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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

ENTRE O “ELA” E O “NÓS”: A VIDA EM TEMPOS COMPARTILHADOS

 


OS ANOS

ANNIE ERNAUX

FÓSFORO – 1ª ED. – 2021

224 páginas 

Confesso que nas primeiras páginas a leitura se arrastou um pouco — mas isso é breve, e logo o livro nos prende. Annie Ernaux apresenta um relato autobiográfico singular: sem recorrer ao “eu”, ela narra sua vida através do “ela” e do “nós”. Como ela mesma explica, “não se trata de um trabalho de rememoração (...). Ela só vai olhar para si própria buscando encontrar o mundo, a memória e o imaginário dos dias passados”.

O relato se inicia nos anos 1940 e avança até os anos 2000, acompanhando acontecimentos marcantes do mundo e, ao mesmo tempo, a vida cotidiana da autora enquanto mulher inserida nesse contexto. É um retrato profundo da sociedade francesa, de suas atitudes, pensamentos e transformações, apresentado com uma franqueza rara.

Mas Os Anos é também a história de uma mulher comum, cuja vida se entrelaça com a grande História. Ernaux constrói uma ponte entre o pessoal e o coletivo, mostrando como a experiência individual reflete, espelha e é moldada pelo tempo e pelas transformações sociais. A autora consegue assim revelar a memória de uma época sem se colocar como protagonista isolada, tornando seu relato ao mesmo tempo íntimo e universal.

O livro é, portanto, mais do que uma autobiografia: é uma crônica da memória coletiva, um olhar atento sobre os gestos, hábitos, medos e esperanças de gerações inteiras.


Annie Ernaux nasceu em Lillebonne, França, em 1940. É uma escritora. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

A LITERATURA QUE SE ESCREVE SOBRE SI MESMA

 


A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS

MOHAMED MBOUGAR SARR

FÓSFORO – 1ª ED.  2023

400 páginas 

Magistral! Há muito tempo não lia algo tão rico, um livro que celebra a própria literatura em cada página. Mohamed Mbougar Sarr cria uma narrativa que é, simultaneamente, investigação, reflexão e homenagem à escrita. Tudo começa com a busca de um autor desaparecido, cujo livro, celebrado na França, passou a ser acusado de plágio. E é nesse jogo de autoria, reconhecimento e intertextualidade que Sarr opera com incrível precisão: há trechos que evocam outros autores, seja propositalmente, seja como gesto literário de diálogo com a tradição.

O romance dialoga com múltiplos registros: pode-se notar elementos de realismo mágico, embora seja complicado reduzir a experiência africana a esse rótulo, dada a riqueza de mitos, superstições, adivinhos e visões que atravessam o continente. Há cenas memoráveis, como a de um Cristo pintado na parede, que funcionam como símbolos de presença e ausência, fé e memória. Outro recurso notável é o uso de biografemas, termo proposto por Roland Barthes: informações que os personagens desconhecem, mas que o leitor recebe, permitindo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos e uma experiência de leitura quase de cumplicidade com o autor. É como se pudéssemos sussurrar aos personagens o que eles não sabem, completando a narrativa por fora da consciência deles.

A história se encadeia aos poucos, entre França, Argentina, África e Holanda, na busca pelo autor desaparecido. Essa travessia geográfica e temporal não é apenas física: ela toca as tragédias do colonialismo, do holocausto, e das violências que moldam a memória coletiva. A narrativa constrói, passo a passo, um mosaico literário e histórico que exige do leitor atenção e entrega, mas recompensa com uma experiência literária intensa e múltipla.

No fim, A mais recôndita memória dos homens é mais que um romance: é uma ode à literatura, à escrita, à memória e ao diálogo entre passado e presente, entre autores e leitores, entre culturas e histórias que insistem em atravessar o tempo.



Mohamed Mbougar Sarr nasceu no Senegal em 1990 e vive na França. Recebeu o prêmio Goncourt pela A Mais Recôndita Memória dos Homens.