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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA DEUSA À MARGEM DO OLIMPO


 

CIRCE

Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens

MADELINE MILLER

PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020

368 páginas

Em Circe, Madeline Miller reconta a mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral ou punição divina. Aqui, Circe ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.

Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua diferença, no entanto, será justamente o que a salvará  e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela cruza um limite perigoso: preocupa Zeus e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida, recebe apenas visitas ocasionais de Hermes, que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.

O isolamento não a enfraquece, mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina, aqui aparece como resposta à violência, não como perversidade gratuita.

O mesmo acontece quando a tripulação de Odisseu chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a partida do herói.

Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil, violento, marcado por uma força que o excede. Atena deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.

Quando Telégono cresce, decide buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope e Telêmaco. A partir daí, a narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.

Não é possível falar do final sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é uma história sobre punição, mas sobre transformação. Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma vida própria.


Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1978. É uma escritora estadunidense. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

512 páginas 

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses.