sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

 


LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

ZIAUDDIN YOUSAFZAI E LOUISE CARPENTER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2019

168 páginas

Muitos já leram “Eu sou Malala”, o relato da jovem paquistanesa que levou um tiro do Talibã por estudar e sobreviveu.  Menos conhecida é a versão de seu pai, Ziauddin Yousafzai, apresentada neste livro escrito em colaboração com Louise Carpenter

A obra acompanha a trajetória de Ziauddin, sua infância no Paquistão e sua formação pessoal, ao mesmo tempo em que narra sua atuação como pai de Malala e seu compromisso com a educação das meninas. Sua história é um contraponto à imagem frequentemente simplificada de sociedades marcadas por estruturas patriarcais, ao apresentar a figura de um homem que se opõe ativamente às restrições impostas às mulheres, inclusive dentro de sua própria família.

Ziauddin defende desde cedo que as meninas e sua filha devem ter os mesmos direitos à educação e às mesmas oportunidades que são oferecidos aos meninos, o que o coloca em conflito com normas sociais e políticas locais, principalmente no contexto de ascensão do Talibã no Paquistão.

A compreensão de Ziauddin sobre a igualdade de gênero foi se construindo ao longo do tempo. Ele demorou para compreender o quanto essa opressão sobre as mulheres podia ser maléfica na própria família. Em suas palavras: “Quando apliquei o princípio básico da igualdade de gêneros à minha própria família, minha vida mudou. A vida da minha esposa mudou. A vida da minha filha mudou. A vida de meus filhos mudou”.

Se Malala falou muito do pai em seu livro, aqui podemos ouvir a narrativa do próprio Ziauddin em suas palavras. A escritora e jornalista Louise Carpenter organiza esse testemunho em forma de narrativa biográfica, articulando memória pessoal e contexto histórico.  

Ao invés de cortar as asas de sua filha e esposa, este pai fez o contrário, ele permitiu que elas mantivessem suas asas e voassem, mesmo dentro de uma sociedade que tolheu as mulheres e as trata como seres inferiores.

 

Ziauddin Yousafzai nasceu em Shangla, Paquistão, em 1969. É um empresário e ativista educacional, mais conhecido como sendo o pai de Malala Yousafzai.

Louise Carpenter nasceu em Duns, Escócia, Reino Unido em 1970. É uma escritora e jornalista escocesa. 




LIVRO: ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE


 

ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE

HELENA COBBAN – RAMI G. KHOURI

AUTONOMIA LITERÁRIA – 1ª ED. – 2025

264 páginas

Uma curiosidade que muitos têm é como os palestinos de Gaza enxergam o Hamas após o que está ocorrendo. O livro procura responder a essa questão ao apresentar diversas perspectivas de pessoas que vivem, estudam ou conhecem a realidade palestina.

A obra não busca apoiar nem demonizar o Hamas, mas compreender sua origem, seus objetivos e sua atuação. Segundo os autores, há muito desconhecimento atuando no mundo e narrativas que nem sempre correspondem à realidade e sua complexidade. Para ilustrar essa questão o livro compara diferentes movimentos classificados como terroristas em distintos contextos históricos, lembrando que, durante muitos anos, o movimento de Nelson Mandela e ele próprio foram considerados terroristas pelo regime do apartheid. Também distingue organizações como o ISIS, o EL e a Al-Qaeda, argumentando que possuem origens, objetivos e formas de atuação distintas.  O livro procura mostrar as diferenças entre estes grupos.

Para os autores o que diferencia o Hamas é o fato de ser uma luta de libertação de um território ocupado. Gaza é uma prisão a céu aberto. Reconhecem que o grupo praticou atos terroristas, mas questionam se essa definição, por si só, é suficiente para compreender sua história e seu papel político. O livro convida o leitor a refletir sobre como diferentes povos reagem diante de situações de ocupação, restrições à liberdade de circulação e perda de autonomia.

Um ponto que me chamou a atenção e eu desconhecia por completo foi a abordagem sobre as mulheres. Um discurso bastante difundido no Ocidente apresenta as mulheres da região apenas como vítimas passivas e oprimidas.  O livro, entretanto, mostra um quadro mais complexo e afirma que, dentro de uma sociedade conservadora e patriarcal, o Hamas defende os direitos das mulheres, incentivando seu acesso à educação superior e sua participação na vida pública. Ainda lembram que, após a vitória eleitoral do Hamas em 2006, antes do golpe praticado para depô-los, as mulheres ocuparam cargos no governo de Gaza.

Baseado em entrevistas com pessoas da região, pesquisadores e conhecedores da realidade palestina, o livro apresenta uma perspectiva pouco difundida no Ocidente. Independentemente da posição do leitor sobre o tema, trata-se de uma leitura que amplia o debate e permite conhecer argumentos que raramente chegam ao público, possibilitando que cada um forme suas próprias conclusões.


Helena Cobban nasceu em 1952 nos Estados Unidos. É uma pesquisadora anglo-americana de relações internacionais com interesses específicos no “Oriente Médio”, no sistema internacional e na justiça transicional.


Rami G. Khouri nasceu em 1948 em Nova Iorque, EUA. É um jornalista jordaniano-americano de origem palestina. É de uma família árabe-palestina cristã. 


LIVRO: GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

 

GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

SVETLANA RUSEISHVILI (Organizadora)

EdUFSCAR – 1ª ED. 2023

255 páginas

Este livro, organizado por Svetlana Ruseishvili, reúne diferentes artigos que analisam a Guerra da Ucrânia a partir de perspectivas variadas e, em grande parte, críticas aos olhares hegemônicos predominantes.

O que mais me chamou a atenção foi o artigo de Madina Tlostanova, “Pós-Socialista ≠ Pós-Colonial? Sobre o imaginário pós-soviético e a colonialidade global”. Eu já havia estudado teorias decoloniais, mas nunca havia encontrado uma discussão que se referisse diretamente a situação dos países que fizeram parte da União Soviética após sua dissolução.

A questão é complexa, uma vez que esses países passaram por diferentes formas de dominação ao longo do tempo, incluindo impérios como o Austro-Húngaro e, posteriormente, a própria estrutura soviética. A experiência desses países não pode ser facilmente enquadrada nas categorias tradicionais do pensamento pós-colonial.  

Tlostanova questiona, assim, até que ponto a teoria decolonial pode ser aplicada neste contexto. No caso da Ucrânia, por exemplo, há uma sobreposição linguística e cultural entre o russo e o ucraniano, além da permanência de elementos da mentalidade soviética em diferentes setores da sociedade.  

O artigo de Tlostanova me levou a pesquisar mais sobre o Leste Europeu, principalmente sobre as pessoas que ficaram nos países, mas também os da diáspora.

O livro traz diferentes abordagens sobre a guerra na Ucrânia, e justamente por isso é interessante e faz exatamente o que se propõe, ou seja, olhares diferentes sobre a guerra.

Eu pessoalmente só não concordei com um dos artigos, escrito por um autor austríaco, que traz uma visão muito eurocêntrica sobre a questão. Ainda assim, considero válido ler o que ele escreve, justamente para contrastá-la com as demais e formar uma compreensão mais ampla do debate.  

Svetlana Ruseishvili é doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciências Sociais pela École des Hautes Études em Sciences. Sociales (Paris) e graduada em Sociologia pela Universidade de Moscou Lomonossov




LIVRO: FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ


 

FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ

ANDREZA JORGE

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023

248 páginas


Li Andreza Jorge quando estudava para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o cuidado dentro da realidade brasileira. 

A autora escreve sobre as mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as vivências de mulheres faveladas.

Como meu interesse de leitura estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é seguro.

Ao mesmo tempo, a autora mostra a existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.  

As mulheres que vivem nas favelas ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança pública.  Em uma entrevista de emprego, por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios, frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas proximidades das escolas e das comunidades.   

O número de filhos mortos pela violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as de perspectivas mais centradas na emancipação individual.

Segundo Jorge “o ato de cuidar do outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)

Para quem não conhece essa realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam. A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência, cuidado e possibilidade de vida.  


Andreza Jorge atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré. 


LIVRO: A MULHER NO CORPO DE XAMÃ

 

A MULHER NO CORPO DE XAMÃ: O feminino na religião e na medicina

BARBARA TEDLOCK

ROCCO – 1ª ED. – 2008

350 páginas

Barbara Tedlock resgata o papel central das mulheres no xamanismo. Ela própria neta de uma parteira e herborista ojibwe e antropóloga, procurou responder algumas perguntas que fazia a si mesma, principalmente: “Existem mulheres xamãs?”.

Iniciada no xamanismo pelos maias K’iche’ do planalto da Guatemala, procura resgatar o papel das mulheres no xamanismo, frequentemente desconsiderado por muitos pesquisadores homens. Durante muito tempo, os estudos sobre o xamanismo foram conduzidos majoritariamente por homens, que associavam essa prática quase exclusivamente ao universo masculino.

Em 1924, em um sítio arqueológico localizado na atual República Tcheca, conhecido como Doní Vestonice, foi encontrado um túmulo que continha o corpo de uma mulher de aproximadamente 40 anos, deitada em posição fetal sobre o lado direito. O corpo fora pintado de vermelho (ocre) e coberto por duas escápulas de mamute. Havia a presença de uma lança de sílex junto à cabeça e o corpo de uma raposa em uma das mãos. Com esses elementos identificou-se indícios claros que se tratava de uma xamã.

Segundo Tedlock, “o registro escrito mais antigo de uma mulher xamã real na América é de Ix Balam K’ab’al Xook, ou lady do Jaguar Shark Lineage. Essa mulher da nobreza maia viveu na antiga cidade de Yaxchilán, onde hoje é Chiapas, no México.”

A autora também demonstra como homens pesquisadores desconsideraram as mulheres como xamãs. Eram vistas como curandeiras ou parteiras, mas jamais como xamãs, o que ela demonstra ser um erro. A maioria dos xamãs foram e são mulheres.

Por fim, a autora propõe uma reflexão sobre a necessidade de a humanidade melhorar sua relação consigo mesma e com o planeta. O Xamanismo não é apenas uma forma de cura, mas um saber que entrelaça história, medicina, espiritualidade e psicologia, convidando o leitor a repensar o papel das mulheres nessas tradições e a própria relação entre ser humano e natureza.


Barbara Tedlock nasceu em Battle Creek, Michigan, EUA, em 1942 e faleceu em Rio Rancho, Novo México, EUA, em 2003. Foi uma antropóloga cultural e onirologista (estudo dos sonhos) estadunidense. 


quarta-feira, 24 de junho de 2026

LIVRO: A INSUBMISSA


 

A INSUBMISSA

CRISTINA PERI ROSSI

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

208 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – URUGUAI


Rossi inicia relatando sua infância, seu amor incondicional pela mãe e o ódio nutrido pelo pai, mais fruto do que dizia sua mãe – “você é igual ao seu pai”, do que pela violência e poder que ele exercia sobre a família. Essa frase dita pela mãe afetava a menininha que queria “se casar com a mãe”, uma vez que conhecia o desprezo da mãe pelo marido.

Ela contraiu tuberculose quando pequena e foi para o campo, para a casa dos tios-avôs. A liberdade, o espaço vasto, os animais e os avós que a protegiam e compreendiam marcaram Rossi. De minha parte, chamou-me a atenção a presença britânica no Uruguai, o que me levou a pesquisar e descobrir que, após a Guerra da Cisplatina, os britânicos transformaram o país em uma espécie de “colônia informal”.

A história familiar é cercada de mistérios e silêncios. Rossi levará anos para saber o que aconteceu com seus bisavôs e avós. A história de sua bisavó, extremamente apaixonada pelo marido a ponto de ignorar completamente o lugar onde vivia, e com isso não se preocupar em aprender o idioma ou fazer amizades. Que diante da inevitável morte do amado ainda jovem, a levou ao suicídio, é a razão do silêncio dos filhos que não a perdoaram pelo abandono deles ainda crianças. Anos depois, Rossi irá se ver em uma situação semelhante em Barcelona, na Espanha, quando estava no exílio, o que a levará a compreender melhor os sentimentos de sua bisavó.

Há um relato sobre um quadro que está na sala de visitas da casa da família que me chamou a atenção. Primeiro, Rossi descreve a cena que está no quadro para, em seguida, refletir sobre ela. São homens elegantemente vestidos em um bosque e, entre eles, sentada de lado no chão, uma mulher completamente nua. Suponho tratar-se do quadro “Le déjeuner sur l’herbe” (Almoço sobre a relva), de Édouard Manet. Rossi percebe que os homens, brancos e ricos, estão vestidos com requinte (de fraque), enquanto a mulher provavelmente pobre, pode ser despida. Ou seja, é uma objetificação da mulher e uma percepção das diferenças sociais e econômicas.

Rossi constrói uma autobiografia de formação, relatando não apenas eventos de sua infância e adolescência, mas também os efeitos que eles terão posteriormente em sua vida adulta. Em outros momentos, revela descobertas feitas muitos anos depois, quando compreendeu a própria ignorância infantil diante de determinados acontecimentos. É explicito sua rebeldia a determinados costumes e tradições, sobretudo aqueles impostos às meninas.  

Fico sempre com uma impressão um tanto ambígua diante de relatos autobiográficos de infância. Senti isso ao ler Simone de Beauvoir em “Memórias de uma Moça Bem Comportada”. Muitas vezes encontramos crianças formulando pensamentos e análises que parecem sofisticados demais para a idade. A sensação que tenho é que é a adulta que está falando pela criança. Que uma criança se revolte contra proibições impostas às meninas, é perfeitamente plausível; o que me parece mais difícil é que ela seja capaz de analisa-las da forma como aparecem no relato. Acredito que, em muitos casos, é a mulher adulta interpretando retrospectivamente a criança que foi. Rossi, porém, evita isso na medida do possível. Frequentemente deixa claro que, à época, não compreendia o que estava acontecendo, preservando as dúvidas e perplexidades próprias da infância diante do comportamento dos adultos.  

Uma das partes do livro, que considerei uma das mais belas é a aquela quando ela descobre a paixão e o amor. Ela não entende o que lhe acontece; apenas sente. Ansiedade, expectativa, medo, necessidade da pessoa amada, ausência, desejo. Tudo surge antes da compreensão.  

O desejo move grande parte da escrita de Rossi. Em outro momento, ela descobre sua sexualidade e também a existência da homossexualidade, que na época, e ainda hoje, para muitas pessoas, era condenado, considerado algo “anormal”. “Somos monstros”, lhe diz uma amiga que compartilha da mesma orientação sexual.  É um pecado e mortal, e precisam mudar, se corrigir. Rossi, porém, recusará essa lógica.  

Ela tentou ler Freud na coleção de obras completas que seu tio possuía e confessa não ter entendido nada. Ainda assim, a presença da psicanálise é perceptível em seu relato.  Logo no início do livro, Rossi descreve seu amor pela mãe, seu objeto de desejo infantil, e a hostilidade dirigida ao pai. Uma leitura freudiana poderia identificar aí elementos do complexo de Édipo. Ela mudará de objeto, mas não redirecionará seu desejo ao outro sexo.

Seus relatos deixam claro que Rossi foi, desde pequena, um espírito livre, insubordinado às regras sociais e aos costumes que, segundo ela, funcionavam como mecanismos de coerção, restringindo a liberdade de escolha, de amar, de experimentar e de viver de acordo com os próprios desejos.  

O que admirei em Rossi é sua capacidade de preservar na escrita o universo infantil, sem permitir que sua consciência adulta dominasse a narrativa. É uma criança e não um “adulto em miniatura” que vemos vivenciar suas experiências dentro de sua perspectiva infantil.

Um bom exemplo é quando na festa de casamento de sua amiga Mabel ela dá uma rasteira no noivo. Ela sentiu ciúme e medo de perder alguém amado e agiu impulsivamente e até com crueldade, o que é típico na infância. Mas ela não analisa a situação, ela não possui ainda um vocabulário psicológico para explicar o que sentiu. Ela simplesmente estica a perna e derruba o homem. Rossi preserva isso, e somente depois, já adulta pode refletir sobre isso.

Percebemos o patriarcado e a situação das mulheres em toda a narrativa, inclusive de um episódio de abuso sexual que Rossi sofreu e que ao relatar à sua mãe recebe como resposta – “Esquece isso e nunca comente com ninguém!”, no entanto, a questão da menina não é essa, ela não elabora uma crítica do patriarcado, ela contesta as regras por lhe parecerem absurdas e injustas.

Ela é insubmissa desde a infância, resiste, luta pelo que deseja, mas dentro do universo infantil. Somente anos depois, já adulta, ela pode fazer a crítica ao patriarcado e analisar suas consequências. Mais do que uma simples autobiografia, A Insubmissa mostra como essa recusa em aceitar os papéis impostos às mulheres não foi uma conquista tardia, mas uma disposição que atravessa toda a vida de Cristina Peri Rossi.


Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1941. É uma romancista, poetisa, tradutora e autora uruguaia. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar seu país por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, Espanha, onde vive até hoje.  


quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: AQUELA QUE RESTOU

 

AQUELA QUE RESTOU

RENE KARABASH

EDITORA ERCOLANO – 1ª ED. – 2026

128 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – BULGÁRIA


A história se passa no norte da Albânia, em uma pequena aldeia que ainda mantém a tradição de seguir o Kanun (Kanun de Leka Dukaguini – leis antigas da Albânia). Essas leis incluíam a morte por vingança, e é interessante pensar que, no Nordeste brasileiro, isso também existe. Ismail Kadaré escreveu “Abril despedaçado”, e nós temos o filme homônimo, que se passa no Nordeste.

Eu, pessoalmente, vivi uma situação que me fez lembrar uma frase presente no livro.  Estando no Nordeste com um grupo, ocorreu um assassinato motivado por vingança entre famílias, e uma das pessoas ficou apavorada. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois não seria um alvo, já que não pertencia à família envolvida.  

Karabash nos relata a história de Bekia, uma jovem que nasceu contrariando o desejo de seu pai de ter um filho homem. Mas não fosse apenas isso: sua mãe estava grávida de gêmeos e, durante a gestação, ocorreu um problema, levando à perda de um dos fetos, o menino. Portanto, aquela que restou foi Bekia, o “filhinho de papai”, como ela mesma se denominava.

Seguindo o Kanun, chega o dia em que Bekia será casada com um noivo que não conhece, mas de quem dizem ser feio. Ela não deseja esse destino e faz uma escolha: a única que lhe permite escapar da condição reservada às mulheres em um sistema extremamente patriarcal.

Bekia recusa o casamento e se torna uma virgem jurada, ou ostáinitsa, fazendo um juramento de castidade e passando a viver como um homem e mudando o nome para Matia, adquirindo os mesmos direitos. Trata-se de uma transição de gênero aceita que vigora em algumas regiões do norte da Albânia, do Kosovo, da Macedônia do Norte, da Sérvia, de Montenegro, da Croácia e da Bósnia.

É preciso fazer uma ressalva para que não haja confusões: isso não é a mesma coisa que ser um homem trans. Não se trata de uma decisão baseada na sexualidade nem na identidade de gênero, mas de uma mudança de status social, de papel e de posição dentro da família.

Bekia relata sua história a uma repórter que a entrevista por ser uma das poucas virgens juradas que ainda existem.

Ao recusar o casamento, ela também desencadeia a possibilidade de uma morte por vingança, pois a honra do noivo rejeitado deveria ser restaurada. Para isso, alguém de sua família precisaria ser assassinado. Cabia a ela escolher quem carregaria esse destino, e Bekia coloca a fita preta no braço do irmão mais moço, considerado frouxo como homem naquela sociedade. Ele foge para não morrer e, então, a honra de morrer segundo o Kanun recai sobre o pai de Bekia, o que ele aceita com muito orgulho. Morrer de velhice ou de doença é considerado vergonhoso para um homem.

Mas o livro reserva uma surpresa ao leitor quando descobrimos que o que levou BeKia a fazer o juramento foi muito mais do que o casamento forçado e a suposta perda da virgindade na noite anterior, e o quanto essa decisão trouxe consequências para todos os membros de sua família e também para outra jovem: Dana.

Preciso acrescentar um comentário. Tenho visto sinopses do livro que se referem à instituição da virgem jurada como sendo uma estratégia de sobrevivência dentro de sistemas que as oprimem. Nesse sentido, falar em “estratégia de sobrevivência” pode ser uma formulação enganosa se não for tensionada. O Kanun não abre uma fissura ao patriarcado; ele administra suas exceções sem nunca romper seu princípio estruturante. A virgem jurada não representa uma conquista de igualdade, mas uma reorganização excepcional da hierarquia sexual: ela só é reconhecida enquanto suspende sua condição feminina. O acesso aos direitos não decorre de uma transformação do estatuto da mulher, mas de sua reinscrição simbólica fora dele.

Bekia diz: “Uma mulher na Albânia vale vinte bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteria, matar Bekia foi a coisa mais sensata que eu podia fazer.”.

Sua liberdade não emerge como afirmação de um sujeito feminino, mas como apagamento dessa própria categoria. 

Rene Karabash nasceu em Lovech, Bulgária, em 1989. É uma escritora búlgara. 



LIVRO: MÃE PÁTRIA

 

MÃE PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso

PAULA RAMÓN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020

240 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VENEZUELA

Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.

O livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.

Por outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras execrando o governo.  Aqui me atenho ao livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.

Seu pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.

Em poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.

Maracaibo é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana. Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.

No entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976, quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa riqueza ao país.

Em 1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo Chavez se rendeu.

Em 1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos até chegarmos aos dias atuais.

Ramón discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os que apoiavam o governo e os que não o faziam.

Em 1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”. 

Paula Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista 



terça-feira, 16 de junho de 2026

LIVRO: DETALHE MENOR


 

DETALHE MENOR

ADANIA SHIBLI

TODAVIA – 1ª ED. – 2021

112 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA 


1949, um ano após a Nakba, um batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na região.

Logo na primeira noite, o comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.

No entanto, o que se sucede é o contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge uivando.

Esta é a primeira parte do livro, que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia após dia.

Fico com uma impressão de que o cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.

 O cachorro é um detalhe nesta parte da história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro uivando ao longe.

Uma palestina que vive na Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu, e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu nascimento, 13 de agosto.

A notícia tece em volta dela, como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o medo, o estresse e a desorientação. Ao  mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde ocorreu o assassinato da menina beduína.

Ela persiste em sua busca. Deseja descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o destino da jovem palestina em sua busca.

Adania Shibli constrói a narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples detalhe menor.

O que me impressionou no romance não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha, do cachorro, dos sons.

A autora não explica o horror; ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes, elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.

Um exemplo é o camelo morto com capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.

O mesmo ocorre com o estupro da menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo, não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.

Da mesma forma a reação automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que continua funcionando.


Adania Shibli nasceu na Palestina em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.

O livro Detalhe Menor, escrito originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua língua materna, também é uma forma de resistência. 




domingo, 14 de junho de 2026

LIVRO: SOB CUSTÓDIA

 


SOB CUSTÓDIA 

ANITA DESAI

ROCCO – 1ª ED. - 1984

212 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA

Deven é um professor universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi, para sua revista.

Deven é apaixonado pela poesia urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a entrevista.

Sua expectativa é imensa; mal pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven, são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.

No entanto, Murad acaba por convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz do poeta gravada e consegue que a instituição  libere  verba para a compra do gravador e das fitas.

É impactante perceber como Deven se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano. Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do território e a criação do Estado do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.

Deven apesar de ensinar hindi na universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la.  Ela é seu espelho e confirma a ideia de que “uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.

Ao confrontar a realidade da vida do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava; perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.

Deven é um personagem difícil de aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em seguida.

Nas últimas páginas do livro, a autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.  

Anita Desai nasceu em Mussoori, Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades John E. Burchard.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.