Mostrando postagens com marcador Biografia Feminina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografia Feminina. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de junho de 2026

LIVRO: A INSUBMISSA


 

A INSUBMISSA

CRISTINA PERI ROSSI

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

208 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – URUGUAI


Rossi inicia relatando sua infância, seu amor incondicional pela mãe e o ódio nutrido pelo pai, mais fruto do que dizia sua mãe – “você é igual ao seu pai”, do que pela violência e poder que ele exercia sobre a família. Essa frase dita pela mãe afetava a menininha que queria “se casar com a mãe”, uma vez que conhecia o desprezo da mãe pelo marido.

Ela contraiu tuberculose quando pequena e foi para o campo, para a casa dos tios-avôs. A liberdade, o espaço vasto, os animais e os avós que a protegiam e compreendiam marcaram Rossi. De minha parte, chamou-me a atenção a presença britânica no Uruguai, o que me levou a pesquisar e descobrir que, após a Guerra da Cisplatina, os britânicos transformaram o país em uma espécie de “colônia informal”.

A história familiar é cercada de mistérios e silêncios. Rossi levará anos para saber o que aconteceu com seus bisavôs e avós. A história de sua bisavó, extremamente apaixonada pelo marido a ponto de ignorar completamente o lugar onde vivia, e com isso não se preocupar em aprender o idioma ou fazer amizades. Que diante da inevitável morte do amado ainda jovem, a levou ao suicídio, é a razão do silêncio dos filhos que não a perdoaram pelo abandono deles ainda crianças. Anos depois, Rossi irá se ver em uma situação semelhante em Barcelona, na Espanha, quando estava no exílio, o que a levará a compreender melhor os sentimentos de sua bisavó.

Há um relato sobre um quadro que está na sala de visitas da casa da família que me chamou a atenção. Primeiro, Rossi descreve a cena que está no quadro para, em seguida, refletir sobre ela. São homens elegantemente vestidos em um bosque e, entre eles, sentada de lado no chão, uma mulher completamente nua. Suponho tratar-se do quadro “Le déjeuner sur l’herbe” (Almoço sobre a relva), de Édouard Manet. Rossi percebe que os homens, brancos e ricos, estão vestidos com requinte (de fraque), enquanto a mulher provavelmente pobre, pode ser despida. Ou seja, é uma objetificação da mulher e uma percepção das diferenças sociais e econômicas.

Rossi constrói uma autobiografia de formação, relatando não apenas eventos de sua infância e adolescência, mas também os efeitos que eles terão posteriormente em sua vida adulta. Em outros momentos, revela descobertas feitas muitos anos depois, quando compreendeu a própria ignorância infantil diante de determinados acontecimentos. É explicito sua rebeldia a determinados costumes e tradições, sobretudo aqueles impostos às meninas.  

Fico sempre com uma impressão um tanto ambígua diante de relatos autobiográficos de infância. Senti isso ao ler Simone de Beauvoir em “Memórias de uma Moça Bem Comportada”. Muitas vezes encontramos crianças formulando pensamentos e análises que parecem sofisticados demais para a idade. A sensação que tenho é que é a adulta que está falando pela criança. Que uma criança se revolte contra proibições impostas às meninas, é perfeitamente plausível; o que me parece mais difícil é que ela seja capaz de analisa-las da forma como aparecem no relato. Acredito que, em muitos casos, é a mulher adulta interpretando retrospectivamente a criança que foi. Rossi, porém, evita isso na medida do possível. Frequentemente deixa claro que, à época, não compreendia o que estava acontecendo, preservando as dúvidas e perplexidades próprias da infância diante do comportamento dos adultos.  

Uma das partes do livro, que considerei uma das mais belas é a aquela quando ela descobre a paixão e o amor. Ela não entende o que lhe acontece; apenas sente. Ansiedade, expectativa, medo, necessidade da pessoa amada, ausência, desejo. Tudo surge antes da compreensão.  

O desejo move grande parte da escrita de Rossi. Em outro momento, ela descobre sua sexualidade e também a existência da homossexualidade, que na época, e ainda hoje, para muitas pessoas, era condenado, considerado algo “anormal”. “Somos monstros”, lhe diz uma amiga que compartilha da mesma orientação sexual.  É um pecado e mortal, e precisam mudar, se corrigir. Rossi, porém, recusará essa lógica.  

Ela tentou ler Freud na coleção de obras completas que seu tio possuía e confessa não ter entendido nada. Ainda assim, a presença da psicanálise é perceptível em seu relato.  Logo no início do livro, Rossi descreve seu amor pela mãe, seu objeto de desejo infantil, e a hostilidade dirigida ao pai. Uma leitura freudiana poderia identificar aí elementos do complexo de Édipo. Ela mudará de objeto, mas não redirecionará seu desejo ao outro sexo.

Seus relatos deixam claro que Rossi foi, desde pequena, um espírito livre, insubordinado às regras sociais e aos costumes que, segundo ela, funcionavam como mecanismos de coerção, restringindo a liberdade de escolha, de amar, de experimentar e de viver de acordo com os próprios desejos.  

O que admirei em Rossi é sua capacidade de preservar na escrita o universo infantil, sem permitir que sua consciência adulta dominasse a narrativa. É uma criança e não um “adulto em miniatura” que vemos vivenciar suas experiências dentro de sua perspectiva infantil.

Um bom exemplo é quando na festa de casamento de sua amiga Mabel ela dá uma rasteira no noivo. Ela sentiu ciúme e medo de perder alguém amado e agiu impulsivamente e até com crueldade, o que é típico na infância. Mas ela não analisa a situação, ela não possui ainda um vocabulário psicológico para explicar o que sentiu. Ela simplesmente estica a perna e derruba o homem. Rossi preserva isso, e somente depois, já adulta pode refletir sobre isso.

Percebemos o patriarcado e a situação das mulheres em toda a narrativa, inclusive de um episódio de abuso sexual que Rossi sofreu e que ao relatar à sua mãe recebe como resposta – “Esquece isso e nunca comente com ninguém!”, no entanto, a questão da menina não é essa, ela não elabora uma crítica do patriarcado, ela contesta as regras por lhe parecerem absurdas e injustas.

Ela é insubmissa desde a infância, resiste, luta pelo que deseja, mas dentro do universo infantil. Somente anos depois, já adulta, ela pode fazer a crítica ao patriarcado e analisar suas consequências. Mais do que uma simples autobiografia, A Insubmissa mostra como essa recusa em aceitar os papéis impostos às mulheres não foi uma conquista tardia, mas uma disposição que atravessa toda a vida de Cristina Peri Rossi.


Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1941. É uma romancista, poetisa, tradutora e autora uruguaia. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar seu país por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, Espanha, onde vive até hoje.  


quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: MÃE PÁTRIA

 

MÃE PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso

PAULA RAMÓN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020

240 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VENEZUELA

Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.

O livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.

Por outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras execrando o governo.  Aqui me atenho ao livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.

Seu pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.

Em poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.

Maracaibo é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana. Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.

No entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976, quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa riqueza ao país.

Em 1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo Chavez se rendeu.

Em 1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos até chegarmos aos dias atuais.

Ramón discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os que apoiavam o governo e os que não o faziam.

Em 1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”. 

Paula Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista 



sábado, 11 de abril de 2026

UMA VIDA CONTADA COM A MESMA IRREVERÊNCIA DE SUAS MÚSICAS


 

RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA

RITA LEE

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2016

296 páginas


Adorei ler esta autobiografia. Rita Lee fez parte da minha adolescência e cheguei a assistir um show dela - O Fruto Proibido.

No livro, ela conta sua vida sem rodeios ou subterfúgios. Fala abertamente de sua dependência alcóolica, de sua rebeldia, de sua forte ligação com a família, de seu período durante a ditadura e da censura que atingiu suas músicas.

Também aparece com força seu amor pelos animais e sua personalidade irreverente, que marcou sua trajetória artística e pessoal.


Rita Lee nasceu em São Paulo, em 1947 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi uma cantora, compositora, escritora e ativista brasileira. 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan. 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

BOAS BRUXAS E SABERES FEMININOS

 

MULHERES DE MINHA ALMA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 1ª ED. - 2020

238 páginas

Em Mulheres de Minha Alma, Isabel Allende fala de sua própria vida a partir de um viés assumidamente feminista, mas também profundamente feminino. O livro não se organiza como um manifesto teórico, e sim como um relato atravessado por memória, afeto e experiência, no qual o feminismo surge como prática cotidiana antes mesmo de ganhar nome. Allende relata como, desde muito jovem, recusou a submissão das mulheres ao seu redor, especialmente a vivida por sua mãe, que, após a anulação do casamento, em um período em que o divórcio ainda não era permitido, permaneceu dependente do pai e dos irmãos, e posteriormente de um segundo marido.

A autora constrói uma crítica direta ao patriarcado, ao catolicismo conservador e ao machismo estrutural, refletindo sobre como essas forças moldaram não apenas sua trajetória pessoal, mas a vida de gerações de mulheres. Ao mesmo tempo, Allende insiste na ideia de transformação gradual: mudanças são possíveis, desde que não se abandone a luta. Há aqui uma clara aproximação com as gerações mais jovens, convocadas a dar continuidade a esse processo, especialmente diante do risco constante de perda de direitos já conquistados.

O livro também é atravessado pelas mulheres que marcaram sua vida — amigas, ancestrais, companheiras de caminhada — e pela presença simbólica das chamadas “boas bruxas”, figuras femininas associadas ao cuidado, à intuição, à liberdade e à transmissão de saberes. O amor, em suas múltiplas formas, aparece como força vital, não romântica no sentido ingênuo, mas como energia de vínculo, resistência e criação.

Mulheres de Minha Alma é, assim, um livro de afirmação e de alerta. Afirma a potência das mulheres e de suas histórias, e alerta para a fragilidade das conquistas quando a vigilância cede lugar ao conformismo. Um texto íntimo e político, no qual Isabel Allende transforma sua experiência pessoal em convite à escuta, à continuidade e à ação.


Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, em 1942. É uma escritora chilena. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



LINGUAGEM, MEMÓRIA E ESCRITA

 

CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS

MARGUERITE DURAS

ESTAÇÃO LIBERDADE – 1ª ED. – 2009

384 páginas

Cadernos da Guerra e Outros Textos, de Marguerite Duras, reúne escritos que refletem sobre a experiência da guerra, da ocupação e da resistência, abordando os efeitos do conflito na vida individual e coletiva. A obra é marcada pelo estilo conciso, fragmentário e intimista de Duras, que combina memórias, testemunhos e reflexões filosóficas, revelando a dimensão humana da violência e da opressão.

O livro nos conduz pelo olhar sensível da autora sobre o cotidiano da guerra, os dilemas morais e éticos enfrentados por quem resiste, e a forma como a memória da violência molda a subjetividade. Duras explora temas como medo, perda, coragem e solidariedade, mostrando a tensão entre o ordinário e o extraordinário, a vida comum e o momento histórico extremo.

Além do contexto histórico, a obra provoca reflexões sobre linguagem, escrita e memória, revelando como os relatos literários podem capturar experiências traumáticas e oferecer compreensão sobre a condição humana. Cadernos da Guerra e Outros Textos é uma leitura intensa, que combina história, literatura e introspecção, convidando o leitor a refletir sobre os efeitos duradouros da guerra na vida pessoal e coletiva.


Marguerite Duras pseudônimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh) em 1914 e faleceu em Paris em 1996. Foi uma romancista, novelista, roteirista, diretora de cinema e dramaturga francesa


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


UMA MULHER INTENSAMENTE VIVA

 


LOU ANDREAS-SALOMÉ

DORIAN ASTOR

L&PM – 1ª ED. – 2016

320 páginas

Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação afirmativa com a vida.

Lou aparece como uma pensadora que via, inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa, jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.

Infelizmente, por decisão própria, Lou preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.

Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa, interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua filosofia.

O autor também aborda a relação ambígua de Lou com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação individual.

O retrato que emerge é o de uma mulher vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.

Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche. 



domingo, 15 de fevereiro de 2026

QUEBRANDO O ESTEREÓTIPO DE SHERAZADE

 

EU MATEI SHERAZADE: CONFISSÕES DE UMA ÁRABE ENFURECIDA

JOUMANA HADDAD

RECORD – 1ª ED. - 2011

144 páginas

Eu Matei Sherazade, de Joumana Haddad, aborda questões de gênero, liberdade e representação da mulher na sociedade árabe. O livro combina memórias pessoais com reflexões políticas e sociais, e o título simboliza a ruptura com o estereótipo da mulher submissa e silenciosa presente na cultura árabe. Haddad escreve com paixão e honestidade sobre sua própria trajetória, revelando os desafios que enfrentou como mulher e escritora em uma sociedade patriarcal. A obra é inspiradora e instiga a reflexão sobre gênero, autonomia e liberdade de expressão, oferecendo uma perspectiva única e corajosa sobre as tensões entre tradição e emancipação feminina.


Joumana Haddad nasceu em Beirute, Líbano, em 1970. É uma escritora, palestrante, ativista de direitos humanos e jornalista libanesa. 


A FILOSOFIA DAS MULHERES NOS ESCRITOS DE SI


 

HISTÓRIA DA MINHA VIDA

GEORGE SAND . Compilado por Magali Oliveira Fernandes

EDITORA UNESP – 1ª ED. 2017

650 páginas

Neste livro, George Sand narra a própria vida desde a infância até a idade adulta, relatando experiências, desafios, afetos e escolhas que marcaram sua trajetória pessoal e intelectual.

A narrativa se inicia com a infância passada na propriedade rural da família, onde viveu até a adolescência. Sand descreve com riqueza de detalhes a paisagem e a atmosfera do campo, bem como sua paixão precoce pela leitura e pela escrita, já apontando para uma sensibilidade atenta ao mundo e às palavras.

À medida que o relato avança para a juventude, a narrativa ganha densidade. Surgem os primeiros amores e o casamento arranjado com o barão Casimir Dudevant, que se revela uma união infeliz. George Sand relata então a decisão corajosa de abandonar o marido e mudar-se para Paris, gesto radical para uma mulher de seu tempo. É nesse contexto que se envolve plenamente com a literatura e se consolida como uma escritora reconhecida.

Ao longo do livro, Sand fala de suas amizades com figuras centrais da vida literária francesa, como Gustave Flaubert, Victor Hugo e Alfred de Musset, além de abordar sua luta pelos direitos das mulheres e sua participação nos acontecimentos da Revolução de 1848.

A leitura de História da minha vida me levou a refletir sobre como a filosofia das mulheres muitas vezes se encontra menos nos sistemas formais e mais nos relatos, diários, memórias e autobiografias. É nesses escritos que emergem reflexões profundas sobre liberdade, amor, injustiça, criação e existência — pensamentos que, por muito tempo, foram desconsiderados como filosofia justamente por terem sido escritos por mulheres.


George Sand, pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, nasceu em Paris em 1804 e faleceu em Nohant-Vic, França, em 1876. Foi uma romancista e memorialista francesa. 


DA PROSTITUTA AO ÍCONE: CONSTRUÇÕES PATRIARCAIS

 

MARIA MADALENA

DA BÍBLIA AO CÓDIGO DA VINCI: COMPANHEIRA DE JESUS, DEUSA, PROSTITUTA E ÍCONE FEMINISTA

MICHAEL HAAG

ZAHAR – 1ª ED. 2018

344 páginas

Maria Madalena, de Michael Haag, é um estudo histórico e cultural sobre a figura que atravessa a tradição bíblica, a arte, a literatura e a imaginação popular. O autor examina como Maria Madalena foi retratada ao longo dos séculos: ora como seguidora devota de Jesus, ora como prostituta, ora transformada em ícone feminista moderno, e até mesmo reinterpretada em narrativas contemporâneas como O Código Da Vinci.

Haag analisa textos históricos, apócrifos e interpretações teológicas, mostrando como a imagem de Maria Madalena foi moldada por visões patriarcais que buscaram minimizar sua importância como discípula e testemunha central da vida de Jesus. Ao mesmo tempo, o livro explora como movimentos modernos e obras culturais ressignificaram sua figura, transformando-a em símbolo de resistência, espiritualidade feminina e poder feminino na tradição religiosa.

O livro convida à reflexão sobre a construção da memória histórica, o papel das mulheres na tradição religiosa e os processos de distorção e ressignificação de figuras femininas ao longo do tempo. Haag demonstra que Maria Madalena não é apenas um personagem histórico, mas um espelho das tensões culturais, religiosas e de gênero que atravessam a história ocidental.


Michael Haag nasceu em 1943. É historiador e escritor 


INTELECTUALIDADE NEGRA E INVENÇÃO DE CONCEITOS


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTSFLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


NATUREZA, CULTURA E O COLAPSO DAS SEPARAÇÕES MODERNAS

 


ESCUTE AS FERAS

NASTASSJA MARTIN

EDITORA 34 – 1ª ED. – 2021

112 páginas

Este é um livro curto, mas profundamente impressionante. A autora, Nastassja Martin, é uma antropóloga francesa que pesquisa povos da Sibéria. Durante um trabalho de campo, ela é atacada por um urso, que lhe morde o rosto e a perna. Martin consegue ferir o animal, que foge, gesto que lhe salva a vida.

O livro relata o longo e doloroso processo de restabelecimento físico, tudo o que a autora enfrenta entre hospitais na Rússia e na França, as cirurgias, a dor e as limitações impostas ao corpo. No entanto, o aspecto mais potente da obra está em outro plano: o do processo interno, psíquico e existencial desencadeado pelo encontro violento com o animal.

Martin não trata o ataque apenas como um acidente ou um evento a ser superado. Ela o pensa como uma fratura ontológica, um choque entre mundos — o humano e o não humano — que desestabiliza identidades, fronteiras e certezas. A experiência coloca em questão a separação moderna entre natureza e cultura, corpo e espírito, razão e instinto. A antropóloga, acostumada a observar e interpretar o outro, torna-se ela própria atravessada pela alteridade radical da fera.

Escute as feras é, assim, um livro sobre vulnerabilidade, metamorfose e escuta. Um relato em que o corpo ferido obriga o pensamento a se refazer, e onde a experiência extrema abre espaço para outra forma de compreender o humano, o animal e o mundo compartilhado.


Nastassja Martin nasceu em Grenoble, França, em 1986. É antropóloga, especializada nas populações do Extremo Norte.