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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A VOZ COMO TERRITÓRIO POLÍTICO

 


ERGUER A VOZ: PENSAR COMO FEMINISTA, PENSAR COMO NEGRA

BELL HOOKS

EDITORA ELEFANTE – 1ª ED. – 2019

380 páginas

Em Erguer a Voz, bell hooks parte da própria experiência para mostrar que falar e, sobretudo, ser ouvida, nunca foi um gesto neutro. A voz, para mulheres negras, é um território de disputa política, atravessado pelo racismo institucional, pelo sexismo e pela lógica da supremacia branca que estrutura a sociedade e, de modo particular, os espaços de produção do saber.

A leitura do livro é transformadora porque desloca o olhar: não se trata apenas de identificar opressões externas, mas de reconhecer como elas se reproduzem cotidianamente, inclusive entre nós. hooks nos convida a um exercício radical de autorreflexão, revelando o quanto mulheres, mesmo aquelas comprometidas com projetos emancipatórios, podem estar implicadas na manutenção do patriarcado e do machismo, seja pelo silêncio, pela adaptação ou pela reprodução de hierarquias aprendidas.

Ao discutir o ambiente universitário, a autora expõe como a academia, longe de ser um espaço neutro, frequentemente reforça relações de dominação. O conhecimento legitimado, os corpos autorizados a falar e os modos “aceitáveis” de expressão obedecem a uma lógica excludente que marginaliza vozes dissidentes. Erguer a voz, nesse contexto, não é apenas falar mais alto, mas desafiar as estruturas que determinam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

O livro ensina que a educação pode ser um espaço de libertação, desde que atravesse o desconforto, a escuta crítica e a disposição para rever privilégios. hooks insiste que transformar a universidade, e a sociedade, passa necessariamente pela disposição de confrontar o racismo estrutural, a supremacia branca e o patriarcado, não como abstrações, mas como práticas cotidianas que atravessam nossas relações, afetos e modos de pensar.

Erguer a Voz é, assim, um chamado ético e político. Um convite para falar, mas também para escutar. Para ensinar, mas sobretudo para aprender. E, talvez o mais difícil, para reconhecer que a transformação coletiva começa por um trabalho profundo e contínuo sobre nós mesmas.


bell hooks nasceu em Hopkinsville, Kentucky, EUA, em 1952 e faleceu em Berea, Kentucky, EUA, em 2021. Foi uma teórica feminista, professora, artista e ativista antirracista


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O COTIDIANO COMO ESPAÇO DA VIOLÊNCIA RACIAL


 

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano

GRADA KILOMBA

COBOGÓ – 1ª ED. – 2019

249 páginas

Grada Kilomba nasceu em Lisboa e realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência, escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do conhecimento.

Logo no início, Kilomba relata os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.

Para desenvolver sua pesquisa, Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e “normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso, são tão devastadoras.

Uma das entrevistadas tem mãe branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.

O trecho em que Kilomba aborda diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.

Nesse movimento, ela também dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.

Um dos aportes teóricos mais importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”); depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.

Memórias da Plantação é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.


Grada Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista interdisciplinar. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ANTECIPAÇÃO DA INTERSECCIONALIDADE


 

MULHERES, RAÇA E CLASSE

ANGELA DAVIS

BOITEMPO – 1ª ED. - 2016

248 páginas


Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, traça um amplo e rigoroso percurso histórico da experiência das mulheres negras nos Estados Unidos, desde a escravização até períodos mais recentes. A autora articula história social, análise política e crítica feminista para demonstrar como raça, gênero e classe nunca atuaram de forma isolada, mas sempre de maneira entrelaçada, produzindo desigualdades específicas e persistentes.

Ao longo do livro, Davis examina criticamente o movimento abolicionista, o feminismo e a luta pelo sufrágio feminino, evidenciando as tensões internas que marcaram essas mobilizações. Um dos pontos centrais de sua análise é a recusa de mulheres brancas em reconhecer plenamente as mulheres negras como aliadas políticas, especialmente no contexto da luta pelo voto, quando muitas preferiram excluí-las para não criar conflitos com as mulheres do Sul escravista. Esse gesto revela como o feminismo hegemônico, desde suas origens, esteve atravessado por interesses raciais e de classe.

A autora também se debruça sobre a questão do trabalho, mostrando como as mulheres negras e as mulheres imigrantes sempre estiveram inseridas no mercado de trabalho, lutando por direitos básicos, enquanto grande parte das mulheres brancas, amparadas por uma ideologia de classe média, reivindicava direitos a partir do ideal do lar, como o divórcio ou a proteção da maternidade. Essa diferença estrutural expõe projetos políticos distintos, frequentemente incompatíveis, mas tratados como universais pelo feminismo branco.

O que Angela Davis antecipa, com impressionante clareza, é aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade: a compreensão de que as opressões de gênero, raça e classe se constituem mutuamente e não podem ser analisadas separadamente. Mulheres, raça e classe permanece, assim, uma obra fundamental para desmontar narrativas feministas excludentes e para pensar lutas emancipatórias que não reproduzam as hierarquias que pretendem combater.


Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama,  EUA, em 1944. É uma filósofa e ativista socialista estadunidense. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE NEGRA E INVENÇÃO DE CONCEITOS


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTSFLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE E MILITÂNCIA COMO PRÁTICA INSEPARÁVEL


 

CONTINUO PRETA: A VIDA DE SUELI CARNEIRO

BIANCA SANTANA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2021

296 páginas 

Neste livro, Bianca Santana presta uma homenagem sensível e politicamente necessária a Sueli Carneiro, acompanhando sua trajetória de vida e de luta. A narrativa parte da infância e da adolescência e segue até a militância, revelando o caminho percorrido por uma mulher negra que enfrentou, desde cedo, os múltiplos obstáculos impostos pelo racismo estrutural no Brasil.

Ao longo do livro, emerge a força, a coragem e a determinação de Sueli Carneiro, não como atributos abstratos, mas como respostas concretas a um contexto marcado pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação sistemática de direitos. Bianca Santana constrói o retrato de uma intelectual e ativista cuja formação política se dá tanto na experiência cotidiana do racismo quanto na elaboração teórica e na ação coletiva.

Mais do que uma biografia no sentido tradicional, o livro funciona como um testemunho da importância de Sueli Carneiro para o pensamento feminista negro, para a luta antirracista e para a construção de uma sociedade mais justa. É uma leitura que evidencia como a trajetória individual se entrelaça com a história social e política do país, mostrando que resistir, pensar e agir são dimensões inseparáveis de uma mesma luta.


Bianca Santana nasceu em São Paulo em 1984. É jornalista, escritora e militante feminista negra brasileira. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A CORAGEM DE FALAR, A FORÇA DE TRANSFORMAR


 

IRMÃ OUTSIDER: ENSAIOS E CONFERÊNCIAS

AUDRE LORDE

AUTÊNTICA – 1ª – 2019.

240 páginas 

Em Irmã Outsider, Audre Lorde nos apresenta uma obra que é ensaio, manifesto e testemunho, reunindo textos e discursos que atravessam décadas de luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e todas as formas de opressão interligadas. Lorde, poeta, feminista e militante negra, constrói neste livro um corpo teórico e político que se sustenta na experiência pessoal e na ação coletiva, provando que a subjetividade é sempre também território de resistência.

A força do livro está na interseccionalidade antes mesmo do termo se popularizar: Lorde não separa raça, gênero, sexualidade ou classe. Pelo contrário, mostra como a opressão é múltipla e como a luta também deve ser integrada. Ser mulher negra lésbica nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80, significava enfrentar barreiras que se reforçavam mutuamente — e Lorde analisa cada uma delas com rigor, sensibilidade e coragem.

Um dos textos centrais, “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, revela sua filosofia política: o silêncio diante da injustiça é cúmplice da opressão. Lorde afirma que falar é um ato de coragem, mas também de necessidade, pois a invisibilidade de certos corpos e vozes perpetua o sistema de desigualdade. Seus ensaios combinam crítica social e poética, demonstrando que a palavra, quando usada para nomear o real, é arma de transformação.

Lorde também problematiza a ideia de unidade entre mulheres. Para ela, a solidariedade feminista não é automática: ela precisa ser construída a partir do reconhecimento das diferenças, da escuta ativa e da justiça interna aos movimentos. Ignorar as desigualdades dentro do próprio movimento é reproduzir, em pequena escala, a opressão que se combate fora dele.

Além disso, Irmã Outsider é uma obra de memória: ao narrar sua trajetória, Lorde nos lembra que a luta política é inseparável da experiência vivida. Ela denuncia o racismo estrutural e o sexismo da sociedade branca dominante, mas também critica as estruturas internas de exclusão nos próprios espaços de resistência. Essa honestidade crítica torna o livro atemporal e universal.

Ler Audre Lorde é entender que a emancipação não se dá apenas em grandes gestos ou políticas públicas: ela começa no reconhecimento da própria força, na afirmação da identidade e no compromisso com a justiça para todas. Irmã Outsider é, assim, leitura obrigatória para quem busca compreender feminismo negro, interseccionalidade e o poder transformador da palavra.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista

MULHERES, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA EM ZAMI


 

ZAMI. UMA NOVA GRAFIA MEU NOME, UMA BIOMITOGRAFIA

AUDRE LORDE

ELEFANTE EDITORA – 2021.

464 páginas 


Em Zami: Uma Nova Grafia do Meu Nome, Audre Lorde constrói uma narrativa que é simultaneamente autobiográfica, poética e política. Diferente de uma autobiografia convencional, o livro se aproxima de uma “biomítica”, termo que Lorde usa para articular memórias pessoais, histórias coletivas de mulheres negras e elementos de ficção poética. O resultado é um retrato profundo da formação de uma identidade atravessada pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e pelo desejo.

O livro acompanha Lorde desde a infância em Nova York até sua juventude e vida adulta, explorando relações familiares, amizades, amores e descobertas de gênero e sexualidade. O título, que propõe uma “nova grafia” do nome, simboliza a tentativa de reconstruir-se e dar visibilidade à própria existência — algo que a sociedade branca, patriarcal e heteronormativa frequentemente invisibiliza ou desvaloriza.

Um dos aspectos mais poderosos da narrativa é a experiência de ser mulher negra e lésbica. Lorde mostra como o racismo e o sexismo não se manifestam apenas fora de casa, mas também nos círculos íntimos e nas próprias relações afetivas. Ao mesmo tempo, a autora revela como a construção de laços afetivos entre mulheres negras e marginalizadas é uma forma de resistência e de afirmação identitária. A memória e a narrativa tornam-se armas para a preservação da subjetividade e para a criação de comunidades de cuidado.

O livro também é um mergulho na sexualidade e no desejo, não como escândalo, mas como campo de autoconhecimento e liberdade. Ao narrar seus primeiros amores, encontros e descobertas, Lorde subverte a lógica de um mundo que reprime corpos e desejos fora da norma. A sexualidade, nesse sentido, é política: afirmar o próprio prazer é desafiar a opressão, resistir à invisibilidade e reivindicar existência.

Além disso, Zami é uma obra sobre ancestralidade e memória coletiva. Ao descrever a vida de sua mãe, tias, amigas e mulheres da comunidade negra, Lorde cria um mosaico de experiências que ultrapassa o individual e conecta passado, presente e futuro. É a memória das mulheres negras que sustenta a narrativa, conferindo densidade histórica e política à experiência pessoal.

Lorde escreve com poesia e precisão, transformando memórias em reflexão crítica. Zami não é apenas um relato de vida, mas um manifesto sobre identidade, resistência e autoafirmação. Ler Lorde é perceber que narrar a própria história é, sempre, um ato político: uma forma de existir, resistir e criar espaços de liberdade.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista