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segunda-feira, 29 de junho de 2026

LIVRO: QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

 


QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

JUDITH BUTLER

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª – 2024

388 páginas

Em “Quem tem medo do gênero?”, Judith Butler analisa como o conceito de gênero tem sido mobilizado em debates políticos contemporâneos, especialmente por grupos conservadores e de extrema-direita, como narrativas com intuito de criar pânico moral.

A autora argumenta que o termo “gênero” passa a ser frequentemente distorcido em discursos públicos, sendo associado a ameaças à infância, à família e à ordem social, contribuindo dessa maneira para a mobilização de afetos políticos como medo e insegurança. Esses discursos, segundo Butler, acabam sendo utilizados para sustentar projetos políticos autoritários e excludentes em diferentes contextos nacionais.

Ela traz vários exemplos que estão acontecendo no mundo e também aponta Instituições e pessoas que financiam esses projetos e algumas Ongs para propagar essas narrativas.

Muitas pessoas diante das mentiras propagadas acabam com medo que seus filhos sejam induzidos a uma escolha sexual ou de identidade sexual que não é possível impor. Com isso há muita desvirtuação do conceito e também a intenção de criar obstáculos aos feminismos que se utilizam do termo para tratar de outros aspectos do que esse difundido para causar medo.

A autora discute como essas narrativas se articulam com ataques a políticas de direitos reprodutivos, debates sobre educação, além de disputas em torno de identidades trans e questões relacionadas ao reconhecimento social e jurídico dessas populações.

Butler também tece críticas a grupos de mulheres que se opõem a inclusão de pessoas trans dentro do campo feminista, argumentando que certas formas de exclusão acabam reforçando mecanismos de violência e marginalização já existentes.

Ela relata que iniciou a desenvolver o livro após a hostilidade extremamente agressiva que sofreu em sua visita ao Brasil no aeroporto em 2017, por manifestantes antigênero. Ela e sua parceira, Wendy Brown, foram ameaçadas de agressão física e só não foi atingida porque um jovem se colocou entre ela e o agressor recebendo os golpes a ela destinados.

O que chama a atenção nessas pessoas é que nenhuma delas, em algum momento, leu um livro de Butler ou procurou saber mais sobre o que significa gênero. Suas reações são baseadas em informações distorcidas ou em interpretações simplificadas de suas teorias, frequentemente difundidas em redes sociais e discursos políticos, sem mediação acadêmica.  

É uma leitura necessária e atual. É preciso conhecer um pouco mais sobre o que significa gênero e sobre o que é real ou mentira no que se diz. A leitura é acessível a qualquer pessoa, diferentemente de outras obras da autora, e é um convite a reflexão crítica.


Judith Butler nasceu em Cleveland, Ohio, EUA, em 1956. É uma filósofa pós-estruturalista.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE NEGRA E INVENÇÃO DE CONCEITOS


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTSFLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE E MILITÂNCIA COMO PRÁTICA INSEPARÁVEL


 

CONTINUO PRETA: A VIDA DE SUELI CARNEIRO

BIANCA SANTANA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2021

296 páginas 

Neste livro, Bianca Santana presta uma homenagem sensível e politicamente necessária a Sueli Carneiro, acompanhando sua trajetória de vida e de luta. A narrativa parte da infância e da adolescência e segue até a militância, revelando o caminho percorrido por uma mulher negra que enfrentou, desde cedo, os múltiplos obstáculos impostos pelo racismo estrutural no Brasil.

Ao longo do livro, emerge a força, a coragem e a determinação de Sueli Carneiro, não como atributos abstratos, mas como respostas concretas a um contexto marcado pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação sistemática de direitos. Bianca Santana constrói o retrato de uma intelectual e ativista cuja formação política se dá tanto na experiência cotidiana do racismo quanto na elaboração teórica e na ação coletiva.

Mais do que uma biografia no sentido tradicional, o livro funciona como um testemunho da importância de Sueli Carneiro para o pensamento feminista negro, para a luta antirracista e para a construção de uma sociedade mais justa. É uma leitura que evidencia como a trajetória individual se entrelaça com a história social e política do país, mostrando que resistir, pensar e agir são dimensões inseparáveis de uma mesma luta.


Bianca Santana nasceu em São Paulo em 1984. É jornalista, escritora e militante feminista negra brasileira. 


DA FILOSOFIA AO ROMANCE GÓTICO: HERANÇAS FEMININAS SILENCIADAS

 


MULHERES EXTRAORDINÁRIAS: AS CRIADORAS E A CRIATURA

Mary Wollstonecraft & Mary Shelley

CHARLOTE GORDON

DARKSIDE BOOKS – 1ª ED. 2020

624 páginas 

Esta biografia propõe uma construção narrativa particularmente feliz: a vida de Mary Wollstonecraft e de Mary Shelley é apresentada em capítulos alternados. Esse recurso permite ao leitor perceber, com clareza e sensibilidade, a continuidade intelectual e ética entre mãe e filha — mesmo que Shelley jamais tenha conhecido Wollstonecraft, morta pouco após seu nascimento.

Mary Wollstonecraft foi uma pensadora radical para seu tempo. Defendeu os direitos das mulheres, sobretudo o direito à educação, algo praticamente impensável no final do século XVIII. Filósofa, escritora e intelectual pública, escreveu sobre educação, política e sociedade, questionando frontalmente a ordem patriarcal. Ainda assim, permanece à margem dos currículos de Filosofia até hoje, como se seu pensamento fosse um apêndice moral, e não filosofia propriamente dita.

Mary Shelley, por sua vez, viveu segundo seus próprios desejos, enfrentando as convenções sociais de forma direta. Fugiu aos 16 anos com o poeta Percy Shelley, escandalizando a sociedade da época. Sua vida foi marcada por perdas, dificuldades materiais, luto e isolamento — experiências que atravessam profundamente sua escrita.

O legado literário de Shelley é frequentemente reduzido a uma única obra. Frankenstein, seu livro mais conhecido, foi duramente criticado quando publicado, não apenas pelo conteúdo perturbador, mas por ter sido escrito por uma mulher. A “criatura” foi considerada monstruosa demais para ter nascido de mãos femininas, julgamento que diz mais sobre a sociedade do que sobre a obra.

Ao acompanhar essas duas trajetórias, o livro evidencia como mulheres que ousavam pensar, escrever e viver fora das normas eram punidas: pela família, pela sociedade e pelas instituições. A recusa às convenções significava, muitas vezes, exclusão, difamação e solidão. Ainda assim, tanto Wollstonecraft quanto Shelley persistiram, cada uma à sua maneira, abrindo caminhos que só muito mais tarde seriam reconhecidos.

Mulheres Extraordinárias é uma leitura que vale cada página. Mais do que uma biografia dupla, o livro constrói uma genealogia feminina do pensamento e da criação, mostrando o quanto as mulheres foram historicamente cerceadas e, apesar disso, produziram obras que atravessaram os séculos. É também um convite a repensar quem chamamos de “criadores” da cultura e quantas criadoras foram silenciadas nesse processo.


Charlote Gordon nasceu em St. Louis, Missouri, EUA. É uma escritora e professora de humanidades.