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quinta-feira, 2 de abril de 2026

AMOR, ESCOLHA E QUEDA COMPARTILHADA

 


PARAÍSO PERDIDO

 JOHN MILTON

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2018

513 páginas

Paraíso Perdido é um poema épico do Século XVII, publicado originalmente em 1667, no qual John Milton reconta, a partir do Gênesis, a queda de Satã, a criação do mundo e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A epopeia narra a luta entre Deus e Satã, que culmina com a expulsão deste e de suas hordas do Céu. Movido pela vingança, Satã decide destruir a obra recém-criada por Deus: a Terra e seus dois primeiros humanos.

Após perder o direito de permanecer no Céu, Satã e seus seguidores - todos anjos decaídos - encontram-se em um abismo profundo, árido e em chamas: o inferno, cercado por nove muralhas. O castigo não apazigua sua ira. Dominado pela cobiça, pela inveja e pelo ódio, Satã descobre que Deus criou um novo Paraíso, no qual uma nova humanidade poderia, caso permanecesse fiel, serem alçados ao céu e ocupar os lugares deixados vagos pelos anjos destituídos. É esse conhecimento que o impulsiona a agir.

Satã parte em busca do Paraíso e, para isso, alia-se à Culpa e à Morte, que lhe abrem as portas do inferno. Deus, que tudo vê e tudo sabe, acompanha seus movimentos e anuncia ao Filho que Satã alcançará seu objetivo: Adão e Eva cairão, e a culpa e a morte recairão sobre eles. O Filho, então, oferece a própria vida para redimir a humanidade, proposta aceita por Deus.  

Os anjos tentam proteger o Paraíso. O Arcanjo Rafael vai até Adão e lhe relata os acontecimentos do Céu, a guerra entre os anjos e a astúcia do inimigo que agora ronda o Éden. Adverte-o a obedecer ao único mandamento divino: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, do contrário estariam perdidos, assim como toda a sua descendência.

Adão demonstra fé absoluta e acredita que jamais desobedecerá, assim como Eva, sua amada esposa. Satã, porém, descobre a proibição e decide agir por meio da sedução. Sabendo que Adão seria mais difícil de convencer, escolhe Eva como alvo. Disfarça-se de serpente – o animal mais astuto – e se aproxima dela enquanto ela cuida do jardim sozinha. Eva havia sugerido a separação para que o trabalho fosse feito mais rapidamente. Adão, lembrando-se dos avisos de Rafael, tenta dissuadi-la, mas acaba cedendo diante da tristeza dela, que interpreta sua preocupação como desconfiança.

Sozinha, Eva encontra a serpente, que fala com eloquência e persuasão. Assustada, ela questiona como um animal pode falar, ao que a serpente responde que foi graças ao fruto de uma árvore que adquiriu tal capacidade. Afirma ainda que o fruto, além de delicioso, concederia a Eva maior inteligência e a tornaria semelhante a uma deusa. Eva pede então que lhe mostre a árvore e, ao reconhecê-la como a árvore proibida, hesita. A serpente a tranquiliza, dizendo estar viva, feliz e saudável. Diante disso, Eva começa a duvidar da gravidade da proibição e, por fim, come o fruto.

 

Encantada com o sabor e com a sensação que experimenta, Eva retorna até Adão e lhe oferece o fruto. Adão, horrorizado ao perceber o que ocorreu, decide comer também, movido pelo amor que sente por ela e pela recusa em ter um destino diferente do de sua companheira. Com esse gesto, consuma-se a queda.

Após o ato, tudo se transforma. Surge a animosidade entre eles, o amor deixa de ser puro e a harmonia do mundo natural se rompe. Animais antes pacíficos passam a se perseguir, alguns se tornam predadores, outros presas. Criaturas que antes lhes obedeciam tornam-se ferozes. O Paraíso chega ao fim.  

Adão e Eva percebem então sua nudez, e a vergonha – inexistente até então – surge. Cobrem-se com folhas de figueira, enquanto a culpa e a morte, conforme o pacto com Satã, entram no mundo. Embora não morram imediatamente, sentem o peso da transgressão. A esperança persiste, pois Deus, apiedado pelo arrependimento humano, poupa-lhes a morte imediata graças ao acordo feito previamente com o Filho.

Ainda assim, o castigo precisa ser cumprido. Deus anuncia que Eva dará à luz com dor, que a serpente será sua inimiga até ter a cabeça esmagada por uma mulher, e que Adão deverá trabalhar e suar para obter o sustento. A serpente passa a rastejar. O Arcanjo Miguel conduz o casal para fora do Paraíso, fecha suas portas e coloca anjos como guardiões. Antes, porém, mostra a Adão, do alto de um monte, o futuro da humanidade, desde a queda até o nascimento de Jesus, fruto de uma virgem – aquela que esmagará a cabeça da serpente.

Quanto a Satã e seus companheiros, ao retornarem ao Inferno esperando glória por sua façanha, são transformados em serpentes. Algum tempo depois, retomam suas antigas formas, perpetuando o ciclo de orgulho, punição e queda.  


John Milton nasceu em Londres em 1608 e faleceu na mesma localidade em 1674. Foi um poeta, polemista, intelectual e funcionário público inglês. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A MORTE COMO POLÍTICA

 


NECROPOLÍTICA

ACHILLE MBEMBE

N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018

80 páginas

Em Necropolítica, Achille Mbembe, propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e, sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica, Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao abandono e à violência contínua.

O autor localiza as origens da necropolítica na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes aplicados a populações racializadas.

Mbembe amplia essa análise ao observar como essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e capitalista.

Necropolítica exige uma leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua potência explicativa e sua urgência ética.

O livro não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório precisa começar por esse reconhecimento.


Achille Mbembe nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político, historiador e professor camaronês. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ENTRE A ARQUEOLOGIA E O MITO: QUEM FORAM, DE FATO, OS CELTAS


 

OS CELTAS: DA IDADE DO BRONZE AOS NOSSOS DIAS

JOHN HAYWOOD

EDIÇÕES 70 – 2ª ED. - 2018

316 páginas

Fiquei muito satisfeita ao encontrar este livro, justamente por ele oferecer aquilo que eu buscava: uma contextualização histórica sólida sobre os povos celtas. Há hoje uma profusão de mitos, lendas e leituras contemporâneas que revestem os celtas de um misticismo difuso, muitas vezes associado a discursos new age. Meu interesse, no entanto, era a história e nesse ponto o livro de John Haywood atende plenamente às expectativas.

A obra percorre a trajetória dos celtas desde a Idade do Bronze, acompanhando sua expansão pela Europa muito antes, e também durante, o contato com o mundo romano. Um dos méritos centrais do livro é desfazer a ideia, ainda muito difundida, de que os celtas se restringiam à Irlanda ou à costa francesa. Haywood mostra que esses povos têm origem na região dos Alpes e se espalharam por vastas áreas do continente europeu, alcançando inclusive os territórios ibéricos.

Baseado em pesquisas arqueológicas, fontes históricas e estudos comparativos, o autor constrói um panorama amplo das diversas sociedades celtas. O livro aborda suas crenças, suas formas de organização social, suas guerras, sua visão de mundo e seus modos de vida, sem recorrer a idealizações românticas ou projeções contemporâneas.

Ao longo da leitura, torna-se claro que não existia “um” povo celta homogêneo, mas uma pluralidade de culturas relacionadas por línguas, práticas e estruturas simbólicas, que variavam conforme o tempo e o território. Essa abordagem contribui para desmontar imagens cristalizadas e essencialistas que ainda circulam com força no imaginário popular.

Os Celtas é, portanto, uma leitura fundamental para quem deseja compreender esses povos para além da fantasia e do exotismo. Ao desmistificar grande parte do discurso espiritualizado que o new age construiu sobre eles, o livro restitui aos celtas sua complexidade histórica e, com isso, nos lembra que conhecer o passado exige, antes de tudo, rigor e disposição para abandonar confortos narrativos.


John Haywood nasceu em 1956. É um historiador britânico.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

A MASCULINIDADE SOB O PATRIARCADO

 

O HOMEM SUBJUGADO

O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo

MALVINA E. MUSZKAT

SUMMUS EDITORIAL – 1ª ED. – 2018

176 páginas

O Homem Subjugado, de Malvina E. Muszkat, oferece uma análise perspicaz sobre a masculinidade vivida pelos homens que, apesar de aparentes privilégios, estão subjugados pelo sistema patriarcal e sofrem com suas imposições. O livro revela como muitos homens não refletem sobre si mesmos nem sobre sua própria alienação em um sistema que os ilude com uma ideia de poder e superioridade.

A autora, psicanalista, fundamenta suas observações tanto em experiências clínicas quanto em análises de homens de diferentes classes sociais, brancos e negros, na cidade de São Paulo. Muszkat discute como a subjetividade masculina é capturada pela moral patriarcal e pelo imperativo de ser “macho”, forte e invulnerável, evidenciando o sofrimento gerado por essas expectativas.

O livro também examina o papel das mulheres na reprodução e reforço do sistema patriarcal, seja na educação de filhos homens, seja nas expectativas que projetam sobre os homens ao seu redor.

O Homem Subjugado é leitura recomendada não apenas para estudiosos e interessados em gênero, mas especialmente para pais de meninos, oferecendo uma reflexão essencial sobre os dilemas contemporâneos da masculinidade e seus impactos na vida emocional e social dos homens.


Malvina E. Muszkat é psicanalista e especialista em gênero e sexualidade. 

DA PROSTITUTA AO ÍCONE: CONSTRUÇÕES PATRIARCAIS

 

MARIA MADALENA

DA BÍBLIA AO CÓDIGO DA VINCI: COMPANHEIRA DE JESUS, DEUSA, PROSTITUTA E ÍCONE FEMINISTA

MICHAEL HAAG

ZAHAR – 1ª ED. 2018

344 páginas

Maria Madalena, de Michael Haag, é um estudo histórico e cultural sobre a figura que atravessa a tradição bíblica, a arte, a literatura e a imaginação popular. O autor examina como Maria Madalena foi retratada ao longo dos séculos: ora como seguidora devota de Jesus, ora como prostituta, ora transformada em ícone feminista moderno, e até mesmo reinterpretada em narrativas contemporâneas como O Código Da Vinci.

Haag analisa textos históricos, apócrifos e interpretações teológicas, mostrando como a imagem de Maria Madalena foi moldada por visões patriarcais que buscaram minimizar sua importância como discípula e testemunha central da vida de Jesus. Ao mesmo tempo, o livro explora como movimentos modernos e obras culturais ressignificaram sua figura, transformando-a em símbolo de resistência, espiritualidade feminina e poder feminino na tradição religiosa.

O livro convida à reflexão sobre a construção da memória histórica, o papel das mulheres na tradição religiosa e os processos de distorção e ressignificação de figuras femininas ao longo do tempo. Haag demonstra que Maria Madalena não é apenas um personagem histórico, mas um espelho das tensões culturais, religiosas e de gênero que atravessam a história ocidental.


Michael Haag nasceu em 1943. É historiador e escritor 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

DEMOCRACIA: FRÁGIL, IMPERFEITA, NECESSÁRIA

 


COMO AS DEMOCRACIAS MORREM

STEVEN LEVITSKYDANIEL ZIBLATT

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

272 páginas 

Gostaria de recomendar este livro. Diante do que vemos acontecer no mundo, com a ascensão, em diversos países, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, trata-se de uma leitura fundamental para compreendermos que as democracias já não terminam, necessariamente, por meio de golpes militares ou invasões externas. Hoje, muitas vezes, elas se desfazem a partir de dentro, utilizando o próprio processo democrático como instrumento de sua corrosão.

Os autores analisam a eleição de Donald Trump, cujo desfecho, felizmente, ocorreu dentro dos marcos democráticos, mas também examinam outros contextos contemporâneos, como Hungria, Turquia e Venezuela. Além disso, recorrem a exemplos históricos mais explícitos de ruptura institucional, como as ditaduras de Augusto Pinochet, no Chile, e de Alberto Fujimori, no Peru, mostrando diferentes caminhos que conduzem ao autoritarismo.

O ponto central do livro é revelar como líderes eleitos legitimamente passam a enfraquecer gradualmente as instituições, minar a confiança nas regras do jogo democrático e normalizar práticas autoritárias, até que a democracia permaneça apenas como forma, esvaziada de conteúdo. Não se trata de um colapso súbito, mas de um processo lento, muitas vezes aceito ou naturalizado pela sociedade.

Como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. Ainda não conhecemos um sistema melhor e, justamente por isso, vale a pena defendê-la. Em tempos como os atuais, este livro se mostra não apenas relevante, mas necessário, pois nos ajuda a reconhecer os sinais do enfraquecimento democrático antes que seja tarde demais.


Steven Levitsky nasceu em Ithaca, Nova Iorque, em 1968. É um cientista político estadunidense.

Daniel Ziblatt nasceu em 1972. É um cientista político estadunidense. 


 


ENTRE CIDADES, DEUSES E MULHERES: O INÍCIO DA HISTÓRIA ESCRITA

 

BABILÔNIA

A Mesopotâmia e os nascimento da civilização

PAUL KRIWACZEK

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

382 páginas 

O livro se inicia partindo do Iraque contemporâneo para, em seguida, mergulhar na longa duração da história mesopotâmica, desde cerca de 5.400 A.E.C. Esse movimento entre presente e passado não é apenas narrativo: ele nos lembra que a chamada “origem da civilização” não é um vestígio distante e morto, mas algo inscrito em territórios ainda hoje marcados por disputas, violência e apagamentos.

Paul Kriwaczek oferece uma grande quantidade de informações sobre a Mesopotâmia, os sumérios e, mais adiante, a Babilônia. O livro percorre o surgimento das cidades, da escrita, das leis, da administração e da religião, compondo um quadro amplo do que costumamos chamar de “nascimento da civilização”.

Um aspecto especialmente relevante, e ainda raro em muitas obras de história antiga, é a atenção dedicada às mulheres. Fiquei particularmente satisfeita ao encontrar referências consistentes a figuras femininas e à atuação das mulheres em diferentes contextos sociais e religiosos. Destaca-se a presença de Enheduana, filha de Sargão de Acádia, considerada a primeira autora conhecida da história, cuja produção literária e religiosa revela a centralidade do feminino no imaginário e na organização simbólica da época.

A deusa Inana (mais tarde Ishtar) também ocupa um lugar importante na narrativa, evidenciando a força das divindades femininas na Mesopotâmia e a complexidade de seus atributos — erotismo, guerra, fertilidade e poder. Além disso, o livro traz informações sobre mulheres assírias, ampliando o olhar para além das figuras mais conhecidas e mostrando que o feminino não estava ausente das estruturas sociais e políticas dessas civilizações.

Babilônia é, assim, uma leitura que contribui não apenas para compreender a Mesopotâmia como berço da civilização, mas também para questionar a ideia de que esse nascimento foi exclusivamente masculino. Ao incluir as mulheres — ainda que timidamente em alguns momentos, o livro aponta para uma historiografia que começa, finalmente, a reconhecer o que durante tanto tempo foi silenciado.


Paul Kriwaczek nasceu em Viena, Áustria, em 1937 e faleceu em Londres, em 2011. Foi um historiador que passou uma década trabalhando no Irã e no Afeganistão. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

UM MITO FUNDADOR E SUAS LEITURAS AO LONGO DO TEMPO

 



ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA

STEPHEN GREENBLATT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2018

392 páginas 

Provavelmente o mito de origem mais conhecido no Ocidente é o de Adão e Eva. Em Ascensão e Queda de Adão e Eva, Stephen Greenblatt retoma esse mito fundador e o esmiúça com atenção histórica e cultural. Trata-se de um relato que atravessa séculos e permanece ativo até os dias atuais, exercendo influência profunda sobre a moral, a arte, a religião e o pensamento ocidental.

Para a história das mulheres, esse mito é fundamental. Nele se consolida a imagem de Eva como a pecadora, a sedutora, aquela que provoca a queda e inaugura o pecado original. Uma narrativa que, reiterada ao longo do tempo, sustentou justificativas teológicas, morais e sociais para a subordinação feminina.

Greenblatt percorre as múltiplas leituras feitas do mito, examinando sua presença nas artes visuais, na literatura, na psicologia, na moral cristã e até mesmo na ciência. A análise passa por autores que se debruçaram intensamente sobre o texto bíblico, como Santo Agostinho, empenhado em provar sua historicidade; Albrecht Dürer, com suas representações visuais do casal primordial; e John Milton, em seu magistral Paraíso Perdido.

O autor inicia contextualizando o período em que o mito foi escrito e amplia o horizonte ao aproximá-lo de outras narrativas cosmogônicas, como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh. Dessa forma, o livro revela como a história de Adão e Eva foi sendo reinterpretada ao longo do tempo e como sua influência ultrapassa em muito o campo estritamente religioso, moldando visões de mundo, concepções de gênero e estruturas de poder.


Stephen Greenblatt nasceu em Boston, EUA, em 1943. É um teórico e crítico literário. 




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

UM PAÍS LIDO ATRAVÉS DE SEUS ESCRITORES

 


A LANTERNA MÁGICA DE MÓLOTOV UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA RÚSSIA

RACHEL POLONSKY

TODAVIA – 1ª ED. 2018

368 páginas 

A Lanterna Mágica de Mólotov é um livro no qual Rachel Polonsky empreende uma viagem pela história da Rússia seguindo os rastros de seus principais escritores. A partir desse percurso, a autora nos apresenta não apenas os autores e suas obras, mas também a cultura, a história, as tradições, a sociedade russa — além da fome, do totalitarismo e da violência que atravessaram esse território.

Rachel Polonsky mudou-se para a Rússia em 1990 e foi morar em um edifício que, nos anos stalinistas, era reservado aos servidores mais eminentes do Estado. Entre eles, Mólotov, cruel homem de confiança de Stálin, que possuía uma imensa biblioteca onde se encontravam inclusive livros proibidos de autores russos da época. Essa biblioteca permaneceu no local, e a autora teve acesso a ela — um detalhe perturbador, se lembrarmos que muitos dos escritores ali presentes foram enviados ao Gulag pelo próprio Mólotov.

A partir dessa descoberta, Rachel empreende uma jornada pela Rússia, visitando os locais de nascimento dos escritores, as cidades onde viveram e os espaços que marcaram suas trajetórias. Ao longo do caminho, ela entrelaça a história russa à história desses autores, mostrando como literatura, política e vida se confundem de maneira indissociável.

Aprendi muito sobre a Rússia com este livro, inclusive sobre regiões que hoje estão no centro dos conflitos da guerra na Ucrânia, bem como sobre um outro lado do país, menos conhecido, onde se desenha a nova rota da seda polar e operam os quebra-gelos nucleares. Um livro que ilumina a Rússia por dentro, revelando suas contradições, sombras e camadas históricas.



                    Rachel Polonsky é uma acadêmica britânica especializada em literatura eslava.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

200 páginas 

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

QUANDO A MEMÓRIA DAS MULHERES NEGRAS REVELA A HISTÓRIA QUE O BRASIL INSISTE EM ESQUECER

 


ÁGUA DE BARRELA

ELIANA ALVEZ CRUZ

MALÊ – 5ª ED. – 2018.

322 páginas 

Água de Barrela é um livro de fôlego e de memória. A partir da história das mulheres de sua própria família, Eliana Alves Cruz constrói um relato poderoso da experiência negra no Brasil, atravessando cerca de 150 anos de história — do tráfico negreiro ilegal, já proibido por lei, passando pela Lei do Ventre Livre, pela abolição formal com a Lei Áurea, até alcançar o presente.

O que se revela nesse percurso é menos uma narrativa de superação e mais uma exposição crua daquilo que nunca foi realmente interrompido: a violência estrutural, o abandono do Estado, a negação sistemática da cidadania plena à população negra. Trazidos à força, explorados até o limite, libertos apenas no papel, os corpos negros seguem sendo empurrados para as margens, sem que lhes seja garantido um lugar de igualdade na sociedade brasileira.

Mas Água de Barrela é, sobretudo, um livro sobre mulheres. Mulheres negras que sustentaram famílias, memórias e afetos em meio à precariedade extrema. Há aqui dignidade, força e determinação, não como virtudes romantizadas, mas como estratégias de sobrevivência. As dores, as perdas e as humilhações encontram respiro nas rodas de samba, no candomblé, na palavra compartilhada, nos rituais que mantêm viva a possibilidade de sentido e esperança.

O romance expõe, com clareza incômoda, o funcionamento do racismo cotidiano e estrutural, revelando também o comportamento da elite branca frente à população negra: a naturalização da desigualdade, o distanciamento moral, a herança não elaborada da escravidão. Esse contraste aparece de forma contundente na oposição entre a família Tosta — ligada historicamente à posse de pessoas escravizadas — e a família de Damiana, cuja trajetória é narrada a partir de seu centenário, contado pela bisneta, a própria autora.

Ao entrelaçar essas histórias, Eliana Alves Cruz não apenas recupera memórias silenciadas, mas desmonta a ideia de que o passado escravista é algo distante. Água de Barrela mostra que a história das mulheres negras é também a história do Brasil — uma história ainda em disputa, ainda ferida, ainda exigindo escuta e responsabilidade.



Eliana Alvez Cruz nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É uma escritora e jornalista brasileira. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Maternidade, culpa e o direito de escolher

 


CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane 

Editora Todavia - 1ª ed. 2018

176 páginas 


Lina Meruane é uma escritora chilena. Este é o segundo livro dela que leio; o primeiro foi Sangue nos Olhos. Aqui, trata-se de um ensaio cáustico, crítico, que muitos vão considerar polêmico, pois aborda a maternidade — ou, mais precisamente, a não maternidade.

A autora se posiciona contra o atual “império dos filhos”. Faz alertas importantes sobre como a ideologia da maternidade, tão idealizada, acaba se transformando em imposição sobre as mulheres, e como aquelas que não aceitam esse destino quase sempre são atravessadas pela culpa.

Ela levanta questões às quais todas nós, mulheres, deveríamos prestar atenção. Fala da questão do cuidado, tão em voga hoje; da responsabilidade do pai; e também dos filhos contemporâneos que se impõem sobre os pais. Em um dos capítulos, Meruane se debruça sobre as escritoras e as diferenças entre aquelas que têm filhos e as que não têm, evocando Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

O livro também levanta a questão do capitalismo e de quanto esse sistema precisa que as mulheres permaneçam no lar e procriem, mostrando o quanto ele se sustenta nessa lógica. Além disso, a autora apresenta modelos de maternidade contemporânea — as supermães, as mães neoliberais e as mães ecológicas —, o que torna a leitura ainda mais interessante.

Se há tantos discursos em defesa da maternidade, sempre idealizada, mas sem oferecer respaldo para que uma mulher possa ter filhos sem deixar de ser mulher, profissional ou estudante, louvo a iniciativa de Meruane em sair em defesa daquelas que não querem ser mães. Isso é um direito de cada mulher: fazer sua escolha livremente, sem cobranças, imposições, culpas ou arrependimentos. Recomendo a leitura também a todos e todas que se interessam pelo tema do cuidado.



Lina Meruane nasceu em Santiago, Chile, em 1970. É professora e escritora.