a presença de uma lança de sílex junto à cabeça e o corpo de uma raposa em uma das mãos. Com esses elementos identificou-se indícios claros que se tratava de uma xamã.

Segundo Tedlock, “o registro escrito mais antigo de uma mulher xamã real na América é de Ix Balam K’ab’al Xook, ou lady do Jaguar Shark Lineage. Essa mulher da nobreza maia viveu na antiga cidade de Yaxchilán, onde hoje é Chiapas, no México.”

A autora também demonstra como homens pesquisadores desconsideraram as mulheres como xamãs. Eram vistas como curandeiras ou parteiras, mas jamais como xamãs, o que ela demonstra ser um erro. A maioria dos xamãs foram e são mulheres.

Por fim, a autora propõe uma reflexão sobre a necessidade de a humanidade melhorar sua relação consigo mesma e com o planeta. O Xamanismo não é apenas uma forma de cura, mas um saber que entrelaça história, medicina, espiritualidade e psicologia, convidando o leitor a repensar o papel das mulheres nessas tradições e a própria relação entre ser humano e natureza.


Barbara Tedlock nasceu em Battle Creek, Michigan, EUA, em 1942 e faleceu em Rio Rancho, Novo México, EUA, em 2003. Foi uma antropóloga cultural e onirologista (estudo dos sonhos) estadunidense. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A LEITURA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL : VISÃO MASCULINA E FEMININA

Durante muito tempo, a crítica literária consolidou a leitura da Revolução Industrial inglesa quase exclusivamente pela voz masculina. Charles Dickens tornou-se o nome de referência quando se fala em miséria urbana, exploração do trabalho, infância abandonada e brutalidade social. No entanto, Norte e Sul mostra que essa narrativa nunca foi monopólio dos homens. Elizabeth Gaskell também escreveu sobre a fome, o adoecimento dos corpos, as greves e o conflito entre capital e trabalho — e o fez a partir de um lugar distinto, mas não menos político.

Se Dickens frequentemente constrói seus romances a partir da denúncia direta e da exposição contundente da injustiça social, Gaskell opera por meio do deslocamento e da mediação. O olhar de Margaret Hale atravessa mundos opostos — o campo e a cidade industrial, os trabalhadores e os proprietários — revelando que a miséria não é apenas um dado econômico, mas uma experiência vivida nos corpos, nos afetos e nas relações cotidianas. Onde Dickens grita, Gaskell insiste. Onde ele expõe, ela observa. Ambos denunciam; os caminhos são outros.

Há ainda uma diferença fundamental: em Gaskell, o feminino não aparece apenas como tema, mas como forma. A escuta, a atenção ao detalhe, a recusa de soluções fáceis e a consciência das ambiguidades morais fazem de Norte e Sul um romance social que não sacrifica a complexidade humana em nome da tese. Isso não suaviza a crítica — ao contrário, a torna mais incômoda, porque não permite a distância confortável entre o leitor e a miséria narrada.

Reconhecer Elizabeth Gaskell ao lado de Dickens não é um gesto de comparação hierárquica, mas de reposicionamento histórico. As mulheres também escreveram sobre a Revolução Industrial, sobre a exploração e sobre a pobreza. O que faltou, durante muito tempo, não foi produção literária, mas leitura crítica disposta a enxergá-las como parte central desse debate. Norte e Sul reafirma que a literatura social do século XIX foi plural — e que o silêncio imposto às autoras faz parte da própria história da desigualdade que esses romances denunciaram.

            Christiane Depooter 

            Fevereiro, 2025. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A HISTÓRIA QUE ESQUECERAM DE CONTAR


 

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DAS MULHERES

Durante séculos, o que chamamos de “História” foi escrito a partir de um olhar parcial: masculino, eurocêntrico e frequentemente elitista. O passado, tal como o conhecemos, é uma narrativa construída — e, como toda narrativa, carrega escolhas: o que foi lembrado e o que foi esquecido; quem pôde falar e quem foi silenciado.

O silenciamento do saber feminino, assim como de outras vozes ditas “subalternas” — povos originários, povos negros, os chamados “orientais” no Ocidente — é resultado da patriarcalização e da misoginia, do racismo e de interesses que privilegiaram apenas uma parcela da humanidade. Esse talvez seja o maior crime já cometido contra o conhecimento e contra a intelectualidade: jamais saberemos o que o mundo perdeu diante desse apagamento. Resta-nos agora recuperar a história das mulheres e de todos aqueles que foram silenciados.

No entanto, não basta recuperar nomes ou inserir mulheres numa narrativa previamente construída. Não é suficiente “adicioná-las” à História. É preciso interrogar as bases epistemológicas sobre as quais essa História foi produzida. O que foi considerado digno de ser registrado? Que critérios definiram o que seria “universal”? E quem ficou fora dessa universalidade?

A historiografia das mulheres nasce desse gesto de insubmissão. É o movimento que decide olhar novamente os arquivos, as ruínas e os mitos — não para idealizar o feminino, mas para restituir presença. Trata-se de buscar não apenas as mulheres que atuaram publicamente, mas também aquelas cuja existência foi diluída nas margens: mães, camponesas, sacerdotisas, curandeiras, filósofas esquecidas, anônimas que sustentaram a vida cotidiana e, por isso mesmo, foram apagadas da memória oficial.

Há todo um saber silenciado que começa, lentamente, a nos ser restituído. Pensar a historiografia das mulheres é pensar outra forma de compreender o mundo — uma forma que não apenas descreve o que houve, mas também revela o que foi ocultado; que interroga a própria ideia de poder e de conhecimento.

Anos atrás percebi que aprendi a pensar através dos homens. A literatura, a história, a sociologia, a antropologia, a psicanálise, a filosofia — tudo era predominantemente masculino. A produção filosófica feminina só ganha visibilidade em meados do século XX. Ainda hoje há professores que afirmam não ter existido mulheres filósofas na Antiguidade, ocultando pensadoras que de fato existiram e influenciaram figuras como Platão, Sócrates e talvez até Aristóteles, tão frequentemente apontado como misógino.

Infelizmente, grande parte da produção dessas filósofas desapareceu. Ainda assim, é possível recuperá-las, ao menos em parte. Podemos examinar o que os homens disseram sobre elas; há fragmentos, referências, ecos. A primeira escritora conhecida da humanidade é Enheduana — não há textos escritos anteriores aos seus, pelo menos nada que tenha sobrevivido. Felizmente, seus hinos nos chegaram. Ana Comnena, por sua vez, foi uma historiadora bizantina que escreveu a Alexíada, um relato épico sobre a história política e militar de seu tempo.

A pergunta que me faço é: por que ninguém fala delas? Por que estudamos Homero e não Enheduana? Por que a Alexíada não integra os currículos acadêmicos? Seria porque foram escritas por mulheres — e, portanto, precisaríamos silenciá-las, esquecê-las?

Foi somente em meados do século XX que mulheres começaram a revisar tudo o que havia sido produzido pelos homens e iniciaram a busca pelas mulheres na história. É importante lembrar que, até os anos 1970, praticamente não havia mulheres na historiografia, com exceção de figuras excepcionais ou rainhas que exerceram poder.

A história das mulheres inicia-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos na década de 1960, chegando à França cerca de dez anos depois. Os anos 1970 marcam, portanto, o início de um duplo movimento: o da libertação das mulheres e o da inclusão das mulheres nas universidades. Esse contexto permitiu não apenas o estudo e a recuperação da memória feminina, mas também o surgimento de uma nova epistemologia, voltada à crítica dos saberes constituídos e à reformulação dos próprios fundamentos do conhecimento histórico.

Christiane Depooter 

Janeiro 2025