Mostrando postagens com marcador Violências contra a Mulher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Violências contra a Mulher. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan. 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

O ASSASSINATO DE MARIELLE E ANDERSON


 

MATARAM MARIELLE: COMO O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES ESCANCAROU O SUBMUNDO DO CRIME CARIOCA

CHICO OTAVIO – VERA ARAÚJO

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2020

208 páginas

O livro relata a investigação sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nesse ponto, não acrescenta muito ao que já sabemos, pois a narrativa vai apenas até o estágio em que a investigação se encontrava no momento da publicação, ainda sem revelar quem mandou matar. No entanto, mostra as dificuldades enfrentadas e os erros cometidos ao longo do processo investigativo. Por outro lado, o livro traz um panorama importante do que é o Rio de Janeiro no contexto das milícias e do domínio que essas organizações exercem sobre determinadas áreas da cidade.  

Sobre a vida de Marielle, o livro apresenta poucas informações, mas o suficiente para revelar a mulher de coragem e determinação que ela foi.

Em 2026 o STF condenou os irmãos Domingos (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (Deputado Federal) a 76 anos de prisão por serem os mandantes e planejarem o crime.


Chico Otavio nasceu em 1962. É jornalista e professor.

Vera Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1965. É jornalista. 


 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NOS LARES CRISTÃOS


 

O GRITO DE EVA

A violência doméstica em lares cristãos

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021

178 páginas


O grito de Eva, de Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência doméstica.

Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles. A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como princípio válido para outros tempos.

A autora lembra que, no período em que muitos textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras literalistas.

Um ponto especialmente instigante é a reflexão sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam seletivamente para reforçar a culpa feminina.

Em relação à submissão, o livro oferece uma explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral, enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima violências que nada têm de sagradas.

O grito de Eva é, acima de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida plena,  e tomar uma atitude diante da violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário, reafirmar o valor da própria vida.

                   Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

MAQUIAVEL E A POLÍTICA FEMININA


 

PRINCESAS DE MAQUIAVEL – POR MAIS MULHERES NA POLÍTICA

JULIANA FRATINI (ORG.)

MATRIX EDITORA – 1ª ED. – 2021

208 páginas

Princesas de Maquiavel, organizado por Juliana Fratini, inicia-se com uma analogia ao clássico O Príncipe, de Maquiavel, escrito para um príncipe homem, transportando suas reflexões para o universo feminino e político, daí o título.

O livro reúne depoimentos de mulheres na política que relatam as dificuldades enfrentadas, incluindo o machismo e a violência política direcionada a elas. Também abordam iniciativas voltadas para aumentar a participação feminina, destacando a solidariedade e a sororidade entre mulheres na política. Além disso, a obra evidencia conquistas concretas dessas mulheres, como leis aprovadas, projetos implementados e outras realizações que transformam o cenário político.

Princesas de Maquiavel é uma leitura instigante que combina reflexão teórica, experiência prática e inspiração, mostrando a força, a determinação e a importância da presença feminina na política contemporânea.


Juliana Fratini é uma cientista política brasileira.


FEMINICÍDIO E CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

 

MULHERES EMPILHADAS

PATRÍCIA MELO

LEYA - 2019

240 páginas

Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a naturalização da brutalidade.

A narrativa acompanha uma jovem advogada que deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio. O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.

Paralelamente, o livro incorpora um mito indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado, ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo que tende a se agravar.

O romance intercala a ficção com notícias reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler, não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste em se repetir.


Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O DESFECHO TRÁGICO: FEMINICÍDIO PREMEDITADO


 

PIMENTA NEVES: UMA REPORTAGEM

LUIZ OCTAVIO DE LIMA

INDEPENDENTLY PUBLISHED – 2013

295 páginas

Pimenta Neves: Uma Reportagem, de Luiz Octavio de Lima, relata o caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide por Pimenta Neves, buscando compreender as motivações e circunstâncias que levaram a esse crime. O autor traça a trajetória de ambos desde a infância, passando pelas carreiras e pelo encontro que culminou na relação entre os dois.

O livro evidencia que Pimenta Neves apresentava problemas emocionais e psíquicos, refletidos em suas relações amorosas e profissionais, incluindo casos de estupro, assédio moral e sexual, e uma postura de onipotência sobre funcionários e colaboradores. Seu comportamento abusivo evoluía gradualmente, aumentando a gravidade das situações. Por outro lado, Sandra, em alguns momentos, assumia uma postura de autoridade nos ambientes de trabalho, aproveitando-se da proteção e influência que Pimenta exercia, mas isso jamais justifica o desfecho trágico.

Quando Sandra decide se afastar, Neves reage de maneira extrema, entrando em desespero, enquanto aqueles ao redor percebem sinais claros de perigo. Apesar de algumas tentativas isoladas de intervenção, medidas mais efetivas que poderiam ter evitado o assassinato não foram tomadas. Ele a mata com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça.

O livro também analisa o processo judicial, os recursos que possibilitaram sua liberdade provisória e os impactos sobre a família da vítima. Mais uma vez, o feminicídio não recebeu a devida justiça, especialmente considerando o prestígio e a condição financeira do acusado. O assassinato não foi um ato passional impulsivo: foi premeditado, planejado e executado, ainda que se reconheça seu estado emocional instável.

A obra expõe a gravidade do feminicídio e a falha das instituições em proteger mulheres, oferecendo reflexão crítica sobre poder, violência e impunidade.


Luiz Octavio de Lima era um jornalista brasileiro que faleceu em São Paulo, em 2020.