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quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: MÃE PÁTRIA

 

MÃE PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso

PAULA RAMÓN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020

240 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VENEZUELA

Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.

O livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.

Por outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras execrando o governo.  Aqui me atenho ao livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.

Seu pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.

Em poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.

Maracaibo é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana. Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.

No entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976, quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa riqueza ao país.

Em 1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo Chavez se rendeu.

Em 1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos até chegarmos aos dias atuais.

Ramón discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os que apoiavam o governo e os que não o faziam.

Em 1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”. 

Paula Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista 



quinta-feira, 2 de abril de 2026

O ASSASSINATO DE MARIELLE E ANDERSON


 

MATARAM MARIELLE: COMO O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES ESCANCAROU O SUBMUNDO DO CRIME CARIOCA

CHICO OTAVIO – VERA ARAÚJO

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2020

208 páginas

O livro relata a investigação sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nesse ponto, não acrescenta muito ao que já sabemos, pois a narrativa vai apenas até o estágio em que a investigação se encontrava no momento da publicação, ainda sem revelar quem mandou matar. No entanto, mostra as dificuldades enfrentadas e os erros cometidos ao longo do processo investigativo. Por outro lado, o livro traz um panorama importante do que é o Rio de Janeiro no contexto das milícias e do domínio que essas organizações exercem sobre determinadas áreas da cidade.  

Sobre a vida de Marielle, o livro apresenta poucas informações, mas o suficiente para revelar a mulher de coragem e determinação que ela foi.

Em 2026 o STF condenou os irmãos Domingos (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (Deputado Federal) a 76 anos de prisão por serem os mandantes e planejarem o crime.


Chico Otavio nasceu em 1962. É jornalista e professor.

Vera Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1965. É jornalista. 


 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

BOAS BRUXAS E SABERES FEMININOS

 

MULHERES DE MINHA ALMA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 1ª ED. - 2020

238 páginas

Em Mulheres de Minha Alma, Isabel Allende fala de sua própria vida a partir de um viés assumidamente feminista, mas também profundamente feminino. O livro não se organiza como um manifesto teórico, e sim como um relato atravessado por memória, afeto e experiência, no qual o feminismo surge como prática cotidiana antes mesmo de ganhar nome. Allende relata como, desde muito jovem, recusou a submissão das mulheres ao seu redor, especialmente a vivida por sua mãe, que, após a anulação do casamento, em um período em que o divórcio ainda não era permitido, permaneceu dependente do pai e dos irmãos, e posteriormente de um segundo marido.

A autora constrói uma crítica direta ao patriarcado, ao catolicismo conservador e ao machismo estrutural, refletindo sobre como essas forças moldaram não apenas sua trajetória pessoal, mas a vida de gerações de mulheres. Ao mesmo tempo, Allende insiste na ideia de transformação gradual: mudanças são possíveis, desde que não se abandone a luta. Há aqui uma clara aproximação com as gerações mais jovens, convocadas a dar continuidade a esse processo, especialmente diante do risco constante de perda de direitos já conquistados.

O livro também é atravessado pelas mulheres que marcaram sua vida — amigas, ancestrais, companheiras de caminhada — e pela presença simbólica das chamadas “boas bruxas”, figuras femininas associadas ao cuidado, à intuição, à liberdade e à transmissão de saberes. O amor, em suas múltiplas formas, aparece como força vital, não romântica no sentido ingênuo, mas como energia de vínculo, resistência e criação.

Mulheres de Minha Alma é, assim, um livro de afirmação e de alerta. Afirma a potência das mulheres e de suas histórias, e alerta para a fragilidade das conquistas quando a vigilância cede lugar ao conformismo. Um texto íntimo e político, no qual Isabel Allende transforma sua experiência pessoal em convite à escuta, à continuidade e à ação.


Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, em 1942. É uma escritora chilena. 


FILOSOFIA PARA ALÉM DO OCIDENTE


 

FILOSOFIAS AFRICANAS: UMA INTRODUÇÃO

NEI LOPES – LUIZ ANTONIO SIMAS

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 14ª ED. – 2020

144 páginas

Em Filosofias africanas: uma introdução, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas enfrentam uma das afirmações mais naturalizadas do pensamento ocidental: a ideia de que a filosofia teria nascido exclusivamente na Grécia e que, desde então, seria um patrimônio essencialmente europeu e ocidental. O livro parte justamente da suspeita diante dessa narrativa, e a suspeita se revela mais do que justificada.

A pergunta que atravessa toda a obra é simples e profundamente política: se a filosofia é o exercício do pensamento crítico sobre o mundo, por que tantas tradições filosóficas foram apagadas da história oficial? O que se convencionou chamar de “origem” da filosofia parece menos um fato incontestável e mais o resultado de um longo processo de exclusão, silenciamento e epistemicídio.

Os autores mostram como o cânone filosófico foi construído a partir de critérios racializados, eurocêntricos e masculinos. A filosofia ensinada nas universidades permanece majoritariamente restrita a homens brancos europeus e, em menor medida, norte-americanos. Mesmo as mulheres foram sistematicamente apagadas dessa história, com raríssimas exceções, como a recorrente presença de Hannah Arendt, que acaba funcionando quase como álibi para a exclusão das demais.

O livro começa pelo Egito antigo, afirmando algo que ainda causa desconforto: o Egito é africano. E mais: filósofos gregos como Platão e Aristóteles dialogaram com saberes egípcios, africanos, orientais. Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão ocidental, era africano. No entanto, a narrativa dominante tratou de embranquecer essas heranças, deslocando-as de seus contextos históricos e geográficos.

Um ponto central da crítica apresentada por Lopes e Simas é a desqualificação das tradições orais. O Ocidente estabeleceu a escrita como critério de racionalidade e objetividade, ignorando que o próprio Sócrates — figura fundadora da filosofia grega — nada escreveu. Ainda assim, filosofias transmitidas oralmente foram classificadas como “primitivas”, “míticas” ou “pré-racionais”, enquanto o pensamento europeu era elevado à condição de universal.

Essa hierarquização dos saberes não pertence apenas ao passado. Ela continua operando nos currículos acadêmicos, nas bibliografias e na forma como se define o que é ou não filosofia. África, Índia, China, América Latina e “Oriente” seguem sendo tratados como margens do pensamento, quando, na verdade, possuem tradições filosóficas milenares, complexas e profundamente reflexivas.

O livro não pretende oferecer uma história total das filosofias africanas, e nem poderia, dado seu caráter introdutório. Seu mérito está em abrir fendas no discurso hegemônico, em deslocar certezas e em devolver dignidade filosófica a saberes que foram historicamente inferiorizados. Trata-se menos de substituir um cânone por outro e mais de questionar a própria ideia de cânone como dispositivo de poder.

Filosofias africanas: uma introdução é um livro pequeno em extensão, mas potente em implicações. Ele nos obriga a reconhecer que a filosofia não nasceu na Grécia, não pertence ao Ocidente e não é monopólio dos homens. Pensar filosoficamente é uma capacidade humana plural, situada e histórica. Descolonizar a filosofia é, antes de tudo, descolonizar nossas próprias mentes.


Nei Lopes nasceu em Irajá, Rio de Janeiro, em 1942. É um compositor, cantor e estudioso das culturas africanas.

Luiz Antonio Simas nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. É professor, historiador e compositor. 


 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

POR QUE OS EVANGÉLICOS CRESCEM NO BRASIL


 

POVO DE DEUS: QUEM SÃO OS EVANGÉLICOS E POR QUE ELES IMPORTAM

JULIANO SPYER

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2020

284 páginas

Este livro me ensinou muito. Para quem não é evangélico, esse universo costuma aparecer de forma difusa: ouvimos falar, convivemos com pessoas que pertencem a essas igrejas e, muitas vezes, diante de posições extremamente conservadoras, acabamos reproduzindo preconceitos. A questão que me atravessava, no entanto, era outra: por que tantas pessoas estão se convertendo ao evangelismo, muitas delas deixando o catolicismo? É justamente essa pergunta que o livro de Juliano Spyer ajuda a responder.

A leitura permite compreender que uma grande parcela dessas pessoas encontra nas igrejas evangélicas o acolhimento e o suporte que o Estado, e muitas vezes outras instituições religiosas, não oferecem. Trata-se de contextos marcados pela pobreza, pela violência cotidiana, pela convivência com o crime, pela atuação frequentemente brutal da polícia, pelo desemprego, pela falta de creches, de acesso à saúde, a medicamentos ou a apoio jurídico. As igrejas aparecem como redes concretas de apoio material e simbólico. A fé também ocupa um lugar central, pois essas pessoas se sentem vistas, escutadas e socorridas por Jesus.

Um ponto particularmente complexo, e que confesso ter me causado estranhamento inicial, é a questão do empoderamento feminino dentro dessas igrejas. No entanto, dentro desse contexto específico, ele de fato ocorre. São mulheres que sofrem violência doméstica, muitas vezes de companheiros alcoólatras, mulheres que nunca foram ouvidas, que acumulam dupla jornada ou que, por baixa escolaridade, não conseguem trabalho. Ao ingressarem na igreja, passam a falar, a ser escutadas, a receber apoio, a conseguir emprego. Em muitos casos, os maridos acabam se convertendo, deixam de beber e passam a se dedicar mais à família. O fato de o homem ser considerado o “chefe da casa” não aparece como um problema para essas mulheres, pois elas sabem que sua presença e transformação são resultado direto da atuação delas dentro da igreja. Há, aí, uma lógica própria de reconhecimento e pertencimento.

Por outro lado, se o livro explica com clareza as razões do crescimento das igrejas evangélicas e apresenta as diferenças internas do protestantismo e de suas múltiplas denominações, ele também faz uma crítica contundente à busca de poder político junto ao Estado e às consequências disso para quem não é evangélico. Se, em um primeiro momento, o protestantismo no Brasil lutou pela liberdade religiosa em um país majoritariamente católico, hoje parte de suas lideranças atua no sentido oposto: impor suas crenças, valores e dogmas à sociedade como um todo.

Essa postura está ligada à crença de que Jesus só retornará quando todos forem evangelizados. No entanto, do ponto de vista das lideranças, trata-se frequentemente de um jogo de poder que nem sempre corresponde ao pensamento ou às necessidades dos fiéis. O livro aborda ainda posições contrárias aos direitos humanos, ao meio ambiente e à ciência, bem como as tentativas de introduzir nas escolas visões neopentecostais, como o criacionismo ou uma leitura histórica baseada exclusivamente na Bíblia.

Spyer explica de forma didática o que é a teologia da prosperidade e como ela se articula à noção de meritocracia, em contraste com a ética protestante do trabalho presente nas igrejas históricas. Trata-se de uma chave fundamental para compreender tanto o discurso religioso quanto sua tradução política e econômica.

Considero uma leitura necessária para quem deseja compreender melhor o Brasil contemporâneo. Conhecer não significa concordar. O livro amplia o entendimento sobre um fenômeno central da nossa vida social e política, ainda que eu continue defendendo, sem ressalvas, o Estado laico e a liberdade religiosa para todos.


                         Juliano Spyer nasceu em São Paulo em 1971. É um antropólogo brasileiro. 


DA PERDA À LUTA POR JUSTIÇA


 

HEROÍNAS DESTA HISTÓRIA:  Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura

CARLA BORGESTATIANA MERLINO (ORGS.)

AUTÊNTICA – 1ª ED. – 2020

400 páginas.


São décadas de silêncio rompido, seja por autoproteção, pela necessidade de seguir em frente ou por uma política deliberada de esquecimento que encobriu os crimes da ditadura civil-militar brasileira. Um silêncio que não foi natural, mas construído, sustentado e imposto. É nesse terreno que se inscrevem as histórias reunidas em Heroínas desta História, um livro atravessado por relatos de mães, esposas e familiares que estiveram à frente da luta contra o regime militar.

São mulheres que perderam filhos, maridos, irmãs e irmãos; mulheres que sofreram, resistiram e enfrentaram o Estado em busca de notícias, de corpos, de respostas e, muitas vezes, do direito mínimo a uma certidão de óbito. Aqui, a dor não paralisa: ela se transforma em ação política. O luto converte-se em denúncia, e a ausência vira insistência. Essas mulheres recusaram o apagamento e fizeram da busca por seus familiares uma luta pública contra a violência de Estado.

Algumas dessas trajetórias tornaram-se mais conhecidas por não terem se calado, como Clarice Herzog, Eunice Paiva ou Zuzu Angel, esta última brutalmente silenciada pelo próprio regime. Outras tantas permanecem desconhecidas do grande público, o que torna sua escuta ainda mais urgente. São mulheres simples ou de classe média, com trajetórias distintas, mas unidas pelo fato de terem sido empurradas para o centro da história por uma violência que atravessou suas vidas privadas.

O livro mostra como essas mulheres se tornaram protagonistas de nossa história recente, ainda marcada por lacunas, negações e disputas de memória. Ao reunir esses relatos, Heroínas desta História não se limita a narrar o passado: afirma a memória como gesto político e como responsabilidade coletiva. Este não é apenas um livro para ser lido, mas para ser escutado. Ele nos apresenta algumas dessas mulheres — cabe a nós, agora, ouvi-las.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA DEUSA À MARGEM DO OLIMPO


 

CIRCE

Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens

MADELINE MILLER

PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020

368 páginas

Em Circe, Madeline Miller reconta a mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral ou punição divina. Aqui, Circe ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.

Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua diferença, no entanto, será justamente o que a salvará  e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela cruza um limite perigoso: preocupa Zeus e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida, recebe apenas visitas ocasionais de Hermes, que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.

O isolamento não a enfraquece, mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina, aqui aparece como resposta à violência, não como perversidade gratuita.

O mesmo acontece quando a tripulação de Odisseu chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a partida do herói.

Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil, violento, marcado por uma força que o excede. Atena deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.

Quando Telégono cresce, decide buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope e Telêmaco. A partir daí, a narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.

Não é possível falar do final sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é uma história sobre punição, mas sobre transformação. Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma vida própria.


Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1978. É uma escritora estadunidense. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PATRIARCADO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA


 

A CRIAÇÃO DO PATRIARCADO

História da opressão das mulheres pelos homens

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2020

490 páginas

A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner, é uma obra essencial para compreender a construção histórica da sociedade patriarcal que ainda influencia nossas vidas hoje. Lerner oferece uma análise profunda das relações de poder entre homens e mulheres, mostrando que o patriarcado não é um fenômeno natural, mas uma construção social e histórica.

A autora inicia explorando a situação das mulheres antes do surgimento do patriarcado, destacando como sociedades matriarcais ou mais igualitárias foram gradualmente substituídas por estruturas dominadas por homens. Em seguida, ela descreve o processo histórico que consolidou o patriarcado, mostrando como mudanças econômicas, políticas e religiosas criaram mecanismos de dominação que institucionalizaram a desigualdade de gênero. Lerner também examina as diferentes formas de patriarcado que emergiram em épocas e culturas diversas, evidenciando que a opressão das mulheres variou em intensidade e forma, mas esteve sempre presente como instrumento de manutenção do poder masculino.

Ao discutir as implicações do patriarcado na sociedade contemporânea, Lerner revela como a ideologia patriarcal continua a sustentar desigualdades e limitações impostas às mulheres. Uma das maiores contribuições do livro é a forma como desafia as noções tradicionais de história: a autora mostra que a história das mulheres e a história do patriarcado são inseparáveis e que compreender um implica necessariamente compreender o outro. Além disso, evidencia que o patriarcado não é inevitável, mas resultado de processos históricos específicos, reforçando a ideia de que a opressão feminina é construída e, portanto, passível de transformação.

A Criação do Patriarcado é, assim, não apenas um estudo histórico, mas também um convite à reflexão sobre as estruturas de poder que ainda moldam nossas sociedades e sobre a necessidade de questioná-las criticamente.


Gerda Lerner nasceu em Viena, na Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


ÉTICA, MORAL E RESPONSABILIDADE DO CRIADOR


 

FRANKENSTEIN: OU O PROMETEU MODERNO

MARY SHELLEY

ZAHAR - 2020

312 páginas

Fiquei profundamente impressionada com a história desse ser criado por um humano que se arroga o lugar de criador da vida. No entanto, não desejo abordar o livro por um viés religioso.

A obra nos conduz a uma questão antiga e sempre atual: a fronteira entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, permite uma leitura surpreendentemente contemporânea, sobretudo quando pensamos nas dinâmicas do mundo atual e nas redes sociais.

Victor Frankenstein deseja vencer a morte, mas também busca a glória pessoal, a perpetuação de seu nome por meio de uma criação inédita. Para isso, cria um ser humano e lhe dá vida. No instante em que sua obra se concretiza, ele foge, apavorado com o que fez, abandonando a criatura à própria sorte. Lançado ao mundo sem amparo, o ser criado precisa aprender sozinho a sobreviver.

Inicialmente, a criatura é boa e generosa. Ela deseja companhia, afeto, reconhecimento. No entanto, encontra apenas rejeição, medo e violência. Mesmo após salvar uma criança de um afogamento, é atacada e expulsa. A sucessão de recusas e agressões transforma sua dor em ressentimento e, depois, em desejo de vingança contra aquele que lhe deu a vida e se recusou a assumir qualquer responsabilidade por ela.

Enquanto isso, Victor retoma sua vida como se nada tivesse ocorrido. Para atingi-lo, a criatura passa a cometer crimes, e são inocentes que pagam o preço. A questão central do livro é, portanto, ética e moral: qual é a responsabilidade de quem cria? Até que ponto o criador pode se eximir das consequências de sua obra?

Mary Shelley constrói uma relação de dependência e escravidão entre criador e criatura. Ao trazer essa reflexão para o presente, é inevitável pensar na nossa própria escravidão às tecnologias e às redes sociais — criações humanas que escaparam ao controle e passaram a moldar comportamentos, afetos e violências. Frankenstein continua atual justamente porque nos obriga a perguntar não apenas o que criamos, mas o que fazemos com aquilo que criamos.


Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797 e faleceu na mesma localidade em 1851. Foi uma escritora britânica. 


COLONIALISMO E IMPERIALISMO SEM SUBTERFÚGIOS


 

DISCURSO SOBRE O COLONIALISMO

AIMÉ CÉSAIRE

VENETA – 1ª ED. – 2020

136 páginas

Discurso sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire, é um livro pequeno, mas de força explosiva, que denuncia sem rodeios a essência do colonialismo e, por extensão, do imperialismo. Césaire desmonta por completo a narrativa de que o colonialismo teria como objetivo levar a “civilização” aos chamados povos “bárbaros” ou “selvagens”, mostrando que tal justificativa nunca refletiu a realidade, exceto em alguns casos de missionários com agendas catequéticas.

O discurso evidencia o caráter nefasto do colonialismo, a imposição de uma visão ocidental e eurocêntrica a povos com culturas próprias, e a exploração brutal que foi perpetrada, incluindo a conquista portuguesa sobre os povos originários do Brasil. O autor também denuncia a escravização de africanos e africanas, arrancados de suas famílias e comunidades para suprir a demanda de mão de obra explorada em colônias distantes.

Além disso, Césaire amplia a análise ao incluir o imperialismo dos Estados Unidos, demonstrando seu envolvimento na América Central e Latina, o apoio a ditadores e o trabalho forçado, aspectos ainda pouco conhecidos por muitos. O autor mostra como o colonialismo e o imperialismo desumanizam, destroem e deixam legados duradouros, evidenciando que o fascismo moderno é, em muitos sentidos, filho dessas práticas históricas.

Discurso sobre o Colonialismo é uma leitura impactante, que nos obriga a refletir sobre a persistência de estruturas de dominação, exploração e preconceito, e sobre como a herança colonial molda injustiças que ainda atravessam o mundo contemporâneo.


Aimé Césaire nasceu em Basse-Pointe, Martinica, em 1913 e faleceu em Fort-de-France, Martinica, em 2008. Foi um poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude


sábado, 14 de fevereiro de 2026

DA FILOSOFIA AO ROMANCE GÓTICO: HERANÇAS FEMININAS SILENCIADAS

 


MULHERES EXTRAORDINÁRIAS: AS CRIADORAS E A CRIATURA

Mary Wollstonecraft & Mary Shelley

CHARLOTE GORDON

DARKSIDE BOOKS – 1ª ED. 2020

624 páginas 

Esta biografia propõe uma construção narrativa particularmente feliz: a vida de Mary Wollstonecraft e de Mary Shelley é apresentada em capítulos alternados. Esse recurso permite ao leitor perceber, com clareza e sensibilidade, a continuidade intelectual e ética entre mãe e filha — mesmo que Shelley jamais tenha conhecido Wollstonecraft, morta pouco após seu nascimento.

Mary Wollstonecraft foi uma pensadora radical para seu tempo. Defendeu os direitos das mulheres, sobretudo o direito à educação, algo praticamente impensável no final do século XVIII. Filósofa, escritora e intelectual pública, escreveu sobre educação, política e sociedade, questionando frontalmente a ordem patriarcal. Ainda assim, permanece à margem dos currículos de Filosofia até hoje, como se seu pensamento fosse um apêndice moral, e não filosofia propriamente dita.

Mary Shelley, por sua vez, viveu segundo seus próprios desejos, enfrentando as convenções sociais de forma direta. Fugiu aos 16 anos com o poeta Percy Shelley, escandalizando a sociedade da época. Sua vida foi marcada por perdas, dificuldades materiais, luto e isolamento — experiências que atravessam profundamente sua escrita.

O legado literário de Shelley é frequentemente reduzido a uma única obra. Frankenstein, seu livro mais conhecido, foi duramente criticado quando publicado, não apenas pelo conteúdo perturbador, mas por ter sido escrito por uma mulher. A “criatura” foi considerada monstruosa demais para ter nascido de mãos femininas, julgamento que diz mais sobre a sociedade do que sobre a obra.

Ao acompanhar essas duas trajetórias, o livro evidencia como mulheres que ousavam pensar, escrever e viver fora das normas eram punidas: pela família, pela sociedade e pelas instituições. A recusa às convenções significava, muitas vezes, exclusão, difamação e solidão. Ainda assim, tanto Wollstonecraft quanto Shelley persistiram, cada uma à sua maneira, abrindo caminhos que só muito mais tarde seriam reconhecidos.

Mulheres Extraordinárias é uma leitura que vale cada página. Mais do que uma biografia dupla, o livro constrói uma genealogia feminina do pensamento e da criação, mostrando o quanto as mulheres foram historicamente cerceadas e, apesar disso, produziram obras que atravessaram os séculos. É também um convite a repensar quem chamamos de “criadores” da cultura e quantas criadoras foram silenciadas nesse processo.


Charlote Gordon nasceu em St. Louis, Missouri, EUA. É uma escritora e professora de humanidades. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020

304 páginas 

Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



UMA RAINHA FORA DA SOMBRA DO FARAÓ

 

NEFERTITI – SACERDOTISA, DEUSA E FARAÓ

ANNA CRISTINA FERREIRA DE SOUZA

MADRAS – 1ª ED. - 2020

160 páginas 

Neste livro, Anna Cristina Ferreira de Souza analisa a figura de Nefertiti a partir da arte do período de Amarna. A autora aborda a XVIII dinastia e seus reinados, mas, para mim, o aspecto mais relevante da obra é a maneira como ela trabalha a religião egípcia, contribuindo para a compreensão de conceitos fundamentais como o monismo, a complementaridade e os princípios associados ao feminino naquele contexto: fertilidade, maternidade e maturidade.

O livro discute também, ainda que de forma breve, a diferença entre monoteísmo e monolatria — distinção que considero especialmente importante. É comum ouvir que Akhenaton e Nefertiti teriam instaurado o primeiro monoteísmo da história, o que não é correto. O monoteísmo pressupõe a existência de um único Deus, enquanto, no Egito, o culto a Aton se configura como monolatria: a centralidade de um deus principal, sem a negação da existência de outros, como Ísis e Osíris. Essa diferenciação, muitas vezes ignorada, é um dos pontos mais esclarecedores do livro.

Após uma introdução extremamente instigante, que contextualiza esses elementos religiosos e simbólicos, a autora se volta diretamente para Nefertiti, com ênfase em sua função social e política. A rainha não aparece como figura secundária ou decorativa, mas como uma presença ativa no poder, visível nas representações artísticas e nas práticas do período.

Nefertiti não esteve à sombra do faraó. Ao contrário, surge como parte de uma lógica de complementaridade entre o masculino e o feminino, característica da cosmovisão egípcia, e como expressão de um modelo de poder que não se organizava exclusivamente pela hierarquia e pela exclusão. Nesse sentido, o livro contribui para deslocar leituras tradicionais e recolocar Nefertiti no lugar que lhe foi historicamente negado: o de protagonista.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

DA LUTA SOCIAL À FRAGMENTAÇÃO IDENTITÁRIA

 


O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES

As desigualdades agora se diversificam e se individualizam, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

FRANÇOIS DUBET

VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020

128 páginas 

Tenho estudado a questão das políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social, sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.

Hoje, assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam, agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas, proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o debate público ou a construção do comum.

É nesse contexto que O tempo das paixões tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas, trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de desigualdade.

Entre todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?

O autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha exclusivamente em si mesmo.

Como chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões que sigo tentando compreender.


François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo e filósofo.