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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A RELAÇÃO ENTRE DOMINAÇÃO DA NATUREZA E DAS MULHERES


 

ECOFEMINISMOS

VANDANA SHIVA – MARIA MIES

LUAS EDITORA – 2021

504 páginas


Ecofeminismos é uma obra central do pensamento crítico contemporâneo, escrita por Vandana Shiva e Maria Mies, que articula feminismo, ecologia, economia política e crítica ao capitalismo global. O livro parte da constatação de que a exploração da natureza e a opressão das mulheres não são processos distintos, mas historicamente conectados e sustentados pela mesma lógica patriarcal, colonial e capitalista.

As autoras demonstram como o modelo de desenvolvimento moderno, apresentado como universal e progressista, se baseia na expropriação dos recursos naturais, no apagamento dos saberes tradicionais e na desvalorização do trabalho feminino, especialmente o trabalho de cuidado e de subsistência. A racionalidade econômica dominante transforma tanto a natureza quanto as mulheres em “recursos” exploráveis, invisibilizando os custos sociais, ambientais e humanos desse sistema. Nesse sentido, o livro desmonta a ideia de neutralidade da ciência moderna e da economia, revelando seu caráter profundamente masculinizado e eurocêntrico.

Um eixo fundamental da obra é a crítica à divisão entre produção e reprodução. Mies e Shiva argumentam que o capitalismo só se sustenta porque depende de esferas que ele não reconhece como produtivas: o trabalho doméstico, o cuidado, a agricultura de subsistência e os ciclos naturais. Ao serem considerados “naturais” ou “gratuitos”, esses campos tornam-se passíveis de exploração ilimitada. O ecofeminismo surge, então, não como um essencialismo que associa mulheres à natureza, mas como uma crítica política a essa associação imposta historicamente para justificar dominação.

O livro também apresenta experiências concretas de resistência, sobretudo no Sul Global, onde mulheres desempenham papel central na defesa da terra, da água, das sementes e da vida comunitária. Essas práticas apontam para outras formas de organização social e econômica, baseadas na interdependência, na sustentabilidade e na valorização dos saberes locais. Para as autoras, o ecofeminismo não é apenas uma teoria, mas um projeto ético e político que propõe uma transformação radical da relação entre humanidade, natureza e economia.

Ecofeminismos é uma leitura densa, mas fundamental, que amplia o feminismo para além da questão de gênero, inserindo-o no centro das crises ecológica, social e civilizatória contemporâneas. É um livro que convida à revisão profunda das noções de progresso, desenvolvimento e poder, mostrando que não há justiça social sem justiça ambiental — e que ambas passam, necessariamente, pela libertação das mulheres.


Vandana Shiva nasceu em Dehra Dun, Uttar Pradesh (atual Uttarakhand), Índia, em 1952. É uma filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana.

Maria Mies nasceu em Steffein, Alemanha, em 1931 e faleceu em 2023. Foi uma socióloga alemã. 


 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O COLAPSO NÃO É UM ACIDENTE, É UM PROCESSO

 


O NAUFRÁGIO DAS CIVILIZAÇÕES

AMIN MAALOUF

VESTÍGIO – 1ª ED. 2020.

256 páginas 

Este é um livro que merece ser lido. Amin Maalouf parte do presente para desmontar uma ideia muito difundida sobre o “Oriente Médio”, mostrando que a região já foi palco de uma civilização radicalmente diferente da imagem de violência, fragmentação e intolerância que hoje costuma dominá-la e, sobretudo, explicando como se chegou a esse ponto.

Maalouf reconstrói um “Oriente Médio” plural, atravessado por convivências possíveis, projetos políticos e culturais que não estavam condenados ao colapso. Ao mesmo tempo, identifica as rupturas históricas, as interferências externas e as escolhas internas que levaram ao naufrágio dessa civilização, recusando leituras simplistas ou essencialistas.

Mas o livro não se limita ao “Oriente Médio”. Maalouf amplia o olhar para o Ocidente e analisa os processos que também o afetaram profundamente. O avanço do neoliberalismo, o culto ao individualismo e a consolidação da meritocracia aparecem como forças desagregadoras. Segundo o autor, esse giro político tem um marco decisivo nas eras de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando se estabelece um modelo que transforma não apenas a economia, mas as relações sociais, os valores e a própria ideia de futuro.

O naufrágio das civilizações é, assim, uma reflexão sobre perdas — de horizontes comuns, de projetos coletivos, de mundos possíveis. Uma leitura importante para quem deseja compreender como o mundo chegou ao ponto em que se encontra hoje, e por que tantas narrativas de progresso escondem processos profundos de destruição.



Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Reside na França, escritor.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

POR QUE JÁ NÃO PRECISAMOS DE UM OPRESSOR EXTERNO

 


PSICOPOLÍTICA

BYUNG CHUL-HAN

EDITORA ÂYINÉ – 2020

102 páginas 

Em Psicopolítica, Byung-Chul Han propõe uma leitura incisiva das formas contemporâneas de poder. Diferentemente das sociedades disciplinares analisadas por Foucault — baseadas na vigilância, na repressão e na coerção externa —, o filósofo sul-coreano argumenta que vivemos sob um regime mais sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: o da exploração voluntária de si.

O poder neoliberal já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela positividade. Não diz “não”, diz “você pode”. Não impõe, seduz. O sujeito contemporâneo não se sente dominado, mas livre — e é justamente nessa sensação de liberdade que reside a armadilha. Ao internalizar as exigências de desempenho, produtividade e sucesso, o indivíduo passa a se auto explorar, acreditando que age por vontade própria.

Han descreve a passagem do sujeito obediente ao sujeito empreendedor de si. Já não há um outro claramente identificável que oprime; o sujeito se torna simultaneamente senhor e escravo. Essa dinâmica produz não revolta, mas cansaço. Não gera resistência coletiva, mas esgotamento individual. Depressão, burnout e ansiedade surgem, então, não como falhas pessoais, mas como sintomas políticos de um sistema que transforma liberdade em obrigação.

O termo “psicopolítica” nomeia exatamente esse deslocamento do poder para o interior da psique. As técnicas de dominação não se dirigem mais apenas ao corpo, mas à mente, às emoções, aos desejos. A transparência, a comunicação constante, a exposição voluntária nas redes e a cultura do like funcionam como dispositivos de controle que dispensam a violência explícita. O sujeito se oferece, se mostra, se mede — e se vigia.

Nesse contexto, a liberdade deixa de ser espaço de indeterminação e se converte em performance. Tudo deve ser comunicado, otimizado, monetizado. Até o tempo livre se torna produtivo. O descanso precisa ser “eficiente”, a felicidade mensurável, a identidade constantemente atualizada. O silêncio, a negatividade, o ócio e a contemplação — condições fundamentais do pensamento crítico — tornam-se suspeitos, improdutivos, quase ilegítimos.

Um dos aspectos mais inquietantes do livro é a análise da perda da alteridade. A sociedade da positividade não tolera o outro como diferença radical. O que circula é o igual, o semelhante, o que confirma. O conflito dá lugar ao consenso algorítmico. A política, nesse cenário, esvazia-se: transforma-se em gestão, em cálculo, em administração de dados, enquanto a possibilidade de ação coletiva se dissolve em experiências individuais de fracasso ou sucesso.

Psicopolítica é um livro breve, mas contundente. Sua força está menos em oferecer soluções do que em nomear o mal-estar contemporâneo, deslocando-o do plano psicológico para o político. Han nos obriga a reconhecer que aquilo que vivenciamos como exaustão pessoal é, na verdade, o efeito de uma racionalidade que colonizou a própria subjetividade.

Ao final, a pergunta que o livro deixa não é confortável: como resistir a um poder que se exerce através do desejo, da liberdade e da autossuperação? Pensar talvez seja, hoje, um dos últimos gestos verdadeiramente subversivos.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coréia do Sul em 1959. É um filósofo ensaísta sul-coreano que vive na Alemanha.