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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História. 


RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O COTIDIANO COMO ESPAÇO DA VIOLÊNCIA RACIAL


 

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano

GRADA KILOMBA

COBOGÓ – 1ª ED. – 2019

249 páginas

Grada Kilomba nasceu em Lisboa e realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência, escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do conhecimento.

Logo no início, Kilomba relata os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.

Para desenvolver sua pesquisa, Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e “normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso, são tão devastadoras.

Uma das entrevistadas tem mãe branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.

O trecho em que Kilomba aborda diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.

Nesse movimento, ela também dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.

Um dos aportes teóricos mais importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”); depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.

Memórias da Plantação é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.


Grada Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista interdisciplinar. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMPREENDER O RACISMO ESTRUTURAL


 

RACISMO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO PAÍS

YNAÊ LOPES DOS SANTOS

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

336 páginas

Racismo brasileiro: uma história da formação do país, de Ynaê Lopes dos Santos, conduz o leitor por um amplo e rigoroso percurso da história do racismo no Brasil, iniciando muito antes da invasão portuguesa e estendido até os dias atuais. A autora demonstra que o racismo não é um desvio pontual ou uma herança mal resolvida, mas um elemento estruturante da formação política, social e econômica do país.

O livro percorre o processo de escravização, a organização do sistema colonial, a chamada abolição e o destino das pessoas negras que, embora formalmente libertas, jamais foram incluídas na sociedade como cidadãs plenas. Ynaê evidencia como a ausência de políticas de integração após a abolição não foi um erro, mas um projeto, responsável por manter desigualdades profundas e persistentes. Nesse contexto, a autora analisa o ideal de embranquecimento e o papel do racismo científico, mostrando como essas teorias foram mobilizadas para justificar hierarquias raciais e orientar políticas de Estado.

Ao avançar no tempo, o livro revela as permanências dessas estruturas racistas no Brasil contemporâneo, conectando passado e presente de forma clara e contundente. A análise alcança acontecimentos recentes, como o assassinato de Marielle Franco, evidenciando como a violência racial segue operando no centro da vida política do país. Longe de oferecer uma narrativa linear ou conciliadora, Ynaê Lopes dos Santos constrói um texto que exige enfrentamento histórico e político.

Racismo brasileiro é uma leitura imprescindível para quem deseja compreender o país para além dos mitos da cordialidade e da democracia racial. Ao explicitar as raízes históricas do racismo estrutural, o livro fornece ferramentas fundamentais para entender o Brasil e suas desigualdades, tornando-se uma obra essencial para a reflexão crítica sobre nossa história e nosso presente.


Ynaê Lopes dos Santos nasceu em São Paulo em 1982. É historiadora e escritora. 


IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




A ANTECIPAÇÃO DA INTERSECCIONALIDADE


 

MULHERES, RAÇA E CLASSE

ANGELA DAVIS

BOITEMPO – 1ª ED. - 2016

248 páginas


Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, traça um amplo e rigoroso percurso histórico da experiência das mulheres negras nos Estados Unidos, desde a escravização até períodos mais recentes. A autora articula história social, análise política e crítica feminista para demonstrar como raça, gênero e classe nunca atuaram de forma isolada, mas sempre de maneira entrelaçada, produzindo desigualdades específicas e persistentes.

Ao longo do livro, Davis examina criticamente o movimento abolicionista, o feminismo e a luta pelo sufrágio feminino, evidenciando as tensões internas que marcaram essas mobilizações. Um dos pontos centrais de sua análise é a recusa de mulheres brancas em reconhecer plenamente as mulheres negras como aliadas políticas, especialmente no contexto da luta pelo voto, quando muitas preferiram excluí-las para não criar conflitos com as mulheres do Sul escravista. Esse gesto revela como o feminismo hegemônico, desde suas origens, esteve atravessado por interesses raciais e de classe.

A autora também se debruça sobre a questão do trabalho, mostrando como as mulheres negras e as mulheres imigrantes sempre estiveram inseridas no mercado de trabalho, lutando por direitos básicos, enquanto grande parte das mulheres brancas, amparadas por uma ideologia de classe média, reivindicava direitos a partir do ideal do lar, como o divórcio ou a proteção da maternidade. Essa diferença estrutural expõe projetos políticos distintos, frequentemente incompatíveis, mas tratados como universais pelo feminismo branco.

O que Angela Davis antecipa, com impressionante clareza, é aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade: a compreensão de que as opressões de gênero, raça e classe se constituem mutuamente e não podem ser analisadas separadamente. Mulheres, raça e classe permanece, assim, uma obra fundamental para desmontar narrativas feministas excludentes e para pensar lutas emancipatórias que não reproduzam as hierarquias que pretendem combater.


Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama,  EUA, em 1944. É uma filósofa e ativista socialista estadunidense. 


MIGRAÇÃO E TRABALHO DOMÉSTICO

 


MULHER NORDESTINA EM SÃO PAULO

Identidade – Metamorfose – Emancipação

PAULA COATTI FERREIRA

APPRIS – 1ª ED. – 2022

160 páginas

Mulher nordestina em São Paulo, de Paula Coatti Ferreira, constrói um retrato sensível e ao mesmo tempo rigoroso da trajetória de uma mulher nordestina desde a infância e o início da vida adulta no Nordeste até sua migração para o Sudeste, onde trabalhará como empregada doméstica durante toda a vida, vindo a se aposentar no Guarujá, em São Paulo. A narrativa acompanha não apenas o deslocamento geográfico, mas sobretudo o processo subjetivo e social dessa mulher, marcado por rupturas, adaptações e resistências cotidianas.

O caminho de sua emancipação e de conquista de autonomia é longo e não se dá por grandes viradas, mas por pequenas etapas acumuladas ao longo do tempo. O estudo aparece como elemento central desse processo, funcionando como instrumento de ampliação de horizontes, fortalecimento da autoestima e possibilidade concreta de transformação. No entanto, o livro não romantiza esse percurso: a emancipação é apresentada como algo lento, frágil e constantemente tensionado pelas condições materiais da vida.

Ao mesmo tempo, a obra é um retrato contundente da experiência de mulheres nordestinas que migram para o Sudeste em busca de trabalho. Preconceito, racismo, pobreza e desigualdades estruturais atravessam essa trajetória, revelando como gênero, classe e origem regional se entrelaçam para produzir formas específicas de exclusão. Mulher nordestina em São Paulo dá visibilidade a vidas frequentemente invisibilizadas, convidando o leitor a reconhecer a complexidade dessas histórias e a força silenciosa que sustenta sua sobrevivência e transformação.


Paula Coatti Ferreira é doutora em psicologia e mestre em Teologia. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E FORÇA DAS MULHERES


 

RASTROS DE RESISTÊNCIA: Histórias de luta e liberdade do povo negro

ALE SANTOS

PANDA BOOKS – 1ª ED. – 2019

136 páginas

AUDIOLIVRO

Rastros de Resistência, de Ale Santos, recupera diversas histórias de luta e resistência do povo negro no Brasil e na África. O livro apresenta relatos sobre personagens e eventos pouco conhecidos, revelando trajetórias que foram apagadas da história oficial. Para quem, como eu, ainda desconhecia muitas dessas histórias, a obra é um importante instrumento de conhecimento e valorização da memória negra.

O autor aborda reinos africanos que existiam antes da colonização e que foram apagados das narrativas históricas dominantes, resgatando figuras centrais, como líderes, rainhas e guerreiras, cuja força e coragem inspiram as lutas atuais. Seguindo a linha de pensamento de Léonora Miano, que afirma ser necessário reavivar a história, especialmente a das mulheres, Santos cumpre um papel essencial ao trazer à tona memórias esquecidas, mostrando como o passado fortalece as lutas presentes.

O audiobook é complementado por um PDF com imagens e quadros que retratam tanto o racismo quanto os grandes líderes e heroínas negras, proporcionando uma experiência completa de aprendizado e reflexão.


Alexandre de Oliveira Silva Santos mais conhecido como Ale Santos nasceu em Cruzeiro – SP, em 1986. É um escritor, roteirista, ativista brasileiro. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE NEGRA E INVENÇÃO DE CONCEITOS


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTSFLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


A TRAJETÓRIA DE IANA MATEI

 


À VENDA: Minha luta contra o tráfico sexual na Europa

IANA MATEI

BESTSELLER – 1ª ED. – 2012

240 páginas

À Venda, de Iana Matei, é um relato comovente e corajoso sobre a luta contra o tráfico sexual na Europa. Psicóloga e fundadora de um abrigo na Romênia para vítimas de exploração sexual, Matei narra sua trajetória pessoal, desde a fuga da Romênia e exílio na Austrália, onde começou a trabalhar voluntariamente com pessoas em situação de rua, transformando essa experiência em uma organização de apoio, até o retorno à Romênia, quando se depara com a realidade brutal da prostituição forçada. Ela percebe que não se trata apenas de prostituição voluntária, mas da venda de meninas menores de idade, traficadas por toda a Europa. Com isso, decide abrir um abrigo para acolher essas meninas e iniciar um trabalho doloroso, complexo e essencial, diante da negligência das autoridades.

O livro apresenta histórias das meninas acolhidas, narrando os abusos sofridos sem recorrer a exageros ou voyeurismo — prática que Matei condena, inclusive por parte de jornalistas ávidos por detalhes sórdidos. O foco é reconstruir a vida física e psíquica dessas jovens para que possam alcançar alguma normalidade, embora, infelizmente, em alguns casos, a reintegração não seja permanente.

Matei descreve a falta de compreensão de diversos setores — judiciário, polícia, autoridades, jornalistas, pais e sociedade em geral — que muitas vezes não distinguem as vítimas, enganadas e forçadas a prostituir-se, de mulheres que exercem a prostituição voluntariamente. As meninas acolhidas geralmente vêm de lares violentos ou disfuncionais, são frágeis, carentes e pobres, e muitas foram seduzidas ou aliciadas por conhecidos, mulheres ou amigos que prometiam empregos ou amor.

A autora também expõe a corrupção e a impunidade que favorecem os traficantes, que podem subornar autoridades ou contratar bons advogados, recebendo, na maioria das vezes, penas leves. O maior medo das meninas é reencontrar os traficantes, o que muitas vezes as impede de sair do abrigo para estudar ou trabalhar.

A luta de Matei e das educadoras é intensa, exigindo paciência, firmeza e, por vezes, medidas duras no trato verbal e comportamental, para que as meninas reaprendam a confiar. Matei defende, acima de tudo, a educação como ferramenta para combater o problema, diante da ineficácia das autoridades em conter a rede de tráfico, que opera por toda a Europa, transferindo vítimas para dificultar sua localização.

O tema é árido e doloroso, mas Matei apresenta-o com força, clareza e humanidade. Ela não omite a realidade, mas insiste na dignidade das meninas e na urgência de ações concretas. Sua coragem, enfrentando traficantes de frente e trabalhando para reconstruir vidas destruídas, torna este livro leitura essencial.

Iana Matei é uma ativista romena e fundadora da Reaching Out Romania, uma organização que visa encontrar e reabilitar vítimas de prostituição forçada e tráfico sexual. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE E MILITÂNCIA COMO PRÁTICA INSEPARÁVEL


 

CONTINUO PRETA: A VIDA DE SUELI CARNEIRO

BIANCA SANTANA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2021

296 páginas 

Neste livro, Bianca Santana presta uma homenagem sensível e politicamente necessária a Sueli Carneiro, acompanhando sua trajetória de vida e de luta. A narrativa parte da infância e da adolescência e segue até a militância, revelando o caminho percorrido por uma mulher negra que enfrentou, desde cedo, os múltiplos obstáculos impostos pelo racismo estrutural no Brasil.

Ao longo do livro, emerge a força, a coragem e a determinação de Sueli Carneiro, não como atributos abstratos, mas como respostas concretas a um contexto marcado pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação sistemática de direitos. Bianca Santana constrói o retrato de uma intelectual e ativista cuja formação política se dá tanto na experiência cotidiana do racismo quanto na elaboração teórica e na ação coletiva.

Mais do que uma biografia no sentido tradicional, o livro funciona como um testemunho da importância de Sueli Carneiro para o pensamento feminista negro, para a luta antirracista e para a construção de uma sociedade mais justa. É uma leitura que evidencia como a trajetória individual se entrelaça com a história social e política do país, mostrando que resistir, pensar e agir são dimensões inseparáveis de uma mesma luta.


Bianca Santana nasceu em São Paulo em 1984. É jornalista, escritora e militante feminista negra brasileira. 


QUANDO DIVERSIDADE NÃO BASTA: A URGÊNCIA DA INCLUSÃO REAL

 


IMPERFEITOS: um relato íntimo de como a inclusão e a diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho

JULIE GOLDCHMIT

MAQUINARIA EDITORIAL – 1ª ED. – 2022

156 páginas 

Este livro é o relato da trajetória de Julie — uma jovem inteligente, capaz, dedicada e persistente. Costuma-se acrescentar a essa frase um “mas”: mas ela é autista. Esse “mas”, no entanto, revela mais sobre a sociedade do que sobre Julie. Ele denuncia a dificuldade coletiva de aceitar que pessoas são diferentes, inclusive aquelas consideradas “normais”. Tudo o que escapa ao padrão hegemônico tende a ser classificado como anormal, deficiente, doente ou problemático.

Julie teve algo fundamental: uma família que a acolheu sem vitimizá-la. Seus pais a protegeram quando necessário, mas sobretudo a incentivaram a seguir, a tentar, a não desistir, mesmo diante de obstáculos severos, da maldade humana e de crises intensas de ansiedade. Quando criança, ouviu de um médico que provavelmente nunca falaria nem andaria. Sua mãe simplesmente não aceitou esse veredicto e Julie falou, andou e construiu seu próprio caminho.

O período escolar foi particularmente difícil. As diferenças no ritmo de aprendizado e na forma de compreender o mundo a colocaram em constante tensão com um sistema educacional que, apesar do discurso de inclusão, raramente está preparado para lidar com a diversidade real. O bullying esteve presente, mas Julie conseguiu concluir o ensino médio. A faculdade, no entanto, foi descartada: um ambiente que exige autonomia plena e oferece pouca segurança não parecia, naquele momento, um espaço possível. A alternativa foi o mercado de trabalho.

É nesse ponto que o livro se torna especialmente incisivo. Julie relata, com clareza e honestidade, o abismo entre diversidade e inclusão. Muitas empresas afirmam valorizar a diversidade, mas não constroem condições reais para que pessoas diferentes permaneçam, cresçam e contribuam. Ela foi alvo da crueldade de uma chefe incapaz de compreender suas necessidades, mas também encontrou outra que a ensinou, a respeitou e reconheceu seu potencial.

Quando precisou deixar o emprego em um banco devido à mudança da sede, Julie enfrentou meses de busca por trabalho marcados pelo preconceito e pela incompreensão de recrutadores e departamentos de RH. A lógica das cotas — cumprir a exigência legal e encerrar o assunto — aparece como um dos grandes limites da inclusão contemporânea. Ainda assim, ela encontrou, finalmente, uma empresa que oferecia o que era essencial: estrutura, apoio, compreensão e uma verdadeira rede de acolhimento. Ali, pôde trabalhar de fato, contribuir, produzir, como sempre foi capaz de fazer.

Ao longo de sua trajetória, Julie encontrou pessoas generosas, amigas verdadeiras, mas também o que há de mais duro no preconceito humano. O livro intercala sua narrativa com apartes sobre legislações e reflexões a respeito de pessoas autistas e de pessoas com deficiências físicas e mentais, categorias que, muitas vezes, servem mais para limitar do que para compreender.

Imperfeitos nos lembra de algo fundamental: pessoas diferentes continuam sendo sujeitos de suas próprias vidas. São capazes de criar, trabalhar, estudar e produzir, desde que encontrem ambientes que não as violentem em nome da normalidade. Mais do que uma autobiografia, este é um livro que interpela o mercado de trabalho, as instituições e cada um de nós.


Julie Goldchmit é brasileira e assistente de marketing  


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A MATERNIDADE NEGRA SOB O RACISMO ESTRUTURAL

 

MATERNIDADE TEM COR?

Narrativas de mulheres negras sobre maternidade

LUARA PAULA VIEIRA BAIA

APPRIS – 1ª ED. - 2021

173 páginas

Maternidade tem cor? apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura recomendo fortemente.

Em uma sociedade que ainda sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher, pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.

Mesmo diante do amor intenso por seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem a mesma experiência.

Mas o que significa ser mãe quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços. Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a “fêmeas” que produziam trabalhadores.

E hoje? O que significa ser mãe quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.

O livro mostra que essa realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra. Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de serem mães.

Nas narrativas que a autora reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez como estratégia de sobrevivência.

Trata-se de uma obra impactante, que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.


Luara Paula Vieira Baia possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais


SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020

304 páginas 

Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira.