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domingo, 29 de março de 2026

ESCREVER COMO RESISTÊNCIA

 

DIÁRIOS DE RAQQA

A história real do estudante que desafiou o Estado Islâmico, foi jurado de morte e conseguiu fugir de uma cidade sitiada

SAMER

GLOBO CLUBE - 1ª ED. – 2017

112 páginas

É um livro bem curto, mas de uma densidade imensa. Comecei a ler e não larguei até terminar.

 Um jovem de 24 anos que vive em Raqqa, na Síria, de repente vê o Daesh - mais conhecido por Estado Islâmico - invadir sua cidade. A partir desse momento, o que já não estava bom, em função da guerra civil síria contra o ditador Assad, torna-se mil vezes pior. o Daesh impõe a sharia - ou aquilo que eles consideram ser a sharia - e executam todos os que não lhes obedecem.

Além disso, exploram um povo já empobrecido ao extremo, literalmente roubando o pouco que lhes restava por meio de taxas e multas que eles próprios inventam.

Samer, pseudônimo do autor, relata o dia a dia dessa vida sob terror. Recorda também os bons momentos de antes, enquanto vive permanentemente no medo e na insegurança.

Como se não bastasse, os russos bombardeiam a cidade. É em um desses ataques que ele perde o pai, quando sua casa é atingida. A mãe passa a viver desesperada com o que possa acontecer ao filho, sobretudo porque ele, quando estudante na universidade, participou dos movimentos rebeldes.

Quando Samer descobre que foi jurado de morte pelo Estado Islâmico, finalmente reúne coragem para deixar tudo e todos para trás e consegue fugir.

Mas enquanto esteve lá, arriscou-se ao máximo. Queria que o Ocidente e outros países soubessem o que estava acontecendo em Raqqa, na esperança de uma ajuda que nunca veio. Ele conseguiu transmitir seu diário para fora do país, e o material chegou à BBC. Se fosse descoberto, teria sido imediatamente morto.

São esses relatos que compõem este livro.


Samer é um pseudônimo de um jovem que conseguiu escapar de Raqqa. Atualmente ele vive em um campo de refugiados.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

A FILOSOFIA DAS MULHERES NOS ESCRITOS DE SI


 

HISTÓRIA DA MINHA VIDA

GEORGE SAND . Compilado por Magali Oliveira Fernandes

EDITORA UNESP – 1ª ED. 2017

650 páginas

Neste livro, George Sand narra a própria vida desde a infância até a idade adulta, relatando experiências, desafios, afetos e escolhas que marcaram sua trajetória pessoal e intelectual.

A narrativa se inicia com a infância passada na propriedade rural da família, onde viveu até a adolescência. Sand descreve com riqueza de detalhes a paisagem e a atmosfera do campo, bem como sua paixão precoce pela leitura e pela escrita, já apontando para uma sensibilidade atenta ao mundo e às palavras.

À medida que o relato avança para a juventude, a narrativa ganha densidade. Surgem os primeiros amores e o casamento arranjado com o barão Casimir Dudevant, que se revela uma união infeliz. George Sand relata então a decisão corajosa de abandonar o marido e mudar-se para Paris, gesto radical para uma mulher de seu tempo. É nesse contexto que se envolve plenamente com a literatura e se consolida como uma escritora reconhecida.

Ao longo do livro, Sand fala de suas amizades com figuras centrais da vida literária francesa, como Gustave Flaubert, Victor Hugo e Alfred de Musset, além de abordar sua luta pelos direitos das mulheres e sua participação nos acontecimentos da Revolução de 1848.

A leitura de História da minha vida me levou a refletir sobre como a filosofia das mulheres muitas vezes se encontra menos nos sistemas formais e mais nos relatos, diários, memórias e autobiografias. É nesses escritos que emergem reflexões profundas sobre liberdade, amor, injustiça, criação e existência — pensamentos que, por muito tempo, foram desconsiderados como filosofia justamente por terem sido escritos por mulheres.


George Sand, pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, nasceu em Paris em 1804 e faleceu em Nohant-Vic, França, em 1876. Foi uma romancista e memorialista francesa. 


PANORAMA HISTÓRICO E POLÍTICO DA AMÉRICA LATINA


 

UMA BREVE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA

LORIS ZANATTA

CULTRIX – 1ª ED. – 2017

336 páginas

AUDIOLIVRO

NARRADOR – ZEZA MOTA     EDITOR: GRUPO PENSAMENTO


Uma Breve História da América Latina, de Loris Zanatta, oferece um panorama geral sobre a política e economia da região desde a colonização, a partir de 1800, até os tempos mais próximos do presente. Embora o livro seja resumido e não aprofunde todos os temas, ele fornece uma visão introdutória valiosa para quem, como eu, conhece pouco sobre a história latino-americana, especialmente considerando que o assunto raramente é abordado nas escolas, exceto por eventos isolados como a Guerra do Paraguai.

Zanatta mostra que a América Latina é uma região plural, composta por múltiplos países, tradições, culturas e geografias distintas. Apesar de alguns elementos em comum, como a herança do catolicismo, a colonização europeia e, posteriormente, a influência do imperialismo estadunidense, essas semelhanças não são suficientes para considerá-la uma unidade. A complexidade do continente lembra a observação de Gabriel García Márquez sobre as diferenças entre a Colômbia caribenha e a Colômbia andina, multiplicadas ao se considerar toda a América Latina, incluindo o Brasil, que se distingue ainda mais por suas particularidades.

Para quem tem pouco conhecimento prévio, o livro é um bom ponto de partida, oferecendo um panorama que permite compreender o contexto histórico e político da região antes de se aprofundar em estudos mais detalhados.


Loris Zanatta nasceu em 1962. É professor de História da América Latina na Universidade de Bolonha, Itália. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A FILOSOFIA COMO RESPOSTA AO MUNDO


 

NO CAFÉ EXISTENCIALISTA

SARAH BAKEWELL

OBJETIVA – 1ª ED. 2017

416 páginas 


Em No Café Existencialista, Sarah Bakewell apresenta a história do existencialismo a partir das vidas de alguns de seus principais pensadores, como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Martin Heidegger, entre outros. O livro se constrói no cruzamento entre biografia e pensamento, mostrando como as ideias existencialistas não surgem no abstrato, mas se formam no contato direto com a experiência, as escolhas e os impasses de uma época.

Ao longo da narrativa, Bakewell explora temas centrais do existencialismo — liberdade, responsabilidade individual, engajamento, angústia e a busca por sentido — sempre ancorando esses conceitos em situações concretas. O existencialismo aparece menos como um sistema fechado e mais como uma resposta viva às circunstâncias históricas e pessoais enfrentadas por seus autores.

Uma das abordagens mais interessantes do livro é a forma como a autora entrelaça o desenvolvimento do existencialismo com a cultura e o clima intelectual do século XX. O movimento é contextualizado na Europa do pós-guerra, marcada pela experiência da guerra total, pelo genocídio e por uma profunda crise de valores e identidade. Nesse cenário, pensar torna-se uma urgência ética, e não apenas um exercício teórico.

Bakewell mostra ainda como o existencialismo ultrapassou os limites da filosofia acadêmica e influenciou a literatura, as artes e a cultura em geral. O movimento tornou-se um fenômeno cultural, presente em romances, peças de teatro, filmes e debates públicos, moldando uma sensibilidade que ainda hoje nos interpela.

No Café Existencialista é uma leitura envolvente e esclarecedora, ideal tanto para quem deseja uma introdução ao existencialismo quanto para quem busca compreender como filosofia, vida e história se entrelaçam de forma indissociável.


Sarah Bakewell nasceu em Bournemouth, Inglaterra, em 1963. É uma autora e professora britânica. 


A HISTÓRIA SILENCIADA DA HANSENÍASE NO BRASIL

 


A PRAGA: O holocausto da hanseníase

Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

MANUELA CASTRO

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2017

280 páginas 

Em A Praga, Manuela Castro traz à tona uma das páginas mais violentas e silenciadas da história brasileira: a política de isolamento compulsório das pessoas diagnosticadas — ou apenas suspeitas — de hanseníase. Mais do que uma narrativa médica, o livro revela um projeto de exclusão social legitimado pelo Estado, sustentado pelo medo, pelo estigma e pela desumanização.

No Brasil, homens e mulheres eram arrancados de suas casas, afastados das famílias e confinados em leprosários. O pânico social era tão intenso que, muitas vezes, eram os próprios familiares que denunciavam os suspeitos. No caso das mulheres grávidas, a violência se aprofundava: seus bebês eram retirados imediatamente após o nascimento, sem qualquer possibilidade de vínculo, e enviados para educandários. Muitos eram transportados em cestas, junto a outros recém-nascidos, chamados cruelmente de “ninhada de leprosos”.

As consequências dessa política sanitária foram devastadoras. Milhares de pessoas passaram décadas confinadas, enquanto seus filhos cresciam separados, igualmente marcados pelo estigma. O livro expõe, sem rodeios, os maus-tratos sofridos nesses espaços: surras, castigos, humilhações e, de forma ainda mais trágica, casos de abuso sexual contra meninas institucionalizadas. A violência não era exceção — era estrutural.

O que mais choca é constatar que, mesmo após a comprovação da cura da hanseníase, o Brasil levou anos para pôr fim ao confinamento obrigatório. Quando finalmente libertas, essas pessoas se viram sem lugar no mundo: não tinham para onde ir, não conseguiam trabalho e continuaram sendo tratadas como párias sociais. O estigma não terminou com o fim do isolamento — ele se perpetuou.

Muitos acabaram permanecendo nas antigas colônias, que só muito recentemente começaram a ter seus territórios reconhecidos legalmente, com a concessão de títulos de propriedade. Foi necessária uma longa e árdua luta para que o Estado assumisse minimamente sua responsabilidade. Durante o governo Lula, foi sancionada a lei que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos que ficaram impossibilitados de trabalhar. Hoje, a luta segue sendo travada pelos filhos, igualmente afetados por essa política de exclusão, em busca do mesmo reconhecimento e reparação.

A Praga é um livro duro, necessário e profundamente político. Ele nos obriga a encarar como o medo, quando institucionalizado, pode se transformar em uma máquina de produção de sofrimento — e como certas formas de violência continuam ecoando por gerações.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica. 



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SOLIDÃO, DINHEIRO E FÉ: UM RETRATO MORAL DA SOCIEDADE QUE AINDA NOS ATRAVESSA

 


SILAS MARNER: O TECELÃO DE RAVELOE

GEORGE ELIOT

JOSÉ OLYMPIO – 1ª ED. 2017

238 páginas 

Há livros que encontram o leitor no momento certo. Silas Marner é um desses. Em tempos difíceis, George Eliot oferece um romance que, sem ingenuidade, insiste em pensar a possibilidade da mudança individual, da reparação e da bondade — mesmo em um mundo atravessado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela mentira e pela culpa.

A narrativa acompanha a vida do tecelão Silas Marner, um homem marcado por sucessivas perdas, injustiças e exclusões. Vítima de uma acusação falsa e de uma comunidade religiosa rígida e hipócrita, Silas se afasta do convívio social e passa a viver de forma isolada, quase automática, concentrando sua existência na repetição do trabalho e na acumulação de dinheiro. Não por ambição, mas por medo: o ouro torna-se seu único vínculo com o mundo, uma falsa promessa de segurança.

George Eliot constrói, ao longo do romance, uma crítica severa aos valores sociais e morais de sua época, crítica que permanece atual. A religião aparece como espaço de controle e exclusão; a vida comunitária, como lugar de julgamentos precipitados; o dinheiro, como substituto empobrecido dos vínculos humanos. Ainda assim, Eliot não cai no cinismo. Há, em Silas Marner, uma aposta deliberada na possibilidade de transformação.

Uma frase do livro sintetiza esse movimento: “Quando um homem fecha a porta para uma bênção, ela pertence a quem a acolhe.” A ideia de bênção, aqui, não é religiosa, mas ética. O que se perde pela recusa, pelo endurecimento ou pelo apego excessivo pode se deslocar, encontrar outro corpo, outra forma de vida. Nada está definitivamente perdido.

Embora não esteja entre os romances mais famosos de George Eliot, Silas Marner concentra muitos de seus temas centrais: a amargura produzida pela exclusão social, a crítica às instituições morais, a desconfiança em relação a soluções coletivas abstratas e a ênfase na transformação ética individual. Eliot nunca foi uma autora interessada em movimentos sociais ou revoluções externas; sua aposta estava na mudança lenta, silenciosa, íntima.

Há também algo de autobiográfico nesse romance. A marginalidade de Silas, sua obsessão pelo trabalho, seu afastamento da vida social e sua relação ambivalente com o dinheiro ecoam aspectos da própria experiência de Eliot — uma mulher intelectual que viveu à margem das convenções e desconfiava profundamente dos julgamentos morais da sociedade.

Silas Marner é, assim, um livro discreto e profundo. Um romance que não promete salvação fácil, mas que insiste em algo cada vez mais raro: a possibilidade de redenção sem espetáculo, de bondade sem heroísmo, de mudança sem ilusões.



George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

NÃO É O FUTURO: É O PATRIARCADO EM PLENO FUNCIONAMENTO

 


O CONTO DA AIA

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2017

368 páginas 

O Conto da Aia não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já não tenha existido. Apenas reorganiza.

A República de Gilead surge após um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred — “do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.

A violência em Gilead não se dá apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.

Atwood é particularmente incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.

A narração em primeira pessoa é fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos, enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição. Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável, reversível. Não era.

O corpo feminino, em O Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função. Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da subjetividade.

Mais do que uma distopia, o romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade? O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga primeiro esse preço?

O Conto da Aia permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é exercício de imaginação — é exercício de vigilância.

No fim, a narrativa de Offred não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer corpos dóceis, a palavra ainda é risco.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quando tudo muda para que tudo permaneça igual

 


O LEOPARDO

GIUSEPE TOMASI DI LAMPEDUSA

Companhia das Letras – 1ª ed. 2017

384 páginas 

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, estava na minha lista de leitura havia algum tempo. Quando vi que a Netflix lançará uma minissérie baseada no livro, resolvi passá-lo à frente. Gosto de ler o livro antes de ver filmes ou séries. Publicado em 1958, ele já havia sido adaptado para o cinema por Luchino Visconti.

O romance é inspirado no bisavô paterno do autor e narra a vida de uma família aristocrática siciliana, os Salina, entre as décadas de 1860 e 1910, período em que ocorre o Risorgimento — o processo que culmina na unificação da Itália — e em que a Sicília é anexada ao Reino da Sardenha. Os Bourbons, que governavam até então, são substituídos pela burguesia liberal e pela dinastia de Saboia. Garibaldi, figura central desse processo histórico, também aparece como referência. Esse é o pano de fundo da narrativa, embora o foco principal recaia sobre o príncipe Fabrizio — o Leopardo, nome que remete ao animal presente no brasão da família.

Durante a leitura, lembrei-me diversas vezes de Tolstói e de suas descrições da aristocracia russa. As minúcias, os detalhes que à primeira vista parecem fúteis, mas que revelam com precisão o modo de vida dessas famílias: o mobiliário, os tapetes, as louças, os quadros, a curvatura do lustre e, claro, os cardápios servidos — e a quem eram servidos.

O sobrinho do príncipe, Tancredi, adere ao movimento de unificação, mas assegura que, ao final, nada realmente mudará. Fabrizio percebe que ele tem razão: a Sicília continuará sendo a mesma, apenas sob outro domínio.

O sogro de Tancredi representa a burguesia liberal emergente. Há passagens marcantes em que Dom Calogero e o príncipe são colocados frente a frente, evidenciando a distância que os separa. A arte, para um, tem valor monetário; para o outro, é beleza — apenas para citar um exemplo. Aos poucos, o príncipe é tomado por uma melancolia profunda. O romance traz cenas pungentes que acompanham a decadência de um mundo e o surgimento de outro. Fabrizio assiste ao desmoronamento do universo ao qual pertence, sem que possa fazer algo para detê-lo.

O livro também expõe as questões sociais — a pobreza, a exploração e a opressão — observadas pelo olhar do príncipe ou em suas conversas com outros personagens. Nada disso se transforma com a chegada do capitalismo.



Giusepe Tomasi Di Lampedusa nasceu em Palermo em 1896 e faleceu em Roma em 1947. Foi um escritor italiano