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quinta-feira, 21 de maio de 2026

UM MUSEU DE LEMBRANÇAS PERDIDAS

 


O MUSEU DA RENDIÇÃO INCONDICIONAL

DUBRAVKA UGRESIC

CARAMBAIA – 1ª ED. – 2025

304 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – CROÁCIA

Sem sombra de dúvidas, o melhor livro que li nos últimos tempos. Não é um livro que agradará a todos, principalmente aos que gostam de histórias com começo, meio e fim. A escrita de Ugresic é fragmentada, uma colagem de pedaços, uma junção de pequenos panos - não tecidos como uma colcha de retalhos, mas unidos de alguma forma.

A autora é uma exilada da antiga Iugoslávia, mais especificamente do território que atualmente corresponde à Croácia. Viveu em Berlim, passou um tempo nos Estados Unidos, e acabou fixando residência na Holanda. Precisou deixar a Croácia em 1993 devido às suas declarações contra o nacionalismo croata e sérvio.

Vivendo no exílio, Ugresic tenta recuperar memórias, recusa-se ao apagamento da história, aquilo que os nacionalismos desejam e produzem. Houve uma destruição não apenas material, mas também mental. Ela se recusa a se adaptar ou se acomodar, como muitos fazem diante de regimes autoritários para sobreviver.

Da mesma forma que sua vida, vivida em países diferentes, sem uma casa para chamar de sua, apenas uma mala com o que lhe restou, ela reúne fragmentos, como em um museu, ou como no estômago da Morsa que encontramos logo no início do livro. Objetos, fotografias, lembranças, amigos, relatos, família. É o não-lugar por excelência, sobretudo um não-lugar interior.

Longe dos livros atuais sobre traumas – aquilo que às vezes chamo de “literatura da sofrência” -, a autora é realista, muitas vezes crua, mas há também um senso de humor e linguagem poética.

A solidão, a velhice, a tentativa de se recuperar interiormente de ter sido obrigada ao exílio, o ostracismo e o esforço para compreender o mundo em que agora se vive atravessam o livro. No meio disso, surgem as lembranças da família. O capítulo sobre os álbuns de fotografia é sensacional; os textos sobre arte e museus, assim como a lembrança da Condessa que costurava, um texto belíssimo. Há também um certo anjo que une as amigas que se encontravam e explica um pouco o destino de cada uma delas durante a guerra.

O título do livro refere-se a um museu que existiu de fato em Berlim até 1994: o Museu da rendição incondicional da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Mas Ugresic não se rende incondicionalmente. Ela parte, deixa seu país em guerra, mas isso também seria uma forma de rendição? Abandonar tudo?

Berlim, onde vivem muitos refugiados, é um lugar em que se ouve frequentemente a pergunta: “você é uma das nossas?”. Uma cidade que também foi dividida e depois reunificada, mas que colocou os alemães da antiga RDA na condição de “outros” dentro do próprio país, como aparece no livro que li anteriormente – “Eu vou, tu vais, ele vai”, de Jenny Erpenbeck.

O livro é como um sítio arqueológico: escavar, encontrar pequenos objetos e lembranças, trazê-los à tona no mundo em que se vive atualmente, talvez construir um museu particular de tudo isso. É como no estômago da Morsa: tudo ali, parece sem sentido, mas aos poucos cada objeto se une ao outro.

O que mais me tocou foi uma questão que também carrego comigo: boas lembranças são realmente algo bom? Ou doem? A irreversibilidade, o retorno impossível, a perda – tudo isso é irrecuperável, mas continua existindo. E dói.  

Olhar fotografias pode ser profundamente ambíguo. Elas preservam, mas também tornam irreversível a consciência da perda e do tempo. Talvez por isso Ugresic trate os objetos e as imagens quase como ruínas arqueológicas emocionais. 

Dubravka Ugresic nasceu em Kutina, Croácia, em 1949 e faleceu em Amsterdã, Países Baixos, em 2023. É uma escritora nascida na ex-Iugoslávia. 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O LADO HUMANO DO CONFLITO ALÉM DOS DISCURSOS


 

UCRÂNIA:  DIÁRIO DE UMA GUERRA

ANDREI KURKOV

CARAMBAIA – 1ª ED. 2025

392 páginas 


Este livro é o diário de guerra da Ucrânia escrito pelo autor ucraniano Andrei Kurkov.

O diário inicia-se pouco antes do começo da guerra e vai até o início de 2024. Muitas coisas aconteceram depois, mas trata-se de um livro que traz ricas informações sobre o povo ucraniano, sua história e, obviamente, sobre a guerra e tudo o que ela provoca na população civil. Há aquilo que, se é possível dizer assim, surge como “bom” em meio ao horror — a solidariedade, a generosidade, a determinação e a persistência — mas também a destruição, o medo, a fuga deixando para trás tudo o que se tem, as mortes e o luto.

Li recentemente o diário de um palestino em Gaza. São contextos distintos, mas em ambos se mantém o horror da guerra: a destruição, as mortes, o luto, e também a generosidade e a solidariedade. Em Gaza, não há para onde escapar, não existe sequer uma zona um pouco mais segura, como no caso da Ucrânia, onde o oeste do país ainda oferece algum refúgio. Em Gaza, trata-se de uma limpeza étnica. Ainda assim, há muitos pontos em comum no plano humano: as reações, os sentimentos, as perdas.

O autor é russo de nascimento, mas posiciona-se a favor do Ocidente. Entre seus amigos e conhecidos, há também muitos pró-Rússia. É notório que a Ucrânia é um país multiétnico: russos e ucranianos conviviam muito bem, casavam-se entre si, a grande maioria das famílias é mista e praticamente todos falam as duas línguas. Aqui temos o ponto de vista de quem está vivendo a guerra, independentemente das disputas geopolíticas ou dos posicionamentos ocidentais ou russos. Apesar de todos terem suas opiniões, o que se revela é o cotidiano da guerra, as lembranças de um tempo de democracia e também do período soviético, e um desejo profundo de liberdade, autonomia e democracia.

Infelizmente, a guerra trouxe consigo o ódio aos russos, motivado por experiências reais: casas destruídas, familiares mortos, aldeias e cidades bombardeadas, plantações perdidas, territórios invadidos. E isso é um fato, seja sob uma perspectiva pró-Ocidente ou pró-Rússia: trata-se de uma invasão. Antes havia respeito e liberdade para seguir tradições russas ou ucranianas, algo que aos poucos vem sendo proibido, como o ensino da língua russa nas escolas, o que, no entanto, não impede que o povo continue falando-a no cotidiano.


Andrei Kurkov nasceu em Budogoshch, Rússia, em 1961. É um romancista ucraniano