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sábado, 11 de abril de 2026

MAAT NÃO JULGA: ELA EQUILIBRA O MUNDO

 


MAAT, LA PHILOSOPHIE DE LA JUSTICE DE L’ANCIENNE EGYPTE

ANNA MANCINI

BUENOS BOOKS INTERNATIONAL – 2007

152 páginas

Pesquisei muito sobre Maat e não encontrei muita coisa em português que atendesse ao que eu procurava. A pergunta inicial era: porque as mulheres egípcias tinham uma posição melhor, em relação a direitos, liberdade e autonomia, do que outras mulheres das regiões ao redor?

Maat é uma das principais divindades egípcias, ao lado de Ísis e Osíris, e rege toda a vida egípcia. Trata-se de uma divindade feminina. Em minhas pesquisas ela sempre aparecia sendo traduzida simplesmente como “justiça”. Até que encontrei este livro – mas ele está em francês.

Anna Mancini pesquisou longamente sobre Maat. Ela apresenta os principais egiptólogos que escreveram sobre o tema, mas também aponta as falhas de muitos deles ao interpretar o conceito. Neste livro, Mancini realiza uma análise profunda da famosa cena conhecida como o Julgamento de Osíris, muito difundida através do Livro dos Mortos.

Segundo a interpretação tradicional, tratar-se-ia do julgamento da alma do morto para determinar se ele poderia ou não entrar no paraíso egípcio. Nessa cena, Maat aparece simbolizada como uma pluma colocada na balança ao lado do coração do morto.

Mancini demonstra, porém, que essa leitura está equivocada. Em primeiro lugar, não se trata de um julgamento no sentido ocidental da palavra. Ninguém ali emite uma sentença. A decisão se dá pela própria balança. Nem Osíris julga, nem Maat.

Ao longo do livro, Mancini analisa ponto por ponto essa cena – aliás, o próprio nome “julgamento” foi dado pelos ocidentais.  

Maat representa o equilíbrio cósmico, a justiça no sentido de igualdade, harmonia e complementaridade. Todos devem viver segundo esse princípio, principalmente o faraó. Esse fundamento ajuda a compreender, em parte, a posição relativamente elevada que a mulher ocupava na sociedade egípcia. Evidentemente, não é apenas isso: há também outros fatores ligados à religião egípcia – que nós chamamos de mitologia -, onde Ísis desempenha um papel fundamental, assim como uma concepção de maternidade bastante diferente da nossa.

Infelizmente, não encontrei tradução deste livro para o português.


Anna Mancini é francesa de origem italiana. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O ARQUÉTIPO DA MULHER SELVAGEM

 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS

ROCCO – 1ª ED. – 1994

628 páginas

Em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés, constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica, instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.

A partir de mitos e contos tradicionais de diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização e domesticação do corpo e do desejo femininos.

O livro dialoga fortemente com a psicanálise junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.

Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas, culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim, o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade em detrimento da vitalidade e do desejo.

Mais do que um manual de autoajuda, o livro se apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos, dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.


Clarissa Pinkola Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana


TIAMAT E O APAGAMENTO DO FEMININO

 

ENUMA ELISH: O POEMA MESOPOTÂMICO DA CRIAÇÃO

Tradução: Sueli Maria de Regino

EBOOK – 1ª ED. – 2019

64 páginas

Em Enuma Elish: o poema mesopotâmico da criação, encontramos não apenas um mito cosmogônico, mas um texto profundamente político, que narra a origem do mundo ao mesmo tempo em que legitima uma nova ordem de poder. Diferente de mitologias centradas na geração da vida como processo relacional, o Enuma Elish funda o cosmos a partir da violência, do conflito e da vitória de um deus masculino sobre uma potência feminina primordial.

A narrativa apresenta Tiamat, divindade associada às águas caóticas e à matriz originária da vida, como ameaça que precisa ser eliminada. Sua derrota por Marduk não é apenas um episódio mítico, mas um gesto fundador: o mundo nasce do esquartejamento do corpo feminino, reorganizado segundo uma lógica hierárquica, centralizada e soberana. A criação, aqui, não é gestação nem continuidade, mas dominação e controle.

O poema reflete e legitima a transição histórica para sociedades estatais e patriarcais na Mesopotâmia. Ao elevar Marduk à condição de deus supremo, o Enuma Elish consagra uma estrutura de poder vertical, militarizada e masculina, na qual a ordem só se estabelece mediante a supressão do feminino caótico. O mito funciona, assim, como narrativa de fundação do Estado, da soberania e da autoridade central, naturalizando a violência como princípio organizador do mundo.

Há, nesse sentido, uma ruptura simbólica fundamental em relação a mitologias mais antigas, nas quais o feminino aparece como fonte da vida, da fertilidade e da continuidade cósmica. No Enuma Elish, o feminino deixa de ser potência criadora e passa a ser ameaça a ser vencida. Essa inversão não é apenas teológica, mas profundamente política e cultural, marcando o início de um imaginário que associa ordem à masculinidade e caos à feminilidade.

A leitura do poema hoje permite reconhecer como certos fundamentos do pensamento ocidental — a separação violenta entre natureza e cultura, a legitimação da guerra, a hierarquização dos corpos — encontram raízes antigas. O mito não explica apenas como o mundo foi criado, mas como uma determinada forma de poder passou a se apresentar como inevitável e sagrada.

Ler o Enuma Elish é confrontar o nascimento simbólico de uma civilização fundada na vitória, na exclusão e no silenciamento do princípio feminino. É perceber que a história da criação também é uma história de apagamentos — e que compreender esses mitos é essencial para questionar as estruturas que ainda hoje organizam nossas formas de pensar o mundo, o poder e o sagrado.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FEMINICÍDIO E CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

 

MULHERES EMPILHADAS

PATRÍCIA MELO

LEYA - 2019

240 páginas

Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a naturalização da brutalidade.

A narrativa acompanha uma jovem advogada que deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio. O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.

Paralelamente, o livro incorpora um mito indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado, ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo que tende a se agravar.

O romance intercala a ficção com notícias reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler, não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste em se repetir.


Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA DEUSA À MARGEM DO OLIMPO


 

CIRCE

Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens

MADELINE MILLER

PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020

368 páginas

Em Circe, Madeline Miller reconta a mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral ou punição divina. Aqui, Circe ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.

Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua diferença, no entanto, será justamente o que a salvará  e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela cruza um limite perigoso: preocupa Zeus e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida, recebe apenas visitas ocasionais de Hermes, que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.

O isolamento não a enfraquece, mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina, aqui aparece como resposta à violência, não como perversidade gratuita.

O mesmo acontece quando a tripulação de Odisseu chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a partida do herói.

Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil, violento, marcado por uma força que o excede. Atena deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.

Quando Telégono cresce, decide buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope e Telêmaco. A partir daí, a narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.

Não é possível falar do final sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é uma história sobre punição, mas sobre transformação. Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma vida própria.


Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1978. É uma escritora estadunidense. 


DESMONTANDO A JORNADA DO HERÓI COMO NORMA

 


A HEROÍNA DE 1001 FACES

O Resgate do protagonismo feminino na narrativa exclusivamente masculina da jornada do herói

MARIA TATAR

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

479 páginas

Em A Heroína de 1001 Faces, Maria Tatar parte de uma crítica direta e necessária a Joseph Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces. Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna essa exclusão ainda mais reveladora.

É a partir desse vazio que Tatar constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito, recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.

A autora inicia pela mitologia, revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.

O mérito central do livro está em mostrar que o feminino não é uma versão menor do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.

Tatar não propõe substituir um modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos — mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões que naturalizamos.

A Heroína de 1001 Faces é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito de serem não apenas origem, mas sujeito da aventura.


Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945. Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O DIVINO FEMININO NAS MITOLOGIAS DO MUNDO

 

DEUSAS: OS MISTÉRIOS DO DIVINO FEMININO

JOSEPH CAMPBELL

EDITADA POR SAFRON ROSSI

PALAS ATHENA – 1ª ED. – 2023

352 páginas

Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, de Joseph Campbell, explora a presença e o significado das deusas nas diversas culturas ao longo da história, destacando seu papel central nas tradições religiosas, mitológicas e espirituais. O livro analisa como o divino feminino foi representado, celebrado e, em muitos casos, reprimido ao longo do tempo, oferecendo uma perspectiva sobre o poder simbólico e social das figuras femininas sagradas.

Campbell investiga mitologias de diferentes partes do mundo, revelando padrões recorrentes e arquétipos femininos que refletem sabedoria, criatividade, força e transformação. O autor discute como a perda de reverência ao divino feminino, com a ascensão do patriarcado, impactou a cultura, a moral e as relações sociais, e sugere que recuperar o entendimento dessas forças pode enriquecer a vida pessoal e coletiva.

O livro convida o leitor a refletir sobre a relação entre mito, espiritualidade e gênero, mostrando que as deusas não são apenas figuras históricas ou religiosas, mas arquétipos vivos que inspiram identidade, poder e autonomia feminina. Campbell combina erudição, sensibilidade e insight mitológico, oferecendo uma obra acessível e profunda sobre a dimensão simbólica e cultural do feminino sagrado.


Joseph Campbell nasceu em White Plains, Nova Iorque, EUA, em 1904 e faleceu em 1987. Foi um mitólogo, conferencista, escritor e professor. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RELIGIÃO, DIREITO E PENSAMENTO NA MESOPOTÂMIA


 

NO COMEÇO ERAM OS DEUSES

JEAN BOTTÉRO

CIVILICAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. - 2011

 309 páginas 

Este livro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.vro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.


Jean Bottéro nasceu em Vallauris em 1914 e faleceu em Gif-sur-Yvette, França. Foi um historiador francês, assiriólogo, especialista no Antigo Oriente. 



UM MITO FUNDADOR E SUAS LEITURAS AO LONGO DO TEMPO

 



ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA

STEPHEN GREENBLATT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2018

392 páginas 

Provavelmente o mito de origem mais conhecido no Ocidente é o de Adão e Eva. Em Ascensão e Queda de Adão e Eva, Stephen Greenblatt retoma esse mito fundador e o esmiúça com atenção histórica e cultural. Trata-se de um relato que atravessa séculos e permanece ativo até os dias atuais, exercendo influência profunda sobre a moral, a arte, a religião e o pensamento ocidental.

Para a história das mulheres, esse mito é fundamental. Nele se consolida a imagem de Eva como a pecadora, a sedutora, aquela que provoca a queda e inaugura o pecado original. Uma narrativa que, reiterada ao longo do tempo, sustentou justificativas teológicas, morais e sociais para a subordinação feminina.

Greenblatt percorre as múltiplas leituras feitas do mito, examinando sua presença nas artes visuais, na literatura, na psicologia, na moral cristã e até mesmo na ciência. A análise passa por autores que se debruçaram intensamente sobre o texto bíblico, como Santo Agostinho, empenhado em provar sua historicidade; Albrecht Dürer, com suas representações visuais do casal primordial; e John Milton, em seu magistral Paraíso Perdido.

O autor inicia contextualizando o período em que o mito foi escrito e amplia o horizonte ao aproximá-lo de outras narrativas cosmogônicas, como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh. Dessa forma, o livro revela como a história de Adão e Eva foi sendo reinterpretada ao longo do tempo e como sua influência ultrapassa em muito o campo estritamente religioso, moldando visões de mundo, concepções de gênero e estruturas de poder.


Stephen Greenblatt nasceu em Boston, EUA, em 1943. É um teórico e crítico literário. 




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PARA ALÉM DOS HERÓIS: AS MULHERES NOS MITOS GREGOS

 


MITOS GREGOS: Nas tramas das deusas

CHARLOTTE HIGGINS

ZAHAR – 1ª ED. – 2022

424 páginas 

Já há uma vasta bibliografia sobre mitologia grega, mas Nas tramas das deusas se destaca por um deslocamento fundamental: aqui, são as mulheres que contam — ou, mais precisamente, tecem — os mitos. Charlotte Higgins se apropria do tear, uma das principais atribuições femininas na Grécia antiga, para estruturar a narrativa e conduzir o leitor por mitos amplamente conhecidos e também por outros menos recorrentes.

Em cada etapa, em cada capítulo, há uma mulher tecendo. E, com ela, emerge uma perspectiva distinta, uma nova inflexão interpretativa que se afasta da versão heroica tradicional. Não se trata de negar os mitos, mas de mudar o ponto de vista: ao invés dos grandes heróis masculinos, o foco recai sobre as experiências femininas, marcadas por violência, engano, silenciamento  e, em alguns casos, por reação e resistência.

Essa mudança de olhar revela o quanto as mulheres sofrem nos mitos: são frequentemente estupradas, traídas, instrumentalizadas pelos deuses e pelos homens. Ao trazer essas experiências para o centro da narrativa, Higgins nos permite perceber dimensões que costumam ser naturalizadas ou apagadas nas leituras clássicas.

O mérito do livro está justamente em oferecer interpretações que soam diferentes sem trair o material mitológico. Quando os mitos parecem não corresponder à versão mais conhecida, isso se deve ao uso de fontes distintas da tradição grega, todas cuidadosamente indicadas ao final do livro, para quem deseja aprofundar a pesquisa. Nos poucos momentos em que a autora se permite maior liberdade interpretativa, isso também é explicitado com transparência.

Nas tramas das deusas é uma leitura instigante, que não reescreve os mitos, mas os reinscreve a partir de um outro lugar: o das mulheres que, mesmo confinadas ao tear, sempre estiveram produzindo sentido, memória e narrativa.


Charlotte Higgins nasceu em Stoke-on-Trent, Reino Unido, em 1972. É uma escritora e jornalista britânica.