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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

UMA RAINHA FORA DA SOMBRA DO FARAÓ

 

NEFERTITI – SACERDOTISA, DEUSA E FARAÓ

ANNA CRISTINA FERREIRA DE SOUZA

MADRAS – 1ª ED. - 2020

160 páginas 

Neste livro, Anna Cristina Ferreira de Souza analisa a figura de Nefertiti a partir da arte do período de Amarna. A autora aborda a XVIII dinastia e seus reinados, mas, para mim, o aspecto mais relevante da obra é a maneira como ela trabalha a religião egípcia, contribuindo para a compreensão de conceitos fundamentais como o monismo, a complementaridade e os princípios associados ao feminino naquele contexto: fertilidade, maternidade e maturidade.

O livro discute também, ainda que de forma breve, a diferença entre monoteísmo e monolatria — distinção que considero especialmente importante. É comum ouvir que Akhenaton e Nefertiti teriam instaurado o primeiro monoteísmo da história, o que não é correto. O monoteísmo pressupõe a existência de um único Deus, enquanto, no Egito, o culto a Aton se configura como monolatria: a centralidade de um deus principal, sem a negação da existência de outros, como Ísis e Osíris. Essa diferenciação, muitas vezes ignorada, é um dos pontos mais esclarecedores do livro.

Após uma introdução extremamente instigante, que contextualiza esses elementos religiosos e simbólicos, a autora se volta diretamente para Nefertiti, com ênfase em sua função social e política. A rainha não aparece como figura secundária ou decorativa, mas como uma presença ativa no poder, visível nas representações artísticas e nas práticas do período.

Nefertiti não esteve à sombra do faraó. Ao contrário, surge como parte de uma lógica de complementaridade entre o masculino e o feminino, característica da cosmovisão egípcia, e como expressão de um modelo de poder que não se organizava exclusivamente pela hierarquia e pela exclusão. Nesse sentido, o livro contribui para deslocar leituras tradicionais e recolocar Nefertiti no lugar que lhe foi historicamente negado: o de protagonista.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A guerra vista por uma mulher

 

O MUNDO QUE ENLOUQUECEU

OS DIÁRIOS DA GUERRA 1939 – 1945

ASTRID LINDGREN

MADRAS EDITORA – 1ª ED. 2020

368 páginas 


Astrid Lindgren é uma escritora de livros infantojuvenis reconhecida internacionalmente, sobretudo por sua série “Pippi Meialonga”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela manteve diários pessoais, e são justamente os registros desse período que nos são apresentados nesta publicação.  

Estamos acostumados a pensar a Segunda Guerra como a invasão nazista de territórios alheios, em busca do que Hitler denominava o “espaço vital” da Alemanha. Há inúmeras publicações sobre o tema; no entanto, elas geralmente se concentram na Inglaterra, França, Itália, Áustria, Polônia, Bélgica, no Holocausto e, ainda, nos Estados Unidos, no ataque a Hiroshima e Nagasaki e no efeito letal da bomba atômica. Publicações históricas, relatos pessoais e diários não faltam – o que falta, muitas vezes, é o olhar sobre outros países.  

A Segunda Guerra Mundial faz jus ao seu nome: de fato, atingiu muitos países diretamente e outros tantos de forma indireta. Neste livro, encontramos o relato de uma escritora sueca sobre o que aconteceu nos países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega.

No primeiro momento da Guerra, Stálin firmou um pacto com Hitler e também passou a invadir países, entre eles a Finlândia. Somente quando Hitler rompeu o pacto e invadiu a Rússia ocorreu a reviravolta, levando Stálin a se unir aos aliados.

Costumamos pensar que, à exceção dos países do chamado Eixo – Itália, Alemanha e Japão –, todos estariam automaticamente contra Hitler. É justamente aí que este diário nos surpreende. Com a invasão da Finlândia pelos russos, o maior medo dos suecos era que o exército vermelho avançasse também sobre a Suécia, o que levou parte da população a preferir, paradoxalmente, uma invasão alemã. Não se tratava de adesão ao nazismo, mas de uma escolha pautada pela sobrevivência nacional. A Suécia foi, afinal, o único país da região que conseguiu se manter oficialmente neutro e não ser invadido por nenhuma potência durante a guerra.

O diário relata o cotidiano dos suecos durante o conflito. Por terem permanecido neutros, em comparação com outros países europeus, encontravam-se em uma situação relativamente privilegiada. Ainda assim, Lindgren demonstra uma percepção aguçada sobre o conflito mundial e sobre o que estava ocorrendo em outras partes da Europa. Ela lia jornais, recortava artigos e os guardava, compondo uma espécie de arquivo íntimo da guerra.

 Ao mesmo tempo, emergem as preocupações de uma mãe, esposa e amiga em tempos de conflito, quando ainda era uma dona de casa – não a escritora consagrada que viria a se tornar.  Trata-se do relato de uma civil que não esteve nos campos de batalha, não era judia, não foi perseguida nem presa em campos de concentração. Vivendo em um país que conseguiu se manter à margem da guerra, ela ainda assim registra, com intensidade, a angústia, o medo e a inquietação que atravessavam o cotidiano. Esses sentimentos permeiam os diários e revelam que, mesmo fora das frentes de combate, ninguém permaneceu ileso.



Astrid Lindgren nasceu em Vimmerby, Suécia, em 1907 e faleceu em Estocolmo em 2002. Foi uma autora de livros infantis traduzidos em 85 idiomas em mais de 100 países.