MÃE
PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso
PAULA
RAMÓN
COMPANHIA
DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020
240
páginas
Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.
O
livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função
da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me
interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias
consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências
na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.
Por
outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já
vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras
execrando o governo. Aqui me atenho ao
livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.
Seu
pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a
França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de
concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado
apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se
com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado
Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.
Em
poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois
se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um
pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi
estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.
Maracaibo
é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana.
Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os
dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.
No
entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela
mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial
do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976,
quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa
riqueza ao país.
Em
1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os
ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se
sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma
tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo
Chavez se rendeu.
Em
1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom
petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao
sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários
acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a
situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos
até chegarmos aos dias atuais.
Ramón
discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua
família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do
exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também
aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os
que apoiavam o governo e os que não o faziam.
Em
1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é
político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”.
Paula
Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista


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