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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


domingo, 22 de fevereiro de 2026

DA PERDA À LUTA POR JUSTIÇA


 

HEROÍNAS DESTA HISTÓRIA:  Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura

CARLA BORGESTATIANA MERLINO (ORGS.)

AUTÊNTICA – 1ª ED. – 2020

400 páginas.


São décadas de silêncio rompido, seja por autoproteção, pela necessidade de seguir em frente ou por uma política deliberada de esquecimento que encobriu os crimes da ditadura civil-militar brasileira. Um silêncio que não foi natural, mas construído, sustentado e imposto. É nesse terreno que se inscrevem as histórias reunidas em Heroínas desta História, um livro atravessado por relatos de mães, esposas e familiares que estiveram à frente da luta contra o regime militar.

São mulheres que perderam filhos, maridos, irmãs e irmãos; mulheres que sofreram, resistiram e enfrentaram o Estado em busca de notícias, de corpos, de respostas e, muitas vezes, do direito mínimo a uma certidão de óbito. Aqui, a dor não paralisa: ela se transforma em ação política. O luto converte-se em denúncia, e a ausência vira insistência. Essas mulheres recusaram o apagamento e fizeram da busca por seus familiares uma luta pública contra a violência de Estado.

Algumas dessas trajetórias tornaram-se mais conhecidas por não terem se calado, como Clarice Herzog, Eunice Paiva ou Zuzu Angel, esta última brutalmente silenciada pelo próprio regime. Outras tantas permanecem desconhecidas do grande público, o que torna sua escuta ainda mais urgente. São mulheres simples ou de classe média, com trajetórias distintas, mas unidas pelo fato de terem sido empurradas para o centro da história por uma violência que atravessou suas vidas privadas.

O livro mostra como essas mulheres se tornaram protagonistas de nossa história recente, ainda marcada por lacunas, negações e disputas de memória. Ao reunir esses relatos, Heroínas desta História não se limita a narrar o passado: afirma a memória como gesto político e como responsabilidade coletiva. Este não é apenas um livro para ser lido, mas para ser escutado. Ele nos apresenta algumas dessas mulheres — cabe a nós, agora, ouvi-las.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMPREENDER O RACISMO ESTRUTURAL


 

RACISMO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO PAÍS

YNAÊ LOPES DOS SANTOS

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

336 páginas

Racismo brasileiro: uma história da formação do país, de Ynaê Lopes dos Santos, conduz o leitor por um amplo e rigoroso percurso da história do racismo no Brasil, iniciando muito antes da invasão portuguesa e estendido até os dias atuais. A autora demonstra que o racismo não é um desvio pontual ou uma herança mal resolvida, mas um elemento estruturante da formação política, social e econômica do país.

O livro percorre o processo de escravização, a organização do sistema colonial, a chamada abolição e o destino das pessoas negras que, embora formalmente libertas, jamais foram incluídas na sociedade como cidadãs plenas. Ynaê evidencia como a ausência de políticas de integração após a abolição não foi um erro, mas um projeto, responsável por manter desigualdades profundas e persistentes. Nesse contexto, a autora analisa o ideal de embranquecimento e o papel do racismo científico, mostrando como essas teorias foram mobilizadas para justificar hierarquias raciais e orientar políticas de Estado.

Ao avançar no tempo, o livro revela as permanências dessas estruturas racistas no Brasil contemporâneo, conectando passado e presente de forma clara e contundente. A análise alcança acontecimentos recentes, como o assassinato de Marielle Franco, evidenciando como a violência racial segue operando no centro da vida política do país. Longe de oferecer uma narrativa linear ou conciliadora, Ynaê Lopes dos Santos constrói um texto que exige enfrentamento histórico e político.

Racismo brasileiro é uma leitura imprescindível para quem deseja compreender o país para além dos mitos da cordialidade e da democracia racial. Ao explicitar as raízes históricas do racismo estrutural, o livro fornece ferramentas fundamentais para entender o Brasil e suas desigualdades, tornando-se uma obra essencial para a reflexão crítica sobre nossa história e nosso presente.


Ynaê Lopes dos Santos nasceu em São Paulo em 1982. É historiadora e escritora. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A HISTÓRIA SILENCIADA DA HANSENÍASE NO BRASIL

 


A PRAGA: O holocausto da hanseníase

Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

MANUELA CASTRO

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2017

280 páginas 

Em A Praga, Manuela Castro traz à tona uma das páginas mais violentas e silenciadas da história brasileira: a política de isolamento compulsório das pessoas diagnosticadas — ou apenas suspeitas — de hanseníase. Mais do que uma narrativa médica, o livro revela um projeto de exclusão social legitimado pelo Estado, sustentado pelo medo, pelo estigma e pela desumanização.

No Brasil, homens e mulheres eram arrancados de suas casas, afastados das famílias e confinados em leprosários. O pânico social era tão intenso que, muitas vezes, eram os próprios familiares que denunciavam os suspeitos. No caso das mulheres grávidas, a violência se aprofundava: seus bebês eram retirados imediatamente após o nascimento, sem qualquer possibilidade de vínculo, e enviados para educandários. Muitos eram transportados em cestas, junto a outros recém-nascidos, chamados cruelmente de “ninhada de leprosos”.

As consequências dessa política sanitária foram devastadoras. Milhares de pessoas passaram décadas confinadas, enquanto seus filhos cresciam separados, igualmente marcados pelo estigma. O livro expõe, sem rodeios, os maus-tratos sofridos nesses espaços: surras, castigos, humilhações e, de forma ainda mais trágica, casos de abuso sexual contra meninas institucionalizadas. A violência não era exceção — era estrutural.

O que mais choca é constatar que, mesmo após a comprovação da cura da hanseníase, o Brasil levou anos para pôr fim ao confinamento obrigatório. Quando finalmente libertas, essas pessoas se viram sem lugar no mundo: não tinham para onde ir, não conseguiam trabalho e continuaram sendo tratadas como párias sociais. O estigma não terminou com o fim do isolamento — ele se perpetuou.

Muitos acabaram permanecendo nas antigas colônias, que só muito recentemente começaram a ter seus territórios reconhecidos legalmente, com a concessão de títulos de propriedade. Foi necessária uma longa e árdua luta para que o Estado assumisse minimamente sua responsabilidade. Durante o governo Lula, foi sancionada a lei que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos que ficaram impossibilitados de trabalhar. Hoje, a luta segue sendo travada pelos filhos, igualmente afetados por essa política de exclusão, em busca do mesmo reconhecimento e reparação.

A Praga é um livro duro, necessário e profundamente político. Ele nos obriga a encarar como o medo, quando institucionalizado, pode se transformar em uma máquina de produção de sofrimento — e como certas formas de violência continuam ecoando por gerações.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O QUE AS MULHERES QUILOMBOLAS ENSINAM AO MUNDO DITO CIVILIZADO


 

MULHERES QUILOMBOLAS: Territórios de existências negras femininas

SELMA DOS SANTOS DEALDINA

JADAÍRA – 1ª ED. – 2020

168 páginas 

Que livro belo e necessário. Mulheres quilombolas reúne os relatos de diversas mulheres que narram suas vidas, suas histórias e as de suas comunidades. O que mais me chamou a atenção foi a diferença marcante entre o que significa ser uma mulher negra urbana e ser uma mulher negra quilombola, sobretudo no que diz respeito à centralidade do coletivo.

Em um dos relatos, ao tratar da violência doméstica, uma das mulheres se recusa a recorrer ao sistema de justiça formal. Para ela, o encarceramento ou o afastamento do homem rompe o tecido comunitário, já que ele também faz parte do coletivo. Em vez disso, as mulheres se reúnem, conversam sobre o problema e, posteriormente, convocam a comunidade para pensar conjuntamente formas de transformar esse comportamento. Trata-se de uma prática potente, que aposta na responsabilidade coletiva e na possibilidade real de mudança, sem reproduzir automaticamente a lógica punitiva do Estado.

Ao longo do livro, elas relatam suas dificuldades e lutas pelo direito ao território, pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de seus modos de vida. A ancestralidade, os rituais e, sobretudo, a agricultura ecológica aparecem como eixos fundamentais, com destaque para a preservação das sementes crioulas, guardiãs de saberes e de futuro.

Um termo que há muito não via ser mobilizado com tanta força é o da dádiva: a troca, o cuidado, o respeito mútuo como princípios organizadores da vida. Muitas vezes, essas comunidades são vistas de forma distorcida, acusadas de serem “acomodadas” ou de ocuparem terras que poderiam ser exploradas pelo agronegócio — visão incentivada, inclusive, por políticas governamentais. O que se ignora é que justamente nesses territórios e nesses saberes reside uma das respostas mais concretas àquilo que hoje chamamos de crise climática.

Os conhecimentos ancestrais sobre a relação com a terra e a natureza são absolutamente centrais no presente e precisam ser preservados. As mulheres quilombolas lutam por isso, assim como mulheres indígenas e outras comunidades tradicionais. Trata-se de um saber que foi, em grande parte, perdido pelo mundo dito civilizado, mas que talvez seja o mais importante para nossa sobrevivência hoje.

Em tempos de individualismo extremo, a centralidade do coletivo que atravessa esses relatos é uma lição urgente. Vale muito a leitura: para conhecer as mulheres quilombolas e, sobretudo, para aprender a olhar para elas com profundo respeito.


Selma dos Santos Dealdina nasceu em São Mateus, Espírito Santo, em 1982. Produtora cultural, militante e ativista do movimento social negro e quilombola. 


QUANDO O RIO INVENTAVA A MODERNIDADE BRASILEIRA

 


METRÓPOLE À BEIRA-MAR: O RIO MODERNO DOS ANOS 20

RUY CASTRO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019 

504 páginas 

Imagine encontrar um amigo, sentar-se em algum lugar e ouvi-lo começar a contar uma boa história. É exatamente assim que se lê este livro. A escrita de Ruy Castro flui com leveza, marcada por humor e sarcasmo na medida certa, sem jamais perder a seriedade e a profundidade da análise.

O autor nos apresenta a história cultural do Brasil da modernidade — e é possível dizer Brasil, porque nos anos 1920 o Rio de Janeiro concentrava a vida intelectual e artística do país. Era para lá que convergiam escritores, artistas, compositores e jornalistas, afinal, tratava-se então da capital federal e do grande centro de circulação de ideias, estilos de vida e projetos de país.

Ruy Castro reconstrói esse Rio moderno com precisão e vivacidade, mostrando como a cidade pulsava cultura, invenção e contradições. O resultado é um retrato envolvente de uma época que ajudou a moldar a imaginação cultural brasileira e cujos ecos ainda reverberam no presente.

Foi um dos melhores livros que li em 2020. Recomendo.


                  Ruy Castro nasceu em Caratinga. É um jornalista, escritor e biógrafo brasileiro.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O PROJETO DE MORTE POR TRÁS DO PROGRESSO


 

BANZEIRO ÒKÒTÓ: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

ELIANE BRUM

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021.

448 páginas 

Que livro magistral — e dolorido. Dói ler Banzeiro Òkòtó, dói reconhecer o que se passa na Amazônia brasileira. Eliane Brum não se furta à denúncia e, ao fazê-lo, expõe também a si mesma. Em muitos momentos, é impossível não pensar que sua escrita a coloca em risco.

Foi a partir deste livro que consegui compreender de forma mais profunda o que significou a construção da Usina de Belo Monte e seus efeitos devastadores sobre a população ribeirinha. Trata-se de uma tragédia. Pessoas que viviam de plantar, pescar, habitar a terra — que tinham casa, rotina, pertencimento — perderam tudo. Foram arrancadas de seus territórios e lançadas à miséria, confinadas em espaços sem uma única árvore. Perderam o chão, a paisagem e, com isso, suas próprias identidades.

Os depoimentos reunidos por Brum são dilacerantes. Crianças e adolescentes que se suicidam após perderem qualquer horizonte de futuro. Entre viver sob a ameaça constante de morte física ou simbólica e tirar a própria vida, escolhem se matar. O livro fala de depressão, sofrimento psíquico, doenças mentais, suicídios. Nada disso aparece como exceção, mas como consequência direta de um projeto de destruição.

Mas Banzeiro Òkòtó é também um livro sobre luta e resistência. Sobre as “mortes matadas”, sobre Altamira — por anos considerada a cidade mais violenta do país — e sobre a distância brutal entre os donos do poder, suas esposas, seus privilégios, e os moradores abandonados à própria sorte. A desigualdade aparece sem filtros, escancarada.

Eliane Brum entrelaça essa investigação com fragmentos de sua própria trajetória. Fala da infância no Rio Grande do Sul, do percurso que a levou à Amazônia e do processo que ela mesma nomeia como “se aflorestar”. Há algo de profundamente bonito — e transformador — nesse movimento. O capítulo sobre as tartarugas é especialmente belo, embora atravesse o leitor com apreensão: acompanhamos seu trajeto com medo de que não consigam chegar, torcendo junto, como se aquele destino também nos dissesse respeito.

O livro revela um Brasil distante das grandes capitais e dos centros econômicos, um Brasil profundo invadido pelo agronegócio, por madeireiros, mineradores e grandes hidrelétricas. Um Brasil esmagado por uma lógica capitalista que destrói tudo o que há de belo, tudo o que é simples, tudo o que é natureza — e, junto com ela, vidas inteiras.



Eliane Brum nasceu em Ijuí – RS, em 1966. É jornalista, escritora e documentarista brasileira.


QUEM FOI O HOMEM QUE LANÇOU AS BASES DA DITADURA BRASILEIRA

 


CASTELLO: A MARCHA PARA A DITADURA

LIRA NETO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019

464 páginas 

Lira Neto é jornalista e escritor, conhecido sobretudo por suas biografias de fôlego. Castello: a marcha para a ditadura é uma dessas obras extensas e minuciosas, resultado de pesquisa rigorosa e escrita cuidadosa.

Falamos muito sobre a ditadura que se abateu sobre o Brasil durante vinte anos, mas ainda sabemos pouco sobre como ela se articulou, quais foram seus gestos iniciais e quem lançou suas bases. Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime instaurado em 1964, costuma permanecer à sombra de figuras mais lembradas do período. No entanto, foi ele quem estabeleceu os alicerces institucionais e políticos da ditadura.

O livro acompanha sua trajetória desde a formação militar até a tomada do poder, entrelaçando sua biografia à própria história do Brasil. Castello emerge como um personagem profundamente contraditório: em alguns momentos, sensato, correto e até justo; em outros, marcado por um autoritarismo implacável. Lira Neto não o absolve nem o demoniza. Com notável imparcialidade, constrói um retrato complexo, sustentado por ampla documentação e acesso aos bastidores do golpe.

Ao longo da narrativa, conhecemos sua formação no Exército, suas amizades e alianças, a vida familiar, a participação na Segunda Guerra Mundial, na campanha da Itália, e o percurso que o leva à presidência. Cruzamos com figuras centrais da história brasileira — entre elas Costa e Silva, que o sucederia — e acompanhamos os movimentos populares do período, assim como o processo que culmina na queda de João Goulart.

Trata-se de uma obra muito bem escrita, de leitura fluida, que contribui de maneira decisiva para compreender o início da ditadura militar no Brasil. Recomendo a leitura a quem deseja entender melhor esse período histórico e, inevitavelmente, refletir sobre possíveis paralelos — ou rupturas — com as tentativas autoritárias que atravessam o presente.



João de Lira Cavalcante Neto nasceu em Fortaleza em 1963. É um escritor e jornalista brasileiro.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Como funcionam as engrenagens do poder no Brasil

 


PODER E DESIGUALDADE

CESAR CALEJON; ANDRÉ RONCAGLIA

Civilização Brasileira – 1ª ed. – 2024

364 páginas

O livro Poder e Desigualdade foi escrito pelo jornalista Cesar Calejon e pelo economista André Roncaglia, que analisam conjuntamente a situação econômica e política do Brasil neste início do século XXI.

Considero de suma importância compreender o que está por trás de tantas notícias que circulam diariamente, muitas vezes sem qualquer análise técnica ou compromisso com os fatos. Há uma enorme distorção, em que a ideologia política de quem noticia se sobrepõe à informação baseada em dados. Além disso, os brasileiros tendem a cobrar tudo do presidente — seja quem for — e se esquecem das outras forças que atuam no sistema político e econômico e que, muitas vezes, chegam a impedir qualquer ação do governo.

Os autores mostram que o poder é complexo e envolve diferentes esferas: a midiática, a política, a econômica e a financeira, todas frequentemente articuladas para manter o poder concentrado nas mãos de poucos. O livro traz um capítulo sobre o agronegócio e a mineração; outro sobre como as oligarquias dominam a mídia; e outro ainda sobre a financeirização da economia, explicando como funcionam a dívida, as divisas, o sistema fiscal, a taxa Selic, o dólar — e como tudo isso exerce enorme influência sobre as decisões governamentais e suas margens de ação.

Nós, meros cidadãos, em geral não conhecemos esses mecanismos e acabamos culpando quem tem menos responsabilidade direta, sem eximir, evidentemente, sua parte. Soma-se a isso o papel das redes sociais, que hoje espalham desinformação em larga escala — como no caso recente do PIX. Vemos, por exemplo, o escândalo das Lojas Americanas nos jornais e nas redes, mas raramente compreendemos o que de fato ocorreu. O livro dedica um capítulo específico a esse episódio.

A leitura não é simples à primeira vista para quem não tem familiaridade com economia ou finanças. Ainda assim, os autores se esforçam em apresentar exemplos claros, simples e práticos, que ajudam a elucidar os mecanismos de funcionamento do sistema. Independentemente das inclinações políticas dos autores, o que o livro oferece é, sobretudo, uma explicação de como as engrenagens operam.



Cesar Calejon é um jornalista e escritor brasileiro


André Roncaglia é um economista brasileiro